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Nenhures

Nenhures

09
Jul24

Joana Marques Vidal

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Voltara eu ainda há pouco tempo, ano e tal, de Moçambique. Certo dia fui convidado para jantar em casa de uma amiga, seríamos um pequeno grupo, íntimo, a dona da casa, um enorme amigo meu, colega desde há então trinta anos, meu verdadeiro irmão, e outra grande e antiga amiga deles, e que comigo namorava. Afinal na mesa estava também uma outra conviva, extremosa amiga de infância da anfitriã.
 
A conversa correu, bem-disposta. A palavras tantas alguém disse à tal amiga que "o Zé Flávio viveu vinte anos em Moçambique, voltou há pouco". E ela, agradada, disse que ia com alguma frequência ao país - que muito apreciava -, pois mesmo que isso não lhe fosse o cerne do trabalho tinha algo a ver com a cooperação estatal no sector jurídico. E falou um pouco das questões e da relevância dessa actividade - desde sempre um sector crucial da cooperação portuguesa.
 
Fiquei de imediato estupefacto. Passara eu duas décadas envolvido e/ou atento à cooperação portuguesa - até durante algum tempo tinha tido como obrigação profissional acompanhar a cooperação jurídica. Sobre o assunto, este sector em particular, e a cooperação global, ouvira falar imensa gente, desde os mais elevados governantes até uma vasta série de normais agentes. Nisso escutara muita mediocridade, muita vacuidade, imensa sobranceria. Mas também - e não convém ser maximalista nas críticas - também ouvira gente competente e atenta. Escassa mas existente.
 
Mas nunca ouvira alguém, e ainda por cima naquele registo en passant, conversacional, com tamanha perspicácia, tamanha pertinência, tanta acuidade. Lembro-me bem de ter pensado "que é isto?", devo até ter arqueado as sobrancelhas. E perguntei-lhe, de facto abismado com toda aquela competência intelectual, "Desculpe, qual é o seu trabalho?". E foi um coro de risos dos nossos amigos, "Ó Zé!, a Joana é a Procuradora-Geral", ao que eu (sentindo-me mesmo tonto) balbuciei "Desculpe" tendo ela ripostado, então rindo-se também - pois decerto achando piada à minha distracção -, deixando-me um "Desculpa-se de quê, por favor...".
 
Nos anos seguintes (até ao Covid, de facto, esse que tanto cerceou os hábitos convivenciais) tive o privilégio (é a expressão devida, não apenas usual) de a encontrar, através da nossa amiga comum. No convívio risonho, qual familiar, sempre deixando a marca de uma mulher de uma simplicidade gentilíssima, e, até em modo subliminar, pois nesses contextos nada ostensivo, de um enorme intelecto.
 
Uma Senhora. Uma Senhora na República. Uma sentida vénia na sua morte. E um grande beijo para a nossa querida amiga comum, sua amiga de infância.

29
Jun24

2 de Julho de 2024

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2 de Julho de 2024, farei, faço, sessenta anos, torno-me sexagenário, velhote definitivo. Momentos há que me custa a crer, num "já?!", "como é possível?", pois tantos anseios ainda, outros há em que me espanto num "só agora?", pois Matusalém também me revejo, no alquebrado que deveras sigo.

Pouco acontecerá daqui em diante. Do que antes foi, e que (me) valeu, deixei memória no meu Torna-Viagem. E pouco ou  nada acrescentarei desde então. Ou talvez exagere nisso. Pois tenho algumas novidades: sim, tenho ouvido mais Dylan, trouxe-o para esta etapa, quiçá no sonho, esperançoso, de um "simple twist of fate", até porque já sabedor que não é pecado "to know and feel too much within". E nisto sigo ombreando com o meu inseparável companheiro papagaio palrador, este "parrot that talks". O resto...? Virá.

(Para quem não conheça a canção - e por isso incompreenda o postal - deixei versão com legendas.)

25
Jun24

José Forjaz

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Morreu hoje José Forjaz, o mais renomado arquitecto em Moçambique e alma mater do ensino de arquitectura na Universidade Eduardo Mondlane. Sobre a sua obra há publicações do Instituto Camões - que não tenho. Mas também este "José Forjaz: a Paixão do Tangível, uma Poética do Espaço", uma rica longa conversa que concedeu ao António Cabrita e que a Escola Portuguesa de Moçambique acertadamente publicou em livro (2012). Li-o naquela época, fiquei então com a ideia (talvez desajustada) que ainda faltaria ao Cabrita algum Moçambique para ir mais longe no inquirir. Mas isso em nada apoucou a pertinência do entrevistador e, muito menos, o interesse do entrevistado. E é isto que relerei hoje, em forma de homenagem ao arquitecto.
 
Forjaz era um exemplo, até típico, dos homens "maiores do que a vida". Lembro-me de o ter conhecido, em 1996. O António Hespanha (também já morreu, os maiores já foram quase todos) mandara-me a Moçambique com a incumbência de preparar um conjunto de acções de "cooperação cultural" para dar um corpo peculiar às "comemorações" da aguada do Vasco da Gama cerca de Inhambane (10 de Janeiro de 1498) e do seu embate com o Mussa Al Bique, uns tempos depois, um bom naco do litoral acima. Para isso, chegado a Maputo, pedi que Forjaz me recebesse, para que me iluminasse ele.
 
O célebre arquitecto era já um quase velho - tinha então a idade que eu tenho agora. Acolheu-me na sua casa, também atelier, ali na 24 de Julho. E deu-me duas ou três horas, uma conversa que foi aula magistral, cultíssima de chã, sobre o país, o passado recente, o "estado da arte" de então, numa elegante acidez sem azedume. Tudo aquilo, percebi-o eu, embrulhado com alguma gentil condescendência para com este rapazola, cabelo azeviche, ainda carregado de convicção esperançosa. Eu fiquei logo impressionado: sim, o saber, mas também o ambiente daquela casa de arquitecto, pejada de pastas, peças, livros, tudo com ar de uso, vivido, sentido, nada em mera "exposição" burguesa. E, também, o facto do homem ser lindo - sim, até eu, nada sensível à beleza masculina, fiquei encantado... Saí dali embevecido (lembro-me de ter telefonado à minha mulher dizendo-lhe que encontrara "um príncipe renascentista em Maputo").
 
No ano seguinte eu acabara de aportar a Maputo. Coube-me integrar a pequena comitiva de Federico Mayor em visita à Ilha - a minha primeira vez lá. Forjaz também foi, eminência parda da então influente Associação de Amigos da Ilha, naquela era de imaginados planos de reabilitação da UNESCO - nos quais ele não seguia muito crente, sábio que era. E lembro-me bem de que à chegada, com as "personalidades" da Ilha perfiladas à espera da comitiva, ali junto à célebre figueira-da-índia, ele teve o cuidado de se apartar de todos convocando-me para me apresentar a Amur, a mais relevante personagem das confrarias da Ilha, alertando-me de que "para você perceber a Ilha é com este Senhor que tem de falar". Só quem conhece a Ilha pode entender o certeiro que estava a ser. E também a gentileza que estava a ter para com este miúdo, o menos graduado daquele grupo mas que mesmo assim ele não descurava.
 
Passaram as décadas, vim a reencontrá-lo em Lisboa, ele já adoentado. Mas mantendo a fineza irónica, caústica por vezes, assim sem se distrair da envolvência que entendia relevante. Ou seja, mantendo o encanto, por assim dizer. Foi um homem grande. Vénia!

23
Jun24

(Após) Portugal-Turquia

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Repito a ligação para esta minha historieta, com mais de uma década (gosto tanto dela que a agreguei ao meu "Torna-Viagem", o livrinho que impingi aos amigos e conhecidos), uma conversa com uma polícia de trânsito sul-africano sobre Cristiano Ronaldo.
 
Passou a tal década (ou mais). Cristiano Ronaldo é o maior atleta da história portuguesa. Um símbolo, admirado por muitos de nós. E também mundo afora, polícias do Mpumalanga e outros - como a menina que ontem se perfilava diante dele durante os hinos, com as mãos na cara tamanha a emoção espantada, tocando-lhe para ver se ele era real, ou o petiz (malandrete), que aos 10 anos se escapou campo adentro para tirar uma fotografia com ele.
 
Mas CR7 é também um barómetro, mede o cretinismo nacional. Pois desde há décadas que é perene a raiva contra ele, as críticas constantes, a vir ao de cima a maldita inveja lusa contra o sucesso (se obtido "lá fora" então é pior). O que vem muito do mais rasteiro do clubismo, alguns, apesar de tudo, ainda o apupam pelas origens sportinguistas - e outros, ainda mais abjectos, pelas origens humildes. (E não esqueço o povo de Guimarães, num particular de 2013, a gritar vivas a Messi apenas para o macerar, a mostrar como é escumalha o "berço da Nação").
 
É já um veterano - a sua idade acerca-se da que tinha Lopes quando foi campeão olímpico, Livramento campeão europeu de clubes, Agostinho no cume do Alpe d'Huez, Pepe na sua lenda de central insigne. É um veterano goleador... Os cretinos, que são minoria mas vasta, continuam a bolçar que "está velho", que "joga à mama", que "é egoísta", que "não joga nada".
 
Ontem, por parvas razões, vi parte do jogo da selecção num café lisboeta. A clientela, uma mole sorvedora de caracóis, passou a tarde clamando esses impropérios, enquanto perdigotava a repugnante molhanga. Retirei-me para casa, vi um John Ford que nunca vira ("Os Cavaleiros", com o Duke e o grande William Holden). Depois passei pelo FB, onde - apesar do "banho turco" - ainda havia básicos a repetirem impropérios contra o CR7.
 
Deitei-me, a ler o Dalton Trevisan que trouxera da Feira do Livro. Não haja dúvida, aquela desgraçada Curitiba de Trevisan é aqui mesmo.

07
Jun24

Os Xutos em Maputo

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Isto de quando um homem veio para velho sucedem-lhe as memórias, em até frenéticas associações de ideias. E, felizmente, vêm elas em molde selectivo (entenda-se: autocensório), elegendo assim as risonhas e deixando as bisonhas no limbo amnésico. Explico o caso desta manhã:
 
Fui agora ao grupo-FB "Portugueses em Maputo", a publicitar o meu "Torna-Viagem" (que só se pode comprar através desta ligação colocada no título ), na (vã) esperança que algum desses patrícios (e não só...) se possa interessar. E nesse grupo vejo que neste fim-de-semana os Xutos actuarão na cidade... Logo me lembro da estreia deles por lá, há um quarto de século.
 
Uns meses antes haviam aparecido por lá uns funcionários em ambições de organizarem um grande espavento "lusófono", como então se dizia, com "impacto popular", tipo "encher um campo de futebol". E para tal queriam levar a Daniela Mercury, cantora então muito em voga - e que seria uma contratação caríssima, presumi. Ripostei-lhes - depois de em surdina suspirar um ateu "ai, meu Deus!" - que se o objectivo era encher um campo da bola seria melhor levarem o Roberto Carlos! Eles voltaram à pátria (a antiga Metrópole, entenda-se). E passados uns dias o meu amigo António Miguel - que eles haviam contactado para operacionalizar a "coisa" - telefona-me, meio (ou mesmo todo) espantado, "ouve lá, então tu queres levar o Roberto Carlos a Moçambique?, é que me pediram para tratar do assunto!!!". Eu ia caindo da cadeira abaixo, com a gargalhada azeda. Pois esquecera-me que, já naquela época da alvorada da internet, diante de alguns tipos de gente era preciso afixar um emoji quando se ironizava (ou sarcasmava, como fora o caso)...
 
Enfim, passados os tais meses lá aportou a comitiva musical em busca das enchentes. Mas numa selecção menos histriónica, e bem mais plural. Alheio à cena acabei por me associar aos convívios. Por intermédio da querida amiga Isabel Ramos, e conjuntamente com ela, pude oferecer à extensa comitiva musical uma excelente massada de peixe, confeccionada in loco no (velho) Mercado do Peixe pelo cantor Vitorino. Dia agradabilíssimo, durante o qual eu e a minha mulher pudemos conhecer Sérgio Godinho, ali o único verdadeiramente curioso sobre a cena musical (e artística, e literária) do país.
 
Uns dias depois foi o concerto dos Xutos, na velha FACIM. Arregaçaram imenso, como então o faziam. Tanto que às tantas abandonei a pose "sô doutor" e fui lá para a primeira fila, esbracejando Xs, nisso ombreando com o patrício Hernâni, sempre soberbo no seu visual "heavy". No final subi ao camarim e logo fui interrogado pelo Kalu - que não se lembrava de mim mas que eu conhecera anos antes, pois havíamos estado os dois a servir shots de tequila num casamento de amigos comuns - "ouve lá, estes gajos não gostam de rock?", pois a reacção do público não havia sido tão entusiástica como aquela a que estavam habituados (e mereciam, afianço). "Gostam, mas não reagem da mesma maneira...", antropologizei eu em síntese, fugindo a elaborar sobre as formas diferentes de absorção musical. (E sobre os limites da comunicação "lusófona", musical e não só, que isso seria outro assunto, nada adequado àquela noite).
 
E depois seguimos todos para a casa da Nice - a sempre princesa de Pemba - para uma festarola divertidíssima, até às tantas. Eu ficando a bebericar com o Zé Pedro ("sou dos Olivais, pá!", havia-lhe dito), um tipo do caraças, de uma gentileza rockeira única. Única mesmo.
 
Enfim, se estivesse em Maputo, amanhã iria ao Centro Hípico ver os Xutos. Até porque no início dos 80s os vi quando tiveram os Minas e Armadilhas na primeira parte. E, depois, entre tantas outras vezes, no célebre "ao vivo no Rock Rendez-Vous", no 31 de Julho para que cantássemos em coro, já adequadamente "É amanhã dia 1 de Agosto / E tudo em mim é um fogo posto / sacola às costas cantante na mão..." E foi um longo 1º de Agosto, o fogo posto esteve ateado muito tempo. A ver se reatará..., ainda que duvide disso.
 
 

1º de Agosto - Xutos e Pontapés

30
Mai24

As Tâmaras Azedas de Beirute

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O Craveirinha tinha como data de aniversário o (para nós) peculiar 28 de Maio - e isso foi agora recordado. E lembrei-me da última vez que com ele falei. Estava eu na Alfredo da Costa para buscar a recém-chegada Carolina e sua mãe, levando-as para casa, nós encantados e atrapalhados naquele novo estatuto paternal. Pressentindo a azáfama que se seguiria, telefonei-lhe para Maputo ainda do corredor da maternidade, era o seu 80ª aniversário! Foram breves palavras, saudações mútuas, ele convocando a felicidade futura da pós-nascitura, eu aventando-lhe "muitos e bons". Mas não foram... Fiquei uns meses por cá, quando regressámos foi a correria esperada, a rotineira e a de recuperar o que entretanto não se havia feito. Depois soube que estava doente, encolhi-me num "não vou incomodar".
 
Hoje é o dia do "Corpo de Deus". Pouco (me) importam as questões da fé alheia, suspendo o sorriso diante destes feriados religiosos flutuantes, que sempre me parecem inspirações astronómicas em tempos ditas paganismos. Apenas recolho o que me é relevante, noto a festividade como um dia em que os crentes se congregam para convocar o bem. E no qual os incréus seguimos repousando, nisso plácidos. Mais pacíficos do que na labuta. Ou seja, é um dia para o bem no mundo.
 
E por isso me lembro do mais-velho Zé Craveirinha. Em particular de um poema dele. Não o que sinta como um cume da sua obra. E sem que partilhe do simbolismo invectivador que convoca. Explico-me, de antemão: desagrada-me a ideia de serem os judeus (ou israelitas) arvorados em "povo escolhido", nisso com responsabilidades especiais. Ou seja, que o sofrido às mãos nazis (e sob tantas outras, já agora) os obrigue a uma maior benevolência. Pelo contrário, têm o direito de serem como todos os outros povos: e assim péssimos. E os outros, nós neste caso, têm o dever de os aplacar, controlar. E também não vou perorar sobre as causas do "conflito israelo-árabe", que não faltam palavrosos sobre isso, que o anseio fetichista de "tomar partido" é pandemia vigente.
 
Mas há muito que é evidente que os israelitas perderam a tramontana: "Are you out of your fucking mind?", resmunguei em Novembro, pois resmungar é única coisa que um tipo pode fazer. E assim, neste dia para o bem, transcrevo o poema do Craveirinha, escrito no rescaldo de uma sua visita ao Líbano - e que o Nelson Saúte juntou à sua excelente antologia de poesia moçambicana "Nunca Mais é Sábado" (D. Quixote, 2004):
 
Tâmaras Azedas de Beirute
 
 
Plagiando a "blitzkrieg" dos seus saudosos tempos nazis
soldados judeus em apropriados dromedários de aço
de nefastas patas blindadas
assolam o Líbano
E MATAM!
 
Dedico a minha solidariedade aqui mesmo em Maputo.
Sirvo-me da máquina de escrever e da minha insónia
e um sobrevivente palestino na tenda metralhada
ouvindo esta mensagem certamente ficará
grato pela minha camaradagem moçambicana
mas não terá nas suas mãos crispadas
nem sequer uma espingarda a mais
contra as semíticas automáticas
do inimigo.
 
Neste papel estarei quite com a minha consciência
mas as crianças assassinadas terão outra vez vida?
E as tâmaras azedas de granadas deflagrando
serão novamente tâmaras doces
nos desfeitos lares
de Beirute?

25
Mai24

25 de Maio, o aniversário

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Hoje, 25 de Maio, é o dia da Argentina - para mim sempre a terra de Jorge Luís Borges, que me desculpem todos os outros argentinos este aparente, mas de facto inexistente, desprimor para com todos os compatriotas. E também o dia de África. Saudações àqueles que queiram celebrar.
 
E é também o aniversário da minha filha Carolina. Há 21 anos celebrámos o seu primeiro num almoço (num restaurante italiano na Engels, já desaparecido e do qual esqueci o nome), entre os argentinos de Maputo, por convite dos tão queridos Miguel e Susana. Nos anos subsequentes houve umas festas divertidíssimas, sempre por iniciativa da extremosa mãe. Lembro-me de num ano estar no célebre Kampumo com alguns pais, já acelerados na noite longa, eles lamentando-se de que no dia seguinte teriam uma festa matinal - era a nossa!, ri-me... Pois a mãe da Carolina introduzira nesse ano o "brunch" infantil, que depois tantos de nós, e eles também (afinal!?!..), acabámos em jantar, bem festivo, diga-se... Ou, entre outras, numa para mim comovente festa (o 9º aniversário) na belíssima Casa Macamo, na qual o grupo do excepcional Mário Mabjaia representou uma versão infantil do "O Círculo de Giz Causasiano" de Brecht. Ia eu chorando, e não por causa de ter bebido em demasia. E as crianças absolutamente encantadas. Uma cena absolutamente extraordinária.... E depois a sucessão das festas em nossa casa: "pai, podes não convidar todos os teus amigos?", "podes não convidar todos os pais dos meus amigos?", dizia-me ela, já entrada no secundário, querendo preservar o seu espaço e nós todos, velhos pois adultos, sequiosos de celebrar as vidas, prolongando-nos tardes e noites afora...
 
Hoje, segue já nos 22 anos, não mais a "minha princesa" (carinho que as megeras de agora tanto criticam), mas sim a "rainha" dela própria, lá longe na pérfida Albion. Mas para mim sempre, claro, esta menina fotografada pelo meu companheiro Pedro Sá da Bandeira. Com uma mãe (muito) competente, um pai que é o que se arranja. E que, querida, às três horas desta tão longa noite ouve o "Mon Couer est Rouge" do Keith Jarrett. E é festa suficiente.
 
Avante.

14
Mai24

A Adega do Isaías, 30 anos depois...

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É o "A Bola", claro, sempre consabido e fiel órgão oficioso de uma popular agremiação lisboeta, que recorda a efeméride: hoje, aos 14 de Maio de 24, cumprem-se exactamente 30 anos que jantei no "Adega do Isaías", então renomado restaurante em Estremoz.

Regressara há poucos dias a Portugal, depois de ter trabalhado durante 3 meses na África do Sul como observador eleitoral, aquando da ascensão de Nelson Mandela à presidência. Fora uma experiência extraordinária, exaltante, imensamente marcante, e não só por ter sido a minha primeira viagem em África. Tanto que a tentei descrever, e à influência que em mim teve, através de dois postais, distanciados no tempo: o "Now is the time: Nelson Mandela" e o "O Corredor" - e a ambos coloquei na minha selecção de uma centena de crónicas, o "Torna-Viagem" (o qual, repito a tentativa de o impingir, se pode encomendar através desta ligação aposta no título).

Naquela época (e não só então, e não só então...) eu estava muito enlevado - para não dizer de outra forma - pela minha namorada, condição que já não era recente. À chegada, saudoso, logo marcámos para o primeiro fim-de-semana uma incursão a Estremoz, uma bela opção havida por razões que já não recordo. E assim avançámos, ficando albergados numa linda casa em recanto bucólico, até idílico, poiso que decerto veio depois a ser considerado "de turismo rural". 

Ao segundo dia da estada, no sábado, aconteceria o Sporting-Benfica, em plena fase final do campeonato, esse que estava destinado ao nosso Sporting, então possuindo uma magnífica equipa: treinada pelo professor Queirós, que à pátria dera recentemente dois tão entusiasmantes títulos mundiais, blindada por uma excelente parelha de centrais (Valckx e Vujacic), dificilmente repetível, e orlada por um meio-campo luxuoso, esse sim mesmo irrepetível, verdadeiros "Quatro Violinos" (Figo, Capucho, Paulo Sousa, Balakov). E para conclusão, lá na frente impunha-se o codicioso avançado Jorge Cadete, oriundo da antiga Porto Amélia, então já Pemba - terra para onde eu me aprestava a partir para um também entusiasmante semestre de "trabalho de campo".

O jogo teria transmissão televisiva. No nosso refúgio havia uma televisão, algo que à chegada eu havia considerado inútil, até intrusivo, em tal local. Durante a tarde a beldade, sempre completamente alheada das coisas do futebol, disse-me "vês o jogo e depois vamos jantar", ao tal restaurante que nos havia sido basto recomendado, dito como "o" verdadeiro sítio estremocense. Logo refutei a proposta, pois era o que faltava, abstrair-me dela apenas por causa de um mero jogo da bola... Pois o Amor impunha a sua Lei, em regime de "servidão voluntária", como havia dito o La Boétie (falando, é certo, de outras coisas). Assim abdiquei de ver a partida, imunizando-me às vãs paixões futebolísticas, e naquele fim de tarde fomos passear pelas redondezas. Nunca soube se ela percebeu a magnitude daquela minha atitude, o seu significado - mas é certo que depois casou comigo, tivemos uma filha, e aturou-me mais vinte anos, é capaz de ter compreendido...

Pela hora de jantar (jogo da bola completamente esquecido) entrámos em Estremoz e fomos até ao tal "Adega do Isaías". Uma casa aprazível, numa decoração típica, mais que acolhedora, até reconfortante, de cariz etnográfico, na mesa para nos receber foram instalados uns acepipes iniciais consuetudinários, lembro-me que de fino recorte técnico. Mas num dos topos da sala estava uma televisão - ainda nada de ecrãs engrandecidos que vieram depois a vigorar -, e diante dela estavam congregados alguns clientes locais. No recato da disciplina auto-imposta sentei-me de costas para ela, encarando a amada. Nesse entretanto, e através do empregado "...do Isaías". soube - teve de o ser - estar o jogo no intervalo, que o Benfica ganhava por uns (inusitados) 3-2. Acolhi o prometedor cardápio com um sorriso complacente, convicto que aconteceria a reviravolta ("remontada", espanhola-se agora) do nosso Sporting, e divergi a minha atenção. Ainda assim pelo canto do ouvido notei que na reentrada em campo o prof. Queirós havia tirado o lateral-esquerdo Paulo Torres...

E logo depois o ulular dos restantes clientes fez-me notar que o Isaías - não o do restaurante mas sim o jogador do Benfica - cavalgara à desfilada pela avenida onde já não estava o tal Paulo Torres e marcara o 4-2. Petisquei mais uma lasca de enchidos locais, entrecortados por azeitonas verídicas, ainda mergulhado na carta dos vinhos. Breves minutos passados, ainda rodando o primeiro copo de um bom tinto, que me acalentava sonhos de futuros comuns, o "Isaías" restaurante tremeu com a gritaria estremocense, pois o outro Isaías -. o de Carnide - tornara a cavalgar, com os sequazes, a tal avenida desprovida do Paulo Torres, fazendo o 5-2. Mantive-me impávido, soberbo, nem olhei para o ecrã. Naquela "Adega do Isaías" indiferente aos feitos do Isaías.

Nunca mais voltei a Estremoz. E ainda hoje estou crente de que a minha vida teria sido diferente se o Paulo Torres não tivesse sido substituído.

(Adenda: agradeço à equipa da SAPO o destaque dado a este postal - também colocado no Delito de Opinião - na simpática rubrica "Palavras de blog", devido à "consuetudinários" que aqui usei.)

05
Mai24

A "Nwahulwana", de Wazimbo

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Gastei parte da noite insone a ver na televisão o "A Promessa" ("The Pledge"), um sofrível filme policial realizado por Sean Penn em 2001. Vale sobretudo pela galeria de notáveis actores que vão desfilando, alguns em curtas aparições: o grande Harry Dean Stanton, Vanessa Redgrave numa breve e magnífica actuação. E também dada a presença da sempre perturbante Robin Wright (então casada com Penn). E, mais do que tudo, por Jack Nicholson, ainda por cima porque ali um pouco menos actor histriónico do que tornou hábito nas suas últimas décadas profissionais.
 
Enfim, dito tudo isto, o relevante é bem diferente. A meio do filme, noite longa, até já eu cabeçeando - apesar da referida Robin Wright -, despertei-me, verdadeiramente surpreendido, pois a "banda sonora" do filme integra esta "Nwahulwana" do grande Wazimbo.
 
Fiquei mesmo estupefacto pois nunca soubera que Wazimbo tinha sido cooptado pela indústria de Hollywood, essa grande montra. Escapara-se-me o facto. E, honestamente, até acredito que tal não tenha sido muito divulgado em Moçambique - ou então andava eu muito distraído. Aliás, basta lembrar o escarcéu festivo, impossível de não acompanhar, que foi por cá naquela época quando a "Canção do Mar" de Dulce Pontes surgiu num filme insuficiente, com o Richard Gere...
 
Enfim, o que isto me lembra é que conheci Wazimbo quando ele gravou o disco "Makwêru" em 1997, e nos espectáculos subsequentes, tudo mesmo muito bem produzido pela Conga (do Luís Moreira et al). E de logo me ocorrer, e dizer, entusiasmado, que "se este tipo fosse da África Ocidental seria uma "estrela" internacional", dado que aquela região era então muito vasculhada pela indústria musical.
 
Pois, e é o sumo, Wazimbo é um enorme cantor.
 
 

(Nwahulwana, de Wazimbo)

10
Abr24

Eugénio Lisboa

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eugénio

 
Morreu Eugénio Lisboa, relevante pensador de origem laurentina que - entre outros eixos da sua actividade - nos deixou notável monografia (em registo memorialista, integrando a sua vasta "Acta est Fabula") do ambiente intelectual da burguesia tardo-colonial portuguesa, um documento precioso para se entender o nosso ocaso colonial. Deixo aqui ligação a um bom obituário que o Pedro Correia lhe dedica no Delito de Opinião. E também a um interessante texto que o Nelson Saúte lhe dedicou por ocasião do seu nonagésimo aniversário .
 
"Tive o privilégio" (como sói dizer-se) de o conhecer. Após ter ido viver para Maputo, a primeira vez que vim a Portugal solicitei-lhe um encontro, uma "apresentação de cumprimentos", por assim dizer. O qual se me impunha por respeito intelectual e por considerar que ele poderia ser (e era-o) um agente fundamental para o conhecimento nacional da realidade intelectual e artística moçambicana, neste país cuja intelectualidade estava então alheada das realidades africanas. E isto bem antes da publicação da sua "Acta est Fabula", que acima refiro...
 
Recebeu-me na Comissão Nacional da UNESCO, a que presidia, foi simpático e também algo complacente - teria recolhido algumas informações (talvez pouco laudatórias) sobre mim, foi-me óbvio que me atribuiu alguma candura juvenil, naquela quase inconsciente displicência que agora também me acontece quando diante de qualquer tipo com cabelo ainda azeviche. Mas algo talvez também oriundo - pareceu-me - daquela mundividência dos agentes do "campo literário". Esses que - mesmo que tantas vezes simpáticos - tanto privilegiam os seus pares, como se membros de um panteão de demiurgos e semi-demiurgos, apenas entreaberto a alguns teólogos graduados. Enquanto nós - em particular se antropólogos, quero desejar - cremos mais em Xenófanes, naquilo que o grego disse de "se as cavalgaduras tivessem mãos... desenhariam os deuses como cavalgaduras"... Mas foi, insisto, muito simpático. No fim da pequena reunião perguntou-me "então em que lhe posso ser útil?", e pareceu-me surpreendido, até agradado, quando lhe disse o motivo do meu pedido de encontro, do aquilo "Em nada. Eu é que talvez lhe possa ser útil, vim aqui para me disponibilizar para algo que lhe possa ser interessante lá em Maputo"...
 
Algum tempo depois esteve em Maputo, integrando uma gigantesca comitiva cultural. Seria, entre os seus pares, o que mais conhecia o contexto, e perceberia aquele desajuste luso, verdadeiro disparate. Mas constatei então que a sua argúcia analítica, o seu consabido "avinagrado", estaria mais direccionado para os textos, e não tanto para a realidade "palpável". Ou, então, que o distribuía... estrategicamente. E que naquele momento não lhe interessaria vertê-lo, com ele aspergir os próceres culturais nacionais.
 
Anos passaram, eu já teria algumas cãs. Um dia, no primeiro intervalo de um congresso académico, fui esfumaçar até ao gélido pátio, no qual estava apenas um outro participante, com os mesmos propósitos. Emprestámo-nos um isqueiro e apresentámo-nos. E surgiu Eugénio Lisboa, sorriso aberto. Saudações cumpridas fez-me uma pergunta, algo indiscreta, sobre eu em Moçambique. Retorqui "quer uma resposta franca ou diplomática?", "franca, claro" e assim o fiz. Logo fez outra pergunta, também indiscreta, sobre o mesmo tema, eu em Moçambique, e de novo lhe perguntei "quer resposta franca ou diplomática?" e de novo convocou a minha franqueza. Após a qual fez mais uma pergunta indiscreta, ainda sobre eu em Moçambique, ao que, de imediato, o outro congressista exclamou, veemente, "uma resposta diplomática, por favor!". Rimo-nos, eu e ele, o grande, enorme, Ruy Duarte de Carvalho, e logo ali ficámos amigos para o resto da sua vida... E Lisboa nada mais perguntou.
 
Há cerca de 15 anos, já ancião, Lisboa esteve em Maputo - talvez tenha sido a sua última vez ali, pelo menos até 2015 não terá voltado. Logo acorri à Escola Portuguesa de Moçambique para o ouvir, no que foi uma preciosa abordagem/homenagem a José Régio, por quem tinha enorme admiração. Estava muito emocionado - tanto que, apenas por isso, me pareceu que estivesse doente, já em processo de despedidas. Felizmente não era o caso, e tivemo-lo mais 15 anos a exercer o seu vasto conhecimento. Num verdadeiro "magistério de influência", mesmo que algo recatado.
 
Por vezes implacável, naquilo que consideraria realmente relevante. Como neste magnífico texto "Elogio da Temperança", que publicou nos seus 90 anos, pontapeando o provincianismo luso demonstrado na mania dos elogios fúnebres hiperbólicos. Um texto que é agora, na sua morte, urgente recordar. Pois é evidente que o então nonagenário nele convocou o tino alheio para a hora da sua morte, que decerto previa relativamente próxima.
 
Eugénio Lisboa publicava no excelente blog colectivo De Rerum Natura. Os seus parceiros de blog deixaram-lhe uma homenagem, sentida, publicando-lhe este soneto. Tão denotativo do seu percurso:
 
Na minha outra pátria africana,
não trincávamos maçã nem morango.
O que trincávamos mesmo com gana,
manga verde, encarilado frango,
 
maçaroca e ácida tcintchiva,
ensinava-nos a descobrir mundo,
naquela terra quente e lasciva,
onde tudo ficava mais fecundo.
 
Com tostões, comprava-se um mata-fome
e o caju arrancava-se do ramo.
Os esfomeados unhas-de-fome
 
inebriavam-se, comendo cânhamo.
Era uma pátria cheia de mistério,
que foi pra mim fecundo magistério.

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