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Nenhures

Nenhures

Início do ano lectivo

(Frank Sinatra, Quincy Jones: Mark the Knife [1984])

A Escola serve apenas para formar cidadãos. Patriotas, se em democracia. E cidadãos do mundo, se em boa democracia. O resto, o âmago e o invólucro, o "indivíduo", é matéria-prima para Família & Associados.

Num hoje chuvoso, início de Outono, arranca este ano lectivo, sarcasmo celeste. Nos seus 10 anos um rapaz começa o "liceu". Todas as gerações elegem os seus Modelos, mí(s)ticos, suas melodias e dissonâncias, meneios e desconcertos. Deixo-lhe esta "Mack the Knife". Que ele venha a apreender esta Naifa, as suas camadas de sentido, os nossos Modelos que a empunharam entoaram trautearam, tudo o que constituiu algo que parece tão simples, mera canção ... E assim fruir, esta canção e tanto do imenso circundante. Tornando-se, pois assim capaz, um cidadão competente. E um indivíduo interessante. Quanto ao resto?, isso da bondade? Isso já serão opções próprias. Pesada responsabilidade, sabemos nós, os mais-velhos ...

Boa sorte, puto!

6 meses após o confinamento

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1. Hoje é 13 de Setembro. Há exactamente seis meses que a minha filha chegou do estrangeiro e nos confinámos a sul do Tejo, em casa de amigo, acolhidos por um grupo no qual vários são de "grupo de risco". A angústia era enorme, e muito porque não sabíamos ainda dos efeitos que a doença teria nos jovens.

Alguns dias depois um amigo pediu-me um texto sobre a minha experiência, destinado a um "observatório" que agregaria algo como "etnografias do Covid-19" em vários países. Eu sou muito mais "reactivo" do que "pro-activo" (aquela dicotomia de jargão que vingou há alguns anos). Logo li o primeiro texto português ali incluso, de um colega meu ex-professor. Que utilizava a epidemia para dizer horrores de Johnson, do Brexit e de Tatcher ("what"?). E juntava-lhe, em fruta cristalizada, que Portugal vivia a melhor situação económica desde ... Afonso Henriques ou coisa parecida. Fiquei desaustinado, passei horas, à noite, caminhando na quinta na qual me refugiara bramindo impropérios contra tamanha indignidade. Intelectual. Depois, porque sofro de verborreia aguda, escrevi um texto de 40 e tal páginas, sob o mote "para melhor está bem, para pior já basta assim ...". E vendo a predisposição geral para a redução das liberdades, individuais e colectivas, no que é sumarizável como o incremento da estatização cultural. O amigo que mo encomendara não terá gostado mas uma dúzia de outros amigos foram solidários e leram-no, e recebi até dois ou três telefonemas ("está porreiro"). Desse arrazoado algumas coisas recordo:

a) o elencar das incoerências iniciais e subsequentes do governo e Estado (as quais continuam) - talvez as duas maiores tivessem sido o PR e o MNE a afirmarem a impossibilidade/improdutividade do fecho das fronteiras, e a directora da DGS a apelar a que visitássemos os lares de terceira idade no exacto dia em que Espanha (talvez o país europeu com pior desempenho governamental nesta crise) os encerrava. Entenda-se, o funcionamento das instâncias estatais foi suficiente mas vivemos - e ainda vivemos - um festival de demagogia, naquilo do "o milagre é Portugal" do flaneur Sousa.

b) o relato de uma conversa com um familiar que é um médico excepcional, tida dois dias antes de me encerrar. O qual me disse que logo nas primeiras horas após o apelo da Ordem para os membros se voluntariassem para actuarem nos serviços contra a epidemia mais de 1000 o tinham feito (sobre o posterior lema da "cobardia" médica está tudo dito). E que o confinamento iria ter custos sanitários enormes, dada as delongas e interrupções nos tratamentos, o evitamento dos hospitais em situações de urgência e as doenças adquiridas e/ou potenciadas pelo confinamento dos mais frágeis (sobre o acréscimo de seis mil mortos está tudo aventado).

c) a insuficiência das leituras ideológicas a la carte. De imediato os furiosos "alterglobalistas" e o coro "idiotista" argumentou que os adversários das estratégias de confinamento eram os "liberais", aliás "neoliberais", o famigerado "liberalismo epidemiológico" que tantos Doutores e doutores acenaram. Mas, de facto, os poderes mais conhecidos que tentaram uma via sem confinamento foram o brejnevista bielorrusso, o (ícone) marxista nicaraguense, o mercantilista Trump (coarctado pela estrutura federal do seu país), o fascista brasileiro (também um pouco isso, ainda que não tanto) e o social-democrata sueco. Ainda assim, nem o meu ex-professor nem os outros doutos furiosos anti-liberais fizeram adendas às suas proclamações. Pois o real não lhes interessa, só mesmo as certezas próprias e os meneios com que as embrulham.

2. Passaram seis meses. E quantos ziguezagues estatais face à crise, talvez impossíveis de evitar na totalidade mas decerto que muitos deles possíveis infundamentados. Mas todos os dias continuo a ler um punhado de patêgos, quais pobres fiéis dessas igrejas evangelistas, clamando contra tudo o que sejam cuidados com a epidemia. Estes sim "liberais", prosélitos disso. Não percebem, por crença e por aguda deficiência intelectual, que se trata de uma decisão moral. Em termos gerais, independentemente de maior ou menor rigidez nas práticas, não queremos (a sociedade não quer) correr riscos, não aceitamos a ideia de que não fizemos nem fazemos tudo para evitar que os nossos mais frágeis morram. Tem impactos económicos, tem dimensões políticas. Mas não é só isso. Ainda assim todos os dias os militantes evangélicos têm algo para bramir. O seu vácuo. Intelectual, a sua incapacidade de perceber o que está em causa.

3. Passaram seis meses. Os lares vão sendo contaminados, com maior ou menor gravidade. Há pouco falei com duas enfermeiras que assistem um lar, abordaram a meu pedido as extremas limitações com que vivem, na família, no trabalho complementar, no quotidiano, para reduzirem os riscos de contaminarem os seus pacientes idosos. Mas ainda assim a clausura completa é impossível, e os focos vão surgindo. Por exemplo este, na Ericeira próxima de Lisboa, fórum do surf juvenil, capital do peixe maturado, moradia de ex-primeiro-ministro. Septuagenários, octogenários, nonagenários, centenários, estão hiper-confinados, em extremo risco. Há meses sem contacto físico e, depois, extremamente mitigado com os seus familiares. Alguns já inconscientes desta situação nacional e internacional, outros pouco conscientes, até porque desprovidos da totalidade de informação pública. E metade dos residentes já infectados. Como estarão, com que angústia, desconforto? Que peso psicológico, que efeitos depressivos, degenerativos, os deste seu ensimesmamento?

E como estarão os familiares, até os (já poucos) amigos que lhes restam? Qual será o estado de espírito? E pergunto-me também, quanta paciência terão estes familiares, cidadãos informados e conscientes, para continuarem a aturar esta mole de taralhoucos que, todos os santos dias, continua a bramir contra os cuidados diante dos perigos de infecção, contra os cobardes que por aí andam, clamando "que já não há homens como antigamente", etc.?

A minha filha e a minha irmã não me deixam escrever palavrões nos blogs (e no FB). Mas a minha mãe não lê em computador. Por isso não me preocupo, ide bardamerda ó "ideólogos" da treta ...

Eu

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Faz hoje um ano que me morreu grande amigo de quem me distanciara. Há dias, poucos, morreu-se-me um belíssimo amigo ... de quem me distanciara. Ontem morreu uma linda amiga ... da qual mantive a distância. Um tipo romanceia-se, autoretrata-se, opina, propagandeia-se, às vezes qual sensível, outras cáustico como se lúcido, assim pertinente. Mas, bem no fundo, não passa de um traste. Pois desatento, inútil no egoísmo. Chega. Vou ali, algures, ver se dou algum préstimo a este. Desenvergonhar-me. (E desopinar, claro).

Fiquem bem, neste nenhures.

Festa do Avante no Covidoceno

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Festa do Avante? Vejo aqui uma fotografia da Feira do Livro de Lisboa e sorrio, gente amontoada. Leio que Sousa, o patético presidente da maioria dos portugueses, invectiva um serviço do Estado (a DGS), assim esvoaçando, pusilânime, sobre o aparelho de Estado, para não afrontar a tutela política, o governo. Leio também que lhe respondem, que não há publicações das directivas da DGS para outros eventos ("toma e embrulha, ó Sousa"). Também leio que o PCP não deveria realizar a Festa durante este covidoceno. Que é aquilo que eu penso, não por causa dos perdigotos mas porque maior demonstração da incoerência deste governo não há, "uns podem, outros não ..." é a imagem que fica de tudo isto. Mas nisso terá o PCP razão, o problema é mesmo o da atrapalhação estrutural destes mandantes (aquela senhora das pregadeiras que nos mandava visitar os lares, lembrar-se-ão as pessoas disso?, e que protestava contra o fecho das escolas ... a ministra que não mama copos sem máscara, etc.), da taralhouquice desta elite, apardalada.

Enfim, Festa do Avante? Faça-se. O Covid irá crescer um pouco, com ela ou sem ela. Sousa & Costa continuarão a ser muito bem aceites (Rodrigues faleceu-se no caminho, mas isso são danos colaterais). O meu problema com a Festa do Avante? Não são os perdigotos. É este:

Fui à festa do Avante desde o início. Pois o camarada Pimentel, apesar das suas suspeitas quanto ao desvio de direita "eurocomunista" de Berlinguer - tal como o de Carrillo e, também, também ..., de Marchais -, acompanhara-me diante dos italianos Area na FIL nesta hendrixiana "Internacional" e, no ano seguinte, deixara-me assistir a Eugenio Finardi, aí já ombreando com os míticos Fairport Convenction e outros.

Naqueles tempos a Festa do Avante conjugava gerações, a gente aterrava ali a beber durante três dias (e a fumar que se fartava, vá lá, que também era verdade), a "camaradar" entre nós e com os mais velhos dali, os camaradas mesmo, aqueles voluntários dos pavilhões regionais a rirem-se dos nossos "camarada" e nisso a serem camaradas, no servirem/ajudarem às cervejas e comes, para nos manterem em pé, e mesmo assim nós por vezes a desconseguirmos ... Nisso a gente, em tempos tão diversos, via pavilhões do mundo inteiro (o comunista, claro) e do resto do país, nestes com os petiscos locais, jogava-se xadrez com os macro-grandes mestres soviéticos e ouviam-se inúmeros músicos de todos os lados, desde os desconhecidos, e alguns que músicos!!!, e os Dexys Midnight Runners (que concertão), aquele Chico Buarque (no apogeu!!, ainda que trémulo por questões lá dele, biográficas), o Manu Dibango (Manu Dibango em Lisboa naquele tempo? tão raro que me obrigou a voltar àquela Festa, já anos depois de me ter recusado a frequentar aquilo), o rock celta então em voga, proto-etnomusic de então, o Ivan Lins provavelmente no melhor concerto da sua carreira (com a belíssima mulher de então, uma loura Lucinha a alumiar Lisboa), Jorge Pardo, o fantástico "corno" de Paco de Lucia, num pavilhão menor numa actuação inesquecível da qual nada recordo, Makeba sem eu saber quem era Makeba, o gigante Luis Gonzaga diante de uma audiência que não o sabia ouvir, Charlie Haden a enfrentar um público estupefacto e também Max Roach, e tantos outros, ali todos os anos polvilhados pelo discurso quase final do camarada secretário-geral, o grande Cunhal.

Foi mesmo isso que me acabou ali, no cruzar a chegada aos 20 anos, na azia, enorme, de ver que nenhum Godinho ou Vitorino, sempre cagões - e ainda hoje - com a puta da liberdade na boca, como se dela fossem arautos, dedicava alguma canção, pequena que fosse, àquele Sakharov então sob custódia, e das duras, que o Ary dos Santos, poeta histriónico gritador de poemas diante de milhares, nunca lembrava os homossexuais perseguidos (e bem fodidos) nos países lá deles. Um dia, sei lá quando, mas depois dos The Clash no Dramático de Cascais, irritei-me mesmo com a merda do público a cantar o hino nacional (sim, o bacoco "às armas") de punho direito erguido, "que faço eu aqui?!" qual Rimbaud na Ajuda, e, foda-se, nunca mais lá fui. Os gajos, mesmo aquela turba simpática, o povo d'aquém e além-Tejo, eram, e mesmo sem o saberem, pobre gente alienada (como dissera o tal Marx), e nisso o inimigo. Vil. Segui para outros concertos, mas nunca festivais.

(O trecho da minha memória da Festa do Avante fora já colocado neste postal)

 

Clube Naval

clube naval.jpgMagnífico almoço no Clube Naval, o melhor sítio de Lisboa. Com enormes amigos, e amparado com Amber Leaf e Famous Grouse. Os golfinhos do Tejo passeiam-se incessantes. Que mais pode um homem pedir?

O futuro

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Sexta-feira, são para aí 2 de manhã, subo a Guerra Popular vindo do Kampfumo, viro à direita, e sigo já na 25 de Setembro, e toca-me o telefone, surpreende-me a esta hora, até em quase susto, mas vejo que é um camarada, encosto para atender mas já (sub)entendi pois acabei de cruzar o África-Bar de esplanada apinhada e decerto que alguém ali me terá visto passar neste meu vetusto e rejubilante Ssangyong, o rino Musso. E assim é, ele, até parente, num "mais-velho, estamos aqui, e à tua espera ...". E logo salto do arção, avanço para esse tal ali, tanta gente que o gang da antropologia se refugiara no átrio do Cine-África, tudo de 2M na mão, eu vindo dos uísques lá dos CFM e assim um pouco desarmado mas algum mais-novo logo me traz companhia, durante as risadas do "onde andavas tu, mais-velho?" enquanto eu junto a boca ao gargalo recém-chegado, e a vida é assim, corre, afinal sou o único quarentão no círculo, onde abundam ex-alunos agora, e até desde há já muito, colegas.

Festiva a noite continua entre conversas flanantes, festa ombreada. E alguém chega, de todos eles conhecido, jovem trintão, um palmo maior do que eu, para cima e de ombros, que não de barriga, e ali colhe grande e geral agrado, rodada de abraços, daqueles das palmadas nas costas. Diante de mim aperta-me a mão olhando para o quem do lado, e eu, o tal mais-velho, na noctívaga variante bem-disposta, digo-lhe em sorriso jocoso "pá, olha para mim quando me apertas a mão!". O que fui eu dizer!, o tipo investe "que é que tu queres branco de merda!" e por aí em diante, sempre para pior ... Estanco, de tão surpreso, deste modo nunca vira isto nesta terra! Racismo aqui? Sentira-o, muitíssimo, nos tempos em que aportara, mas cuspido por moçambicanos brancos, invectivando-nos "tugas" como se peçonhentos, algo execrável mas contextualizável, daquela tribo sentida como desamada, mas assim nunca ... E tranco, enquanto ele é logo afastado, rodeado num "então, calma, é o Teixeira, o nosso mais-velho!". 

Tiram-no do átrio, esse que em tempos anteriores foi vivido como foyer, e planta-se ele no passeio ainda desabrido. A mim não só me amornou como azedou a 2M, e pergunto(-me) "que é isto? quem é este gajo?", e um dos meus mais-novos esclarece, "é nosso colega, de Economia, fez o mestrado em Portugal e diz que lá sofreu muita merda", e eu disparo, "e o que é eu tenho a ver com isso, caralho?!", filhodaputa, professor universitário ainda por cima …

Mas o tipo não se cala, sonoro nas invectivas, e forçam-no a recuar até ao separador das vias, apinhado de carros pois tantos os clientes que enchem a rua. Ali encontra pedras e paus, que brande em gritaria, ameaçando-me, que já estou na breve escadaria da entrada. E nisso, sem que eu o esperasse, algo se me quebra, perco a cabeça como nunca me acontecera, pois uma merda destas eu não aceito, não posso aceitar ... E avanço para ele, a passo cruzo o passeio e a rua, só depois imaginarei o que toda aquela multidão terá pensado do maluco daquele "branco" ou "tuga", nestas condições assim ali quase-único, ou mesmo "velho", que já estou encanecido, a avançar para um louco aos gritos com pedras na mão num "atira lá, meu cabrão!". A meu lado, logo, C., que é, sempre eu o disse, como se um príncipe, e o mais influente da sua geração, num "calma, Teixeira, calma, mais-velho", e o sacaninha, cobarde, nos gritos a atirar as pedras e paus, às minhas nove horas e às três horas, e depois às sete e às cinco, e eu avanço-me, no passo a passo descerebral, e é ele rodeado, enfiam-no num carro e lá segue à vida.

Semanas passam, surge o jantar final do ano lectivo, em casa de colega, um tipo porreiro. Connosco alguns dos finalistas, agora novos doutores também. E de súbito entra o tipo, com a mulher, afinal é ali família. Fico estupefacto, numa amálgama de sentimentos, é certo não poder desatinar pois sou convidado e a anfitriã está presente, e dever-me-ei retirar, ofendido?, mas não deixo de pensar, "oops, agora, sem aquela adrenalina toda, o sacaninha parte-me todo", e até penso que ele virá dizer-me, mentindo claro, "professor ou teixeira, desculpe lá, havia bebido demais". Mas nada disso, ele apenas me fita, com sarcasmo, em injúria altaneira, supremacista ... 

Janto, converso, rio, pois é festa e também minha. Entretanto o casalinho sairá. Nisto fui fumando na varanda, olhando a Drenagem. Sem deixar de pensar, entre outras coisas, que aqueles meus queridos amigos não sentem nem percebem o quão inadmissível é juntarem-me com aquilo. E, pior, o conviverem eles com aquilo. Porque isto não é apenas o passado. É o futuro, compõe-no.

Não tenho culpa. Nem aceito castigo. E, aqui, agora, para o negar podem chamar os demagogos, letrados, atrevidos. Esta pobreza da gente da "petty-corruption".  Que eu avançarei, na mesma. Passo a passo. Desde que, claro, perca a cabeça.

Uma colecção de leituras

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Na minha conta da rede Academia.edu tenho colocado colecções de textos que fui escrevendo ao longo dos anos, prerrogativa de velho. Agora mesmo coloquei uma a que chamei Leituras sem Consequências (basta aceder/"clicar" para se poder gravar, caso haja interesse).

Nesse pacote juntei cerca de 30 textos, na sua maioria dedicados a livros centrados em Moçambique. Alguns serviram para as minhas comunicações nas sessões de apresentação desses livros, outros foram artigos de jornal, alguns outros postais de blog, mais ligeiros mas aos quais ainda encontro algum interesse. São assim todos textos de ocasião. Ficam como memória de boas ocasiões. De boas leituras, bons convívios.

Ordem Moral

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Obtido o visto de entrada, o comboio levou-me além-fronteiras, até ao planalto de Saldanha, que não atingia desde o advento do Covidoceno. Cotovelo amigo acolheu-me e ombreou-me no Nimas a ver em plena manhã o "Ordem Moral", um belo filme de Mário Barroso. Depois cruzámos a 5 de Outubro, zona de serviços em teletrabalho, com escassas máscaras ambulantes por ali vagueando. Trocámos meia dúzia de novidades, mortos e desgraças, da terra índica que nos acalenta. Acabamos o mata-saudades em tasca operária já no morro dos Olivais, dados à meia dose e imperial. O companheiro avança à sua vida, eu agito o chiripiti, como se esconjurando os maus espíritos. Faltam acácias, rubras. Mas não se está mal ...

Rumo à sexta capicua

Neil Young & Crazy Horse - Hey Hey, My My ( Into the Black ) live 1991 HD

Lamento mas a minha quinta capicua acabou, resta-me a via para a sexta, se a Sorte me apoiar. Foi um "grand finale", nas belas primeiras sardinhas no Gafanhoto jagoz com a sunshine of my life, apple of my eye, como cantou o piroso Stevie, ela resguardada dos meus devaneios por trio de (nunca)tios da velha guarda olivalense, seguindo-se visita à minha mãe dela avó, encarcerada pela maldita gripe, meia hora mais bónus, e o retorno ao bairro matriz a acolher boa garrafa de vinho oriunda desse a quem comprei o meu VW nos anos 80s, além de uma antiguidade Chivas, advinda doutro desses vetustos, e mais seguimos a preencher a esplanada, já nossa desde os 70s, agregando parentela espiritual, conluiando-nos entre padrinhos e afilhados, terminando-nos em núcleo duro face ao frango take away regado de piripiri industrial e dos conteúdos das tais garrafas, e ainda de outras ....

Alguns deste nós já estavam na minha primeira capicua, todos na segunda. Nesta seguia eu ainda titubeante, mas já em alergia a tantos desses que então esvoaçavam alardeando "conceitos" de lavra própria, jargão da época, pateta gente que se queria iluminada pois pavoneando-se "dandy" julgando que para tal bastaria ser "blasé", e escorando-me eu nesta minha tribo, bem alheia a tais meneios. Depois as capicuas sucederam-se e a minha via seguiu por outros lados. Regresso agora a casa, à minha gente. Alguns vamos trôpegos, outros balançamos, até demais, caímos por vezes, até caídos seguimos. Há vezes em que nos morremos. Mas não nos meneávamos dantes. E não nos meneamos agora. É uma cultura, local, "tribal". Superior.

Sigo para a sexta capicua. Não com muita força. Mas sem meneios. E sem pinga de paciência para meneantes, aqueles dos ademanes. Os das culturas inferiores. E, mal de mim, também para aquelas dessas ....

 
 

Mil Desculpas (sobre o racismo)

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Na primeira semana de Setembro de 2001 realizou-se em Durban a 3ª Conferência Mundial contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e a Intolerância Correlata, uma organização das Nações Unidas comissariada pela muitíssimo respeitável Mary Robinson, então Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. As duas conferências anteriores haviam acontecido em Genève, em 1978 e 1983. Tinham decorrido  - para além da conflitualidade internacional típica daquele final da Guerra Fria - num ambiente intelectual dinamizado pela Década Internacional contra o Racismo e a Discriminação Racial (1973-1982), avesso à continuidade da noção de "raça" como mecanismo classificatório e enquadrador de políticas públicas e indutor de práticas individuais e colectivas, no intuito de "isolar e expurgar as crenças erradas e míticas" em que ela assenta e, por sua vez, dinamiza.

A conferência de 2001 integrava-se no "espírito" de proclamações simbólicas e acções articuladas que a ONU perseguia então: 2000 como Ano da Cultura da Paz, e a Década pela Cultura de Paz e Não-violência para as Crianças do Mundo (2001 – 2010), entre outras. Podemos agora sorrir, com tristeza, sabendo o que foi a história do início de XXI mas nisso não desprezando os esforços institucionais para a promoção de melhores rumos.

Alojar a conferência em Durban, descentrá-la das sedes dos serviços da ONU, só por si era significante. Esta opção pela África do Sul, bem como quando no ano seguinte se alojou em Jhb a Cimeira Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, uma década passada desde o fim do vicioso apartheid que a tornara um país pária no contexto internacional - tal como Portugal o fora nos últimos tempos do Estado Novo -, era uma vénia ao esforço do ANC, do seu ícone Mandela mas também do então líder Mbeki, para suster a conflitualidade interna enquadrada por classificações raciais e também étnicas.   

A época continha grandes mudanças e também esperanças. Democratizações políticas haviam-se generalizado e o modelo económico liberal estrito era posto em causa, intentando-se o molde de "desenvolvimento sustentável". Nas últimas décadas o crescimento económico e o desenvolvimento correlato mundializara-se, com os "(novos) tigres asiáticos" (Filipinas, Indonésia, Malásia, Vietname, Tailândia) a juntarem-se aos "tigres" iniciais (Coreia do Sul, Taiwan e as cidades-Estado asiáticas), processo globalizador que depois viria ter efeito geoestratégicos sinalizáveis no epíteto "Brics" - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul assumindo-se como potências mundiais - e na afirmação das "relações Sul-Sul". Gigantescas mudanças que levantavam também conflitualidades (intra-estatais e internacionais) agregáveis na temática daquela conferência.

Mas mais explicitamente alguns cenários eram matéria óbvia: em vários continentes populações florestais, sempre desprovidas de meios militares suficientes, continuavam (e continuam) a ver os seus territórios devastados por entidades cleptocráticas; na Índia refulgia o fundamentalismo hindu; a explosão do capitalismo chinês incrementara a colonização han do Tibete (país que Robinson visitara 3 anos antes); no nosso "próximo e médio oriente" minorias religiosas e linguístico-culturais eram (e são) perseguidas e ocupadas. Na Europa vivia-se o rescaldo da guerra "étnica" dos Balcãs. E em África pouco tempo passara sobre o inenarrável genocídio ruandês, que tivera ondas de choque no então Zaire, promovendo a tétrica guerra congolesa que estava em curso, e assim continuou. Como estava a longa guerra sudanesa, que veio a provocar a cisão do país, processo insuficiente para a paz. E um gigantesco etc. de conflitos agitando as antinomias raciais, étnicas, nacionais ou como se lhe quiser chamar. Identitárias.

Em 2001 a internet era muito pequena e os motores de busca bem diversos. A comunicação não fluía como agora, e os mais novos nem imaginam isso. Em Maputo, via tv por satélite, segui o que me foi possível a conferência na vizinha Durban. É agora interessante recordar que organizações da "sociedade civil" americana levantaram a problemática da discriminação racializada na justiça dos EUA. Mas, de facto, duas problemáticas dominaram, em termos de eco público e de dinâmica interna à conferência. Uma foi a questão palestiana, uma pressão de países árabes que levou ao abandono de Israel e dos EUA - e, assim, a um real enfraquecimento dos resultados possíveis da reunião. 

A outra questão mais sonante foi a reclamação de várias delegações governamentais africanas - e é interessante recordar, sem ser economicista, que isto se passou na era em que o Clube de Paris promoveu um gigantesco perdão de dívida em África -, que exigiam o pagamento de indemnizações aos países "ocidentais" por causa da escravatura. 

Neste ambiente de conflitualidade, sufragando o afunilamento das questões, a higienização de inúmeros processos mundiais, a mistificação da história (num efectivo processo de "imaginação do continente" africano), a reunião teve os seus efeitos por muitos desejados. Ou seja, poucos ou mesmo nenhuns. Ainda por cima, 4 dias depois do seu final aconteceu o atentado em Nova Iorque e as atenções muito se desviaram. Mas mesmo naquele momento fui sensível àquela efectiva pantomina, no sentido de oportunidade propositadamente deitada fora.

Naquele tempo eu não conhecia o bloguismo, escrevia textos e enviava-os a alguns amigos por e-mail, alguns deles até caridosos o suficiente para me lerem. Assim, e logo em Setembro de 2001, escrevi este texto "Mil Desculpas". E um mês depois de começar a blogar coloquei-o no ma-schamba, em Janeiro de 2004. Agora torno a colocá-lo, apesar de ter 19 anos. É um texto sarcástico, e sei bem que o sarcasmo não funciona, não tem efeitos produtivos em quem o lê (ou ouve). Mas eu não escrevo (não blogo) para ter efeitos produtivos. Faço-o como catarse. Às vezes, como neste caso, como catarse do desprezo. Que me é tão necessário que também integrei este texto, mesmo que excêntrico, numa colecção a que chamei "Ao Balcão da Cantina", 50 crónicas da minha vivência de 18 anos em Moçambique (quem se interesse bastar-lhe-á "clicar" e gravar):

*****

Mil Desculpas

Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.

Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui há, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, enfim, que pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que até foi pior nem que seja por mais recente.

Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso que já se quer ir embora, também eu insisti muito e ela só veio para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, apenas ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.

É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, tenho que marcar reuniões para depois, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para nos ouvirem, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.

Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.

A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer documentos mas vim sem a carteira, só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Às pessoas com quem vou falando é que não poderei vir a dar, bem que lhes peço as moradas para ir depois lhes entregar pessoalmente o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam de mim. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os marcos que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim...

Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.

Eu agora vou até ali à Praça da Independência, aliás lá na Fortaleza tenho que pedir redobradas desculpas, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.

A rapaziada amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito...Ir até ao núcleo ver as novas obras?...é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas desculpem hoje prefiro ficar por aqui, na baixa, olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo fez, mandou fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande... Ó Ana, que é isso?, não aconteceu nada aqui ao Texeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, diz-me um poema.

Vejam, como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me...? ...chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver ...? nada, quem sou eu ... não resolvo nada... a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves... não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me...

********************

Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.

Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro... O qué? ... o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, eu cá sigo o meu Governo, o meu Estado, muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas por isso, é pá, essas ficam para daqui a umas décadas.

Qué?...afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não...também vocês, têm cada ideia!

Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.

[Setembro 2001, a propósito da Conferência Internacional sobre o Racismo, Durban]

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