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Nenhures

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(Encontro “Moçambique: perguntas. Sociedade e Cultura”. 16 de março. Faculdade de Filologia)

Acima as 3 primeiras horas de uma conversa sobre algumas temáticas moçambicanas, decorrida entre Fátima Mendonça, Rita Chaves, José Luís Cabaço, Luís Carlos Patraquim, Nazir Can e eu. Abaixo as 6 horas subsequentes.

(Encontro “Moçambique: perguntas. Sociedade e Cultura”. 17 de março. Faculdade de Filologia)

 

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Lendo os meus correspondentes-FB em Moçambique encontro imensa gente louvando/"compreendendo" (justificando) - entre postais e comentários - a "operação militar" (sic) da Rússia na Ucrânia. A dimensão dessa adesão surpreende-me. Até porque habita num país que durante os últimos 50 anos viveu uma guerra de independência contra Portugal, uma "operação militar" (sic) da Rodésia e a demorada intrusão militar da África do Sul. 

As razões para tal suspensão da inaceitabilidade de uma invasão serão várias, e eu consigo reconhecer algumas: 

1) alguma russofilia, que é mero atavismo, uma "sobrevivência" das adesões bipolarizadas da era da Guerra Fria (a qual em Moçambique nada teve de "Fria", nem mesmo de "baixa intensidade" como foi então costume chamar aos "conflitos" que daquela derivavam). E a qual é algo estranha pois também se encontra (mas não só) em gente que, visivelmente, é jovem o suficiente para não ter moldado as suas mundividências nessa época, tendo maturado à revelia de qualquer movimento comunista (desde há muito inexistente no país) ou de qualquer intervenção relevante da Rússia (pós-soviética) enquanto país "doador".

2) uma outra via discursiva, ligada à anterior mas algo distinta - pois surge em moldes retóricos mais burilados, e numa mais matizada "adesão compreensiva" aos objectivos russos -, assenta nos efeitos da crença na metafísica dialéctica. Sob a qual qualquer aparente antítese à tese norte-americana é considerada positiva, pois potencialmente produtora de uma síntese virtuosa. Pouco importa a estes locutores, usualmente literatos advindos do "espectro do comunismo", que o actual poder russo seja fascista - pois, independentemente dos detalhes que os oriundos da Ciência, Teoria ou Filosofia Política queiram esmiuçar, o regime de Putin é evidentemente abarcável pela sempre aclamada ideia de "Ur-Fascismo" de Eco

De facto, esta simpatia pelo putinismo - e concomitante "justificação" por razões geoestratégicas ou histórico-culturais da invasão russa -, por relativa que seja, assenta não só na verrina anti-europeia mas, acima de tudo, na radical refutação das democracias liberais. E é nisso a renovação do (até suicidário) ideário que consagrou antes da II Guerra Mundial a invectiva ao "social-fascismo", a desconsideração da democracia dita "formal", uma ignara deriva que também é reconhecível na actualidade portuguesa. Aliás, estas duas vias discursivas de adesão russófila austral muito se assemelham a feixes de discursos portugueses, sendo porventura por estes parcialmente alimentadas, dados os efeitos da globalização da informação e de alguns eixos de interacção académica.

3) Mas há uma "terceira via" crítica, que refuta a importância desta agressão russa.  O argumento é uma refracção, muito básica para não dizer boçal, do argumentário das "teorias pós-coloniais": o sistema colonial "ocidental" implicou a desumanização (indignificação e desconsideração) dos colonizados. Na situação pós-colonial os "ocidentais" são neo-colonialistas e nisso continuam a desumanizar (desconsiderar) os ex-colonizados. Sendo que neste ideário é (quase) sempre elidido o fenómeno, passado e presente, do colonialismo de contiguidade geográfica - como nos actuais Brasil, China, Indonésia ou, claro está, Rússia - e centrando-se a argumentação "popular" nos antigos colonialismos de teor ultramarino, muito por efeito dos processos académicos e políticos de emergência e afirmação no mercado universitário global dessa corrente "pós-colonial".

Assim esse entendimento do real assenta em que os "ocidentais" (os da Europa ocidental, agora estendida até ao não-russa, EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia; e, para os que foram estudar no Brasil, os "brancos" da América do Sul) não só desumanizam os ex-colonizados como querem impor um falsário "Barómetro Moral", o do Norte, aparentando um falso universalismo, que esconde a sua desatenção pelas maleitas africanas - das quais são, aliás, os responsáveis. E agora esse "Barómetro Moral do Norte" falsamente universalista, que descura os conflitos africanos (como o Ruanda em 1994), clama diante da invasão russa, querendo-a de significância relevante - como chamava há dias um furioso antropólogo moçambicano, em abrasiva súmula desta corrente discursiva.

Ou seja, toda esta angústia face ao novo conflito na Ucrânia é uma "hipocrisia", "racista" de "branco" (o "de merda" costuma ficar implícito) - para usar os epítetos que me foram dedicados em privado por um antigo amigo, quando uma semana após ele ter largado uma série de dislates desvalorizando a relevância da invasão russa, que lhe serviu apenas para fustigar os para-sempre-colonos, o inquiri sobre uma hipotética ressalva sua no preciso momento em que já se cruzava o número de um milhão de refugiados ucranianos no estrangeiro e se assistia a um inédito combate no interior de uma central nuclear. 

De facto esta desvalorização da inadmissibilidade da guerra na Ucrânia, esta mais ou menos explícita ou sentida russofilia, acima de tudo ecoa a aversão pela peçonha dos ocidentais e, em muitos casos pura e simplesmente - mesmo que deste modo paradoxal - pelos brancos. E pelo tal propalado falsário "Barómetro Moral do Norte" que nós-para-sempre-colonos quereremos impor. 

*****

Não vou elaborar sobre a pertinência da abordagem pós-colonial para entender o real actual. Nem me parece necessário dissertar mais sobre estas atrapalhadas refracções, que tendem a tudo querer explicar, independentemente dos fenómenos, o mais depressa possível e, acima de tudo, da forma que seja mais útil para o sacrossanto "activismo" em prol de uma qualquer Justiça Social delineada por estes intelectuais e seus espectadores. Mas sobre este assunto - a invectiva aos "ocidentais" por sobrevalorizarem a guerra russo-ucraniana enquanto descuram os conflitos em África, esta hipocrisia racista pós-colonial do "Barómetro Moral (Pretensamente) Universalista" que se quer impor a todos, em particular aos ex-colonizados - prefiro entrar em registo de observação-participante, que julgo poder contribuir muito mais do que as meras tiradas discursivas de retórica analítica. E por isso me alongo: 

Comecei a blogar em 2003. Que eu saiba o meu ma-schamba foi o segundo blog em português escrito em Moçambique. O primeiro fora um breve blog que o Ken Hansen havia feito para acompanhar um festival de teatro em Maputo - para o qual eu escrevi um postal. Anteriores a esses, que viesse a ter conhecimento, tinha havido dois ou três blogs anglófonos, de jovens voluntários/missionários estrangeiros que haviam escrito impressões durante suas estadas nas províncias. No país levou ainda algum tempo para que o hábito dos blogs se disseminasse - o que veio a acontecer um pouco devido ao impacto do Ideias Para Debate, do Machado da Graça (a quem ensinei a usar o blogspot), e depois do Diário de Um Sociólogo, de Carlos Serra (com o qual falei sobre o assunto blogal antes de ele avançar). 

Passado algum tempo e com o surgimento de vários blogs no país, tendo a solidária ajuda de Paulo Querido - dono do sistema weblog.com.pt (no qual eu tinha o ma-schamba alojado) - constituí um directório de blogs em Moçambique, o ma-Blog. Ali coloquei todos as largas dezenas que encontrei, e o directório ia notificando as actualizações de cada um. Passado algum tempo o Paulo Querido vendeu o sistema. E passei o ma-Blog para outro sistema, tendo, com a simpática colaboração de Vítor Coelho da Silva, constituído o directório de blogs PNETMoçambique que funcionava da mesma forma, e que ainda subsistiu durante alguns anos. 

Acontece que nesses directórios eu coloquei também ligações a fontes de notícias sobre África - tal como o fizera na "coluna de elos (links)" do meu ma-schamba (algumas das quais ainda lá estão, como a AllAfrica ou a Global Voices) -, oriundas de agências noticiosas, ong's ou instituições multilaterais, e até mesmo páginas de jornais (como o Mail & Guardian, que lia diariamente). Fi-lo porque a imprensa moçambicana era deficitária nas actualidades africanas, o que se notava no bloguismo nacional. E o mais politizado deste radicou-se - com naturalidade, até pelos inúmeras problemáticas que o país enfrentava - num autocentramento, debatendo com vigor e inovação as temáticas endógenas. Desse modo as realidades africanas, e nisso também os vários conflitos existentes - como a longa guerra no Congo, vizinho da SADC -, foram, tal como na própria imprensa, muito secundarizados no bloguismo nacional -  o qual conheci com a intensidade que estas actividades podem deixar perceber (sobre esse período blogal no país há várias pistas apresentadas num texto da minha colega Vânia Pedro).

Os anos passaram, a era blogal foi ultrapassada pelo advento das "redes sociais" e em Moçambique logo se popularizou o FB, que acolheu e ainda acolhe um aceso debate sobre as temáticas nacionais. E também internacionais. Em finais de 2017 voltei ao país, para um congresso em Maputo e uma conferência na Ilha. Pouco antes acontecera o primeiro ataque no Cabo Delgado, dos logo chamados "insurgentes". Regressado a Portugal escrevi em  Janeiro de 2018 um breve postal sobre essa guerra em Moçambique . A era blogal já há muito terminara mas fi-lo no colectivo Delito de Opinião, que ainda congrega alguns milhares de visualizações diárias. Fi-lo procurando, na modéstia dos meus recursos e do meu relativo anonimato (não sou personalidade pública), chamar a atenção para o que evidentemente se avizinhava, até porque o próprio Delito de Opinião tem como bloguistas gente da política, das corporações e da imprensa. 

18 e 19 decorreram. Foram acontecendo várias movimentações dos guerrilheiros do fascismo islâmico. Mas, e até surpreendentemente, na sociedade moçambicana isso não foi acompanhado de um grande debate. Foi caindo um silêncio sobre o assunto: do poder político, de âmbito nacional ou provincial, da oposição partidária, das organizações de sociedade civil, da "comunidade internacional" e na imprensa. Também em Portugal e na imprensa internacional pouco se abordava o assunto. Certo que desde logo um investigador de grande quilate, Eric Morier-Genoud, referira o assunto (logo em Outubro de 2017) e cedo no país o IESE (com os meus colegas Forquilha e Pereira) fizera investigação de terreno, à qual se foram seguindo outras realizadas por investigadores moçambicanos. Mas de facto foi-se instalando um silêncio social sobre a matéria - não absoluto, claro, até porque é impossível afirmar isso no actual mundo comunicacional rizomático. Acima de tudo, pois é desse que me ocupo aqui, foi notório o silêncio dos cidadãos opinadores nas redes sociais, as movimentações dos chamados "insurgentes" não animavam grande fluxo discursivo. 

Fui acompanhando esse relativo silêncio social, o qual me incomodou. Entendi então utilizar um grupo de FB que criara há anos, o Nenhures - que usava para colocar ligações aos postais deste blog (e antes do ma-schamba, do Courelas e do O Flávio, blogs nos quais escrevera). Pois estes grupos-FB têm a vantagem de poderem alojar documentos, bem como de neles se poder agregar os postais por tópicos. Para além disso aquele Nenhures tem  cerca de 8000 inscritos - e no qual se um postal for muito comentado e "clicado" ("gostado") atingirá até às 3000 visualizações. Por isso passei a ali colocar ligações a textos de investigação ou a artigos compreensivos sobre o conflito de Cabo Delgado, bem como a alguns postais que escrevi sobre o assunto - e nisso ali ficaram 87 referências a textos sobre essa realidade (de longe o tópico com mais entradas naquele grupo que tem mais de uma década).

Em 2020, grosso modo durante o período dos confinamentos, e muito devido a uma continuidade dos conflitos no Cabo Delgado, esse relativo silêncio foi sendo ultrapassado, tanto no país como no estrangeiro. Em finais do primeiro semestre do ano o assunto "Cabo Delgado" passou a estar mais presente nas agendas públicas da política e também nas preocupações extrovertidas nas redes sociais e na imprensa. Sinalizo essa eclosão da preocupação pública com o surgimento, em Junho de 2020, dois anos e nove meses depois do início das hostilidades terroristas, da intervenção dos renomados escritores moçambicanos: Luís Carlos Patraquim e Nelson Saúte - este publicou "Os Mortos de Muidumbe", tendo tido a gentileza de me enviar o texto para divulgação no blog. Enfim, o crescendo de atenção sobre a situação no Cabo Delgado foi notório e nisso deixei de me ocupar com o trabalho de divulgação dos textos significativos que - amigos, colegas e "amigos-FB" - me iam dando conhecimento, pois esse meu modesto contributo para a reflexão sobre a questão já não se justificava. 

Porquê este longo memorialismo, uma justificação da minha proclamação de "observação-participante"? Pura e simplesmente porque durante dois anos e tal não encontrei estes tipos que agora andam a grasnar contra o hipócrita "Barómetro Moral do Norte" - pretensamente universalista mas descurando as maleitas africanas - a falarem do que se passava no norte de Moçambique, nem a falarem intensamente, nem a questionarem intensamente, nem a protestarem intensamente, nem a opinarem intensamente. E continuadamente. Num conflito que não é apenas em "África", é mesmo no seu próprio país.

É assim óbvio que o seu (deles) Barómetro Moral do Sul - depurado da "nossa" hipocrisia, racista, branca (de merda, o tal implícito), de falsário universalismo disfarçada - estava avariado. Repito, nem no próprio país atentaram. 

Se eu fosse dado a pensamento sistémico, elevado, eu apelaria a antigos mestres, célebres na minha juventude (dependentistas, Samir Amin et al), e diria que estas invectivas a propósito da "nossa" atenção, indignação e acima de tudo preocupação, com a invasão russa da Ucrânia não é mais do que o paleio de nichos, literatos e universitários, da "burguesia compradora", que usa as retóricas "pós-coloniais" para nessas invectivas ao "estrangeiro" "Norte" se legitimar no sistema de desigual redistribuição de recursos societais, nisso praticando uma desatenção desumanizadora de largo espectro dos seus compatriotas, no que configura um efectivo colonialismo interno.

Mas eu não sou dado a pensamento sistémico, não tenho essa elevada capacidade intelectual. Sou muito mais, passe a grosseira utilização do termo, adepto de uma fenomenologia. Sou um mero avatar, real, de Jimmy McClure, estou aboletado neste pequeno rancho em Nenhures. E quando leio estes "pós-coloniais" da treta, a invectivarem os "ocidentais", ancorados no seu avariado "Barómetro Moral do Sul", cuspo o tabaco que estou a mascar, bebo um gole de aguardente ("Queen Margot", 6,89 euros a garrafa no Lidl) e subo até à colinazita vizinha, sempre na expectativa de ver chegar o Mike (S. Blueberry), vindo para me levar numa nova qualquer aventura. Durante a qual eu não lerei estes bandalhos...

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(Postal para o Delito de Opinião)

A votação na ONU em 2 de Março da resolução avessa à invasão russa da Ucrânia foi um assinalável sucesso (141 países a favor, 5 contra, 35 abstenções, 12 ausências) - independentemente de outras considerações  mais analíticas, aludindo ao efeito efectivo destas resoluções, ao peso relativo dos países que surgiram com diferentes posições, à evolução do sentido de voto de países e/ou regiões, etc. E, acima de tudo, sobre o que o voto desta resolução significa efectivamente para cada país.

Mas há outra dimensão analítica que poderá ser interessante, o da heterogeneidade das decisões interna a cada comunidade de países. O que é normal, pois cada país decide segundo os seus interesses nacionais, suas relações bilaterais preferenciais, e também porque é comum que países pertençam a diferentes  comunidades internacionais. E dessa heterogeneidade interna a cada "bloco" é exemplo muito significativo que entre os 16 países da SADC, 7 tenham votado favoravelmente, 8 se abstiveram e o Eswatini não tenha expressado a sua opção.

Neste âmbito é interessante olhar para o que aconteceu entre os países da CPLP. Entre os seus 9 países, 4 dessolidarizaram-se com esta denúncia da negação russa à auto-determinação ucraniana - Angola, Guiné Equatorial e  Moçambique abstiveram-se, a Guiné-Bissau eximiu-se à votação. E nisto é preciso contar com o actual percurso brasileiro, pois sendo certo que se esse país votou favoravelmente a (de facto) simbólica condenação, o seu presidente Bolsonaro não só acaba de visitar, efusivamente, a Rússia como já depois do início da invasão reiterou a "neutralidade" do seu país face a esta situação. 

Isto é muito significativo pois a CPLP tem como primeiro objectivo geral (Artigo 4º.1.a.) "A concertação político-diplomática entre os seus membros em matéria de relações internacionais, nomeadamente para o reforço da sua presença nos fora internacionais". Repito o que acima disse, é normal a existência de diferentes estratégias nacionais dentro de cada "comunidade de países", e assim este facto não justifica a armadilha das hipérboles "críticas"  (o popularucho "aquilo não serve para nada").

É certo que esta guerra é de importância global, pelo peso mundial da Rússia, pelo que deixa (ante?)ver sobre os seus propósitos futuros, com uma estruturante política bélica em curso. E pelo "efeito dominó" que poderá ter noutras regiões, um reanimar do paradigma do nacionalismo de base "etno-racial", agora tão proclamado pelo presidente Putin - e tão magnificamente denunciado pelo embaixador queniano na ONU -, sempre presente mas quantas vezes adormecido ou, pelo menos, contido. Ou seja, esta votação - e até exactamente pelo seu carácter mais simbólico do que executivo - foi um dos momentos internacionais mais marcantes desde o surgimento da CPLP.

Ainda assim, e apesar dessa preocupante relevância mundial desta guerra, é normal que entre os países da CPLP ela seja sentida em Portugal com particular ansiedade: pela (relativa) proximidade geográfica; pela proximidade política, dada a integração na U.E. e na NATO; e pela pertença à não tão fluida assim (apesar de tantas críticas e negações, que se querem ilegitimadoras) a uma "identidade europeia". Nesse sentido, e sem ter em conta adesões mais ou menos ideológicas à Carta das Nações Unidas ou a um pacificismo, é normal que estas votações dos países da CPLP sejam mais descoroçoantes para os portugueses do que para os cidadãos dos outros países.

E é neste relativo desânimo - ainda que compreendendo as múltiplas influências que imprimem as legítimas estratégias de política externa de cada país - que se torna normal interrogar qual o estado da CPLP, que tipo de organicidade se conseguiu conquistar, por fluida e até conflitual que seja. Ou seja, e simplesmente, qual a consecução do seu primeiro "Objectivo Geral". Pois face a uma situação destas as lideranças austrais nada se abstraem. Mas abstêm-se. Ou retraem-se.

Seria muito redutor imputar as causas desta situação à acção de Portugal. Mas ainda assim, como portugueses olhando a tão celebrada CPLP, podemos interrogar-nos sobre o que isto representa. Sabendo que a diplomacia portuguesa é de qualidade, mostra-o o percurso internacional do país nesta II República, talvez nos possamos interrogar se a política externa portuguesa o é. E talvez este estado da CPLP possa contribuir para esse ajuizar. 

Mas com toda a certeza permite, desde já, uma conclusão, ainda que de relevância muito secundária: a política externa portuguesa não ganha grande coisa com dancetaria tropical e banhos de mar em águas tépidas do seu responsável máximo. Por mais que as nossas imprensa e "opinião pública" se regozijem com esses devaneios. É preciso muito mais.

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Antropólogos russos contra a guerra (texto de petição)

Um amigo em Maputo - pouco prolixo no Facebook, e bem menos sobre temáticas com incidência política - escreve no seu mural, desencantado: "A quantidade de amigos moçambicanos a favor da invasão da Ucrânia envergonha-me." Cá de longe vejo o mesmo, não me envergonhando mas ficando com pele de galinha.
 
E também com alguma surpresa. Não pela existência dessa corrente de opinião, pois conhecendo o país será de a esperar. Mas pela sua dimensão, a sucessão de postais e comentários no Facebook que surgem nesse sentido - vários explícitos ("a Rússia tem razão", "é legítima a sua acção"), imensos implícitos ("a Rússia tem razões"). E alguns verdadeiramente patéticos ("o "Norte" quer impor um barómetro moral mundial e depois não liga aos conflitos em África" - dos quais é, evidentemente, responsável tanto quanto às causas como às formas como são dirimidos, é a perene tese). Não vou elaborar muito sobre este ambiente intelectual - mas recomendo a leitura de um texto sobre o assunto que o sociólogo Elísio Macamo acaba de colocar no seu mural e com o qual, grosso modo, concordo.
 
Mas há um ponto que sublinho, a abrangência do negacionismo que ali se encontra. Por um lado, a irrelevância atribuída a este "pequeno" detalhe: no fim-de-semana a Bielorússia fez um referendo - antes planeado, e com resultados prenunciados pelo seu presidente ainda em 2021 -, assim disponibilizando-se para ter (mais) tropas russas e arsenal nuclear encostados à União Europeia e à NATO. O que diriam estes opinadores moçambicanos (e as suas fontes brasileiras) se na sequência disso os EUA/NATO tivessem invadido a Bielorússia?
 
Mas o negacionismo vais mais longe, refutando a relevância deste processo. Telefonei a um querido amigo, pois fiquei verdadeiramente estupefacto com proclamações descalibradas que fez a este respeito. Ali ao Whatsapp disse-lhe "isto é a maior guerra europeia desde 1945!", enfatizando o meu estupor diante das suas opiniões, ao que levei o atestado de menoridade intelectual: "qual maior guerra!!! estás a ir na propaganda dos americanos". Apenas quatro dias depois presume-se haver já 7 milhões de deslocados e estão mesmo quantificados 400 mil refugiados em países vizinhos. Números que seriam de esperar, e que previsivelmente crescerão. Mas nada disto, este cansativo real, importa pois é apenas propaganda americana... Dado que o fundamental é criticar o "Ocidente" e, em cabendo, Portugal.
 
Isto não seria relevante se fosse apenas o ruído do magma das redes sociais. Mas não é, pois encontro alguma gente do escol nacional botando neste sentido. E, isso sim é-me doloroso, encontro antropólogos neste "adeptismo" mais ou menos explícito à ofensiva russa.
 
Por isso partilho aqui este documento, produzido por um conjunto alargado de antropólogos russos, opondo-se a esta guerra sem rodeios nem derivas "contextualizadoras" (dessas que surgem como se legitimadoras). E lembro que a Rússia é uma "democracia musculada", e que mais ríspido está agora o regime. E que sendo assim produzir e subscrever um texto destes é muito mais difícil do que promover os inúmeros abaixo-assinados contestatários no nosso pérfido "Ocidente".
 
Partilho o texto na esperança de que alguns antropólogos entre o Rovuma e o Maputo, do Zumbo às águas do Índico - e se possível também alguns primos das outras disciplinas, que de facto nos são siamesas -, possam ler o que os colegas russos dizem. Talvez ajude.

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Faz hoje mesmo 25 anos que fui viver para Moçambique. "Não fique muito tempo, que depois é difícil voltar, não terá para onde..." aconselhou-me aquele que me convidou a ir para lá, para o substituir, ele com décadas do país, então a reformar-se... "Claro, antes dos 40 regressarei", afiancei, apondo aquele sorriso ufano típico dos jovens. Voltei aos 50, e só porque parecia que tinha de ser. Havia passado 18 anos no país.
 
Foi o que foi, fui o que fui, o que consegui ser. Terei compreendido o substancial? Pouco importa. Terei aprendido algo? Sim. Sim, mesmo. Um dia, durante as cheias, numa alagadiça ilhota do Zambeze. Isto. Que importa o resto?

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