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Nenhures

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Ao que parece a notícia não é especulativa, foi isto real: na Moamba (cerca de Maputo, para quem desconhece) sete homens foram linchados, acabando enterrados vivos.
 
E regressa-me a memória, de há duas décadas. Um fim da tarde já escuro, o trânsito atravancado na Guerra Popular, em modo de linchamento uma exultante turba espanca um desgraçado pequeno meliante, que ali resta já mudo. Saio do volante para intervir e logo estanco, descorçoado entre-carros, digo-me em surdina "sai daqui, Zé!", atemorizado. E não tenho, nem virei a ter, um qualquer deus que me perdoe tamanha cobardia. Apenas a amnésia me vale, agora interrompida...
 
Adenda: segundo me informam o tétrico acontecimento não aconteceu na Moamba - como depreendi da breve notícia da Lusa, apesar do erro ortográfico da toponímia nela apresentada - mas no posto administrativo de Maluana, no distrito da Manhiça, também sito na província de Maputo.

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(José Craveirinha, retratado por Sérgio Santimano)

Hoje é o centenário do nascimento de José Craveirinha. Falta-me verve para botar o que gostaria de dizer sobre o que ele escreveu. E as minhas estantes estão para além do Tejo, faltam-me os livros dele, os meus vincos e sublinhados. Sabendo-o ainda por cima poeta "engendrador da nação", na complexidade do que isso é, bem para além do panfletário, muito mais para além.
 
Mas deixo este pequeno excerto de um poema (Hino à Minha Terra) escrito no ano em que eu nasci e no qual diz "“O sangue dos nomes / é o sangue dos homens / Suga-o também se és capaz / tu que não os amas” (...) “todos os nomes que eu amo belos na língua ronga / macua, suaíli, changana, / xitsua, e bitonga” - e talvez os meus amigos possam perceber a minha imensa (recente) irritação com os da "cultura" e das "boas causas" que falam em "dialectos bantu".
 
Mas de facto nem era disso que eu quereria escrever, cá de longe no espaço e no tempo: era mesmo sobre a memória da minha primeira visita à Mafalala, eu espantado (e guloso) com aquele museu de arte moçambicana e a passarmos horas a falar de... futebol e atletismo, naquela então ainda sua mágoa com a emigração da grande Mutola; ou de o encontrar numa manhã no Desportivo e da magnífica conversa sobre a história do desporto em Moçambique, a que se juntou - por feliz acaso - o meu tão querido José Luís Cabaço. Ou a apresentação do "Babalaze das Hienas", após o qual se seguiu uma romaria à sua casa na Mafalala (uma tradição naqueles momentos, afiançaram-me, devido à minha enorme relutância em ir onde não fora convidado), num grupo onde estava o Nelson, a Cesaltina Pinto, e outros, tudo capitaneado pelo Eduardo White, sendo que o Dino levava também o megafone. E o Zé Craveirinha não nos abriu a porta, sem paciência para os jovens barulhentos... E um fim de dia, após ter ele sido condecorado pelo nosso PR Sampaio, em que ficámos os dois sozinhos, ali na Nyerere, ele falando de Aljezur, dos Craveirinhas de lá (que visitara já após a honraria do prémio Camões) e que de facto foi uma hora de loquaz amor filial, lembrando seu pai - algo cuja intensidade só terei percebido anos depois, quando o meu pai também passou a memória. Ou tantos outros detalhes, pequenas maledicências, pensamentos avulsos, num (juro) "você é um gajo porreiro, por isso lhe digo...".
 

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Deixo aqui uma memória, que me é muito cara: quando o Craveirinha fez 77 anos organizei-lhe uma festa (institucional) de aniversário. Ele gostou (até porque naquela época, convulsa, ainda lhe não abundavam as homenagens, algo que pouco depois felizmente começou a ocorrer). Noto agora com prazer saudoso que atrás, nas paredes, estava Shikhani, o meu mais preferido das artes moçambicanas. Foi um belo dia.
 
Para quem tiver interesse deixo ligações para alguns dos postais de blog que ao longo dos anos fui colocando a propósito de Craveirinha:
 
A actualidade de José Craveirinha: (também) sobre o turismo.
 
 
Saborosas Tanjarinas d' Inhambane: o sempre actual poema.
 
Craveirinha e Knopfli: a propósito de um livro do qual tenho o orgulho de ter induzido a edição: "Contacto e Outras Crónicas" de Craveirinha/"A Seca e Outros Textos" de Rui Knopfli, uma antologia organizada pelo excelente António Sopa
 
O Albino e o Hóspede: crónica de uma homenagem que lhe foi feita após a sua morte.
 
Alugam-se Quartos: sobre a especulação.

Craveirinha Póstumo: aquando da publicação do seu primeiro livro póstumo.
 
No Xigubo: um excerto do "África".
 
Adenda: a RTP transmitiu um adequado comentário aquando do centenário do nascimento de José Craveirinha. Está aqui disponível. Tem um formato algo institucional - e poderia ter sido editado, expurgado de algumas, poucas, redundâncias - mas é bastante interessante.

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Cheap Trick - I Want You to Want Me (from Budokan!) [Official Video]

A idade é isto, a tendência para resmungar com o que se passa, na desesperança de "isto ir lá", ainda que não saibamos bem para onde, e nisso a perdermos todo o resto. Dito isto, aporto hoje a meio da tarde na "Miradouro", meu local de refúgio quando a Sul do Tejo. Encosto ao pequeno balcão - belíssima imperial, vera "tulipa", face à capitosa oferta do pires do amendoim agregado ao pires do tremoço, essa mescla "comme il faut", e hoje ainda o cúmulo do pires de caracóis, e estes também marcham "malgré moi-même", que em Roma sê romano, única coisa de antropologia de que ainda me lembro, decerto por a ter aprendido bem antes da universidade, em casa-própria (que chega de galicismos). E estou eu ali a atrapalhar os destroços à que chamo dentadura, essa minha "ucrânia", e no rádio toca esta "I want you to want me". Rio-me alto, "o que foi?" perguntam-me detrás do balcão, onde mora um tipo porreiro, "é esta música" desculpo-me, sem lhe dizer o quão omipresente ela foi num antes longínquo, mesmo que rockezito piroso ou talvez mesmo por causa disso... "É dos tempos!" diz-me o mais novo... E mais me rio, na breve memória das festinhas liceais dos finais de 70s. E concluo, neste agora só para mim, que a vida veio a ter menos "charme" (afinal, mais um galicismo) do que imaginei. Mas não seja por isso, sorvo mais um caracol e beberico a bela imperial. E trauteio, juvenilizado, "i want you etc..."

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(Postal no meu mural do Facebook)

Leio por aqui que Zyuganov, secretário-geral do PC russo, terá dito que os ucranianos já são piores do que a Alemanha hitleriana (ou coisa parecida): e encontro um renomado historiador comunista louvando-o. Leio por aqui que Silva, candidato presidencial brasileiro, terá dito que Zelensky e Putin têm iguais responsabilidades na guerra: e encontro um activo opinador "um pouco à direita", que passou anos a causticar PT's e similares, a louvá-lo. Leio por aqui que as tropas russas (re)erguem estátuas de Lenine nas povoações ucranianas que ocupam: e dou de caras com um extremo-conservador, um "miguelista" direi eu, a louvar tais tarefas. Escrevo aqui que vim a Lisboa, ao dentista, a ver da minha "Ucrânia": as notícias não são louváveis

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