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Nenhures

Nenhures

Portugal às Avessas

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(Fotografia de Pedro Sá da Bandeira)

Blogo desde 2003. Até 2014 escrevi principalmente sobre Moçambique, país onde vivia. Dessa verdadeira mania de perorar resultou uma enorme quantidade de textos, irresponsáveis pois sem objectivos, agendas ou causas que não fosse a minha vontade palradora. A alguns desses ainda lhes encontro sentido. Desses fiz já cinco colecções.*

Agora acabei outra, esta "Portugal às Avessas". São 42 postais do blog ma-schamba, escritos entre 2004 e 2014. Neles fui deixando o meu crescente desconforto diante do que desde lá longe ia assistindo em Portugal. Pois emigrado num país com tantas dificuldades, e no qual o debate desenvolvimentista me era constante – pessoal e profissionalmente -, o que reforçava o espanto, que se foi fazendo ira até à desesperança, face ao desvario do rumo português e ao paupérrimo debate nacional durante o pérfido período socratista e a crise financeira subsequente.

Quem tiver interesse e paciência só precisa de "clicar" no título das colecções, colocadas na minha conta da rede Academia.edu, e gravar os documentos pdf.

* 1) Ao Balcão da Cantina (crónicas sobre vivências e viagens em Moçambique);

2) A Oeste do Canal (textos sobre temas culturais moçambicanos);

3) Torna-Viagem (memórias);

4) Um Imigrante Português em Moçambique (sobre as experiências daquele quotidiano);

5) Leituras Sem Consequências (sobre livros e artistas, na sua maioria moçambicanos).

6) Portugal às Avessas.

A esplanada

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Ao Postigo (2):
 
Ainda que algo decadente, devido a recente mudança de proprietários e também dado o acentuado envelhecimento da clientela, esta é a "minha" esplanada lisboeta. Tem uma boa "imperial". E um bom ambiente: gente educada e gentil no serviço (uma tradição de décadas que une as quatro gerências que lhe conheci). E onde encontro amigos e (ex-)vizinhos que vêm da primária, do liceu, da adolescência. E também da juventude adulta. E até, imagine-se, feitos nesta era cinquentenária. Ali se fala de tudo: de trabalho, do ânimo - nosso e dos outros-, de política, de futebol, da saúde própria e alheia, do rame-rame, dos nossos queridos, de gastronomia e culinária, de livros, das memórias e até ainda dos anseios, e (hélas, já não) de mulheres. E durante tudo isso bebe-se...
 
Porque hoje reabriram as esplanadas vejo neste rossio facebook vários desvalorizando o nosso afã convivencial. Aos que aqui assim leio sei-os afectos a esse constante cerzir da pobre manta de retalhos que associa "direita" a "enfado" com o povoléu, o eunuco blaseísmo "lisboeta". Lembro então que George Steiner, que não era "marxista cultural", definiu a "Europa" como um espaço onde há ... cafés.
 
Por isso, porque sou europeu - e, matizadamente, europeísta - hoje ao fim da tarde, cruzado o Tejo irei até ao "Arcadas". Para uma ou outra imperial. E, talvez, uma abaladiça em formato uísque. Espero que estejas lá.

Fim da vaga

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Ao Postigo (1)
 
Finda a quarentena filial e a clausura concelhia deixaremos hoje esta enseada atlântica, norteando-nos rumo às cercanias das águas do Trancão...
 
Desde os tempos universitários que aqui não pernoitava. Velho vou mas então a vilória já não era este pitoresco feito da miséria da faina a remos e da "natureza" amanhada a enxada. Noto agora que se veio a tornar viçoso bairro social, de kebabarias e pizarias, alumínios e marquises. Antes assim!, direi realista. Porquê assim?, respondo crente, neste meu diálogo de hoje, vendo chegar a neblina matinal, enregelando a até entusiástica reabertura da esplanada fronteira ao mar, nisto da bica ainda obtida ao postigo mais o jornal "Record" para me legitimar o assento.
 
Agora? Camioneta rumo à urbe. Pois nova era, fim de vaga. E cinquentão decidido a recomeçar vida, que mo permita o Covid! Que nos permita o Covid!

A gata Flávia

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(15.3) A Flávia terá cerca de 6 meses e não será silvestre, pois é nada arisca, mas chegou aqui algo errante. No 13.3, aniversário do meu confinamento. E logo se aboletou. Vai ter que partir pois na vizinhança há sete monstros com consabidas tendências felicidas. 
 
Velho céptico que vou não quero ser brejeiro, mas já há muito que não acordava com alguém aninhado em mim, até ronronando (se é que alguma vez...). Não é uma paixão - que a minha idade já não é para essas coisas. Mas está a ser um belo flirt de inverno tardio. Espero que encontre um bom lar, com uma boa biblioteca e gente jovem e de boas maneiras.
 
(19.3) Chegou e insinuou-se, a Flávia, dengosa ronronante, uma toda semana abandonando-se horas a fio, credora dos seus mimos, até olhos nos olhos como se almas gémeas, enfim sós, mascarando-se qual light of my live, fire of my loins, e durante isso, distraído estive, pavoneou-se naquele Tinder FB,
 
e logo, nem dias depois, surgiram vizinhos, insinuantes, como só solidários, amáveis, uma bela moça, mesmo muito notei-o, que logo lhe sussurrou, "deixou-te com parasitas", como se fossem esses importantes neste nós que ia sendo mas ela escutou-a e às promessas de vida boa que isso trazia, e mais ainda ao pérfido "estás doentita, cuidaremos de ti", e por isso logo ronronando saltou para o colo dele, Quilty melífluo, óbvio kittenizer, repetindo, só para ele, requebros e trinados que antes me oferecera,
 
veio depois até mim, como se mostrando piedade, e nem miou, apenas melíflua, fica-te por este tugúrio, húmido e escasso, e logo seguiu, oferecida. Velhaca ainda se virou, "depois telefono-te a dar notícias" e eu que nem nada disso, que fosse ela à vida, que me interessa agora. É só uma gata, foi só uma gata.
 
Um mau vodka, este, que nem arde no gorgomilo.

O centenário do PCP

 

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O meu pai foi militante comunista até morrer, inabalável nisso. Há nove anos, na cama do hospital, a última coisa que nos disse foi uma resposta a uma das minhas sobrinhas, que ele adorava. Ela, carinhosa, quis animá-lo num "avô, hoje estás com melhor aspecto, mais rosadinho". E ele, ali tão pequeno de mirrado, quase translúcido, murmurou a sua última ironia: "rosa por fora mas vermelho por dentro". Morreu horas depois.
 
Cresci a discutir política com ele. Um dia, ainda na minha adolescência, o debate terá aquecido em demasia. Logo a minha avó materna - que tinha memória adolescente do 6 de Outubro de 1910 em Bragança, e que detestava Mário Soares pois considerava-o igualzinho a Afonso Costa, recordo-o para a enquadrar ideologicamente - chamou-me de parte para me dizer "Zé, o teu pai é comunista. Mas é muito bom homem". E tinha ela toda a razão. De facto, o camarada Pimentel foi um bom homem. Tanto que um dia, bem mais tarde, lhe perguntei porque tinha ele chegado até ali: "Esqueces-te que cresci na guerra de Espanha! E depois veio a segunda guerra mundial", na qual a URSS foi determinante e Estaline "pai dos povos" foi símbolo. Mas mais do que isso, mais do que o crescer, foi o viver depois décadas no medíocre e tétrico Portugal salazarento. Vi-o chorar apenas uma vez na vida: no 25 de Abril. Só aos 51 anos se viu livre daquela abjecção! E se me irrito eu, e de que maneira, com estes Sócrates e seus bajuladores - dos Galambas do Jugular aos Fernandes da "Super-Marta" de agora mesmo - bem que posso imaginar o desesperante daquela época, tão pior que era.
 
Mas sobre os comunistas há algo mais do que esta compreensão contextual, tornada simpatia, alargando-a do meu pai até aos seus correligionários contemporâneos. E nisso também podendo entender a adesão comunista entre operários rurais e urbanos explorados de modo indecoroso no Portugal dos Pequenitos CUF, Champallimaud e belas herdades - e continuo a pensar que o episódio mais belo do pós-25 de Abril foi quando comeram o cavalo de João Núncio, uma equideofagia ritual bem apropriada ao fim de uma malvada era.
 
Pois o relevante é que essas gerações de comunistas acreditavam mesmo na bondade da URSS e seus aliados (protectorados, de facto), assumindo-a irrefutável. Até um homem viajado e lido como o meu pai cria, genuinamente, que as críticas e denúncias daqueles regimes eram mera propaganda americana. No caso dele, um verdadeiro "ortodoxo" como então se dizia, não era falta de informação: bem antes de 1974 estudara e viajava no estrangeiro, de onde vinha com revistas e livros - para a minha formação foi interessante crescer entre estantes com os Basil Davidson, Mondlane, Cabral, etc. em livros de bolso ingleses, e é um carinho tê-los herdado. E também Marx, Engels, Lenine e o resto do panteão - agora encaixados em segundas filas atrás das canónicas "Obras Escolhidas" da Avante -, até mesmo Mao, a maioria em versões francesas, bem como os (algo dúbios) franceses, desde o primeiro Garaudy e tantos outros até já Hue. Mas sempre notei que, ainda que bem vasculhadas essas prateleiras, nada ali estava do que desde há décadas na Europa Ocidental se ia desvendando do terror comunista.
 
Depois do 25 de Abril nenhuma dúvida sobre a justeza comunista era aceite, tudo isso era convictamente reduzido a manobras do capitalismo. Portugueses antigos militantes como Silva Marques, Chico da CUF, Cândida Ventura eram ditos traidores, "comprados". E, com óbvias diferenças, também grassava o desconforto com gente como Berlinguer e Carrillo, e até mesmo com Marchais. Internamente também assim era, sopro de suspeição de mero "eurocomunismo" que fosse em qualquer "camarada ou amigo" era razão para imediata desconfiança. E já bem dentro dos anos 1980s era muito mal visto que algum comunista escrevesse na "imprensa burguesa" - mesmo que fosse para apresentar as posições oficiais do PCP de Cunhal. A URSS era o bem, o caminho correcto, o socialismo virtuoso - pois bondoso mas, acima de tudo, com as potencialidades (aquilo da "aretê") devidas à construção do comunismo. O socialismo era já uma realidade histórica benéfica e o comunismo, a tal "sociedade de lazer" - concepção pouco apelativa para o meu pai, frugal e industrialista que era, e que a remetia para uma mera retórica "filosófica" do teórico - viria como normal continuidade do rumo soviético. O XX Congresso apenas enunciara desmandos causados pelos efeitos internos das agressões imperialistas, na Guerra Civil pós-1918 e na II Guerra Mundial. Dores de parto, por assim dizer. E tudo isso era realçado através de inúmeras publicações, desde a patusca (e deliciosa, afianço) "Vida Soviética" - assinada por deveres de militância mas que lá em casa só eu é que (entre)lia, para recortes iconoclastas -, até aos livros de intelectuais "do partido", Urbano Rodrigues, Tavares Rodrigues, Alexandre Babo (nomeio-os de memória, pois longe das estantes), etc. que narravam, em reportagens e livros, os esplendores do mundo socialista. Nisso denunciando as mentiras da "Voice of America" e quejandos.
 
Com o descalabro da URSS vingou, em particular nas páginas do "Diário" da "verdade a que temos direito", a peculiar teoria explicativa daquele processo, a dos "erros e desvios". E nisso nenhuma autocrítica sistémica nem, muito menos, sombra de dúvida sobre a correcção do ideário. Nessa altura, já adulto e com o "meu Marx", resmungava-lhe que convocar "erros e desvios" não era uma leitura marxista do processo histórico. Mas pouco interessou isso. Foi uma estrondosa derrota histórica, e alguma coisa tinha que ser dita às "massas" para explicar o acontecido. E restou a crença num reinício a breve prazo, algo muito segurado pela espantosa robustez da personalidade de Cunhal. 

Nas duas décadas seguintes decerto que houve alguma reconfiguração do PCP, e também dos seus imãs simbólicos. Mas isso pouco acompanhei. Nem em leituras. E as conversas com o meu pai foram muito mudando de temas, dada a vida, a minha emigração, e as tantas coisas que iam acontecendo. Mas também o não querer eu "mexer na ferida". Mas nunca o ouvi, nem disso registo bibliográfico restou em casa, professar qualquer apagamento da cisão advinda do velho conflito sino-soviético. Como tal algo me surpreendi quando, já neste milénio, lá de Moçambique ia percebendo a junção da retórica do "Partido" aos interesses chineses. Quando o Dalai Lama veio a Portugal o PCP botou um texto violentíssimo, com uma verve qual anos 1930s ou similar, nisso sufragando a ocupação colonial do Tibete. Foi o último texto do velho dirigente Aboim Inglez, que morreria pouco depois. Eu viria a resmungar com o meu pai sobre isso e ele encolheu os ombros, num indito "é o que nos resta", mas não secundou a vil arenga. E quando o então jovem Bernardino Soares meteu os pés pelas mãos por causa da Coreia do Norte, nem sequer me respondeu ao remoque. A adesão, por algo distante que pareça, do PCP às ditaduras orientais - avatares modernos do velho "modo de produção asiático", atirava-lhe eu há 30 e tal anos - era-lhe desconfortável. Intelectualmente desconfortável. Mesmo para um "ortodoxo", pois nunca o deixou de ser.
 
O meu pai morreu. O PCP continuou no mesmo rumo simbólico e ideológico. Em 2014 votou contra uma condenação dos crimes do inenarrável regime norte-coreano. Em 2019 o seu secretário-geral tornou a negar uma denúncia da Coreia do Norte, explicitando a sua diferente concepção do que é "democracia" - em termos que seriam escandalosos se tudo aquilo não tivesse decorrido no medíocre, de culturalmente atávico, Portugal geringôncico. Nestes vinte anos de acelerada extroversão do imperalismo chinês nem uma vez o PCP expressou distâncias. Enfim, durante décadas, desde o 25 de Abril, nunca o PCP sinalizou qualquer afastamento às concepções e práticas que comandaram o regime soviético. E persegue agora num patético seguidismo às remanescentes ditaduras do antigo espectro comunista - ainda que a China tenha uma organização económica capitalista o PCP atrai-se pela aparente "superestrutura" política. 
 
Não se trata de acreditar eu que os militantes comunistas actuais queiram tornar Lisboa numa Pyongyang atlântica. Ou de exterminar pela fome as famílias dos bloguistas menos "amigos" e nada "camaradas". Trata-se sim de ter consciência de duas coisas: a primeira é relativa aos comunistas, que seguem neste magma simbólico e ideológico. A sua visão do mundo é, acima de tudo, meramente anti-americana (no que não vão sozinhos... basta ir até à universidade do Mondego para lhes encontrar congéneres). E ainda que se afirmem defensores dos "direitos" e "liberdades" não têm vínculo, moral ou de ideário, e acima de tudo afectivo, com a liberdade, individual e colectiva. Dela são inimigos, porque a entendem avessa ao futuro que almejam. E ao exercício político do presente. E comprazem-se na memória, e no sonho projectivo, de contextos históricos de atroz esmagamento dessas liberdades. 
 
A segunda questão é-lhes externa. Pois a forma como se entende o PCP é demonstrativa da forma como se entende e actua face ao social. Que muitos locutores auto-percepcionados como de "esquerda" (e até "centristas") surjam agora louvando o PCP será mais do domínio do tacticismo de Costa, que anima este ambiente. Mas há algo de mais profundo, de sociológico. E que melhor exemplo disso do que o do jornalismo de "referência"? Nos últimos anos o jornal "Público" desencadeou uma campanha pelo revisionismo da história portuguesa, muito decalcada de correntes norte-americanas, contando para isso com apoio de alguns académicos portugueses (e, ocasionalmente, de "lusófonos" bem integrados). O "Público" de Manuel Carvalho, e o feixe de académicos e jornalistas que isso vai animando, dizem-nos constantemente que temos de abjurar do respeito por personagens como Diogo Cão ou Duarte Barbosa, devido às formas como pensavam e actuavam. Que temos de nos expurgar desses legados, os quais serão mitos poluentes, factores da construção de uma errónea "identidade" nacional. Da admiração por esses vultos dever-nos-emos autocriticar, desculpabilizar, pois o que os de antanho fizeram - ou escreveram, como António Vieira e Eça de Queirós - moldam-nos as injustas formas de pensar e actuar. E devido a estarmos impregnados de tanto preconceito anterior estamos atreitos a reproduzir, ou a refractar, as injustiças quinhentistas, setecentistas, oitocentistas...
 
E depois, no intervalo desses paleios de activistas missionárias e de intelectuais esfuziantes, o mesmo "Público" faz um número quase-dedicado ao centenário comunista. E dizendo-os - aos nossos compatriotas contemporâneos, agentes políticos empenhados, produtores de textos actuais, influenciadores das práticas e concepções -, como se cândidos utópicos fossem, "em busca de uma sociedade que ainda não existiu". Ou seja, estes comunistas não têm categorias intelectuais ou preconceitos herdados de que se precisem depurar. Apenas procuram o bem. Trata-se do Padroado, por assim dizer. 
 
Se o meu pai fosse vivo no passado domingo eu teria atravessado as fronteiras concelhias para o ir saudar no centenário do "Partido". Teríamos bebido rum - cubano, claro -, ele ter-me-ia dito "calma, bebe mais devagar". Provavelmente teria resmungado mais uma vez "está na altura de deixares de fumar" - ainda que o tenha deixado de fazer apenas aos 77 anos. E eu ter-me-ia defendido agitando o "Público" do dia e resmungando-lhe isto que acabei de botar. E ele ter-me-ia sumarizado: "esses tipos são uns pantomineiros". E eu servir-me-ia de mais um rum.

Um imigrante em Moçambique

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(Em Inhambane, há já alguns anos)

Blogo desde 2003. Há alguns anos um comentador, desagradado com algo que eu escrevera, deixou-me: “cada um diz o que lhe apetece. Poucos lêem, quem lê esquece e o autor fez o gosto ao dedo e divertiu-se". A intenção era de crítica até malévola mas nisso falhou, pois é mesmo esse o espírito da escrita blogal. Assim desinteressada. Fútil e catártica.
 
Desse rol de postais nestes confinamentos do Covidoceno já organizei 4 grupos. Agora fiz mais um, o "Um Imigrante Português em Moçambique". São textos opinativos, de blog e jornal. São sobre ser imigrante naquele país durante o início de XXI. E, porque fui um dos últimos "cooperantes" portugueses, agreguei também algo sobre "Cooperação" (Ajuda Pública ao Desenvolvimento). Claro que nesse âmbito juntei resmungos sobre a incompetente "Lusofonia" e seu insuportável sucedâneo Acordo Ortográfico.
 
Sobre estes temas fui deixando ao longo dos anos vários postais. Guardo agora na minha conta da rede Academia.edu este conjunto composto pelos que serão menos abrasivos. Com excepção de um todos são breves, e com nenhum quis mais do que ilustrar o que ia vivendo. Se alguém neles encontrar algo que lhe for interessante para mim será um prazer. Enfim, quem quiser gravar o documento pdf bastar-lhe-á "clicar" neste título: "Um Imigrante Português em Moçambique".
 
Já agora, e para quem tenha alguma curiosidade sobre os outros conjuntos, aqui deixo as ligações para o acesso: 1) Ao Balcão da Cantina (50 crónicas sobre vivências e viagens em Moçambique); 2) A Oeste do Canal (41 textos sobre temáticas culturais moçambicanas); 3) Torna-Viagem (35 textos de memórias); 4) Leituras Sem Consequências (32 textos sobre livros e artistas).
 
Finalmente, sobre a fotografia que encima o postal: "Vasco da Gama" é um termo usualmente atribuído, por moçambicanos e por portugueses residentes (às vezes há bem pouco tempo) para nomear os portugueses que chegam a Moçambique. Sobre esta minha utilização que cada um faça a interpretação que lhe aprouver.

 

Autobiografia de um "torna-viagem"

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Blogar é narcisismo, a crença de que se tem algo a dizer. Recuperar textos de blog, que são sempre de ocasião, é já doentio. Coligi-los é mesmo demencial. E já organizei três colecções, de textos dedicados a Moçambique: “Ao Balcão da Cantina”, “A Oeste do Canal” e “Leituras sem Consequências” (disponíveis na minha conta da rede Academia.edu). Tanta prosápia não augura nada de bom. 
 
Em 2014, sem querer e sem planear, trambolhei de regresso a Portugal. E ao meu velho bairro Olivais, na Lisboa blasé. Da qual tanto gosto mas tanto me arrepia. Botei alguns textos sobre isso, o deslizar abrupto que se calhar é apenas o normal do envelhecer. Agora junto-os a alguns outros, também mais pessoais, alguns mesmo intimistas. Fica uma autobiografia – coisa ainda mais patológica de se fazer - em 35 postais. Juntando o meu desabrido regresso a Portugal à minha juventude bairrista. A alguns trabalhos, poucas ideias e a a(lguma)s amizades. E aos amores. De facto, nada mais é do que uma colecção que eu gostaria que a minha filha viesse um dia a ler, daqui a uns anos, conhecendo-me (lembrando-me?) um pouco mais. Se mais alguém encontrar interesse nisto será um prazer para mim.
 
Chamei-lhe "Torna-viagem". Basta "clicar" e gravar o pdf. Se alguém encontrar interesse na tralha isso ser-me-á simpático: a tal cena de bloguista, os tipos que peroram. 
 

Na folha de rosto deixo esta fotografia da minha filha Carolina, feita em Lisboa em Janeiro de 2014. Porque é mesmo assim …

(A colecção também está arquivada no grupo de facebook chamado "Nenhures". Quem se interessar pode lá ir gravar o texto. Tal como as outras três que acima referi).

Parabéns

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Esta vem-me atravessada há já anos. Eu não sou purista nisto do português língua, e se torço o nariz a galicismos e anglicismos que encenam modernices nada sigo avesso a inovações austrais.

Mas custa-me (de facto, irrita-me) isto do "parabenizar", do "obrigado a quem me parabenizou" e similares. "Parabéns" não existe, nem coisa nem sentimento. É um voto, um augúrio, um desejo: que tenha(s) todo o Bem! E o Bem é tão necessário e tão raro que não deve ser camuflado em palavras até inócuas.

Ou seja, no próximo 2 de Julho, se lá chegar, agradecerei a alguns num "Obrigado a quem me quer Bem". "Obrigado por me querer(es) tanto Bem". E bem preciso de Bem.

 

Hoje (1)

Domingo nebuloso, partes chuvoso, estou com a Margot, ela sempre rainha, sós de mão dada, soa a canção de sempre, a "nossa", em ininterrupto "vira o disco e toca o mesmo". Vou até ao muro, iço-me para espreitar o mundo, estes que ali vão, mais as vacinas e o resto, sinto-me " mr. Jimmy", escorrego no musgo, arroto um "que se fodam", olho para a Margot, que já foi linda, húmida e segue já velha, seca, sem-sentido. E troco-a por uma nova. Pois sei-a(s) barata(s).

Ontem (1)

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Estreei-me na Netflix, com este "Irlandês" de Scorsese. Muitíssimo gostei. Senti-me como se estivesse, agora, a assistir a um concerto dos Rolling Stones. Pior dia blogal de sempre: avisam-me que ataquei alguém que já não está bem. Logo emendo mas não se apaga a maldade, mesmo que involuntária. Muito tenho pensado nisso, como a exposição das redes sociais - e mais o FB, que é de nós-velhos - acolhe(rá) as nossas demências progressivas. Há muito que me cuidei, todas as senhas das minhas contas digitais estão com querida amiga, mana mesmo, co-bloguista: se me der o badagaio apagará tudo em todas. E se eu for perdendo (ainda mais) o tino, idem. Aqui na zona tem faltado a lenha - cá em casa há com fartura. Mas chegou agora o zimbro. O velho fornecedor é uma simpatia, ama e sabe de madeira como nunca vi. Meia hora de conversa sobre o assunto, pois ele está atarefado. Lá para a primavera falaremos mais repousadamente. O Presidente anunciou o óbvio, que o confinamento está para meses, a pandemia para o ano. E exigiu melhorias nas práticas do povo. E dos poderes. Tarde piou - mas ainda assim muitos dos seus recentes eleitores deverão estar amofinados. Principalmente os prostitutos que clamam "Super Marta" à Temido em plena semana em que Portugal é - e de longe - o pior país do mundo nisto do Covid. Escumalha de gente - são, bloguista sabe, a mesma imunda cáfila que apoiou Sócrates até mesmo ao fim da sua "narrativa". Execráveis: "Super Marta"? Energúmenos. Nem suicidários, meros criminosos de delito cívico ... Leio uma pérola, "Culatra: Uma Ilha Com Gente Dentro", de Ana Cristina Leonardo, por 3 euros um livrinho de bolso com a história da ilhota - por coincidência um povoamento começado por um confinamento sanitário, uma fuga a peste magrebina em início de XVI. Quem vá ao Pingo Doce que o compre. A ideia de meses confinado deprime. Em Março era novidade e foi peito feito, com filha ao lado. E pus-me a ler e a escrever sobre o Covid: poucos leram mas aliviou-me. Agora? Reescrevo sobre Niassa, inutilidade pura. Ânimo quebrado: mortes súbitas e precoces de queridos amigos, infecções em vários outros. Como aguentar isso e ombrear nas perdas? O celibato de cinquentão torna-se hábito, um tipo vira urso - mas não "bear", atenção, que isso é coisa lá daqueles. Mas é défice, um tipo sozinho com quem embirra? Pois não se pode embirrar com os amigos, não é másculo. Com eles um tipo zanga-se. E depois partilha vinho ou uísques para amainar a coisa. Mas assim embirrar com quem? Deveria meter um anúncio na gazeta local, "cavalheiro, recentemente regressado ao país, procura senhora economicamente independente para relação séria". Mas já não há gazetas! As vísceras andam mal, achaques de homem, acho que terei que me desconfinar até ao Centro de Saúde, cem kms disso. Releio mais algumas crónicas de Artur Portela (Filho, como o foi até ser avô), no "A Funda 3", textos de 1972-3. Até arrepia a sua actualidade. O meu pai morreu asfixiado. Velho mas asfixiado. O meu avô paterno morreu asfixiado. Velho mas asfixiado. It runs in the family? O Liverpool de Klopp joga muito mais do que o Tottenham de Mourinho. Mas aquele Ndombèlé, em quem nunca reparara, é um belíssimo jogador.

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