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Nenhures

Nenhures

04
Abr25

Vou ver o Tim

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Hoje vou ao São Jorge ver o espectáculo do Tim. Eu gosto dos (seus) Xutos. Continuo a pensar que o português mais relevante - e não só na música - da minha geração é o Pedro Ayres, por razões que agora não desenvolvo mas sumarizo: na grandeza de si próprio, Homem que é, descomplexou este traste país. Sim, então o mais-velho Soares fez-nos, para o bem e para o mal, “mediterrânicos”, desse mar do meio afinal charco do qual ainda não saímos. E sim, nessa época Lopes e Mota convenceram-nos que poderíamos ser campeões. E, mais ainda, sim, Saramago (e Lobo Antunes) explicaram que até éramos inteligentes. Mas o Ayres fez mais, foi português! E convocou-nos a nisso segui-lo, refez-nos. E estou feliz pois, há poucos anos, tive a honra de o (re)conhecer - cruzara-o superficialmente “nos tempos” - e o privilégio de lhe dizer isto mesmo. Julgo que o Ayres - o marechal Ayres, se se quiser aceitar o que sinto - não terá desatinado com o meu emotivo arrazoado, até balbuciado.

Mas isso - esse “isso” que agora, velhote, me é o fundamental - é outra coisa. E nada obsta a que os “meus” hinos, as minhas memórias, sejam as do Xutos. Desde o inicial concerto com os Minas e Armadilhas nos meus 15 anos, já nem me lembro onde correu esse verdadeiro “punkismo”, terei bebido demais… Mas lembro bem o “1º de Agosto” do Rock Rendez-Vous em 1984, ali ido com amiga boazuda, mais velha e com o namorado ausente - a malta dos Olivais sabe do que, de quem, falo, mas quarenta (!!!) anos depois já nem é inconfidência -, eu puto num “a ver no que isto dá”, mas a esquecer-me disso - até porque ela também indiferente, diga-se -, pois logo exultante, pulando, diante do “Já estou farto de procurar / um sítio para me encaixar… / eu vou para longe, para muito longe / … falta-me o ar para cá ficar”, isso que vim a seguir na vida. E sim, naquele dia terei urrado “se me amas / se me queres…”, mas para o ar, desarrumado. Vinte anos!, tinha, e ali com uns tipos a rockarem o que tinha eu no âmago…

E nesse longo entretanto vi-os imensas vezes. Um dia num qualquer recanto do Ribatejo, a esgalharem imenso num meio vazio rinque de patinagem, ali tendo uma primeira parte dos Radar Kadafi - a banda da minha rua, a Bolama, quando o Tiago, o Guli, o Ambrósio, o Fernando e o Sampaio tinham decidido que seria eu o “road manager” da banda então em ascensão, eu puto atrapalhado (e ganzado, diga-se) em demasia para ser “manager” de mim-mesmo quanto mais de outros negócios “on the road”…

(o texto completo está aqui no meu novo "O Pimentel". Está com acesso livre - mas quem o quiser subscrever, em modalide paga ou gratuita, será muito bem recebido)

12
Mar25

Adriano

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("O Senhor Morgado", Adriano Correia de Oliveira)

Hoje num postal lembrei esta canção - "O Senhor Morgado", letra do Conde de Monsaraz, música de José Niza - cantada pelo grande Adriano Correia de Oliveira. Está no LP "Gente de Aqui e Agora". A canção é uma pérola, ouço-a desde muito muito menino - o disco é de 1971 e desde então cá em casa, comprado, ouvido e trauteado pelos meus pais. E também eu a trauteio, ainda hoje..., o que é forma, sim, de os recordar. 

Adriano Correia de Oliveira - "o Adriano" - era daqui. Vivia nos Olivais, a sua mulher Matilde era amicíssima da minha mãe Marília, a sua belíssima filha Xuxu, uns anos mais nova do que eu, era um encanto - como a sua mãe o era, já agora - e decerto que ainda o é, ao seu puto mais novo não conheci, petiz em demasia para nele ter atentado. Tal como o meu pai, o Camarada Pimentel, "o Adriano" era do "Partido". Mas à sua maneira! E nisso imensamente maior do que a vida, sabendo, cantando, e vivendo o abissal disto tudo. Morreu já velho, pensei naquela altura dos meus 18 anos, um miúdo de 40 anos, digo-o agora. 

Cá no bairro deram o seu nome a uma escola primária ("básica" chamam-lhe agora, como se isso não fosse um paradoxo). Foi bonito! Às vezes vou lá à porta - sempre em justa e prazerosa tarefa, sexagenário acorcundado esperando stôra, "seja Deus Louvado...".

E murmuro, trauteando, "o (grande) Adriano". Demasiado esquecido.

26
Fev25

Um egolátrico nos Correios

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Sempre gostei dos "Correios" - talvez efeitos de uma infância feliz, muito composta pelas estadas em São Martinho do Porto, onde tínhamos casa, junto ao mercado, já no início da subida para o Facho. Durante as quais ia eu, petiz ufano, a acompanhar os meus pais nas habituais, obrigatórias mesmo, idas aos "Correios" - sitos junto à baía, após a célebre "Rua dos Cafés" (de facto Vasco da Gama). Iam eles lá para... telefonar aos meus avós, todos já septuagenários! Tão diferentes eram esses tempos. Depois era obrigatório sentarmo-nos no café (o do "Careca", opção de classe do meu pai...). Onde eu tinha direito, desde a mais tenra idade, a um "garoto" (como se chamava então ao actual café pingado). Bebida que me fazia sentir imensamente "crescido".
 
Terá sido o recordar de todo esse mimo que me levou a tanto apreciar este velho - e então já algo anacrónico, mas resistente (na época, ainda que já em XXI, ainda não se dizia "resiliente") - marco dos CTT, colocado no campus da Universidade Eduardo Mondlane, ali diante do edifício onde reside o Departamento de Arqueologia e Antropologia, no qual leccionei durante 15 anos. Tanto dele gostava que lhe dediquei um postal de blog há já... 19 anos! Caramba!
 
Enfim, estas memórias "postais" vêm a este propósito: como aqui bastante tenho referido, há meses que autopubliquei um livro sobre as minhas andanças. Vale o que vale, mas diverti-me a escrevê-lo. O qual se vende através do sistema de "impressão por encomenda" por... via postal. E nisso colheu muitos mais leitores do que esperava eu.
 
Há dias - e tanto para deixar de incomodar os interlocutores com o assunto como para aproveitar uma (pequena) promoção da plataforma editorial - perguntei "nas redes" se haveria ainda algum interessado, mais renitente a estes passos de aquisição via internet. Pois se houvesse uma dezena trataria eu da encomenda e sua distribuição... postal. Pagam-me, dão-me a respectiva morada, eu trato do resto.
 
E até ontem surgiram 48 interessados no meu "Torna-Viagem". 48!, fiquei estupefacto.
 
Ontem mesmo telefonei a um velho amigo, a indagar se quereria ele acompanhar-me ao lançamento do novo livro de um outro olivalense. Perguntou-me ele como ia isto do "Torna-Viagem", contei-lhe. Ripostou "estás a ver, ainda bem que alguém te convenceu a publicá-lo assim!" (fora ele, claro), um "assim" de autoedição por encomenda, sem editora, algo sempre socialmente desvalorizado. Rimo-nos. E avançou "ganhas algum taco com isto?", ao que respondi "Nada!" (tradução aproximada do inglês "Peanuts"). "És pago em ego", concluiu, sagaz. "Sim", gargalhei, sigo egolátrico, nisso por ora abonado. Para variar!
 
E, em assim sendo, para o final da próxima semana, exemplares impressos e recebidos, lá andarei eu em busca de marcos dos "Correios" a enviar livros. (E se calhar a perguntar aqui se haverá alguma boa alma, disponível para ser portador de alguns para Maputo, onde há amigos a "mandarem ir").
 
(O "Torna-Viagem" pode ser encomendado através desta ligação)
 
[Adenda: e não é que quinze minutos depois do postal já arranjei portador para Maputo?!]

16
Fev25

Pinto da Costa?

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AZ Alkmaar - 3 (2) x Sporting - 2 (1) (AP) de 2004/2005, TU - 1/2 Final - 2ª Mão

Há dois anos fui a Norte, aboletei-me em maravilhosa quinta de querida amiga, ali nas cercanias do Sousa. Nesses dias tive o privilégio (verdadeiro) de ser visitado por amigos sitos nesse acima-do-Trancão. Foi a última vez que vi o Jorge, um delicioso amigo feito na Ilha de Moçambique - com o qual nunca tive, geografia a isso obrigou, grande convívio mas ao qual me unia uma enorme empatia, que quero crer fosse recíproca. O Jorge - que morreu dois ou três meses depois, não sem antes me ter enviado uma mensagem audio, que recebi em Bogotá, a resmungar comigo devido ao meu "direitismo" exarcebado, e a qual não consigo apagar do meu telefone - já estava muito doente mas ainda assim meteu-se ao volante e foi até lá, junto a Paredes. Também foram a Cristina e o Rui, este apareceu um bocado manco, dado a lesão que o acometeu, queridos amigos feitos em Maputo. Foi para mim, neste abandono em que às vezes, demasiadas, me sinto, um dia delicioso. Sentámo-nos a tasquinhar na varanda, com a frugalidade que era, evidentemente, necessária. E falámos da vida que fora. 

Às tantas eu contei (mais) uma memória, convocando a gargalhada geral, daquelas até às lágrimas. Pois lembrei este jogo do Sporting com o AZ67, meias-finais da Taça UEFA, há já 20 anos. O qual vi num ecrã gigante na esplanada do "Eagles", na baixa de Maputo, em mesa apinhada. Na qual estava o Rui, claro. E também o Nuno, e a este convoquei então para mandar calar um pateta benfiquista que ali nos azucrinava porque perdíamos a peleja, e eu (que a última vez que me bati com alguém deveria ter 11 ou 12 anos) já estava pronto para a porrada... E no final do jogo, aos 120 minutos - final do prolongamento, já em desespero -, num canto em que até o guarda-redes Ricardo "foi lá à frente" o Sporting marcou, por Miguel Garcia, o lendário golo que o levou à final da Taça (aos 8'15'' do filme). E eu, nos então meus 90 e tal quilos, logo me encontrei, exultante, histérico, ao colo do Rui, ele um pouco maior do que eu, e ambos (ele garboso heterotóxico militante, eu também heterotóxico mas mais onírico) abraçados de beijos na boca - sem língua, sem língua....!!! -, tamanha a felicidade sentida! O que o Jorge se ria, o que se ria a Cristina, o que também se ria o Rui (ainda que tentando negar...), o que me ria eu, com tal memória! 

É a bola. O futebol. A suspensão do resto. Enquanto ela rola, os "nossos" jogam. 

Mas isso não justifica, nada justifica, que nos suspendamos nos restantes dias, sempre! Que sigamos despojados dos nossos critérios. Um simpático interlocutor veio agora ao meu mural FB exigir-me "elevação" por ter eu resmungado diante do inaceitável coro de elogios ao defunto Pinto da Costa. Por aí afora há imensos encómios ao indivíduo e também apelos desse tipo, o "respeito pela família", "pelos amigos"- como se a família não conhecesse o seu patrono e dele, e de tudo aquilo, vivesse. Como se os amigos (general Eanes, incluído, para mal dos nossos pecados) não fossem adeptos daquilo, miseráveis coniventes. E clientes, quantas vezes.

Vejo agora que o jornal "A Bola" noticia ter o Portimonense jogado hoje com o nome de Pinto da Costa nas camisolas, e que a equipa o homenageou antes do jogo que fez. E logo me lembrei de outro episódio: há cerca de 30 anos Rui Nabeiro decidiu financiar o Campomaiorense no futebol, e entregou a tarefa a um filho. O clube ascendeu à I divisão durante uns anos. Apesar do patrocínio, decerto que generoso, era um clube modesto, plantéis modestos, jogadores modestos - desses que não ganham milhões, que chegados aos 30s avançam para a II ou III divisão, disso seguem para alguns empregos não especializados. Depois uns prosseguem a sua vida, com memórias feitas, outras atrapalhar-se-ão. Um dia num jogo Campomaiorense-Porto houve sururu, e um dos modestos jogadores de Campomaior, ali a fazer pela vida (o prémio de jogo, a ansiar pela manutenção na I divisão, nisso a renovação do contratozeco), foi expulso. Cá fora contou o que acontecera, uma mariolice qualquer (mais uma) do árbitro e ele a protestar. E o guarda-redes do Porto, esse Vitor Baía que viria a seguir até ao fim com Pinto da Costa, a gozá-lo, com sarcasmo, "cala-te, ou vais para a III divisão como o Portimonense" - como fora este clube, remetido por Pinto da Costa pois se indispusera com o seu presidente, o pato-bravo local Manuel João (julgo), que tendia para o Benfica... E o pobre (modesto) do Campomaiorense irritou-se, foi expulso. 

E é esta elevação, estas "condolências", que convocam. O respeito pela corrupção, pela violência (eu lembro-me do sexagenário - ou já septuagenário - Carlos Pinhão a ser agredido em Aveiro pelos homens de Pinto da Costa), pela falsificação. Querem o respeito pelo malvado princípio "o que importa é ganhar, seja lá como for". O homem foi um escroque imundo, corruptor da sociedade portuguesa. A agora chorosa família sabia-o perfeitamente e disso fruiu, e muito. Os amigos também ... o são. "Elevação"? Como diria o Boris Vian, se vivesse nestes tempos, "hei-de escarrar no teu forno"! E nos dos adeptos de tais modos...

05
Jan25

A minha mãe

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A minha mãe, Marília, teria feito hoje - e também ontem e anteontem - 98 anos. Nascera durante a meia-noite de 3 para 4, os pais tiveram uma decisão "neutral" e registaram-na a 5. Eram assim, sempre, três dias de celebrações. E continua um pouco assim, no entre-família da qual ficara matriarca, agora que já passam 4 anos desde a sua morte.
 
É sempre difícil falar dos pais. Mais do que tudo porque não os vasculhamos, há um "evitamento" geracional (como dizem os antropólogos). E porque tendemos ao sentimentalismo. Felizmente...
 
Nasceu em Mafra. Pois filha de militar - o meu avô foi um tenente do 28 de Maio. E sobrinha de vários, todos terminados em coronéis - dizia-se na família que isso se devia a terem sido "anglófilos" na II GM, assim descurados na ascensão ao generalato. Lembro-me de em miúdo ouvir o meu pai dizer dos almoços de família que pareciam a Grécia, então sob o "regime dos coronéis". O meu avô era o benjamim, o único que não fora à Flandres. Família transmontana, sua mãe de Gimonde, às faldas de Bragança, seu pai de Mogadouro - minha mãe ufana de ser da família, dizia, o velho posto de capitão-mor (um "régulo", viria eu a dizer...). Quando fomos conhecer Trás-os-Montes, em 2013, parámos em Mogadouro - terra que tem o encanto do castelo não ter sido reconstruído. A Carolina, nos seus 11 anos, logo trouxe uma pedra das cercanias da ruína para oferecer à sua ciosa avó...
 
Casou jovem. E partiu para a Beira, enviuvando muito cedo, já com três filhos. Regressou a Lisboa, a casa dos pais, com sua prole. O que decerto lhe foi traumático. Nesse rumo não se licenciara. Veio a estudar línguas, também em Inglaterra. Era verdadeiramente bilingue - lembro-me de em São Martinho do Porto várias vezes turistas franceses se surpreenderem, genuinamente, por ela não o ser, julgavam-na compatriota casada com português. Foi secretária. Julgo que ascendeu a secretária de Ferreira Dias, então relevante presidente da CRGE (a actual EDP), período no qual conheceu o meu pai, engenheiro da casa. Lamento um pouco - mas são coisas que não se perguntam, muito menos aos pais - nunca ter sabido qual o rumo do meu pai, o ainda jovem, e pelos vistos atrevido, engenheiro a rondar a secretária das chefias...
 
Depois, já nos anos 60s, transitou para a docência. Durante décadas no INP. Mais tarde acumulando com várias instituições de formação. Disso resultaram várias publicações técnicas, as últimas publicadas pela Universidade Aberta, ela já septuagenária. Pois continuou a trabalhar até muito tarde: lembro-me do meu pai lhe dizer, algo enfastiado, "tenho 80 anos, a partir de agora não vamos de carro para o Porto, vamos de comboio", isto nas suas idas para palestras e acções de formação.
 
A minha mãe era blasé, muito mesmo. "Mãeee...", arrastava eu, para lhe cercear o rumo. Aos 90 anos, já muito débil, foi operada em São José, para lhe tirarem a vesícula - "tem 50% de hipóteses de morrer na operação" disse-me a médica-chefe das Urgências, uma bela e ríspida coronela que depois do nosso embate inicial já me tratava como (quase)igual... Aquele serviço parecia "a guerra da Crimeia", como eu lhe disse, quando já éramos amigos. Tempos depois a minha mãe, que ali padecera um pouco, foi entrevistada por um trio médico, queriam a opinião dos pacientes sobre os cuidados recebidos. Foi o último grande show que dela assisti: o médico encarregado, já sexagenário, deliciado, os outros dois estupefactos. Pois a velhinha, na sua cadeira de rodas, louvava os serviços sob o mote "são magníficos, coitados, que mais se pode esperar desta gente?", aliás o mote era mesmo um "que mais se pode esperar deste mundo?". E ficaram os dois, diante da impaciência dos médicos júniores, quase uma hora a falar de ... Racine, Shakespeare, Stratford-upon-Avon, sei lá mais o quê... Ele, repito, encantado com a evidente excentricidade, habituado que estará à ladainha dos queixumes. "Como é que correu?", perguntaram-me depois os meus irmãos, preocupados com a saúde da mãe... "Nem acreditam!!", ria-me eu...
 
Tão blasé que nos 1970s fora sondada, anunciou, pelo seu colega no INP, Henrique Barrilaro Ruas (do qual vim a ser aluno, boa sorte a minha), para integrar uma lista eleitoral do PPM - o excelente PPM de então, entenda-se. "Não aceitei, claro. O que diria o teu pai!!", ria-se, antevendo a reacção do Camarada Pimentel, cunhalista ortodoxo... Para além dos resmungos da meia-idade gostaram-se até ao fim: "os teus pais são namorados", dizia-me a minha mulher, essa que quando nos juntámos causou junto deles a minha despromoção a genro.
 
A minha mãe cultivava a família, mas não na figura típica da mãe ou avó-cuidadora. Cultuava a memória do pai - oficial e cavalheiro do seu tempo, ao que intuí. E do seu irmão mais novo - piloto de caça, sedutor, motard, repentista de carro descapotável - morto antes de eu nascer, pois o avião - recondicionado da guerra da Coreia - lhe explodiu. E adorava o seu irmão Manuel, veterinário de animais de grande porte, uma verdadeira personalidade. Teve uma filha extraordinária. E três filhos bordejando cada um à sua maneira, em busca de um bom porto. Perdeu um cedo, o Artur morreu aos 51 anos, o que muito a abalou. E um ror de netos. Entre estes tinha um particular orgulho pelo trio que obtinha (e continua a obter) particular prestígio profisssional. Mas, benjamim que sou, sei que o afecto maior lhe caía para a neta na qual tanto se reconhecia, naquilo de criar com brio e gosto três filhos (quase)sozinha. E depois vieram os bisnetos, "coitadinhos" dizia. "Porquê?, mãe!", questionava-a, "Sei lá!", resumia, na displicência de se saber já de desuso para eles.
 
Nesse apreço pela família deixou dois livros de memórias familiares. Publicados na Escher - então a editora do Vasco Santos, que também publicava os antropólogos da minha criação: Filipe Reis, Nuno Porto, Paulo Raposo e o mestre deles, Raul Iturra. "Gosto mais dos seus livros" (sempre a tratei na terceira pessoa, e ao meu pai por "tu", e ambos me tuavam, coisas...), dizia-lhe eu, com toda a franqueza.
 
Um deles é este "Receitas da Mãe" (Escher 1991), um aparente livro de culinária. Ela não era grande cozinheira - aliás, era óbvio o seu menosprezo pelo fogão, e não só por viver assoberbada de trabalho. E mesmo a sua gulodice sénior era encenada, convivencial, nicava e ecoava isso como se fosse deriva pantagruélica.
 
Deixou-nos este livro de "Receitas da Mãe" que é um depósito de memórias havidas pelos familiares, de receitas por eles vividas, acumuladas. Para que possamos imaginar quem eram os nossos avoengos, o que comiam e como andavam, um pouco do como eram... E cada receita tem uma pequena história para a enquadrar. Como esta receita de
 
"Bacalhau da Peça
 
1918 - Comido a caminho de Miranda do Douro, na noite em que mataram o Presidente Sidónio Pais. O Pai e a Mãe iam de diligência para o Vimioso; de Vimioso até Miranda do Douro seguiam a cavalo.
 
Na muda da Malaposta, em Milhão, é que comeram o tal petisco, Bacalhau da Peça. Já era noite escura. O Pai era, nesse tempo, alferes e seguia para Miranda do Douro a tomar o comando do destacamento de fronteira - era ainda o tempo da I Guerra Mundial."
 
Faz-me falta a minha mãe, é óbvio, normal. E de com ela aprender a cultivar as memórias. (E também por isso hoje procurarei uma destas "receitas da mãe" para cozinhar).

19
Dez24

Síria, via Paulo Dentinho

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Sair da Estrada de Paulo Dentinho - Livro - WOOK

É Natal, alguns compram livros para ofertar. E é também época para se ir até às estantes em busca de livros que ainda não tenham sido lidos (talvez até ofertas recebidas...). Ou para reler um ou outro, por completo ou excertos que venham à cabeça, por uma razão ou outra. Aconteceu-me agora com este "Sair da Estrada" do Paulo Dentinho - livro sobre o qual deixei um postal quando o li.

Certo, sou amigo do Paulo, vamo-nos vendo de quando em vez, normalmente refeições partilhadas em pequenos comités, dados ao escárnio e maldizer, nisso de remoermos "a questão que tenho comigo mesmo", este Portugal nossa pátria amada... E também - mais ritualmente - aos natais de cada ano, quando se junta um grupo mais alargado (e heterogéneo) de amigos e conhecidos com os quais nos cruzámos (ou não) em Moçambique, portugueses que lá vivemos e nos quais o país se entranhou, a cada um à sua maneira.

E foi lá que nos fizemos amigos - e um dos tijolos disso foi uma situação peculiar: eu já passei por algumas agruras, no meu "Sair da Estrada", que também o fui tendo. Mas nunca me acontecera, nem voltou a acontecer, estar sentado com um amigo (ele-mesmo, pois claro - então correspondente da RTP em Maputo) e virem-no ameaçar de morte: "Dentinho, aqueles ali estão a dizer que te vão matar!", os molwenes (miúdos de rua) mandados para dizer isso, e nós a levantarmo-nos da mesa para ir ver quem eram os esbirros no tal carro apontado... Isto foi uns meses antes de Carlos Cardoso ter sido assassinado, dois anos depois de Lima Félix ter sido morto, não era brincadeira. "Vai-te embora, Paulo, tens cá as filhas...", resmungava-se-lhe diante da sucessão de ameaças que recebia (aquilo dos telefonemas noite afora), e ele empertigado na sua missão de informar, renitente em sair dali: (e o problema é o Venâncio, clamam agora, um quarto de século depois e sempre para pior, os escritores alapados às benesses do partido-Estado e os visitantes de "esquerda", sorrio, cáustico...).

Enfim, divago... Lembrei-me do Paulo e do seu livro quando ouvi Morais Sarmento lamentar a inexistência de reportagens da RTP sobre Moçambique, apesar de lá haver uma delegação. Sabendo do que fala, o ex-ministro referiu que ou o correspondente não produz ou - e é o mais provável - as suas peças não são incluídas nos telejornais, por critérios da direcção de informação lisboeta. E lembrei-me das discussões tidas com o Dentinho, naqueles finais de XX. Em Moçambique havia apenas duas estações, a pública TVM e a RTP-África, então inicial. Lisboa estava muito ufana por ter a estação, pensava-a como se cobrindo o território nacional: pouco interessava que um antropólogo andasse pelo país e dissesse que não era captada nas capitais de distrito nem ... em várias capitais provinciais. Mas em Maputo - no "cimento" - era vista. E as reportagens do Dentinho tinham ali impacto. E provocavam resmungos locais, dado o tom espectacular que tinham. Lembro-me de com ele protestar devido a isso, pois causavam algum mal-estar entre os nossos "anfitriões": um caso célebre foi uma reportagem dele sobre o antigo zoológico da Beira, cujas abandonadas jaulas tinham sido ocupadas pela população, que nelas residia. E em Maputo a burguesia nacional contestava essa "imagem" passada no telejornal, eu (e outros compatriotas) secundávamos num "para quê?, Paulo, o fundamental é construir uma boa relação!", cheios de pruridos diplomáticos. E ele a resmungar, defendendo-se - e tinha toda a razão!, uma razão deontológica, jornalística, um zoo habitado por homens é exemplar motivo de reportagem, denotativo, demonstrativo.... -, nisso também referindo que se não forçasse "a nota", a espectacularidade, em Lisboa, na RTP, nada lhe transmitiriam, desinteressados que estavam de Moçambique. E isto foi há um quarto de século, bem antes do extremo frenesim da notícia "lite" que tanto agora predomina.

Enfim, entre o lembrar-me disto do Paulo e o ir buscar o livro foi um ápice. O seu "Sair da Estrada" é uma espécie de making of - bem humorado, numa escrita que realça o seu amor pela profissão, e sem "engajamentos" apatetados - de grandes reportagens em 13 países (insisto, escrevi este texto qual recensão). E tem um capítulo (entre as páginas 105-145) imensamente actual, pois sobre as suas andanças na Síria (2012, 2016), durante as quais (também) entrevistou Bashar al-Assad. São páginas que não só elucidam um pouco do que agora vai acontecendo como comprovam o seu olhar arguto sobre as realidades nas quais trabalha: "Vou agora (2012) para a (...Síria) no pressuposto, quanto a mim errado, de estarmos perante o colapso do regime..." (105), "Chadi fala-nos do radicalismo sunita crescente e dessa quase impossibilidade de continuarem a viver lado a lado com eles, como fizeram durante séculos" (110), "os seus receios quanto à agenda rebelde, "eles não são sírios, vêm todos dos países em volta" (118), "na Síria, para os combatentes que se reclamam do Islão Sunita, a corrente maioritária no país, ter na presidência Bashar al-Assad é uma blasfémia. Não só por ele ser alauíta, um ramo do xiismo, corrente religiosa pela qual têm um enorme desprezo, mas também por ele representar um regime laico e igualitário. Repressivo e brutal também." (120),  "o liberalismo de Bashar assenta no modelo chinês. Nem pensar em pôr em causa o partido. E o capitalismo sírio é apenas para alguns "amigos"..." (140). 

Enfim, uma pequena amostra de como o Paulo "apanhou" a Síria. Tal como "apanhou" (até ao osso) Moçambique. E tantos outros locais. 

Ou seja, é Natal. Compre-se, oferte-se, leia-se o "Sair da Estrada". (Caminho, 2021)

(Obrigado à SAPO pelo destaque dado a este postal)

13
Dez24

Morreu Noel Langa

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Acabo de saber que morreu agora, aos 86 anos, o meu bom amigo Noel Langa - aqui ao centro, entre Estevão Mucavele e Malangatana, numa fotografia já com um quarto de século.
 
Um pouco antes dessa época o Noel animara a sua casa, transformando-a em verdadeiro centro cultural. A minha primeira saída nocturna em Maputo, no início de 1995, foi quando me levaram até lá para ouvir jazz. Eu não fazia a mínima ideia de quem era o proprietário, o tão afável homem atrás do balcão. Nem em que zona estava: a Munhuana - o velho "Bairro Indígena", como o Noel ainda dizia, e do qual era símbolo, vim a sabê-lo anos depois, quando regressei à cidade e o conheci. Ficando então a saber que o Noel era também também dono de uma pintura extravasando uma espécie própria de candura - que nada é sinónimo de "naiveté".
 

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Deu-me a sua amizade, que agradeci reconhecido. Várias vezes visitei a sua casa - como aquando desta fotografia -, mantida como local de animação cultural, porta aberta aos jovens, mas já desactivada a parte noctívaga. Normalmente indo com Ídasse, nosso grande amigo comum. Às vezes levando grupos de visitantes, ali a encantarem-se. Outras vezes só nós mesmos, para a conversa...
 
A última vez que fui a Moçambique coincidiu com o seu 79 aniversário. Lá me agreguei ao convívio na Munhuana - um belo almoço, chiguinha, cacana e o seu celebrado "Bacalhau à Gomes de Cá", símbolo do seu repousado, de ternurento, e dulcíssimo humor.
 
O Noel viveu em paz. Que melhor se pode dizer de alguém?
 
Adenda
 

Uma entrevista concedida pelo Noel Langa ao Jorge Dias:

(Palavra do Artista - Noel Langa)

24
Nov24

O Affaire Coimbra (5): o processo colocado por Boaventura Sousa Santos

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Ao longo dos anos em blog de vez em quando abordei Boaventura Sousa Santos (em particular no velho ma-schamba). E quando, recentemente, surgiram as denúncias do seu continuado assédio sexual e moral escrevi alguns postais sobre isso - intitulei-os "Affaire Coimbra" (1, 2, 4) mas não os resumirei agora. 
 
Conheci-o em Maputo em 1997. Logo o percebi como um tipo indecente. Também com as mulheres, mas sem poder afirmar ou mesmo imaginar coisas desta gravidade. Mas era-me evidente, então nos meus 30 anos, a cagança fálica do sexagenário diante das mulheres que o seguiam.
 
Lembro-me de ter sido convidado (devido às funções laborais que tinha), um ano depois, para jantar em casa de um casal amigo, por ocasião de uma sua visita. Estavam 4 casais à mesa, junto a ele e à sua (implícita evidência) namorada. E a forma boçal como ele se lhe dirigia. Pouco me interessa como os casais se tratam entre si - quantas vezes isso é refracção, até inconsciente, da sua intimidade sexual - mas aquele autoritarismo era ofensivo para os convivas. "Caramba, à mesa está a minha mulher, que é uma Senhora, e tem de assistir a esta cena?!", pensei. E entre nós, logo no carro de regresso a casa, comentámos a miserável situação.
 
Sousa Santos coordenou um projecto de investigação em Moçambique, para isso congregando o escol nacional das ciências sociais. Ao longo de anos visitou o país, e as histórias da sua irascibilidade eram recorrentes. Eu sofrera-a, com completo despropósito, "ossos do ofício" sossegou-me o embaixador meu chefe, que era um verdadeiro Senhor.
 
O velho coimbrão disparatava com tudo e (quase) todos - talvez não fiasse fino, sempre o pensei, com uma sua colaboradora que me pareceu muito estruturada, rija, tanto que décadas depois veio a ascender a biombo do famigerado Silva Pereira. Mas o resto da corte ida de Coimbra tremia, como capim.
 
O pessoal local também sofria as iras do lente coimbrão. Um dia, tive de chamar à razão um amigo, que estava imensamente indisposto devido a (mais) uma birra boaventuriana: "ouve lá", disse-lhe, "tu não estás a ver bem! Ele lá na terra dele é apenas um professor, a merda de um mero professor. Tu aqui, na tua terra, és um órgão de soberania. Põe-no em sentido! Ou julga ele que veio à "colónia"?". E o meu amigo assim o fez!!!
 
Enfim, as histórias sobre o "Boaventura" são imensas. Muito para além da vacuidade demagógica daquela tralha toda - já o escrevi em tempos: deram-me o calhamaço "Crítica da Razão Indolente", li a introdução. Aquilo é uma patacoada, de ágil retórica mas apenas isso. Escrevi emails a um punhado de colegas em Portugal, num "já leram isto? não há um antropólogo que desmonte isto?", recebendo um timorato "não te metas com o Boaventura" vindo de um sénior da disciplina.
 
A pompa "teórica" e demagogia "libertária" dos "movimentos sociais" não é agora o fundamental. Mas é evidente que essa propaganda de um "messias teórico" de movimentos políticos lhe alimentou a ideia de "império" pessoal. Pois quantas vezes me contaram a história, que talvez seja apócrifa - mas se non è vero, è ben trovato - de ser ele recebido num qualquer encontro no pobre Brasil com "investigadoras" "activistas" em êxtase, cada uma com uma letra na t-shirt, alinhando-se depois para formarem o "Boaventura". Pois o poder é erótico e a revolução libidinosa. E BSS talvez tenha aprendido isso, já quarentão, nas suas visitas solidárias à democrática e revolucionária Albânia do Enver Hoxha.
 
Enfim, tudo isto, o "Boaventura" e o seu séquito de "activistas", seria ridículo se não fosse tétrico. Há agora um punhado de mulheres que fizeram queixa dele, do seu assédio sexual e do seu assédio moral. Serão um pequeno núcleo daqueles que ele martirizou durante anos. E daqueles que ele recompensou, já agora - entenda-se, nenhum de tantos aparecerá a dizer "pois eu ganhei este emprego/trabalho porque lhe fiz isto e aquilo".
 
Às queixas o velho coimbrão resmungou umas inanidades, dizendo-se ofendido. E agora colocou um processo a 4 das queixosas: pois às residentes em Portugal exige-lhes o silêncio e a "desculpabilização", o desdizerem-se. De uma delas, a Sara Araújo, sou amigo, distante. A última vez que a vi foi há já um bom par de anos. E conto como, pois tão denotativa foi a cena... Fui a Coimbra para o seu doutoramento, em cujo júri pontificava BSS. A sessão foi na patética de anacrónica Sala dos Capelos - a qual tanto diz sobre aquela universidade, e concomitantes práticas, de docentes e... de discentes. Depois ela ofereceu um lanche num bar óptimo na cidade que estava em voga (não recordo o nome, que era qualquer coisa industrial). Estávamos ali, em alegre convívio, família, amigos e colegas quando apareceu ele, impante de chapéu. Lembro-me de ter pensado "que pavão, não sabe que numa sala se descobre a cabeça?". Tudo demonstrando a arrogância malcriada e egocêntrica do lente.
 
À Sara Araújo conheci-a para aí há vinte anos, quando jovem investigadora chegou a Maputo, na companhia de uma outra colega e amiga. Logo a percebi imensamente empenhada, inteligente, jovial. Uma miúda giríssima (vá lá, não me acusem de mansplaining...). E completamente embrenhada nas teorias boaventurianas. Sobre as quais se veio a doutorar. Com competência e brilho - o seu "oponente" foi o António Manuel Hespanha, grande intelectual, grande académico e homem decente.
 
Há poucos meses li o seu nome no rol de queixosas. Fiquei estupefacto. "Até com esta menina ele se meteu?" ("menina", sim, eu ainda tenho a imagem dela quando recém-chegada a Maputo). Destratou uma mulher que o reverenciava? Claro que exclamei o óbvio: "filhodamãe".
 
Nesta reportagem com dois episódios do canal Now (sábado 16.11. 22.30 h.) (sábado, 23.11., 22.30 h.), a Sara dá a cara, tal como outras queixosas. Conta o acontecido, o sofrido. Com coragem! "É de Homem!" dizia-se antes. "É de Mulher!!!". O que estas mulheres contam é verdadeiro. O pior nem será, digo eu, o afago mariola. Será mesmo a devastação das expectativas pessoais e profissionais, o amesquinhar do quotidiano, a angústia sobre o futuro. E, até mais, o rombo na personalidade.
 
Boaventura Sousa Santos não é o único, nem de perto nem de longe, a usar posições de poder, económico, estatutário ou intelectual, para cometer assédio sexual ou, talvez ainda mais comum, assédio moral/laboral. Mas será o mais escandaloso, pois isto é completamente ao invés de tudo o que andou a perorar durantes décadas, diante de tanto silêncio e de tamanha anuência encomiástica.
 
E o velho, nos seus 84 anos, não tem ninguém à sua volta - família, fiéis - que lhe diga "Acabou! Vai para casa, deixa de importunar os outros. As outras!". Provavelmente porque está como merece. Só! Espero que o juiz lhe diga isso.
 
(Publicado originalmente em 18.11.2024. Actualizado hoje, para incluir ligação ao segundo episódio da reportagem).

22
Out24

As ofertas

jpt

oferendas.jpg

Como é viver velho, só (e pobre)?, é o que (não) me perguntam os amigos... E sacio-lhes a curiosidade, explicitando o processo nesta "vinheta etnográfica" (expressão ademane, querida aos antropólogos mais académicos).
 
Viver assim é seguir amparado pela solidariedade benfazeja da "comunidade", esta sempre harmoniosa. E venho sendo cumulado com oferendas, mimosos actos a quererem desalquebrar-me, aliviando-me o calvário até à Mitra. Tantas são elas que cada vez mais venho ouvindo repetidos resmungos de circunvizinhos, queixas de "o Zezé está a sempre a receber prendas, a mim ninguém me dá nada...", coisa da inveja dos abonados, esses gente sempre ávida.
 
Nunca me nego a aceitar, e faço-o com júbilo, pois tendo lido o velho Marcel Mauss sei da obrigação moral em entrar no constante ciclo de dádivas e contra-dádivas (oferecer/receber/tornar a dar/ doar aos deuses). E assim não só acolho como sempre retribuo as ofertas recebidas. Em verve.
 
Hoje é dia desses, como o comprova a mesa do meu matabicho. Um delicioso feijão com óleo de palma - trazido por casal amigo, "o próximo será com feijão manteiga, como deve ser", anunciou a sua bela obreira, dotada de ascendentes saberes e sabores angolanos. Com travo suficiente para desnecessitar do recém-chegado achar de manga, sempre glorioso, transportado de Inhambane por querida (e também bela) amiga, e que veio à mesa estrear-se. Repasto acompanhado pelos livros recebidos ontem, o recente "Nas Terras do Lago Niassa", a excelente (e bem escrita, caramba) tese do camarada Elisio Jossias. E os 4 velhos volumes de Georges Dumézil, o primeiro da trilogia "Mythe et Épopée" que não tinha - "mãe, não precisas de comprar os livros, eu fotocopio-os" disse-lhe eu na Bucholz, com os outros dois tomos (então caríssimos) na mão, e a minha mãe a responder-me com aquele seu ar determinado quando o queria ter "os livros compram-se"... E o "Idées Romaines", o célebre "L'Idéologie Tripartie des Indo-Européens", e o de bolso (PUF) "Les Dieux des Indo-Europeens".
 
E se estou algo comovido com o tão consistente livro do meu mais-novo, estou mesmo deliciado com estas prendas das amigas antropólogas (às antropólogas não as posso dizer "belas" senão acusam-me de "gender issues"). Quem lerá hoje Dumézil? Mas na minha era de estudante universitário foi o que mais me agradou - a par de Leach, claro, mas com este tinha também um apreço másculo, nada "póscolonial", pela sua coragem física e atrevimento intelectual.
 
Dumézil foi-me outra coisa - e se na época não conhecia as críticas "ideológicas" que lhe foram feitas agora estou-me borrifando nelas. Pois era-me encantador, inebriante: "Zé Flávio", disse-me depois, algo atrapalhada, a professora, que então me leccionava duas disciplinas, "importas-te de que te baixe um valor na nota desta e te suba na outra?". "Claro, é-me indiferente" - nessa época eu julgava que ser blasé era boa coisa - "mas porquê?". "É que não gosto de dar 20s", confessou a jovem... O que sempre sorrio nessa memória.
 
Enfim, com tudo isto, o matabicho do velhote foi soberbo. E porque estando só me posso atrever a estes desvios, comiscando o feijão com óleo de palma, debruado com o achar de manga, folheando os velhos Dumézil, decidi pecar e fui bebericar um tinto. Brindando à saúde dos ofertadores. E aos antepassados, divinos ou não, que nos protegeram. E protegem.

08
Set24

Uma década após Moçambique

jpt

zambezia.jpg

Esta fotografia pode ser - se assim se quiser - um estereótipo, nisso do "antropólogo" "branco" imiscuindo-se em "África" (como agente colonial, pós-colonial, neoliberal, marxista-leninista-maoísta, ou etc., escolha-se o epíteto agressor). Representado ao centro (imagem egocentrada, dele engrandecedora, indivíduo na sua completude) entre uma amálgama "autóctone", de gente assim desindividuada. Se assim interpretada dará para um "paper" (ainda por cima porque consta que o tipo, o tal antropólogo, é de "direita", até pior do que os outros).
 
Ou então, em alternativa analítica, pode ser vista como a fotografia de um quarentão (talvez feliz, e decerto sem o perceber) a trabalhar numa aldeia da Zambézia, muito provavelmente após entrevistar um grupo de mulheres, estas quase certamente a falar das "coisas de género" - e como urgiam e urgem essas problemáticas, pois tanto mais sofrem as mulheres (e também por isso me irritam estes euroburguesotes a reduzirem o "género", a favor ou contra, às questões de implantes e amputações de pilinhas). Sendo esta umas das múltiplas fotos feitas após as sessões, para gaúdio geral - eram os tempos em que os "celulares" com câmeras ainda não se haviam disseminado. E, como tal, não dando para o tal "paper" "póscolonial" (sem hífen), mas mera matéria de memorialismo.
 
É uma boa memória. Faz hoje (8.9.24) exactamente uma década que parti de Moçambique. Acabara de me tornar cinquentão - nisso me deprimindo. Após 18 anos no país o rumo laboral conjugal convocara o regresso ao "velho continente". E larguei o "contexto" que tão bem calçava. Na véspera da partida separei-me, nisso inflectindo para a minha "pátria amada", um inesperado (ainda maior) descalabro.
 
Sem pingo de sarcasmo recordo que aqui cheguei como milhares de compatriotas o haviam feito 40 anos antes. A situação global era muito melhor. Nem tanto a individual: sem "local de recuo", nem sequer "contentor", tamanha a despreparação em que incorrera.
 
Tal era o meu desnorte que nem me lembro bem daqueles primeiros meses, apenas laivos: um congresso africanista em Coimbra, para onde fui no dia seguinte ao regresso, pois estava inscrito, eu em frenesim absoluto, tamanho o "stress" em que vivia, e estupefacto com a mediocridade circundante. Da Ana, minha querida amiga/colega/veterana de Moçambique, me dizer ao fim daqueles dois dias de Lusa Atenas, vendo-me desampararado na sessão festiva final - e com um ou dois uísques a mais para o que naquelas minhas condições poderia aguentar - entre uns bacocos póscoloniais de jargões armados, "Zé, aqui (Portugal, entenda-se) nunca encontrarás a tua mesa de Maputo" (que ela bem conhecia), explicitando a vacuidade lusa face à densidade "de experiência feita" a que estávamos habituados.
 
E sim, o frio, abrir o roupeiro, tirar uma camisa e ao vesti-la arrepiar-me do gélida que estava. A burocracia letal, a esmagar-me. Esquerdalhas a clamarem pelo "empowerment" e a abespinharem-se quando o mais-velho lhes propunha usar "potenciar", sinal de que era eu um vero fascista. Investigadores financiados a considerarem que os problemas pátrios (ou mesmo do mundo) se condensavam no conceito "Passos Coelho". Mas, muito pior, a solidão do desamor, conjugal, e a distância filial.
 
Felizmente tive um muito competente "IARN"... A minha família, acolhendo-me como filho pródigo (que literalmente era), nisso ainda a minha mãe (que nada me perguntou sobre o meu desarrumo, sua elegância materna). E uma alargada "velha guarda", amigos que são mais do que verdadeiramente consanguíneos. Comovo-me, não pela efeméride (raisparta esta...) mas ao pensar neles. Obrigado, "camaradas e amigos".
 
O ano passado os meus compadres Pedro e Catarina levaram-me à Colômbia. Descobri que ainda cá estou. Mais magro do que nesta fotografia. Mais velho, agora mesmo mais-velho sexagenário. Mas ainda digo, voltei a dizer, "avante". Obrigado Pedro, obrigado Catarina.
 
Enfim, por isso "Avante!", para mais dez anos!
 
(No dia da partida, há exactos dez anos, deixara esta despedida: A Papaia)

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Livro Torna-Viagem

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