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Nenhures

Nenhures

Berlusconi

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Em 1994 durante meses trabalhei na missão de observação eleitoral das primeiras eleições democráticas na África do Sul, nas quais Mandela ascendeu a presidente. Foi um período magnífico! Se conflitos e temores subsistiam tudo isso coexistia com o enorme alívio no final daquela maldita ditadura racista e uma alegria esfuziante no dia-a-dia, traduzindo uma vaga de esperança em melhores futuros. A qual, naqueles últimos anos, se vinha espalhando num vasto alhures. Ao sul da África a Namíbia tornara-se independente, a paz aportara a Moçambique, o delírio sanguinário mugabiano havia amainado, em Bicesse prometera-se uma paz em Angola. Esse alindar da coisa mundial viera desde quinze anos antes com o sucessivo descalabro dos fascismos da América latina, encetado com o triplo "Sandinista" dos The Clash já pós-punk, o qual nós, portugueses, mais acompanháramos na comoção do "Directas, Já!" brasileiro. Depois, entre Glasnot e Perestroika, findara o perverso comunismo europeu, que tantas mentes e almas corrompera por cá (e ainda corrompe, malevolência zombie …) e o receio - pavor mesmo - da guerra nuclear desvanecera-se. Mesmo o malvado comunismo colonialista chinês aparentara abanar no massacre estudantil de Tiananmen – esse, há que dizê-lo, ainda hoje nunca evocado por tantos, debruçados no demoníaco abismo do seu pensamento abissal. O hediondo maoísmo cambojano estava em estertor florestal - e sobre esse país mártir muita coisa tétrica então ouvi, nas horas dos inúmeros uísques, de colegas ali observadores das Nações Unidas, vários deles macerados após por lá terem trabalhado durante anos. Tudo isso, e o findar mundo afora de tantos outros "conflitos de baixa intensidade" - como a insensível literatura europeia os chamava -, catapultados pela luta entre os ditos “Leste” e “Ocidente”, trazia um grande optimismo. Democratizador. Nisso também fruidor.

Certo que aquele ali tão festivo Abril eleitoral foi também o da hecatombe ruandesa, surpreendente e total supra-sumo da maldade racista. Mas estávamos tão embrenhados naquela missão - e do resto alheados, naqueles tempos pré-internet e mesmo ainda dos velhos rádios Motorola -  que só já em meados de Maio, regressado a Portugal, tomei consciência daquilo, não só contra-senso mas também, assim o parecia, contra o sentido da história de então, por titubeante ou mesmo imaginário que este viesse. Entretanto, se na Europa ardiam os Balcãs, e de que sanguinária forma - como me narrava o meu parceiro de missão, um francês com quem partilhava casa, mesa, carro e bares, que lá trabalhara durante dois anos na Cruz Vermelha - o optimismo geral presumia essas dores apenas como se parto de algo melhor. No fundo, então, e como disse Álvaro Guerra nas suas belíssimas "Crónicas Jugoslavas" (1996), "O certo é que eram raríssimos os que se atreviam a encarar as ameaças do futuro".

Nesse ambiente o único trajecto algo divergente, ainda que nele pouco tivesse atentado, veio-me de um colega italiano, Andrea, um tipo da minha idade, economista algo viajado, vindo com a bonomia daquele que avança para rotundo e calvo, por estereótipo que seja... O que dele mais recordo foi o final de tarde do domingo 1 de Maio, regressando eu a East London, vindo de Bisho, após uma longa sessão de acompanhamento da contagem de votos. E logo que saí do carro, até perro de exausto, ainda porta aberta, ele lesto a surgir-me, saído do átrio do hotel onde sediávamos os nossos escritórios, para me estreitar em abraço de condolências, o italiano "tiffosi" comovidíssimo informando este português da morte de Ayrton Senna.

Mas dele algo mais lembro. Da sua alguma excentricidade durante aqueles meses de verdadeira festa política, tamanho era o nosso entusiasmo. Pois esses dias de frenesim jubiloso, para mim decorridos entre Ciskei e Transkei – que nesse tempo ainda sobreviviam os inventados “bantustões” independentes -, casavam com noites longas quase-nada dormidas, em aceleradas conversas entre nós e também com amigos sul-africanos – que nos haviam recebido como se sorvendo com sofreguidão os ventos do mundo -, regadas a caixas de Castle e de uísque barato, fervilhando de análises sobre a política sul-africana. Especulando futuros de curto prazo, cerzindo-os à catadupa de acontecimentos locais, daquele ali que se veio a tornar Eastern Cape. E, mais ainda, aos da azáfama nacional, naquela sucessão de arruaças sanguinolentas entre ANC e Inkhata, a deriva angustiada do Partido Nacional libertando-se do seu “nacionalismo cristão” mas ainda sob ele ajoujado, o já então vislumbre do Partido Democrático, o exacerbado racismo do histórico PAC sempre fiel ao lema “one settler, one bullet”, as expectativas sobre o verdadeiro impacto eleitoral do partido de Viljoen, o general consagrado como o “Rommel africânder”, o peso do extremismo de Winnie Mandela, a violência dos fascistas de Terreblanche, a aparente bipolarização entre o radical sindicalista Ramaphosa e o seráfico liberal Mbeki – que bem depois se veio a perceber não tão estruturante assim. E tudo isso sobre o gigantesco encanto do Madiba.

Mas o Andrea tudo isto cruzava, bebericando mas também meneando a cabeça de proto-calvo, resmungando a sua angústia com as desventuras da sua Itália - mais longínqua ainda por ali tão desfasada do que vivíamos - naquele período de erupção de Berlusconi e dos seus confrades secessionistas e ditos neo-fascistas, eleitos exactamente naquele Março. Pois foi durante aquela, afinal curta, missão que o Forza Italia surgira, e num ápice se tornara governo. Era o sufragar da tele-democracia, epíteto naquele caso literalmente literal, pois o homem era mesmo dono de tv, o estipular do reino do “partido pessoal” – como Bobbio lhe veio a chamar. Nisso crismando a pujante ladainha do poder dito sem ideologia, do líder junto ao seu povo, como se dele emanado, pois avesso a partidos, e destes livre, e ao Estado, a este punindo purificando-o. Líder assim corpo humano feito soberania, e nisso também enfrentando o exterior, esse “demónio multilateral” que tantos “nacionalistas” de vários matizes querem esconjurar.

Enfim, coisas do populismo stricto sensu – naquele caso avivado na crença futeboleira de fazer a Itália vingar como fizera no A.C. Milan, e na sua riqueza pessoal, advinda de ele homem capaz e sábio pois propenso ao êxito - que viemos a conhecer melhor depois, com gente como os longínquos – “orientalismo” oblige – Shinawatra e Buttho, mais o mariola filipino de agora, ou os mais próximos Fujimori e Chávez, cada um deles como cada qual mas, de facto, trinca do mesmo saco. Ou ainda, claro está, o Trump mais recente, de facto apenas mais um do ramalhete, por mais sonante que os EUA sejam.

Ali em East London o Andrea fora surpreendido com tudo aquilo lá na sua Itália. E por isso, de quando em vez, queria disso falar, desabafar que fosse. Pouco espaço, se algum, lhe davam, lhe dávamos, que todos esbracejávamos naquela apneia do “now is the time …”, em regime de monopólio de atenção. Talvez tenha sido eu a conceder um pouco mais de tempo, porventura solidariedade latina. Ou não. Ou não, mesmo … Pois vinha eu de onde continuava a década de Cavaco, já num fedor compósito, adocicado pelos miasmas vindos de Macau, a “árvore” que os de Soares abanavam, cobiçosos. E por isso mais – apenas um pouco mais, é certo – atentei nos resmungos do Andrea. E lá concluíamos, convictos de estarmos certos nisso, que o ninho de Berlusconi e dos seus comparsas pós-proto-neo fascistas era bem claro, aquele desabar havido do sistema partidário italiano. Na morte do PCI, daquele Berlinguer tão abjurado pelos nossos comunistas,  muito por causa daquele “compromisso histórico” - findado com o cadáver de Moro no porta-bagagens de um carro -, que tão antevisto fora por Guareschi através do afinal simpático Peppone, o siamês do Don Camilo. Mas, e acima de tudo, devido ao descalabro da Democracia-Cristã e do seu Andreotti e dos socialistas italianos, com seu Craxi exilado. Fora essa ruína, institucional e moral, a pura devassidão política que deixara uma terra de ninguém, a charneca onde Fini e Berlusconi medravam. Esse era o nosso diagnóstico, algo acelerado … Depois, saltitando entre JB, Cutty ou Famous, a tríade dominante, logo seguíamos – e aí ele também, pois desabafado – a sonhar o magnífico futuro do maravilhoso país que era a África do Sul.

Nem sei como foi, qual a causa disso, mas passaram 27 anos! Vou assim já um pós-novo ou mesmo proto-velho. Nisso alimentando-me muito das memórias para compreender este Outono. E quando olho para o meu país o que penso, o que sinto, é que o abraço tunisino de Soares a Craxi ainda está. Ainda é. E o resto vem por si …

Na véspera do novo confinamento

Em 13.3.20 a minha filha chegou do Reino Unido e confinámo-nos em casa de amigo-família, apartados da capital, onde ficámos meses. Ontem ela partiu para longe, com sua mãe. Eu regressarei amanhã, exactos 10 meses depois, a esse meu Nenhures a sul do Tejo, para mim tão mimoso, reconfinando-me entre amigos que são vera família.
 
Como para quase todos este tem-me sido um péssimo ano. Morreu a minha mãe, sem que eu a acompanhasse. Perdi o meu amor, sem a perceber. E - num registo mais difuso, claro - perdi o contacto, efectivo, com vários da minha camarata. No menos importante, estou completamente "liso" - e há dias em que isso assusta, muito em especial quando os dentes "batem leve, levemente", digo "dão de si", anunciando despesas incontornáveis.
 
Mas isso é a minha vida, coisas íntimas que um burguês não deve partilhar com qualquer um. Ou um "gajo que é gajo" deve calar. Disto se fala com um amigo, másculo. Ou ao balcão do bar, quando se podia beber ao balcão, perdigotando.
 
O que posso falar, o que "fica bem", é do que sou e como vou. Contrariamente a muitos destes das modas d'hoje, e que tanto palram, não sou a minha cor, ou os meus genitais, nem o que faço para ter orgasmos. Nem sou a minha descrença mística. Ou quaisquer confusas - e tão iletradas - ideias que alguns julgam ser "ideologia". Sou, há décadas que o decidi, um português, um patriota. É essa a minha ideia, o meu mito, se se quiser. A minha "identidade", para falar como os mariolas. A minha opção, para falar como quero.
 
Por isso, nesta noite antes de retornar ao refúgio, antevendo o quanto vou e vamos penar, ouço de novo o melhor que se ouviu nesta pandemia. Entre a vacuidade dos nossos próceres, o desatino dos locutores avençados e o ulular de nós-ralé, houve uma pessoa que falou o necessário. Uma pessoa ... (Quase) Apenas ele. E o mais grave é que o ano acabou e nos patéticos rescaldos que sempre surgem ninguém o realçou, lembrou. À fala de 2020! Passou-lhes, paupérrima gente.
 
Por isso, malas já feitas, antes da partida findo este dia ouvindo o nosso General António Ramalho Eanes. General militar, verdadeiro Marechal civil

As passas do Ano Novo

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Cá em casa - pois sob "recolher obrigatório" - o banquete ritual não sendo opíparo saciou-nos a contento. O vinho agradou (e sobrou), o uísque novo foi o canónico e a aguardente descansou. O convívio foi excelso, meus velhos amigos de diferentes continentes e amiga recente. E a minha princesa. Tudo dentro da lei - pois aqui não entram negacionistas.

Naquela hora mesmo comi as passas, pedindo os desejos, coisa que antes terei feito apenas em menino (se é que o fiz). Envelheço, está visto. Peço rápidas vacinas para todos, saúde para os meus. Paz no mundo, qual miss - ou seja, paz no Cabo Delgado e que tudo corra bem na RCA (um grande abraço para ti, Zé). Mais um gole do sacramental Famous. E concedo-me um último desejo/pedido: que o Sporting seja campeão, que merecida festa seria.

E nada mais peço, pois tudo o mais seriam comezinhas utopias. Impossíveis. Pois não se podem mudar os compatriotas.

Carlos do Carmo

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Para além do calendário a vida não pára. Ou seja, a morte não pára. A assim abrir o ano. No cantor-fadista sempre senti uma sisudez composta que me desencantava. Mas tanto lembro, eu nos 16 ou 17, do espanto de o ver - na "Avante" ao Alto da Ajuda - a cantar esta Valsa assombrosa. Arrebatador!
 
(Carlos do Carmo, La Valse à Mille Temps, 1980)
 
E horas depois, já em casa, "Pai, que achaste daquilo?". E ele, camarada, "Não é o Brel!... Mas foi muito bom, muito bom". E foi.

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

No cendrário

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Há dias publiquei, juntamente com texto alusivo, esta fotografia do cemitério dos Olivais, gerido pela Câmara Municipal de Lisboa, na qual bem patente está a osmose que a sua direcção faz entre os sanitários públicos e o cendrário (o depósito das cinzas).
 
Recebi agora uma mensagem de uma vizinha: "hoje fomos despedir-nos do meu sogro. Pelo caminho derrubámos a placa". Ainda há cidadãos ...

Rescaldo de 2020

2020 vai terminar e é altura de rescaldos. Gerais e pessoais, neste Covidoceno. Para mim foi um ano duro. Perdi a minha mãe, tendo-a visto definhar no isolamento obrigatório. O foco na saúde geral - e o crescente isolamento - trouxe a morte ainda mais para o centro. Assim mais atentei no fim de tanta gente significante, daquela que me faz a paisagem - o último talvez o Le Carré presente desde a minha juventude até ao Magnus Espião Perfeito. E a Branca, a cadela de amigo extremo que me adoptara e que tanto me acompanhou neste(s) ano(s) também morreu. Coisa bem diferente, perdi o meu amor, o que me trouxe uma antevisão de celibato perpétuo, algo mais estranho do que problemático. E, neste ano difícil, percebo que não sei de vários amigos, relações esgarçadas com o tempo. Fica o carinho pelas memórias mas nada mais. Tudo isto algo me desertificou.
 
Mas foi também um ano bom: nenhuma realização, a consciência de muito menos objectivos, anseios, e das escassíssimas possibilidades que restam. Alijar o ego, perder as angústias das responsabilidades para comigo-próprio. Amadurecer. É bom envelhecer! E ainda uma coisa magnífica em 2020: não passei um dia, uma hora que fosse, com gente de que não gostasse. Sempre rodeado daqueles que amo. Ou, vá lá, gosto muito. Pode-se pedir mais na vida? Não creio.
 
Para temperar, o piripiri da vida, restaram-me as irritações com a "coisa pública". Também elas escassas, no fundo meras simulações de vida: com os mandarins, no início do covidoceno (o MNE Silva e o presidente Sousa a dizerem que não se podia fechar fronteiras, aldrabões puros; a tonta da agricultura, a negacionista da saúde); os mandarins da academia - o antropólogo, meu antigo professor, a resumir o covid-19 a imprecações contra o brexit, vs Boris, maldizendo Tatcher, e a dizer que Portugal nunca esteve economicamente tão bem: uma indignidade intelectual [espero que leias isto e percebas o meu desprezo, visceral ...]; e a antropóloga (luso?)moçambicana a salvaguardar a China e a dizer que nós-europeus temos que pagar os custos do Covid-19 em África. Verme ...
 
E, por último, os maluquinhos da direita liberal, durante meses a clamarem todos os dias contra as medidas de protecção, em nome da economia, qu'isto só mata velhos e etc. E, espantoso, a louvarem os suecos sociais-democratas. O rei da Suécia falou, entretanto, a mostrar o quão parvos são estes malucos.
 
A ver se em 2021 continuo no bom caminho de fenecer. E deixo de ligar aos maluquinhos. E aos antropólogos comunistas/comunitaristas. A bem do meu belo envelhecimento.

A morte, agora

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Foi agora a morte que me trouxe de Nenhures até este Algures, capital, vindo para ombrear com quem perdeu pessoa muito querida, dia acolhido com pesar mas sem drama, num adeus a anciã partida na paz do seu sono e sem padecimentos. Estremunhados haviam sido com a notícia, insones anuíram a que mestres do ofício a evacuassem do internato onde findou, poupando aquela classe de idade à comoção do que lhes é iminente. Ficou-lhes ela assim resguardada mas também vedada até ao dia que se seguiu, regras, disseram-lhes, desde o último idos de Março. Depois, já no feriado da Imaculada Conceição - esse sempre dia da Mãe para a minha mãe Marília como o fora para as minhas avós Teolinda e Claudina - congregaram-se para a última despedida. Fizeram-no na escassez deste recolher obrigatório, reforçada pelo discreto encanto burguês, avesso ao sonoro. Tiveram então nem uma meia hora diante daquela que partira, em reconfortos mútuos esgarçados pelos medos actuais. Cinco minutos, gentis e apressados, de um padre católico, apenas colhendo um balbuciado eco face a uma dúzia de descrentes no futuro de paz e luz que - dever do seu ofício - tem que augurar. Ali, algo distante, a urna fechada, que a ninguém é possível um último olhar, um beijo até ou afago, o mero perfilar sentido, pois temidos são os sempiternos fantasmáticos miasmas, e é isso possível neste absurdo hoje ... No chão relvado, abandonados à chuva, alguns desolados ramos de flores, também ele afastados do último trajecto, pois decerto que imaginados como estufas desses tais miasmas. Depois, lestos, funcionários levam o caixão para a cremação, agora também católica, passo último também barrado aos presentes parentes.

Retorno na manhã seguinte, hoje mesmo, sentindo-me obrigado - mesmo que ateu todo materialista - à derradeira homenagem, verdadeiro fim de despedida. Sob a chuva miudinha, este frio enublado lisboeta a que fugi durante décadas, entro no cemitério que me é vizinho. E reencontro o cendrário - essa semiológica camuflagem - onde há anos deixei o pó que restou do que foi o meu pai. Estupefacto fico, até fotografo pois irado, e antevejo a minha oposição para o que ali se vai seguir, enceno-a mesmo. Mas afinal deixo-a cair, não só porque benjamim mas muito mais porque desvalido sigo, e sei-o, assim acabrunhado, deficitário de atitude. Há quase duas semanas visitara a minha mãe e a última coisa que então me disse foi "és tão bonito!", coisa tão óbvia de mãe coruja que a acolhi com sorriso (e arremedo de lágrimas, confesso-o agora), ficção que ninguém me conta há décadas - se é que alguém o fez ... -, e nunca mais alguém o fará. Enquanto me lembro disso, com a papaia a assomar na garganta, o funcionário, educado e eficiente, abre o boião e despeja as cinzas da minha mãe. E eu, que a todo este disparate anuí, pois sem forças, até isto aceito. Aceito, ali, sem uma palavra, sem um gesto, que alguém deite o pó do que foi a minha mãe no caminho do mictório.

Isto é o meu país, é a minha era, é a minha cidade. É o meu povo. E, muito mais do que tudo, sou eu. Hoje, muito mais do que em todo o antes, fui eu. Deixei que largassem o pó da minha mãe no anunciado caminho do WC.  E disto, estou certo, nunca passarei. Não sou, mãe, nada bonito.

Blogar

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Faz hoje 17 anos que comecei a blogar, então abrindo o blog ma-schamba. Algo que se tornou hábito, mesmo verborreia: o ma-schamba, que veio a tornar-se colectivo, durou até 2015. Depois botei no Courelas, com os amigos AL e mfv. Depois no O Flávio, sozinho. Escrevera no Olivesaria, um colectivo sobre o bairro Olivais. Entretanto passei a blogar nos colectivos organizados pelo Pedro Correia, o Delito de Opinião e o sportinguista És a Nossa Fé.

Mas então, naquele 3 de Dezembro de 2003, iniciei com uma citação do grande Ruy Duarte de Carvalho. Premonitória, não o poderia adivinhar. O destroncar continua-me, courelas itinerantes, colheitas frágeis e parcas.

Eduardo Lourenço

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A sorte não foi ter este livro em casa mas sim tê-lo lido, muito jovem ainda. E depois passar a olhar tantos dos circundantes, sem qualquer soberba mas com a percepção de que "estes não leram o Lourenço", aquele, alguns textos até ainda dos finais dos 1950s! Forma de me ter feito português, minha identidade. Coisa essa a que ele voltou recorrentemente, e que fui lendo - claro que já sem o encanto da descoberta "teenager", até porque cada vez mais afastado do estilo (e daquele psicologismo ou, melhor, "psicanalismo"). Já trintão muito sorri quando Lourenço, no seu estilo até plácido, de facto zurziu o fim de século "lusófono" dos seus compatriotas - e correligionários. Que me lembre ia só nisso, para além do muito mais ácido Alfredo Margarido, olhando aquela incultura lisboeta.
 
Vi-o há poucos anos, na Gulbenkian, numa implícita homenagem rodeada de "decoloniais" que (nada) paradoxalmente ali se congregavam a saudar o império, os "patrimónios de origem lusa", enredados numa radical inconsciência. Nada disse sobre tal coisa, talvez já não lhe fosse importante. E então já era o ilustre posfaciador do Senhor Engenheiro. Não teria precisado de nada daquilo. Mas preferiu assim. O tanto que demonstrou sobre nós todos é muito mais importante do que essas minudências do longo ocaso

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