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Nenhures

Nenhures

Ilha de Moçambique em Évora

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É hoje inaugurada a exposição "Ilhéus", em Évora. São fotografias recentes de Moira Forjaz feitas na Ilha de Moçambique - a fotógrafa é autora do sempre lembrado livro "Muipiti, Ilha de Moçambique", publicado no início dos 1980s. Consta que a exposição será apresentada por Paola Rolletta e Alexandre Pomar. Coisa para os privilegiados que percorrerão o Alentejo, amanhã e nas semanas subsequentes ...

Paulo Rangel no Parlamento Europeu sobre Moçambique

Tem estado bem Paulo Rangel, e o PSD, no acompanhamento desde há meses no Parlamento Europeu da situação em Moçambique relativa à guerra no Cabo Delgado. E fez aqui uma boa intervenção, adequada àquela instituição, fundamentada e ponderada.

Deixo também aqui a Resolução do Parlamento Europeu, de 17 de setembro de 2020, sobre a Situação Humanitária em Moçambique (2020/2784(RSP) [basta aceder: Resolução PE Moçambique.pdf], que sistematiza a preocupação com a situação militar e humanitária e explicita a inadmissibilidade das gravíssimas violações de direitos humanos consagrados nas convenções internacionais (convém sublinhar isto, pois vou lendo gente em Moçambique defendendo que em guerra, em particular com estes "insurgentes", vale tudo ...).

Realço a pertinência do ponto Z. desta Resolução: "Considerando que, apesar da brutalidade e da perda terrível de vidas, a situação em Cabo Delgado não conseguiu atrair a atenção internacional, o que significa que se perdeu tempo precioso para resolver o problema mais cedo".

Mas não deixo de notar e muito lamentar o clamoroso erro, do ponto Z. 22. "Recorda que a população de Moçambique, tanto da fé cristã como muçulmana, vive há muito em coexistência pacífica e manifesta convicção de que este modelo de tolerância e de solidariedade prevalecerá ...". Um reducionismo inadmissível, pois é mais do que exigível que políticos e seus assessores percebam um pouco mais sobre as realidade sobre as quais elaboram. Mera questão de cultura. 

(Lateralmente: ao ver esta intervenção interrogo-me sobre a imagem que o Parlamento Europeu transmite para o seu eleitorado. Ou seja, sobre a total cegueira e surdez face aos efeitos das dimensões representacionais dos órgãos políticos. Pois, e se é certo que o funcionamento do Parlamento Europeu não presume que a sala esteja cheia, dado que há múltiplas tarefas dos deputados, assistir a uma comunicação relevante - e esta é-o particularmente - feita numa sala vazia constrói a imagem de um parlamento relapso. 

E se é para falar nas dinâmicas de representação, da imagem que os políticos dão às populações do seu comportamento e o das suas instituições, alguém poderia dizer ao deputado luxemburguês Charles Goerens que é simbolicamente letal, sendo ele o único atrás de um colega de bancada que aborda uma situação dramática, estar, sossegadamente, esparramado na cadeira, só lhe faltando coçar a micose. Um verdadeiro "morcon", como se dirá em francês ...).

Assassinato em Cabo Delgado

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De Maputo recebo uma série de mensagens com um filme telefónico. É de uma violência desmesurada e por isso não o partilho.

Na estrada asfaltada uma mulher nua caminha, trôpega. Perseguida por um grupo de soldados, e é um deles que filma. Rodeiam-na, aos gritos, ela cambaleia desnorteada. Ainda é jovem, deve ser uma camponesa, depreendo pelo seu cabelo, e é uma mãe, anunciam-no as mamas pendentes. Os soldados espancam-na com um varapau, ela defeca em pé, apavorada. Um dos homens dispara junto à sua cabeça, um único tiro e ela, em pânico, corre, cambaleando alguns metros no asfalto. Um outro soldado avança e abate-a com uma rajada. Outros disparam várias rajadas, 20 ou 30 tiros. Gritam, exultantes, "matámos o Al-Shabab", coisas dessas, filmam-se, até de cara à mostra, ufanos, com "V"s de vitória.

Não posso afiançar que os assassinos sejam da tropa regular, ainda que os seus uniformes o indiciem, e não sei o suficiente para retirar ilações sobre o seu armamento. Um deles tem uma t-shirt vermelha e outro tem uma mochila também dessa cor, um verdadeiro contra-senso em termos de acção de combate, e disso cada um poderá inferir o que pretender - que são guerrilheiros fingindo-se soldados mas ainda usando material avulso, em acção de contra-informação, pois a tropa regular não aceita esse vestuário civil; ou que são militares regulares, em tropa mal equipada e com frágeis e desatentas cadeias de comando. Mas percebo que os militares falam entre si em português, e que pelo menos um deles tem um sotaque que me soa a macua (os "érres" muito enrolados, viçosos). E que praguejam muito em português - "porra", "foda-se", "puta" -, o que me faz pensar que terão sido recrutados em contextos urbanos ou periurbanos, onde o uso do vernáculo em português é mais comum. Algo que me conduz a pensar que serão oriundos de áreas a sul daquele extremo nortenho, onde o português é mais superficial. Enfim, parecem-me tropas regulares. Mas poderão ser - como decerto alguns argumentarão - guerrilheiros em acção de contra-informação. Mas se é disto que se trata é muito bem feita, pois realmente parece o contrário.

Este tétrico assassinato não é apreensível para se falar de outras coisas, para avaliar os males do mundo, para comparar com outros fenómenos ou aquilatar das posturas próprias ou alheias. Pois este assassinato à beira da estrada, a mãe nua defecando em pavor face à matilha das feras humanas, é o mal absoluto.

E urge fazer alguma coisa, realmente efectiva! E terminar o estupor que o país e os países, vizinhos e/ou amigos, mantêm diante desta enorme desgraça no Cabo Delgado. Num Moçambique trôpego, cambaleando à beira da estrada, abocanhado pela matilha das feras.

Uma década após a jacquerie de Maputo

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Em 1 e 2 de Setembro de 2010 em Maputo aconteceu o lockout dos donos dos "chapas", protegido por piquetes feitos por alguns dos seus empregados, e seguido por motins (jacqueries) e pilhagens. Nesse dia abria o ano lectivo na Escola Portuguesa. A minha filha entrou às 7 menos 10 e eu às 7 em ponto estava lá para a ir buscar, tantas as informações sobre o que iria acontecer, ali pelos vistos ainda desconhecidas. Estava a entrar no portão e telefonavam-me a dizer que já havia piquetes perto do "Marítimo" e que por toda a cidade isso ia acontecendo. Logo conheci um casal recém-imigrado, o Pedro e a Paula, pais de uma nova colega de turma dela, residentes na Matola. Face ao que acontecia e ia acontecer já não poderiam ir para casa, logo o percebi. Ofereci-lhes um mata-bicho cá em casa, a ver se tudo acalmava. Ficaram dois dias, pois estavam as estradas cortadas. Uns tipos rijos, sem lamúrias nem caganças. Ficámos amigos. 

Dois anos antes acontecera um motim algo similar em Maputo mas estava na Zambézia,  nos distritos, e só tive conhecimento após o seu final, quando cheguei a Morrumbala, onde havia electricidade, rede telefónica e televisão. E percebi que  Carlos Serra, no seu blog Diário de Um Sociólogo, havia sido fundamental na transmissão de informações durante o motim, um importante marco nas transformações comunicacionais no país. Mas em 2010 o Facebook, com superiores capacidades de transmissão e retransmissão de informações (e imagens), foi a plataforma privilegiada para inúmeros moçambicanos colocarem notícias, constantemente actualizadas, e reflexões sobre o acontecido. 

Nesses dias de Setembro, no ambiente frenético de Maputo, coloquei uma série de postais sobre o assunto no blog ma-schamba. Tanto reflectindo sobre o que se passava como sobre os processos de tentativa de controlo de informação estatal, que julguei imensamente significantes, em particular porque denotando a forma como o poder político avaliou a sua base sociológica, de forma algo surpreendente pois inversa ao discurso canónico do Frelimo sobre si mesmo. Mas também aludindo às incompetentes interpretações do acontecido, surgidas na imprensa portuguesa - coisa típica essa, a incapacidade de olhar a realidade moçambicana sem lhe atribuir características oriundas dos pressupostos assentes nos desejos políticos presentes na sociedade portuguesa. (E também por isso os meus cuidados actuais, quanto ao manuseamento da reflexão portuguesa sobre o conflito no Cabo Delgado).

Passado algum tempo peguei nessa série de postais sobre este tema, todos de Setembro de 2010, e fundi-os num único texto. E inseri-o numa das colecções de textos que coloquei na minha conta da rede Academia.edu, neste caso a "A Oeste do Canal: Textos Sobre Moçambique" (basta aceder e gravar, para quem se interesse pelos 42 textos que ali juntei). Por ser uma fusão de postais de blog o texto tem uma arrumação que pode aparentar ser um ensaio. Mas não é. É apenas fruto das inquietações e resmungos daquele momento. Sei que passsados uns anos foi publicado um livro com artigos sobre os acontecimentos  - Luís de Brito (org), Agora Eles Têm Medo de Nós, IESE, 2017. E que o que lá está, fruto de investigação cuidada, terá muito mais pertinência do que este meu texto escrito "no fio da navalha" e sem sustentação de qualquer investigação, para lá do vivido, e apresenta interpretações divergentes das minhas de então. Mas isso não me invalida as memórias, o como vi o Setembro de 2010 em Maputo. Por isso, para quem se queira interessar, aqui deixo o texto. Algo longo:

 

As manifestações de Maputo e o moralismo da sociologia apressada [1]

1. O Frelimo não é um mero partido-Estado, aspira sim a ser um partido-sociedade. Nisso aspira a que qualquer forma de organização, seja ela político-partidária, religiosa, económica, associativa, desportiva, sindical, ou de qualquer outra índole, seja penetrada e controlada pelo partido. Isto é produto de uma concepção de poder, que o coisifica (este torna-se uma "coisa" a ter - e o mais possível - e não uma relação a dirimir). Assim ergue o objectivo de obter o máximo de "poder" possível, de controlar a totalidade dos movimentos sociopolíticos. Ou seja, de adquirir o monopólio de representação política, algo que advém da continuidade da sua auto-representação não como partido mas sim como “frente nacional”.

Esta aspiração é inalcançável na totalidade - nenhum partido, por definição, pode agregar a multiplicidade social – e tem implicações: uma constante insatisfação, pois há sempre algo mais a controlar e a dirigir, e uma constante mobilização e vigilância interna, exactamente porque há sempre algo mais a controlar, a dirigir. É um "modo de vida", não no sentido de apropriação mas sim de reprodução, de vivificação.

Denotativas desta concepção foram as declarações de dirigentes partidários que anunciavam a crença em que o partido Frelimo estaria no poder por mil anos (julgo que o seu autor foi Mariano Matsinhe) – causando algum desconforto, dada a óbvia analogia (involuntária pois apenas ignara) com os discursos do III Reich - e, também, que desejavam 100% dos cargos elegíveis numa das últimas eleições. Mostrando a vontade de esvaziar - no momento e para o futuro - as oposições organizadas, cuja existência é sempre vista como sinal de fraqueza do poder vigente.

Esta vertigem de esvaziar a oposição conduz a situações como a actual, em que a conflitualidade social faz surgir movimentos “inorgânicos”, e assim à inexistência de interlocutores (organizações) com quem dialogar (exercer o poder). Ao que se segue o pequeno passo de desvalorizar estes movimentos contestatários, pois ditos acéfalos, desorganizados, reduzindo-os retoricamente a manipulações (a imagem do "inimigo externo" ainda surge), um mero banditismo. Como tal considerados como ilegítimos, tanto quanto a práticas como a causas. O que isso arrisca? A incapacidade de gerir as situações (gerir o poder). 

 

2. Estas práticas do poder político-partidário, na sua constante deriva de esvaziar as organizações oposicionistas, são a grande força motriz deste tipo de explosões contestatárias, e do potenciar das suas potencialidades violentas, devido ao encerramento dos canais de diálogo que provocam.

Assistimos a “manifestações” que foram potenciadas (possibilitadas?) pela vaga de comunicações via SMS – as quais vieram a ser parcialmente barradas por instrução governamental. Nestes dias muito me lembrei do livrinho "Rizoma" de Deleuze e Guattari,[2] o qual, para além dos seus defeitos, abre pistas - ou dá imagens? - para entender o processo intercomunicativo que susteve estes acontecimentos e, assim, para os entender enquanto fenómenos sociopolíticos.

Essa imagem do "rizoma" é bem apetecível de tomar em consideração num ambiente onde se buscam os "autores" originais das mensagens, os seus divulgadores, como se estes ao serem origem sejam também a sua natureza e sua causa (em boa verdade poder-se-ia até dizer, "como se estes existam"). Num contexto onde, como ouvi há dias, "Viste as mensagens? Não acredito que alguém daquele lado escreva tão bom português!". O que denota uma tendência para a análise detectivesca que não me parece ser capaz de entender estes processos de acção sociopolítica. E que demonstra os hiatos sociológicos que a cidade (o país?) vem criando e potenciando – os quais passam também pelo capital linguístico.

Como corolário desta inexistência de instituições dialogantes fica a “interpretação” dos factos diante da bipolarização moralista: os adversos aos manifestantes, ditos bandidos pois “esconsos”, “desconhecidos”, dado que sem porta-vozes ou líderes; os adversos aos governantes, ditos “corruptos” pois sem negociarem uma agenda de consenso, pois esta de facto inexistente. Ou seja, um bipolarização inútil pois incompreendedora.

 

3. Onde é Maputo? O que é Maputo? Interessante a quantidade de pessoas - moçambicanas e estrangeiras - às quais ouvi dizer nestes últimos dias que a cidade está "sitiada", "fechada", "rodeada", pois nela não se consegue entrar. Nisto, e pela força do uso, desliza-se para o corrente "cidade" como sinónimo deste "cimento", no fundo a velha Xilunguine. Ora isto não corresponde à verdade. As pessoas podiam sair e entrar na cidade, a cidade não esteve cercada [sendo certo que não se podia transitar na estrada para a Matola]. É que, e é isso que estas expressões escondem, os “bairros” são a cidade, o “caniço” é a cidade. E dele(s) podia-se e pode-se sair – desde que não seja para o centro da cidade. E para lá se podia ir, desde que não indo do centro da cidade.

Isto não é meu preciosismo. Apenas a nota de que esta "distracção" - este “cimentocentrismo” - tem imensas implicações no olhar que se quer "analítico". Comece-se por olhar a maioria dos mapas de Maputo, em particular os mais disponíveis na internet (“googlai” "Maputo map"). E perceber-se-á que são amputações da cidade, que reflectem a tal velha imagem-valor do Xilunguine, afastando-se da verdadeira actual cidade de Maputo. Extensa, plana, urbana. Sociologica, económica e identitariamente  urbana e maputense.

Também por isso não se pode dizer que estão os maputenses "sitiados". Porque com esta "cartografia" amputada, e concomitante sociologia amputada, nem se compreende que em Maputo a população tende(u) a fechar-se em casa – não a burguesa, não a do cimento, muito menos os “brancos” ou “turistas”. Falo da significante, da população do grande Maputo, aquele que não está nos mapas vulgares. E, acima de tudo, que não está nas dicotomias. Ainda mais vulgares. População que tendeu a fechar-se em casa não por estar “sitiada”, “cercada”, mas para evitar os efeitos da violência, a popular ou a policial. O que não só é formalmente diferente como tem é crucial, pois denota as características políticas do acontecido. 

 

4. A (neo)informação. Não ouvi rádio durante os dias das manifestações. Mas há algo a dizer sobre os restantes meios de (obter) informação. Espantei-me com a TVM. Não pelo tom, é consabido que qualquer informação estatal é alinhada com o poder. Mas pela dimensão, absurda, do esconder da gravidade dos acontecimentos, pela lentidão e lassidão na sua cobertura. Mesmo sob o ponto de vista de hipotéticos objectivos (elidir os factos e/ou acalmar a opinião pública) não me parece postura produtiva, pois face ao silêncio estatal os cidadãos buscam informação noutras fontes.

A TVM actuou como se ainda fosse a única estação televisiva, não houvesse outros meios de informação disponíveis e concorrentes. Os seus responsáveis actuaram como se fossem canal único, o que, mais do que tudo, é uma inércia intelectual. Pela Miramar passei brevemente, estavam a narrar os milagres acontecidos com umas crentes - confesso que o meu apreço pela liberdade de culto e pela liberdade de informação treme, até aos alicerces, quando contacto com esta banha da cobra vendida aos indigentes de esperança. Mas, como dizem que Voltaire disse "Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de andares a enganar os pobres". Ainda assim, e sendo marginal aos acontecimentos destes últimos dias, esta permissividade estatal face à notória falsidade deste tipo de igrejas é bastante dolorosa.   Como alternativa televisiva notei a STV, com um belíssimo trabalho, na cobertura e no debate. Demonstrando um facto que muitas vezes o debate sobre a situação moçambicana esquece: existe liberdade de imprensa.

Mas na actualidade o controlo dos órgãos de comunicação social por parte dos poderes políticos tem que entender o quão essa vontade controladora é limitada pelas práticas dos cidadãos. A cidade (e o país) fervilhou com SMS - obviamente inquietos. E, nos meios sociais deles dotados, com os computadores - mais lestos que a TV, daí que fonte privilegiada de acompanhar o que se ia passando.

Um breve excurso sobre o que aconteceu neste processo de acelerada intercomunicação pessoal, a curto-circuitar qualquer possível de controlo de informação. Nos últimos anos tenho lido e ouvido muitas loas ao twitter, como um "must" de comunicação (rápida, dialogante) nos seus meros 140 caracteres. Ora para o meio social que usa a internet foi óbvio que o twitter foi ultrapassado. O (já) velho blog foi um instrumento importante: Carlos Serra no seu “Diário de Um Sociólogo” repetiu (ainda que doente) o seu feito aquando das manifestações de 5 de Fevereiro de 2008, com um acompanhamento sistemático dos acontecimentos, colaborações várias e intercalares opinativos. E teve milhares de visitantes nestes dias. É o grão-bloguista de Maputo ao Rovuma! E agora provando que, num eixo informativo, o bloguismo (ainda) não morreu.

Mas a fonte crucial, verdadeira nova alternativa informativa foi o facebook: a possibilidade de nele incluir textos mais longos (do que no twitter) e de participação múltipla nos murais pessoais e colectivos, de cruzamento de informação, de desenvolvimento de debates, e de troca de meros desabafos, tornou-o um frenético ponto de encontro de maputenses e de (preocupados) longínquos espectadores.

Durante as acontecimentos e após estes - desde o relato das “manifestações” até aos pedidos de informação sobre as padarias e as bombas de gasolina disponíveis -, de tudo se fala [até o eterno (meu) patrício maledicente apareceu, protestando porque o consulado português ainda não lhe havia telefonado a perguntar se estava bem? "Ele" há cada um ...!!!]. Mas a vantagem do facebook, para além da velocidade da colocação (em comparação os blogs são alfaias ferrugentas) radica também nas possibilidades das articulações visuais com os outros registos. Ou seja, o leitor vê o que vai clicar - rádio, jornais, blogs e, acima de tudo, youtube.

Com efeito este "casamento" (polígamo) do facebook com o youtube é para reter por quem tenha algum interesse nas plataformas comunicacionais. Disso exemplo foi a célere divulgação, e "partilha" por tantos dos leitores, daquele que se tornou o ícone das manifestações, o pequeno filme daquele homem (vestido à) civil apontando cuidadosamente e disparando sem cessar sobre a população. Divulgação bem anterior à da televisão, assim forçando-a, como é óbvio.

É certo que isso muito se deveu ao fantástico trabalho jornal “A Verdade”, articulando o sítio do jornal com o seu mural facebook - um jornal gratuito, donde popular, a brilhar num meio social informatizado, que não é exactamente o seu público-alvo. Fantástico, repito, o que a equipa fez, trazendo no momento as reportagens de rua para dentro do nosso ecrã. 

 

5. Da sociologia do acontecido - Maputo-contrato/ Maputo-crédito. Acima já questionei a imagem de Maputo que os comentadores manuseiam. Discordando da topologia que usam, a qual de facto ancora na velha dicotomia “cimento”-“caniço”, assim obscurecendo as interligações na cidade, no Grande Maputo, pois aplanando-o, amputando-o, excluindo a dimensão urbana de grande parcela da cidade, assim incompreendendo-a sociologicamente. E, por isso mesmo, inexplicando os actuais acontecimentos.

As comunicações via mensagens SMS provenientes de telefones que utilizam crédito foram barradas, o que não aconteceu com os telefones que funcionam com contrato. Também os cartões de crédito telefónico desapareceram da venda ambulante. O objectivo governamental é óbvio, impedir a disseminação de mensagens que convoquem mais manifestações e/ou disseminem mensagens alarmistas ou contestatárias.

Mas esta medida, pragmática, implica o reconhecimento de uma dicotomia sociológica: a burguesia funciona com várias modalidades de contratos enquanto o crédito pré-pago (“Giro”, na feliz terminologia da MCEL) é utilizado pela esmagadora maioria da população. Ora a medida governamental significou o barrar das mensagens do povo - como intitulá-lo de outro modo se não há indústria nem agro-indústria que lhe permita chamar operariado ou proletariado? e se o "bom tom" da "classe média", o velho “charme discreto da burguesia”, impede o correspondente "classe baixa"? - implica o reconhecimento de uma fractura sociológica entre poder e sua base.

A importância do fenómeno "celular" na última década em Moçambique é extrema. Atendendo à importância sociológica e identitária deste tipo de comunicações e considerando o reconhecimento, até o sublinhar, da fractura político-sociológica que esta medida significa, parece-me que ela, por mais virtuosamente pragmática que tenha sido, implica a necessidade de um curativo posterior, um religar pontes entre Estado e população, algo que em muito ultrapassará o controle dos núcleos de manifestantes.

E, de modo ainda mais significante, esta medida avulsa ficará como um símbolo do hiato entre poder e sua base, inédito na história do partido Frelimo, minando a sua constante e perene auto-representação de frente nacional, unitária e produtora da unidade nacional. Pois como poderá uma “frente nacional” opor-se aos sectores mais desfavorecidos, reconhecer que é destes que vem a oposição? Algo explicitado, repito, na tentativa de barrar as suas comunicações telefónicas.

Em suma, e sem qualquer ironia fácil, parece-me que à "oposição" Maputo-cimento/Maputo-caniço se sucedeu, inopinadamente, uma oposição Maputo-contrato/Maputo-crédito. Uma bem diversa topologia social, a exigir quem a pense, quem a continue a pensar. 

 

6. Os ecos em Portugal. Exemplo de explicações moralistas, das sociologias apressadas, vêm de longe, tudo reduzindo à luta entre "pobres" e "ricos", como se estivéssemos a ler textos multisseculares. Em Portugal o escritor Eduardo Pitta, homem daqui oriundo, reduz assim (demonstrando a presença do perene incómodo pós-colonial, a constante agitação com os "brancos em África"): "A comunidade branca e a classe média negra estão trancados em casa. Os turistas fechados nos hotéis.". Esta pressa (e esta identificação por um lado muito particularizada, por outro lado feita a traço muito grosso) é de quem, obviamente, não sabe quem e quantos se fecham em casa. Entenda-se, a velha dicotomia (polvilhada de racialismo resmungão) tão simplificadora nada explica. Nem a empiria do dia, nem o sistema que a engloba. Explicará apenas, talvez, quem a escreve.

Entre estes moralismos que falam também Francisco Louçã, o coordenador do Bloco de Esquerda, surge lesto a opinar sobre as manifestações de Maputo: "Quando visitei Maputo, há uns anos e na véspera de uma cimeira africana, encontrei logo ao sair do aeroporto a construção acelerada de um muro elevado, que bloqueava um grande bairro de barracas: era para que os delegados estrangeiros não vissem a miséria. Este é o retrato da pobreza e da prepotência: oculta-se a miséria porque não se acaba com a miséria."

Lendo este naco de prosa avanço para o método comparativo - é legítimo, não está Louçã a parodiar o método indutivo? E lembro-me do grande Carlos Lopes. Sportinguista, campeão olímpico, várias vezes campeão europeu, três vezes campeão mundial de corta-mato. Em 1985 foi campeão mundial no vale do Jamor. Ora para acolher esse mundial o governo português de então construíra um enorme muro (um tapume) para esconder o miserável amontoado de barracas de refugiados timorenses - esses pelos quais quinze anos depois os portugueses se vestiram de branco e karaokaram o lânguido "ai Timor". Será esse episódio significativo para definir, explicar ou até apenas ilustrar o sistema político e suas articulações socioeconómicas no Portugal de então e subsequente? Não, não é, por mais ridículo e afrontoso que o episódio então tenha surgido. Então e porque será o tal “muro” de Mavalane o suficiente para ilustrar a situação em Moçambique?

Quer-se pegar num ponto e nele basear uma conclusão? Ok, pegue-se, mesmo. Conheça-se e entenda-se. Na praça do aeroporto de Mavalane (Maputo) um dos seus topos articula com a zona do caniço. Na sua extremidade estava até, se bem me lembro, uma lixeira. A zona foi tapada com cenários de grande dimensão, com dizeres em francês, para simular a Kinshasa de Mobutu. Eram os cenários de “Ali”, de Michael Mann, filme em grande parte rodado em Maputo. Os quais foram ficando após a conclusão dos trabalhos. Algum tempo depois foram retirados. E fez-se o pequeno muro, ao longo de uma curva, tentando manter alguma "estética" da praça, agora "habituada" a um outro visual (um visual de "cimento", chamar-se-ia aqui), como se "hall" de entrada da cidade. É risível? Sim, um pouco. Mas é isso demonstrativo, denotativo, ilustrativo de uma situação política estrutural? Afirmar isso é uma pura demagogia, básica. E desmontada por qualquer corrida entre Mavalane e a “drenagem” (ou seja, a avenida Joaquim Chissano, que é a imediata continuação desse caminho principal de saída do aeroporto), feita numa paisagem similar, de "caniço"[3], e sem outros muros. Para que agita o coordenador a sua palavra leve?

Apenas assinalo, farto desta sobrevivência de textos qual medievais, mais ou menos cristãos, dos "ricos" vs "pobres", que há essa pequenina coisa da empiria que torna mais complicadas as coisas. E nisso esvazia a pompa das tiradas moralistas, cheias de invectivas e de si-mesmas.

Paulo Granjo, antropólogo português que vem trabalhando no país, escreveu sobre a situação em Maputo no “Público”[4] e no seu blog.[5] Face a este último texto, mais completo (o jornal tem limites de espaço), tenho uma discordância. Radical. Granjo avança como explicação para os acontecimentos a ideia da existência de uma particular concepção de poder, "tradicional" e "africana" que ancora o contrato social. Ou seja, considera que pela vigência dessa ideia de "poder" "só em casos extremos deverá ser posto em causa o poder instituído; mas pressupõem, também e em contrapartida, que quem ocupe esse poder tem a obrigação de salvaguardar um mínimo de bem-estar e de dignidade das pessoas que governa. Pode (e tem o direito de) “comer mais”, mas não de “comer sozinho” e à custa da fome dos outros".

A minha discordância não se prende apenas com questões sobre a hipotética especificidade (e como tal da sua dinâmica explicativa), da realidade ou abrangência dessa concepção "tradicional" ou "africana" de poder. Pois refuto-a liminarmente, uma simplificação empobrecedora e ilegítima, e até surpreendente quando explicitada por um antropólogo, do qual se espera um cuidado particular diante deste tipo de generalizações.

Mas o problema imediato é que esta proposta interpretativa está presa a discursos locais (não "aos" discursos locais) - não o digo como defeito, digo-o como característica. E se assim é, se estamos face a discursos locais [às vezes a gente da antropologia chama-lhes émicos] permite uma resposta nos mesmos termos. Através do dito popular, tantas vezes repetido de norte a sul, e significando (criticamente) a prática do poder: "os cabritos comem onde estão amarrados". Entenda-se, o voraz cabrito onde amarrado come, não contratualiza. Ou seja, basta recorrer a (alguns) discursos locais para destroçar um argumento que tem como única base (outros) discursos locais.

Deste modo quero significar que recorrendo ao mesmo tipo de garimpo das “vozes indígenas”, deixando-nos aprisionar pelos seus valores faciais, acabamos sempre por encontrar as refutações às nossas argumentações. Ou, de outra forma, se queremos interpretar temos que perceber que não somos eco. Nem porta-vozes. Principalmente se falamos como antropólogos.

Mas tudo isto são detalhes. Pois, de facto, aquilo que me irrita, e sobremaneira, é ver patrícios – letrados e mais ou menos informados sobre a realidade moçambicana – utilizarem estes factos, os quais nos angustia(ra)m, para falarem não da realidade mas de si mesmos, para sublinharem as opiniões que têm e para alimentarem as suas perspectivas e desejos para com o seu país, o meu país. Explico-me melhor: estes intelectuais, atentos e interessados, veiculam o tal modelo “humanista”, aqui encontram uma sublevação popular contra um poder que (agora) dizem erróneo. Assim sendo, todos falam de “manifestações” populares, pois todos aceitam como carta certa a expressão “greves”, o termo que a população aqui usa para definir o acontecido. Ou seja, louvam “greves” populares e manifestações espontâneas contra o poder, “greves” dos “pobres” contra os (ontologicamente ilegítimos) “ricos”.

E nenhum destes intelectuais, “conhecedores” e “atentos”, explicita o dado crucial, que iria contra a bela imagem que querem manipular para alimentarem o seu ideal de “movimentos sociais”: tratou-se de um “lockout”, a dita “greve” foi de proprietários de transportes públicos privados, pressionando pelo reforço dos financiamentos estatais aos preços dos combustíveis. Proprietários esses que são a “classe média baixa”, tanta dela emanada do próprio partido estatal através de pequenos financiamentos iniciais, por vias de créditos bancários pouco controlados ou mesmo por ínvias vias. E que os “piquetes de greve” foram, em muitos casos, montados por trabalhadores induzidos e pressionados pelo seu patronato. E que as “manifestações” espontâneas foram, em tantos casos, brotados da agitação daquilo a que a velha literatura revolucionária chamou o “lumpen”, mas acima de tudo de jovens em busca da agitação iniciática e do produto de breves pilhagens.

E são estes os revolucionários especialistas, os que tomam “lockout” por “greve”. Caímos, no nosso país a olhar para este país, até este ponto. De mediocridade. 

 

7. Rescaldo sobre o olhar português: na imprensa portuguesa tem sido o jornal “Público” - um "jornal de referência", e como tal a marcar a imagem do país no seio da sociedade portuguesa - a dar mais atenção às questões moçambicanas, neste pós-1/2 de Setembro. Para além da abrangência das vozes ouvidas o que realmente mais me chama a atenção é a frase que, neste último fim-de-semana, encabeça as reportagens: "O moçambicano já sabe que pode dizer que não".[6] É o cabeçalho que lido superficialmente apenas aparenta ecoar o resultado da inflexão governamental aqui agora acontecida. Mas também transpira mais, o tom global assumido pelo jornal sobre o país a propósito destes eventos.

Meto um preâmbulo que não quer nem pode ser exaustivo. Em Moçambique houve uma guerra civil até 1992. Dezasseis anos, diz-se que um milhão de mortos. Causas externas houve-as (e por isso ainda hoje tanta questiúncula quando o adjectivo "civil" lhe é ligado). Mas também causas internas, e muitas. Como o provou - e para surpresa das elites urbanas - o resultado das eleições de 1994 quando a Renamo teve uma enorme votação. Em 1998 houve as primeiras eleições autárquicas, boicotadas pela Renamo. A população não foi votar, a abstenção foi esmagadora - logo alguns "iluministas" vieram dizer que tal se devia ao facto da população não "compreender" o objectivo destas eleições. A mesma população que tanto havia estrategizado, questionado e até combatido para ter autoridades locais, descentralizadas, cuja legitimidade pudesse controlar, as quais se chamavam então "tradicionais" e vieram a ser legisladas em 2000 como "comunitárias". Era essa população incapaz de compreender a eleição de poderes locais, ainda que de diferente fundamento? Que paupérrima “explicação”.

Tamanha a recusa popular a esse acto eleitoral, decerto que por várias razões, que de imediato se aventou o adiamento das eleições presidenciais e legislativas previstas para o ano seguinte. Ainda assim estas realizaram-se em 1999 com os dois partidos maiores praticamente empatados [houve então uma enorme discussão sobre os resultados]. Entretanto, antes disso, durante e depois, várias modalidades institucionais da vida social foram alvo de debate político e conflitos com ele relacionado (como exemplos a formulação dos tribunais locais, a codificação e selecção do tipo de autoridades, a legitimação da prática sacerdotal, a lei das Terras, etc.). Já neste século alguns eventos violentos (felizmente raros, mas nem por isso menos dramáticos) eclodiram: a desgraça da prisão de Montepuez, os conflitos em Mocimboa ou em Marromeu. Carlos Cardoso e Siba-Siba Macuacua foram assassinados, tendo esses factos provocado uma enorme comoção nacional e uma generalizada invectiva contra o que foi considerada a corrupção dos sectores económicos. O julgamento dos assassinos de Cardoso acompanhado em directo pela tv e pela rádio foi um episódio espantoso, politicamente falando, com a população colada aos receptores e invectivando os presumíveis culpados (aqueles que presumia serem os mandantes). Tantos eventos contribuíram, é opinião generalizada, para modificações na cúpula do partido Frelimo. Em 2003 as eleições municipais atribuíram pela primeira vez o poder executivo,  em algumas autarquias, ao partido Renamo. Mas, pelo contrário, em 2004 as eleições presidenciais e legislativas assistiram ao reforço do partido Frelimo, então já sob a liderança de Armando Guebuza. O que se veio a reforçar nas seguintes eleições, primeiro nas autárquicas, com a perda da Renamo dos seus locais, e depois nas presidenciais e legislativas últimas. Entretanto desde meados da década que as próprias bases da Renamo falavam na necessidade de substituir Dhlakama por "Deviz", Deviz Simango o presidente da Beira - corrente de opinião que implicou a cisão do partido e a sua perda de influência nacional, bem como o surgimento da terceira força partidária.

Neste apanhado, feito de rajada, não coloco nenhuma "virtude" nem nenhum sentido linear, que não é para defender uma qualquer filosofia da história (moçambicana) que estou a teclar. Mas é impossível deixar de notar uma constante, fervilhante, actividade política, constituída  por múltiplos "dizer não", múltiplos "dizer sim" e, com toda a certeza, por inúmeros "talvez". Para além dos (políticos) "nem me interessa". Uma conflitualidade social, recorrente e normal nas sociedades. Visível nestes eventos e em tantos outros, de âmbito nacional ou local, com dimensões pró-activas ou nas múltiplas manifestações de resistência ("resiliência", gostam alguns) de aparência surda e muda, tanto durante o período socialista como no liberal, face às intromissões do Estado na vida comum, mas efectivamente dotadas de características de acção política, e sonora - haja quem as saiba ouvir.

Os recentes acontecimentos de Maputo de 2008 e 2010 são diversos? São peculiares, como afinal o são os fenómenos políticos - ainda mais quando não se lhes coloca a tal "linearidade" explicativa. Têm causas próprias e efeitos particulares? Terão. O que mais me espantou foi a ruptura havida no discurso do partido governamental, que ainda se vê como frente nacional, criando um hiato com a população, ao barrar as comunicações telefónicas dos sectores mais pobres da cidade. Factos que não me parecem apenas simbólicos, e que surgirão com repercussões, ideológicas que sejam.

Mas fazer deles um momento inicial? Um "já sabem que podem dizer não?". Um começo da política? Um discurso destes só se pode legitimar na amputação da história, recente e não só. Porventura ligada à espectacularização da comunicação, mas truncando-a. E só pode ancorar, ancorará?, numa concepção que retira da prática política constante (estruturante, mesmo que não exaustivamente quotidiana) a população moçambicana. Um défice de "agencialidade" (é outro jargão, também tecnocrático), um défice de acção social. Um défice de acção política.

É, no seio das páginas dos jornais portugueses, o regresso aos velhos gregos. Os da polis, que têm acção política. E os outros, que não vão tendo. Salvo se tiverem fome. Escreve-se em 2010, Lisboa. Bárbaros. Esses de Lisboa, entenda-se.

 

[1] (2/3/4/5/8/13.9.2010)

[2] “Rizoma” de Deleuze e Guattari (Assírio & Alvim, 2006 [1976]). Irritantemente palavroso, integrando passagens hoje (e porventura já então) risíveis - a divisão ocidente arborícola/oriente rizomático (p. 44) é caso extremo, um verdadeiro must de "orientalismo" (a la Said), uma dicotomia obscurantista, sendo-o também pelo exótico que manuseia (e produz). Mas como analogia poderá ser útil para entender os acontecimentos de agora em Maputo: “Os bolbos, os tubérculos são rizomas. (...) O rizoma em si mesmo tem formas muito diversas (...) qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado com qualquer outro e tem de sê-lo. É muito diferente da árvore ou da raiz que fixam um ponto de ordem  [14-15] (...) "Não há unidade que sirva de prumo no objecto, nem que se divida no sujeito. (…) Uma multiplicidade não tem sujeito nem objecto, mas apenas determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que ela mude de natureza (as leis de combinação crescem, pois, com a multiplicidade)." [18] (…) "Um agenciamento é precisamente este crescimento das dimensões numa multiplicidade que muda necessariamente de natureza à medida que aumenta as conexões. Não há pontos ou posições num rizoma, como se encontra numa estrutura, numa árvore, numa raiz. Só há linhas." [19]

Contrariamente "Os sistemas arborescentes são sistemas hierárquicos que compreendem centros de significância e de subjectivação, autómatos centrais como memórias organizadas. É que os modelos correspondentes são tais, que um elemento só recebe as suas informações de uma unidade superior e de uma afectação subjectiva, de ligações pré-estabelecidas. (...) Admitir o primado das estruturas hierárquicas equivale a privilegiar as estruturas arborescentes (...) Num sistema hierárquico um indivíduo só admite um único vizinho activo, o seu superior hierárquico (...) Os canais de transmissão são pré-estabelecidos: a arborescência pré-existe ao indivíduo que nele se integra num lugar preciso (...)" [39-40]. Assim "A estes sistemas centrados, os autores opõem sistemas acentrados, redes de autómatos finitos, onde a comunicação se faz de um vizinho a um vizinho qualquer, onde os caules ou canais não preexistem, onde os indivíduos são todos intermutáveis, definem-se apenas por um estado em tal momento, de maneira que as operações locais se coordenam e que o resultado global se sincroniza independentemente de uma instância central (...) o grafo regulando a circulação de informação é de certo modo o oposto do grafo hierárquico." [41-42].

[3] Entenda-se que "caniço" é um termo descritivo que na actualidade não corresponde a uma realidade física, dada a construção dominante ser em blocos e já não a tradicional habitação que originou a denominação.

[4] A Razão e o Sentido de Dois Motins (http://www.publico.pt/destaque/jornal/a-razao-e-o-sentido-de-dois-motins-20128142)

[5] Novos Motins em Maputo e Maria Antonieta na Costa do Índico (http://antropocoiso.blogspot.com/2010/09/novos-motins-em-maputo-e-maria.html)

[6] Os textos já não estão acessíveis.

O ataque ao Canal de Moçambique

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Ontem, domingo, em Maputo a sede do jornal "Canal de Moçambique" foi atacada e as suas instalações totalmente queimadas. As descrições que leio anunciam que foram utilizadas bombas artesanais - presumo que os sempre chamados "cocktails molotov". E que depois foi o edifício regado com combustível, de seguida ateado. A reportagem que acabo de ver na estação moçambicana STV mostra os restos carbonizados da sede e dois recipientes desse combustível, calcinados. O ataque ocorreu no início da noite de domingo, ninguém estava a trabalhar, não há vítimas a lamentar. 

Cumpre-me dizer que às 11.21 de segunda-feira googlei e ainda não vi nenhum "lamento" das instâncias da corporação jornalística portuguesa. Nem do Estado português. Nem mesmo dos sempre loquazes "colunistas" que grassam no "achismo" luso. Sempre tão lestos noutras situações a expressarem "indignação"  ou "solidariedade" ou "preocupação" com acontecimentos alhures. Noto-o, saliento-o, e entristece-me.

O "Canal de Moçambique" é um jornal de oposição, que não exactamente "da" oposição. Critica, por vezes de forma  muito abrasiva, o Estado, o governo, a justiça. A democracia precisa disso, e o seu desenvolvimento precisa disso. E tem, ou deve der, instâncias jurídicas e instrumentos de controlo deontológico que enfrentem hipotéticas vias infundamentadas na imprensa. 

Eu tenho um particular carinho pelo "Canal de Moçambique". Sou amigo do Fernando Veloso, seu primeiro director. Ainda que pense de forma diferente da dele, tanto sobre Moçambique como sobre o resto do mundo. Os homens podem ser amigos, não apenas "conhecidos", nas suas diferenças. Talvez até mais em Moçambique, onde as agruras do processo nacional e as dificuldades da vida sedimentam companheirismos pessoais, do que neste Portugal, pejado de pequeno-burguesotes muito ciosos dos seus "clubes" e redes de auto-protecção. Sabedores dessa amizade muitas vezes outros se me dirigiam criticando Veloso e seus jornais - conheci-o como editor do Mediafax, cargo no qual sucedera a Carlos Cardoso que veio a ser assassinado, lembro-me dele depois numa breve estada no Zambeze - como se que para lhe mandar recados por meu intermédio. Nunca lho terei dito,pois  também não aceitaria que se intrometesse ele na minha docência ou nos meus textos profissionais. 

Depois, um dia, partilhávamos nós uma mesa no Piripiri e disse-me que ia abrir um jornal. Estava ainda a pensar no nome e tinha algumas hipóteses. E ali se fez um  pequeno "brainstorming", uma avaliação dessas suas hipóteses. Bem-disposto, entre 2M's, propus-lhe o nome "Canal de Moçambique", óbvia ambivalência. Veio a aceitar essa minha proposta e eu fiquei ufano, muito mesmo. Anos depois, na mesma esplanada, e dado que eu continuava com a mania de blogar - então no ma-schamba -, perguntou-me a razão de não escrever eu na imprensa. "Porque não me convidam" ripostei. "Ok, então convido-te eu!", contra-atacou, e passei a ter uma página semanal no jornal. À qual chamei "Ao Balcão da Cantina", numa alusão à cantina presente no magnífico "Nós Matámos o Cão Tinhoso" de Luís Bernardo Honwana, forma de eu me situar, de mostrar onde estava no registo convivencial de escrita. Nunca ali falei de política, mas do queijo do Chimoio, encontros universitários, a música de Stewart, pintura, piripiris, arqueologia, etc, num verdadeiro sortido. Um dia as hostilidades armadas entre a Renamo e o Estado reiniciaram-se. Eu não gostei da abordagem do jornal, que me pareceu conjugar uma compreensão sociológica do fenómeno a uma aceitação da inevitabilidade do conflito. E sem resmungar parei de escrever - voltei apenas uma vez, para bramir, devastado com o assassinato do meu amigo, o escultor Alexandria, linchado pela população, esta crente num fantasmático grupo de violadores que assolaria Maputo.

Lembro esta minha ligação pessoal ao jornal para sublinhar a necessidade da imprensa livre, mesmo que discordemos do seu conteúdo. E de que a discordância não impede a colaboração nem impede os ganhos mútuos (prazerosos ou outros). E não implica estes ataques. Soezes, na pérfida violência. No país de quando em vez há jornalistas ou activistas que sofrem atentados, que desaparecem (há jornalistas desaparecidos), que são assassinados. É certo que a longo prazo estaremos todos mortos, mas a médio prazo (a única escala humana relevante) nada se ganha com estas violências. A conflitualidade interna ao bloco de poder e a existente entre diferentes grandes grupos de interesses originam estas explosões de violência, censória, na vertigem rapace. 

O desenvolvimento é um Processo de Democratização em Curso, para glosar a nossa velha expressão. Mesmo que muitas vezes subordinado ao lema "Um passo em frente, dois passos atrás", como Lenine consagrava. E não é uma "apropriação primitiva de capital" feita de forma bárbara. Queimar o "Canal de Moçambique" é, goste-se ou não do jornal, queimar o futuro do país, queimar o desenvolvimento. É a expressão, desesperada, do ganância dos interesseiros.

(E deveria ser também uma lição para os intelectuais nacionais que continuam a seguir adeptos das ditaduras imperialistas. Mas isso é outra conversa, mais demorada).

Uma colecção de leituras

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Na minha conta da rede Academia.edu tenho colocado colecções de textos que fui escrevendo ao longo dos anos, prerrogativa de velho. Agora mesmo coloquei uma a que chamei Leituras sem Consequências (basta aceder/"clicar" para se poder gravar, caso haja interesse).

Nesse pacote juntei cerca de 30 textos, na sua maioria dedicados a livros centrados em Moçambique. Alguns serviram para as minhas comunicações nas sessões de apresentação desses livros, outros foram artigos de jornal, alguns outros postais de blog, mais ligeiros mas aos quais ainda encontro algum interesse. São assim todos textos de ocasião. Ficam como memória de boas ocasiões. De boas leituras, bons convívios.

Textos sobre o conflito no Cabo Delgado

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Desde há mais de dois anos que amigos, conhecidos e colegas em Moçambique me dizem do silêncio sobre o conflito que vem acontecendo no Cabo Delgado. Um silêncio estatal, mediático e mesmo conversacional. Esse silêncio esmoreceu nos últimos três meses, devido ao crescente impacto das acções dos chamados "insurgentes". 

É certo que nos últimos anos algumas pesquisas têm sido feitas. O crivo de recepção a esses trabalhos tem dois problemas, excêntricos aos seus efectivos conteúdos, verbalizados por nacionais e por alguns residentes alhures (nacionais ou estrangeiros): por um lado, a crítica a priori, assim sui generis, àqueles que reflectem sobre aquela realidade sem estarem (ou terem estado) no "terreno". Vinda do senso comum, tendencialmente empiricista, essa crítica não espanta, mas oriunda de praticantes de qualquer ramo das ciências sociais/humanidades, essa crítica é pavorosa, de tamanha maneira que nem elaborarei sobre o assunto, pois tem que ser evidente. O trabalho de terreno é fundamental para quem utiliza determinados prismas analíticos mas não é fundamental nem mesmo necessário para quem utilize outros prismas. E um profissional que perora na imprensa e nas redes sociais invectivando investigadores porque "nem sequer foram lá" sem atentar nesta realidade laboral básica faz uma triste figura. Mesmo.

Por um outro lado, surge a crítica de que alguns dos trabalhos, e investigadores, obtêm "primazia" devido a serem mais visíveis, por estarem no "estrangeiro", por serem mais "mediáticos", etc. É evidente que as investigações em ciências sociais também estão num "mercado" (no académico, no desenvolvimentista, no organizacional, etc., e nas articulações de todos estes). Assim um mercado compósito que é concorrencial e não igualitário, pois há quem tenha mais "capital" - visibilidade própria, inserção nas esferas mediáticas e/ou políticas, capacidade institucional, país de acolhimento, língua de produção, etc., para além das melífluas e tão procuradas "redes" pessoais de contactos. Mas este tipo de jeremiada tem muito de anacrónico. Pois não só ecoa uma implícita patrimonialização dos "terrenos" ("isto é nosso, nós - nacionais ou estrangeiros "companheiros de estrada" - é que temos a "virtude" necessária para investigar", uma "virtude" moral e não a "aretê" qual potencialidade), que conduz à invectiva aos que estão num qualquer "lá fora", "cheios" de visibilidade. Mas também porque esquece que na actualidade é muito mais fácil divulgar textos, alcançar a tal "visibilidade" - ou, num sentido elevado, ser mais lido para participar no debate sobre o fenómeno em questão. Não que se tenha atingido a equidade nesses mercados textuais. Mas com o pdf (e similares), do email às redes comunicacionais - não falo das dengosas "redes" individuais mas sim das "redes (ditas) sociais" - informáticas, e da agora disseminada teleconferência, é muito mais fácil e democrática a disseminação da informação sobre os trabalhos realizados. Basta querermos.

Pronto, feito este desabafo, que é uma reacção irritada a alguns comentários recebidos ou lidos alhures, vou colocar aqui uma lista de textos analíticos sobre a situação no Cabo Delgado, a qual irei actualizando à medida que for conhecendo outros (e se algum visitante me puder ajudar muito agradecerei). Um elenco que é um modesto contributo.

1. Bernhard Weimer, 2018, "Vampires, Jihadists and Structural Violence in Mozambique. Reflections on Violent Manifestations of Local Discontentand their Implications for Peacebuilding: An Essay";

2. Liazzat Bonate, 2018, "Islamic Insurgency in Cabo Delgado: Extractive Industry, Youth Revolt and Global Terrorism in Northern Mozambique - A Hypothesis";

3. Liazzat Bonate, 2018, "The Islamic side of the Cabo Delgado crisis"; 

4. Africa Report, 2018, "Al-Shabaab Five Years after Westgate: Still a Menace in East Africa"; 

5. Hussein Mohammed Gari, 2018, "Al-Shabab Template Insurgence and the Expansion of the extremist-type Violence’s Parameters in northeastern Mozambique"; 

6. Saide Habibe, Salvador Forquilha e João Pereira, 2019, "Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique: O Caso de Mocímboa da Praia"; 

7. Liazatt Bonate, 2019, "Why the alliance of Mozambique Government with the Islamic Council might not end insurgency in Cabo Delgado"; 

8. Rufino Sitoe, 2019, "Terrorismo em Moçambique? Que Soluções de Políticas? Um olhar aos ataques de Mocímboa da Praia"; 

9. David Matsinhe, Estacio Valoi, 2019, "The Genesis of Insurgency in Northern Mozambique";

10. Luca Bussotti, Charles Torres, 2020, "The risk  management of islamic terrorism in a fragile state: the case of Mozambique";

11. Eric Morier-Genoud, 2020, "The jihadi insurgency in Mozambique: origins, nature and beginning" (não tem acesso livre);

12. Nuno Rogeiro, 2020, "O Cabo do Medo - o Daesh em Moçambique" (livro, sem acesso livre - mas há um pdf a circular);

13. Francisco Almeida dos Santos, 2020, "Guerra no Norte de Moçambique, uma Região Rica em Recursos Naturais – Seis Cenários"; 

14. Bulama Bukarti, Sandun Munasinghe, 2020, "The Mozambique Conflict and Deteriorating Security Situation", Tony Blair Institute for Global Change;

15. Joan Swart, 2019, "Countering Ahlu Sunnah Wa-Jamo (Al -Shabaab) Insurgency in Mozambique";

 

Cabo Delgado

Filme

Quereis mais, precisais de mais? A lagrimazinha ainda não brotou? Ainda não conseguis meter o que se passa nas caixinhas apropriadas à vossa indignação?

Quereis mais? Eis: o filme é duro, três "insurgentes", como chamam aos guerrilheiros islâmicos, que decerto terão feito coisas horrorosas à população, a serem linchados pela tropa. A um deles cortarão a orelha (podereis vê-la, à orelha avulsa) e ele mal reage, já moribundo.

Tendes uma lagrimazinha disponível? Ou não cabe nas vossas caixinhas preparadas para a indignação, os antebraços encostados ao torso, os bracinhos erectos trémulos, abespinhados nas certezas próprias, tão justas as vossas, as vozes em falsete, tão ciosos de vós-próprios? Ah, Lisboa, Lisboa ...

Nem uma lágrima pelo Cabo Delgado

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Nem um suspiro pelo Cabo Delgado, quanto mais uma lágrima ...

No sábado um amigo em Maputo, lusomoçambicano que durante anos foi jornalista em importantes jornais em Portugal e, depois, em Moçambique, partilhou no seu mural de facebook a notícia de mais uma emboscada nas estradas de Cabo Delgado, a qual causou dez mortos, com três sobreviventes que conseguiram fugir para o mato. Um dos mortos era irmão de um seu conhecido. Ao seu postal, que publicou "para ver se o mundo acorda um bocadinho para esta inexplicável guerra que está a decorrer na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, desde Outubro de 2017", juntou várias fotografias dos túmulos dos assassinados pelos guerrilheiros. No meu mural de FB partilhei o seu postal e fotos, tal como várias outras pessoas o fizeram, exactamente com o mesmo objectivo, dar visibilidade a esta desgraça crescente. Nessa mesma semana as notícias mostraram efeitos de mais um ataque guerrilheiro a Mocimboa da Praia, com relatos de inúmeros militares mortos - até de um oficial superior - e da população em fuga. Desta ouvem-se, em registos áudio,  relatos de sevícias praticadas por guerrilheiros e de desmandos por parte da tropa regular. Uma refugiada de Mocimboa descreve com detalhe a situação, explicitando que os guerrilheiros "vêm para matar, nem avisam" e que os soldados pilham, dizendo-os, em frase extraordinária, "os novos insurgentes".

Quase todos os dias vejo no FB, em páginas individuais ou colectivas de moçambicanos, notícias e filmes sobre as atrocidades que vão decorrendo no Cabo Delgado. E muitas outras me chegam via Whatsapp. Na última semana chegaram-me, por esta via, filmes de inúmeros cadáveres dos chamados "insurgentes". A lógica, explícita nas palavras de um soldado audível num desses filmes, é mostrar aos revoltosos, e à população, que eles são abatíveis, que nem as notícias das suas baixas são mera propaganda estatal nem eles são invulneráveis - e mesmo que não tenha ainda ouvido falar da crença entre estes insurgentes da sua invulnerabilidade convém lembrar que essa é uma hipótese, dado que a crença na imortalidade mágica dos combatentes grassou no norte de Moçambique nos últimos anos da guerra civil, há trinta anos. 

Mais uma vez partilhei - via Whatsapp - com alguns amigos que têm ligações a Moçambique (ou nacionais ou portugueses que lá viveram) as notícias que recebera explicitando que não reenviava os filmes por serem excessivos, macabros. Dois desses amigos, mais vividos, pediram-mos e assim lhos reenviei. A resposta de ambos foi imediata e coincidente: "não os partilharei", tamanha a comoção que haviam tido. Mas, de facto, logo encontrei essas imagens no facebook na página Pineapple News, animada por um conjunto de jornalistas e amadores moçambicanos, vários dos quais estão nas províncias do norte do país.

Em 29 de Janeiro de 2018 eu, já cansado de notícias sobre a eclosão deste movimento, aqui publiquei este postal Guerrilha Islâmica em Moçambique - reproduzindo um filme entretanto desaparecido que continha declarações pró-sharia de guerrilheiros encapuçados. Eu conheço o país, nele vivi, conheço aquele norte. E muito fui resmungando desde a década passada, em privado pois isto é matéria sobre a qual não se especula em espaço público, sobre as possibilidades da eclosão deste tipo de conflito. Mas não tinha, nem tenho, quaisquer fontes privilegiadas. Ou seja, não era preciso ser nem druida nem agente de informações para prever coisas destas, nem o é para acompanhar, desde há dois anos e meio, este processo.

Ontem, numa magnífica noite de verão, jantei com amigos aqui ao ar livre, no retiro bucólico em que venho envelhecendo. No final debatia-se, com veemência, as questões da arte e da (im)pertinência filosófica da chamada "arte contemporânea". Nesse entretanto recebi mais uma mensagem via Whatsapp, enviada por outro amigo de Maputo: uma ligação para um filme colocado naquela página de FB. Para não incomodar os convivas vi-o silencioso. Durante 2 minutos e 53 segundos um (presumível) guerrilheiro é linchado por um grupo de soldados. Aparentemente morre. Eu levantei-me fui ao interior da casa, servi-me de um uísque, liguei o som do telemóvel, comprovei que se tratava de  Moçambique, pelo português falado e seu sotaque. Bebi um seco. Servi-me de um outro, com gelo. E regressei à douta conversa. Ainda que pouco loquaz. Mesmo muito pouco.

Serei eu assim tão igual à "jornalista" que há um mês chorava pela morte de um cidadão norte-americano, esganado por um polícia? Tão igual aos seus colegas que não enchem primeiras páginas e aberturas televisivas com este assunto? Tão igual às turbas de manifestantes que então saíram às ruas clamando que as "vidas dos negros contam"? Tão igual aos pobres opinadores que "contextualizam" este silêncio - que é mediático, político e, acima de tudo, cultural - porque não há imagens das violências enquanto o cidadão Floyd foi assassinado diante de um telemóvel?

Pois se a profusão de notícias, o relevo que lhes é dado, e as "indignações" que causam, dependem das imagens dos morticínios então entenda-se bem: sobre o Cabo Delgado há imensas imagens, imensos filmes, e há mortes em directo. Tudo disponível, em canal aberto. A jornalista "afrodescendente" não se comove com estas imagens? Nem os seus colegas? Nem os indignistas burguesotes? Nenhum cidadão português pergunta "o que fazer"? Para que serve a "relação privilegiada", a extraordinária diplomacia portuguesa - afadigada na preparação da "presidência"? Onde está a tão propalada "costela" moçambicana do PR? O legado anticolonialista oriundo de Moçambique patentado pelo nosso PM? E, já agora, para que serve a CPLP? Pois o silêncio, tonitruante, não é apenas dos "indignistas" profissionais ou dos jornalistas, preguiçando nas redacções. É também das elites políticas. Essas que andam há décadas a papaguearem "lusofonices".

As causas do conflito no Cabo Delgado serão várias e foram sendo caladas. Há três meses ainda se podia ler intelectuais moçambicanos dizerem que se tudo se resumia a actos de "mercenários ocidentais desempregados" ou dos "interesses americanos". O mesmo tipo de intelectuais que insultavam o meu colega moçambicano que, primeiro do que todos, ainda em 2017, aludiu a tensões étnicas na região. Diziam-mo a mim, não o esqueço, para minha contida repulsa. 

Causas várias haverá, internas, externas, no âmbito da consabida "maldição dos recursos naturais". E essa pluralidade das causas impede aquilo que a pobre jornalista chorona e os seus similares gostam: apontar o dedo aos americanos ("yankees", dizia-se), ou, vá lá, aos "ocidentais", e resolver-se o assunto, construir-se a narrativa. Que sirva de catapulta para o protesto "as usual". Não veste bem, esta narrativa? Então nem se enfatizam as notícias nem se protesta. Pois para quê? São só pretos, e coisas entre eles ...

E aqui sim, vejo o tal "racismo estrutural".

Dia da independência em Moçambique

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Hoje é o dia da independência em Moçambique. Na alvorada folheio alguns livros. O Eduardo White é sempre dito como figura-mor na literatura desde os 1980s, libertando-a da obrigação dos temas sociopolíticos, da agenda mobilizadora. Divergindo sobre o seu "eu", dores, amores e desamores. Mas ainda assim em 1987 ele escreveu Homoíne e leio-o hoje, no dia da efeméride. Depois do meio-dia beberei um uísque com ele, e resmungaremos, cada um à sua maneira, invectivando os vermes necrófagos:

"Os nossos mortos são muitos / são muitos os nossos mortos / dentro das valas comuns / e a terra está sangrando de repente, / tem sede e sangra lentamente / e tem espadas vivas e silvando como o vento / e muros altos estancando cada minuto do tempo, / os nossos mortos são muitos, / são muitos os nossos mortos / dentros das valas comuns / e há um enorme pássaro que se encanta, é o pássaro lento do esquecimento, pássaro de sangue, pássaro que se levanta / dos vermes que estão comendo os nossos mortos por dentro ..."

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