Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

Rebelo de Sousa em Moçambique

mrs.jpg

O nosso Presidente está em Moçambique. Desde o primeiro dia, via Whatsapp, troco fotografias das suas andanças entre um largo núcleo de amigos, portugueses que lá viveram durante as últimas décadas. Conhecemos o país, os sítios visitados, interpretamos melhor as interpretações locais. O nosso desconforto é generalizado, alguns mesmo seguindo irritados. O resmungo com o populismo é até explícito. Uma querida, e tão clarividente, amiga, minha vera mana, resumiu tudo, num desalentado e nada leninista "que fazer?". De facto, nada podemos fazer diante desta pantomina que o nosso povo elege e adora.

Entretanto, no seu mural de Facebook o ex-bloguista João Gonçalves - o qual, que eu saiba, nem sequer conhece aquele país - explicita tudo, explicando o nosso desconforto: "E em Moçambique, o chefe do Estado a que deixou tudo chegar engraxa sapatos, corta cabelo e comporta-se como o filho caprichoso do antigo governador geral da Colónia que ele nunca deixou de ser."

As pessoas aqui, na sua maioria, não compreendem. Mas é isso mesmo. O festivaleiro desta visita. E, muito mais importante, o vácuo desta presidência. 

Adenda: logo me dizem que MRS é folclórico. Mas não é apenas, ainda que o seja, "folclórico". Disse o célebre filósofo que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Para quem conheça a história tardo-colonial em Moçambique são notórias as semelhanças entre a postura do antigo governador-geral - que era um Senhor, note-se, e de verdadeira grandeza humana - durante a "primavera marcelista", intentando mostrar um "colonialismo de rosto humano" (passe a expressão, que é glosa), um poder entendido como "relações públicas" assente na linguagem dos "afectos", mas que terminou como terminou (tinha historicamente de terminar, anacrónica injustiça que era) e a postura do seu filho, actual PR. 

MRS tem assim, desde o início, o projecto mais reaccionário - na velha expressão - da história da democracia portuguesa, o da "apolitização" da sociedade através desta pantomina "afectuosa" [já ninguém fala de "coabitação", de "consenso", de "estabilidade", de "bipolarização", todo esse jargão político presente nas presidências anteriores, que servia para tentar consensualizar o país. Agora já nem há essa abordagem, resta apenas a "selfiezação", "o abracismo", o marketing da a-conflitualidade]. É isto uma farsa, uma triste - e sem a grandeza, a densidade católica, do protagonista anterior - derrapagem. Antes tudo decorreu durante a "tragédia" de um final de regime. Agora não sei que corolário será o desta farsa. Que nada tem de projecto a não ser este folclorismo.

No Lago Niassa

niassa.jpg

Vista do Lago Niassa numa casa no Nkwichi Lodge (minha fotografia)

Há 10 anos estive uma semana neste maravilhoso lugar, o Nkwichi Lodge no Lago Niassa - e foi tão magnífica a experiência que escrevi um texto de blog sobre essa viagem, "O Silvo do Areal" (tradução de nkwichi). Trata-se de um pequeno "eco lodge", com cerca de 20 lugares, num local ermo, a uma hora de barco de Cobué, o ponto noroeste de Moçambique, bem acima de Metangula, a vila mais conhecida do Lago.

Então conheci um dos donos, fundador. Que narrou como tudo começara e o que haviam conseguido. Em torno do estabelecimento, nunca verdadeiramente lucrativo, realiza-se apoio às populações e demarcou-se uma reserva florestal, (deixo ligação para sítio do projecto, para conhecimento dos interessados) numa área enorme - "maior do que a Grande Londres", comparava o dono, um jovem britânico.

Ou seja, o sítio é maravilhoso. O projecto magnífico. As realizações eram e continuaram a ser soberbas. Trata-se de algo a preservar, a apoiar.

Mas há problemas: a crise económico-financeira fez baixar o turismo e apertou os recursos do projecto. E também, ainda que a comunicação do projecto não o diga, sabe-se bem que os confrontos no Cabo Delgado (o norte oriental) fez escassear os turistas estrangeiros na zona. E depois há a realidade geográfica: o sítio é ermo. Faz muito do seu encanto. Mas dificulta o acesso.

Dito tudo isto: sei bem que as campanhas de angariação de fundos pululam e têm pouco impacto. Mas este Nkwichi Lodge e seu projecto de protecção florestal mais do merecem a atenção. Lançou agora uma recolha de fundos, precisam de 70 000 libras para se revitalizarem.

O ideal seria que as pessoas lá fossem - fruíssem aquela maravilha e depois fizessem publicidade "boca-a-ouvido". Mas é longe. A opção é fazer-se donativos: a partir de 30 euros. Para quem pode não é uma fortuna.

Pois "juro, sinceramente, palavra de honra, vou morrer assim": justifica-se mesmo. Muito.

 

Fazer da vida "Um voo cego a nada"

ilha moç.jpg

Na era blogal, aquela primeira década de XXI, raros eram os blogs portugueses que se debruçavam sobre Moçambique de modo interessante. Havia, claro, entre esses alguns tão poucos, o Um Voo Cego a Nada, que seguia sob o verso do grande (e tão esquecido) Reinaldo Ferreira: 

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia / Que partout, everywhere, em toda a parte, / A vida égale, idêntica, the same, / É sempre um esforço inútil, / Um voo cego a nada. / Mas dancemos; dancemos / Já que temosA valsa começada / E o Nada / Deve acabar-se também, / Como todas as coisas. / Tu pensas / Nas vantagens imensas / De um par / Que paga sem falar; / Eu, nauseado e grogue, / Eu penso, vê lá bem, / Em Arles e na orelha de Van Gogh... / E assim entre o que eu penso e o que tu sentes /A ponte que nos une - é estar ausentes. 

O Um Voo Cego a Nada fora pioneiro, começado em Julho de 2001, antes da onda bloguística se generalizar. E tornou-se veterano, resistiu às modas, flutuações, mudanças. Sempre esteve ali, no mesmo endereço, coisa tão rara nos blogs. O seu autor, um tipo letrado, nitidamente plácido e atento - pois, claro, "cego a nada" ... -, homem (também) de gatos e banda desenhada, vinha com uma bela visão do real, e nele fez o seu diário de "visualizações", das atenções havidas, leituras, memórias, episódios, sem agendas ou manifestos, e que ele considerava uma espécie de diário aberto, um lugar que me dá, ao mesmo tempo, o aconchego da intimidade e a liberdade do anonimato ... Como era a intenção original deste suporte, a de se fazerem diários de bordo, descomprometimento que tantos de nós, bloguistas, desconseguimos continuar, na volúpia do falar de cátedra. E sempre me atraía o que notava sobre Moçambique, país onde crescera - e onde tem família, lá pela Ilha - , num olhar de memória sem saudosismos, de atenção sem revanchismos, de interesse sem ressabiamentos, derivas essas tão presentes em tantos outros sítios, blogais e não só, nos quais o fel do após-império tantas vezes brotava. Um olhar de carinho e encanto que encontrei também no À Sombra dos Palmares, antiquérrimo blog de excertos literários de autores em Moçambique, que se não lhe pertenceu poderia ter pertencido - aliás, sempre associei os dois blogs mas não comprovei, nunca perguntei.

O Um Voo Cego a Nada acabou agora, o autor não resistiu à maldita doença que há tanto o devastava. E que foi, sem rebuço, explicitando / lamentado ao longo dos últimos tempos.

A Oeste do Canal (de Moçambique)

1-07dd6a7174 (1).jpg

 

(A Oeste do Canal: Textos Sobre Moçambique)

Se eu pudesse publicar um livro seria mais ou menos este. Há vários anos colocara na minha conta na rede Academia.edu uma colecção de textos. Agora mantive-lhe o nome mas mudei o conteúdo:

"A Oeste do Canal" é uma colecção de 64 textos meus escritos entre 2003 e 2017: apresentações de livros, textos para catálogos de exposições, comemorações de efemérides, textos para premiações de júris aos quais pertencera, artigos de jornal, notas de leitura sobre livros menos conhecidos, algumas cenas da vida do país, entre as quais breve análise das manifestações em Maputo. E, mais do que tudo, sobre amigos, vários dos quais escritos aquando da sua morte, forma de os ir lembrando.

Aos que se possam interessar: basta pressionar a ligação que acima deixo e gravar o pdf. Se depois ainda tiverdes a gentileza de ler ficarei muito agradecido.

Jorge de Sena em Moçambique

Em época da comemoração do centenário do seu nascimento descubro esta entrevista de Jorge de Sena. É um momento magnífico (entre os 10 minutos e a 1 hora e 43 minutos desta gravação). E tem a particularidade de ter sido gravada (e censurada, pois só foi emitida em 2010) em Moçambique na viagem que Sena fez em 1972. Quando contactou com as gentes da extraordinária "Caliban", e também visitou a Ilha e a partir dela escreveu. Mas o que tornará o documento ainda mais interessante para alguns que aqui passarão é o ser uma entrevista feita por Leite de Vasconcelos, homem tão importante na imprensa em Moçambique. O qual ainda conheci, brevemente, pois pouco antes da sua morte, por gentil iniciativa do Camilo de Sousa e da Isabel de Noronha.

(Deixei aqui um pequeno apontamento dedicado aos livros de Leite de Vasconcelos)

Alugam-se Quartos ... (Craveirinha respondeu)

contacto.jpg

Li agora o jornal "i", o artigo sobre o aluguer de quartos para estudantes. Uma coisa absolutamente demencial, tétrica. Uma especulação desbragada, quartos até aos 1000 euros mensais, uma vergonha num país com os salários como estão. Haverá muita gente que tudo isto reduz à "lei da oferta e da procura". Gente cristã, maioritariamente católica, gente agnóstica, de extracção cristã, gente islâmica também, decerto, gente ateia. Mas todos, ainda que ateus ou monoteístas, divinizando o tal "mercado", como se este entidade indiscutível.

E, na sequência da insuportável leitura ali na esplanada do café, acorro a casa, pegar neste "Contacto e Outras Crónicas", uma colectânea de textos de imprensa de José Craveirinha, organizada por António Sopa. Pois em 5 de Maio de 1973 José Craveirinha publicava este texto no "Notícias da Beira". Era então, e se muitos o sentiriam também o poeta o pressentiria, o ocaso colonial. Usando retoricamente o género epistolar para o seu já falecido pai, um Craveirinha de Aljezur, apontou o género rapace que acometia a população colona - sobre o financiamento bancário à construção civil, politicamente induzido para fixar a população colona, muito haverá para dizer mas a questão aqui é outra. Craveirinha desnuda como a especulação imobiliária e a mentalidade que esta gera foi o sinal de um fim de época. 

E esta vergonhosa pilhagem de agora, a coberto do turismo e dos universitários deslocados, é mesmo isso: o sinal do final de uma época. Do salve-se quem puder. Digam-me só uma coisa, depois de lerem o trecho: para onde enviarão os vossos contentores?

Mensagem para um ex-algarvio: meu pai

Quando resolveste vir para África e deixaste a tua Aljezur, nem Tu sabes o que viria a acontecer. Pois isto agora está muito diferente, Pai. Não há dúvidas de que os tempos são outros. E as pessoas também. Principalmente as pessoas. Como exemplo há o problema da habitação. Nos teus tempos o problema era ver os escritos nas janelas ao fim do mês. Ninguém pensava nas rendas como se pensa agora: como uma mina. Agora existe uma nova classe de gente que Tu, meu Pai, não havias de gostar de certeza com o Teu feitio. O sr. Senhorio é uma entidade soberana, actualmente. Mas não penses, Pai, que se trata de gente muito instruída: doutores, directores, etc. Não. É gente que anda por aí. Gente que veio quase nos porões com uma camisa e um par de calças no baú. (...) Pois nem fazes uma ideia, meu Pai, o que essa gente faz em matéria de milagres. (...) O egoísmo terrível de alguns desses improvisados proprietários de prédios excede tudo quanto se possa imaginar. E são homens de humilde posição social e de modesta condição trabalhadora. Mas com uma ganância!!! Parece que nem dormem a pensar no modo de abanar a árvore das patacas. E nem olham aos meios para se deitarem à sombra da bananeira. No teu tempo, fazer uma casinha correspondia a uma série de sacrifícioss durante anos e anos e muito trabalho. Pois agora, não. Os mesmos que sofreram para pagar uma renda de casa, depois são os primeiros a especular. Passam a senhorios e tornam-se exigentes, duros, implacáveis. Não querem saber de desgraças alheias. Querem mais, mais, mais. (...)

Certos homens, quando exploram o seu semelhante, não sabem que estão a explorar a sua própria condição de gente. São homens do povo explorando-se a si mesmos. São o próprio cancro. Julgam que ser senhorio é ser Deus. Querem a Terra e o Céu. Espremem o compadre-inquilino sem dó nem piedade: vivem obcecados pelo aumento das rendas. Nunca pedem; exigem.  (...)

Meu Pai: quando deixaste o Algarve e vieste para Moçambique, não era assim! Agora, nem fazes uma ideia! Há  uma Universidade, mas curso de senhorio é o melhor. (...)"

No Xigubo, de Craveirinha

xigubo

Dizem os entendidos, e nisso deverão ter razão, que o melhor Craverinha foi o de mais tardia publicação, e de mais íntima verve (o livro "Maria", em seu torno), assim algo desvalorizando, pelo menos comparativamente, as suas primeiras e mais programáticas décadas, aqueles de "Manifesto", o da proclamação da legitimidade cultural e política local. Será, repito, talvez verdade. Mas regresso ao Xigubo, ao velho Craveirinha, então mais novo, claro. E há nacos de uma sapiência ...

"Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos / e na minha boca diluem o abstracto / sabor da carne de hóstias em milionésimas / circunferências hipóteses católicas de pão. / E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo / vendem-me a sua desinfectante benção ... / Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço / em rodelas de latão em vez dos meus autênticos / mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens / do ciúme e da colheita de amendoim novo."

É este um trecho do seu célebre - e ideologizado dirão os "estetas" de hoje - "África". Escrito lá pelos anos 1950s, presumo. Informo os que não sabem que "mutovana" é um amuleto. E que quase 70 anos depois continua a ser raro - entre boreais e austrais - quem diga, escreva ou pense algo assim. Principalmente lá pelo sul, cada vez com mais crendices cristãs e/ou corânicas. Mas também muito pelo norte.

A actualidade de José Craveirinha

contacto

Em 1999 o incansável António Sopa organizou este curioso pequeno livro duplo: "Contacto e Outras Crónicas" e, do outro lado em formato invertido, "A Seca e Outros Textos" de Rui Knopfli - uma glosa do "verso e anverso" que os dois autores seriam, mutuamente -, duas colecções de textos, textos de opinião de Craveirinha, idem e breves contos de Knopfli, publicados nas décadas de 50 e 60.

Releio bocados - francamente, pouco me diz este Knopfli, bem diferente de quando poeta. Mas Craveirinha? Ui, aguçado como lhe eram as unhas (alguém se lembrará das suas enormes e tratadas unhas?).

Deixo três breves citações, com dedicatórias. A primeira (de 1957) para todos. A segunda (também de 1957) para os sacralizadores lusos no "empreendedorismo" turístico - e lembrando-os que o texto é do poeta nacional moçambicano, que entre outras coisas esteve preso 4 anos por ser independentista; a terceira (de 1964) - que será necessário extrapolar - vai para os gauchistes multiculturalistas, mais ou menos pós-modernos pós-coloniais. E lembrando-lhes a mesma coisa. Se, claro, forem capazes de simples acto intelectual da extrapolação - coisa que, neste país carregadinho de académicos racialistas, muito duvido.

- "Oh, missão ingrata esta, a de escrever verdades" (p. 19).

- "Todos nós sabemos que Lourenço Marques é das cidades mais visitadas por turistas sul-africanos ... Quando se faz turismo não se pretende encontrar fora da terra natal o que se nos tornou banal na nossa. Se não, qual o atractivo do turismo? ... Não se requer subserviência de idioma ... Os barbeiros, cabeleireiros, alfaiates, hoteleiros e outros que tais, estão menosprezando a esperteza do forasteiro, dando-lhe facilidades a mais na vida. Vamos puxar pelos seus reflexos, fazê-lo descobrir a bela língua portuguesa; língua bonita, língua com história ... Escrevendo os letreiros somente em português continuamos amigos à mesma; a diferença é que passamos a dar ao que é nosso o justo valor: o valor das coisas que nos pertencem e fazem parte cá da Casa. Casa esta que é nossa." (em "Barber's shop, boarding house, ice-cream today e outras barbaridades", pp. 21-22).

- "E é crença de muitos esclarecidos que uma temática estritamente enraízada no folclore de Moçambique só poderá ser interpretada por indivíduos de cor. Não." (em "Canção da Angónia", um elogio a Gouvêa Lemos, p. 25) - e, já agora, se me aparecer aqui algum intelectual a apoucar o uso da palavra "folclore" saiba de antemão que deve é ir estudar em vez de se "armar aos cucos".

 

Voltar a casa: Aníbal Aleluia

Laban

Voltar a casa, após um ano. É voltar às estantes, militantemente desarrumá-las, ler bocados, livros a reler, recomeçar os abandonados, reesquecer os esquecidos. Depois, uns dias depois do tal regresso, acampei aqui, esteira e tudo, debaixo das estantes moçambicanas. Reabri e releio, entre tanta outra coisa, dois livros de entrevistas a escritores moçambicanos (melhor dizer, de Moçambique), ambos publicados em 1998, este "Encontro com Escritores" de Michel Laban, 3 volumes, e o "Os Habitantes da Memória", de Nelson Saúte.

Ambos começam com Aníbal Aleluia, o qual infelizmente nunca conheci, falecido antes de eu chegar a Moçambique  pela primeira vez. Grande verve, excelente pensamento, e modo absolutamente excêntrico no país. Noto que perdi o seu MBelele e Outros Contos - e irrito-me comigo mesmo, pois é o tipo de livro que dificilmente reencontrarei, num mundo em que abunda tralha "autorada" por gente iletrada e Aleluia não é reeditado. Será lido? Mas vejo via motores de busca, e assim me "des-irrito", que o Nelson Saúte escreveu, e bem, há pouco um "Elogio a Aníbal Aleluia" - que assim recomendo.

aleluia gajo

Vou agora reler o seu curto "O Gajo e os Outros", o que dele me ficou. E deixo duas citações das suas entrevistas, que muito mostram o perfil: do intelectual e do cidadão. Decerto que foi daqueles homens, inquietos, com quem se aprende. Ao contrário de tantos simpáticos que para aí andam, perorando:

"Fui marcado por um tal de Romão Félix que, sob o pseudónimo de Parafuso, utilizou o método dos blackface minstrels usando um pseudo-linguajar de negro a que muito racicamente chamavam de "pretoguês" para fazer pouco, principalmente, do negro evoluído. Epígonos de Parafusos e macaqueadores de vária espécie recuperam esse linguajar que o nosso poeta nacional [Presumo que Aleluia se refira a Craveirinha] escalpelizou um dia. Na onda de desvios e anfibologias oraculizantes surgem os espíritos levianos e dão-se as mãos em elogios mútuos num cabotinismo concertado. E é assim que esses movimentos parecem vingar, até que um dia apareça um inocente a mostrar a nudez do rei. A tristeza é quando aqueles que de facto têm jeito e sabem distinguir os caminhos a percorrer batem palmadinhas nas costas dos imitadores desajeitados(em Nelson Saúte, Os Habitantes da Memória, p. 29).

E depois (em Michel Laban, Moçambique: Encontro com Escritores, 37) ao apropriar-se de Guerra Junqueiro para referir a sua terra de então. Mas um dito que devemos reclamar de volta, pois radicalmente nosso, não sei dos outros: "Isso que para ai está é uma bacanal de percevejos numa enxerga podre”.

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.