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Nenhures

Nenhures

Ideologia do género

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Período de nojo (2): estive alguns dias alheado das notícias. Agora, vindo ao rossio deparo-me com algumas pérolas. Não haja dúvidas, o real luso é fervilhante ...

Leio o recente artigo "Mil e uma noites sem Marielle" [Franco], da autoria da social-democrata Joana Mortágua, evocando o assassinato da autarca brasileira: "Vereadora eleita pelo PSOL, negra, lésbica, (...), Marielle exerceu o seu mandato (...) No dia 14 de março de 2018 foi assassinada a tiro e imediatamente o mundo soube que o seu silenciamento teve motivações políticas." Uma justa evocação da assassinada, um acerado abordar do contexto político que a vitimou. 

Mas há mais, para mim: na esquerda (e nalgum centrismo) comunitarista - em particular nas secções feministas e racialistas - muito se contesta a existência de uma qualquer "ideologia de género". Dizem-nos, a nós que a reconhecemos, que somos do piorio. Mas é nestas coisas, nestas amputações cirúrgicas, que ela é tão reconhecível. Ao ler o texto (justo, sublinho) logo me lembrei deste meu texto de blog (Março de 2018): "Sopesar os pesares". No qual abordei esta óbvia deriva da ideologia de género: como a elite política portuguesa se mostrou pesarosa diante do assassinato de uma vereadora de um município do Rio de Janeiro mas sem qualquer pesar pelo assassinato do presidente do município de Nampula. Face ao então invocado, tal como agora, a única diferença que se podia e pode encontrar é esta: a assassinada era negra e homossexual; o assassinado era negro e heterossexual. 

E por isso mesmo, três anos depois, nenhum social-democrata português publica uma invocação de Mahamudo Amurane, presidente do conselho municipal de Nampula, assassinado no dia da Paz (4 de Outubro) de 2017.

(E ainda me irão chamar reaccionário, homofóbico, misógino e outras coisas que tais, por um textinho destes. É a social-democracia que temos ...)

Vinte anos após o assassinato de Carlos Cardoso

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(Carlos Cardoso com o filho, fotografia de Ricardo Rangel)

Parece incrível, como o tempo se esfuma ... Hoje, 22.11.2020, passam vinte anos desde o assassinato do jornalista moçambicano Carlos Cardoso.  O qual foi um momento imensamente comovente e de significado crucial no processo nacional moçambicano. Há 13 anos, em 22.11.2007, deixei no ma-schamba um transcrição de excerto do elogio fúnebre que Mia Couto lhe fez, um texto de enorme grandeza e demonstrando então uma extraordinária coragem moral e física, em momento tão crispado e angustiante. (Esse discurso está publicado no seu livro "Pensatempos"). Palavras que se mantêm actuais. 

Há já oito anos surpreendi-me com a "naturalização" do seu assassinato. Foi quando descobri que neste Facebook havia milhares de "amigos" e de "seguidores" - entre os quais imensas das minhas ligações-FB e até conhecidos e amigos meus - de um dos seus consabidos vis assassinos, então numa prisão de Maputo, na qual tinha a liberdade de, através das redes sociais, perorar comentários políticos sobre o país e alardear a sua inocência, assim tornado um verdadeiro "influencer" (como então ainda não se dizia). Irei-me. E botei este postal, a minha memória de Cardoso.

Hoje releio-lhe o livro de poemas "Directo ao Assunto" de 1985 (Maputo, Cadernos Tempo). E recupero-lhe o o poema "Ruth First", escrito em Agosto de 1982, após o assassinato em Maputo da investigadora e política, que 20 antes do de Cardoso também tanto comoveu o país. Pois julgo-o bem significativo. Talvez utópico ... Mas decerto que aplicável a esta data: "Isto dos mortos não falarem / não sei. / É que de certos mortos / costumam nascer embondeiros / de raiva / no capim da hesitação".

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Esta releitura da sua poesia não me implica avaliar Cardoso como poeta, que para isso não tenho saberes. Mas o que retiro do livro - para além da memória de um homem que tão significante foi na sociedade moçambicana, pelo que viveu e dada a forma como morreu - é que neste pequeno livro, cujo prefácio de autor consiste na depois celebrizada frase "No ofício da verdade é proibido pôr algemas nas palavras", se encontra uma pequena história da I República do país. Desde os iniciais poemas (em inglês e bilingues, também) ainda de 1973, feitos em JHB, demonstrando revolta e anseios pela situação colonial de toda a região, até curtos poemas ainda dos anos 70s bem críticos do devir nacional, em registo de verdadeiros alertas - e isso anos antes do desassombrado e depois mítico "Tanjarinas de Inhambane" de Craveirinha. Em 2005 deixei no blog ma-schamba uma brevíssima selecção desses poemas, que mesmo tão pequena julguei demonstrar a irrequietude de Cardoso. Reproduzo-a aqui: 

Hoje / aromas chamanculos / politizam os fogões / da polana ("Primeiro aniversário", 1977)

Eh!, todos aí / vamos deslobolar este país ("Discurso Novo da Mulher", 1978)

Cumprem regulosamente / a espia sobre as nossas aspirações / e chamam analfabetos / aos nossos gostos e opiniões. / São redondamente regulosos / os régulos / do carimbo (1978)

Os semi-utópicos que trazemos no peito / aqui no lado esquerdo do trump-trump da vida / e dos vulcões. / Este arsenal de guerra parado / à espera / nos discursos da nossa vontade / apenas semidita / Mas olha / não dura muito o lobolo do compromisso / nas verdades intuídas pela paixão. / Eh! escravos do slogan, / respeito. / Há sangue nosso na estrada (1977)

Carlos Cardoso era um radical (e não uso a palavra de modo pejorativo). Foi-o enquanto jovem anticolonialista. Foi-o enquanto revolucionário, um nacionalista que poderei chamar "samorista" (de novo, um termo que não me implica qualquer desvalorização). E seguiu - e foi assim que o conheci e li - um soberanista (idem), no sentido de reclamar contra quaisquer relações de dependência do seu país face a terceiros. O seu radicalismo talvez fosse mais uma posição profissional, pública, e como pessoa fosse diferente - recordo que entre os vários textos que se sucederam ao seu assassinato, aquele que preferi foi um dorido e carinhoso texto intimista de um seu amigo próximo, o académico António Prista (que talvez tenha sido publicado no "Savana" mas não o posso afiançar), que nos mostrava um outro Cardoso, peculiar e dulcíssimo.

Nessa dimensão pública, de jornalista empenhado, Cardoso era também muito pouco atreito à retórica política "lusófona" ou a articulações privilegiadas com a antiga potência colonial. Li-o e ouvi-o nesse sentido. Por vezes concordando, outras discordando, considerando exageradas as visões que tinham subjacentes a ideia de um programa neocolonial português. Não era essa uma visão peculiar dele (nem a critico) entre os seus concidadãos, era até comum, mas recordo-lha. Não julgo que fosse dependente do facto de ele ser um lusodescendente. Mas também não julgo que fosse disso independente. Era uma posição política, um patriotismo revolucionário, soberanista, e crítico tanto da sociedade colonial como do olhar colonial, que algo veio a perdurar.

Mas hoje, ao relê-lo, encontro um poema que não retivera. E julgo-o tão significante ... E penso, sem arrogância, que vários dos seus companheiros de geração o poderiam reler. Por isso, para o caso de alguns deles por aqui passarem, transcrevo-o. Para que eles (e todos os outros) possam ver como pensava e sentia um jornalista revolucionário radical. E não essencialista. Passaram sobre o poema 40 anos. E julgo que ainda lhes fará bem ...

Chama-se "Editorial", é de Dezembro de 1981 (!). É dedicado a Ramalho Eanes, então presidente da República Portuguesa, que visitara Moçambique:

"Vieste sem caravelas nem cruzes / sem chibalos nem obuzes / e sem passares pelo Adamastor. / Vieste sem Gama mal-humorado / nem belzebus de espada em punho / que a morte morreu em Junho / e Moçambique aos tiros resgatado / limpou das tuas velas o sangue a dor."

Um artigo de Paulo Rangel sobre Cabo Delgado

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O eurodeputado Paulo Rangel publicou ontem no jornal "Público" o artigo "Cabo Delgado, Moçambique  - black lives matter!" julgo que já é de acesso livre (eu estou a consegui-lo). Não concordo com todo o seu teor mas o meu desconforto é por assuntos secundários: 1) não gosto do título pois funciona, de facto, como um remoque aos apoiantes do movimento nele aludido. E não é o momento de provocar "ruídos" entre quem se possa congregar nesta verdadeira causa, em torno do Cabo Delgado; 2) deixa entender que o conflito é entre muçulmanos e cristãos, o que é um reducionismo, tanto daquele universo social como das dinâmicas do conflito.
 
Ainda assim é um texto relevante naquilo que é o mais relevante, a convocatória da atenção activa sobre tudo o que se passa no Cabo Delgado. Até porque, como muito bem diz Rangel, neste momento "A actuação do governo português é tíbia e decepcionante. Limita-se a declarações, quase extorquidas a ferros, do ministro dos Negócios Estrangeiros. Fala no papel da CPLP, mas ninguém ouve falar dela. Em Bruxelas, é tal a timidez dos esforços de Portugal, que ninguém diria que está em jogo a vida de centenas de milhares de cidadãos de um país irmão." E mais: "Nem só o nosso Governo decepciona; também a esfera pública e a sociedade civil desiludem. Diante de crimes tão ominosos, como é explicável este silêncio brando, esta letargia conformada e conformista?"

Luís Macedo

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(Luís Macedo; Fotografia de Steven Governo / Global Imagens, retirada daqui)

Em Maputo pouco privei com Luís Macedo, oficial de Abril e antigo membro do Conselho da Revolução, que ali (mais exactamente na Matola, se não estou em erro) viveu as suas últimas décadas. Algum esparso convívio, intermediado por amigo comum, que com ele comungava a condição de ex-aluno do Colégio Militar, algo que a esses sempre cria uma simpática e peculiar solidariedade. Mas ainda tivemos o privilégio de o recebermos, e à mulher, em nossa casa.

Uma relação distante, não posso dizer que o conheci. Mas era notório o homem confortável em Moçambique. E contido, clarividente, de arguto, com um humor suave (ou pelo menos assim em ambiente algo cerimonioso, pois não íntimo). E, acima de tudo, um Senhor. Daqueles que escasseiam, e que alumiam quando surgem. Entenda-se que alumiam os recantos, pois não adeptos do estardalhaço dos neons.

Na semana passada um amigo telefonara-me, preocupado, informando-me que o Coronel Luís Macedo estava internado, padecendo deste malfadado Covid-19. Morreu em Maputo no fim-de-semana, aos 73 anos. Que se orgulhem os seus do homem que ele foi.

A ler sobre Moçambique

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Carta de Amor a Moçambique. Um belo, sentido e acertado texto de Paulo Sande sobre a guerra no Cabo Delgado. É bom que alguém com visibilidade pública assim se exprima pois são ainda escassos os pronunciamentos em Portugal sobre algo já tão longo - as agressões armadas decorrem há já três anos! Urge o apoio.

(Fossem as agressões, mesmo que bem menos gravosas, sobre uma qualquer "minoria" consignada como minoria e decerto que a indignação e o falatório luso seriam imensos.)

Adendas: Provável apoio iraniano à guerrilha islamita; dezenas de aldeões decapitados nos últimos dias.

A propósito de um artigo de opinião sobre o Cabo Delgado

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A situação no Cabo Delgado é objecto de várias interpretações, tamanha a sua complexidade. Continuo a pensar que o relevante é ler as análises dedicadas que vêm sendo realizadas, nas suas diferentes perspectivas. Pois essas leituras ajudam a evitar o condicionamento que os textos de "opinião" sempre promovem, empobrecendo a compreensão. Grosso modo essas "opiniões" têm 4 grandes grupos:
 
a) os que se centram na dimensão internacional do conflito, valorizando a expansão do integrismo islâmico;
 
b) as visões mais conspiratórias, centradas em invectivas às causas endógenas, que insinuam conflitos internos no bloco social do poder, os quais promoveriam estrategicamente este conflito e ocasionariam a inacção estatal;
 
c) outras visões mais conspiratórias, centradas em invectivas às causas exógenas, que tudo explicam pelas estratégias dos interesses "ocidentais", ditos "americanos" até há meses, agora ditos "franceses" após o confinamento Covidiano - decerto que face aos crescentes ecos na opinião pública francesa deste conflito, devidos à presença de grandes companhias daquele país na região;
 
d) os que se centram na dimensão nacional do conflito, considerando-o causado pela reacção da população regional (dita "local") às formas de apropriação - fundiária e não só - da elite político-económica nacional.
 
[Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, quantas vezes ao longo das décadas, em Moçambique - sobre esta e outras temáticas - me lembrei do excerto relativo aos "enclosures" escrito no início de XVI por Thomas More no seu "Utopia". Mas isso, claro, deve-se a eu ser um mísero eurocêntrico, algemado ao pensamento "ocidental", algo originado pela minha pérfida condição de "branco", "homem" e, até pior do que tudo, "heterossexual"].
 
Enfim, arrazoado feito, deixo ligação a um texto de opinião agora publicado no "Público", "Não ao apoio militar a um governo que despreza o povo", de Michael Hagedorn. Uma invectiva ao governo português por este se disponibilizar a apoiar, no âmbito da UE, o governo moçambicano. Não que concorde com o texto. Pois parece-me cercear em demasia a hipótese das dinâmicas internacionais integristas, na ânsia de criticar o poder moçambicano. E porque me parece querer disparar, de qualquer forma, sobre o governo português, exigindo-lhe posição nada consentânea com as relações diplomáticas bi e multilaterais. Ou seja, quer-se um "espantar a burguesia", adequado tom ao jornal "Público" mas nada adequado à concertação internacional.
 
Mas deixo a ligação por maldade minha. Pois neste texto radicalmente crítico diz o autor: "É pois surpreendente que (...) o ministro dos Negócios Estrangeiros português adira incondicionalmente à leitura do Governo moçambicano, em contradição, pelo menos parcial, com as exigências críticas contidas na resolução do Parlamento Europeu.".
 
Insisto, não encontro nas declarações de Santos Silva [em entrevista à Lusa] essa deriva (e para dizer mal do governo socialista, em particular dos antigos colaboradores de José Sócrates estou cá eu, não me venham berrar "patrioteiro"). Mas sublinho que o autor encontrou dimensões interessantes na recente resolução do Parlamento Europeu, e a elas apela. E faço contrastar essa atitude com a que encontrei há dias, quando membros da elite intelectual moçambicana a esse propósito vieram caluniar um dos seus proponentes/autores, apenas porque é "português" e de "direita" (para eles). Pobres olhares que bem me fizeram barafustar. O que aliás me valeu mais insultos e caricaturas. Coisas normais, diga-se.

Paulo Rangel e a resolução do Parlamento Europeu sobre o Cabo Delgado

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Há dias referi, louvando, a intervenção de Paulo Rangel no Parlamento Europeu, dedicada à proposta de uma Resolução sobre a Situação Humanitária em Moçambique (2020/2784(RSP), documento do qual foi um dos proponentes - e creio que co-autor.

O filme da intervenção parlamentar de Paulo Rangel foi disseminado nas redes sociais. E fiquei abismado com a imediata reacção de vários membros da elite académica moçambicana. O seu conteúdo foi explicitamente deturpado - chegando-se a dizer que Rangel havia negado a existência de violência como causa da gravosa situação humanitária na província. Num regime mais rasteiro foi apodado de "tuga" - termo de nenhuma ambiguidade no uso local - e outros aludiram a "interesses" que o deputado europeu teria no país, explícita calúnia.

Num regime menos abrasivo, de cariz político, foi também criticado devido ao facto do Parlamento Europeu e as instâncias da União Europeia não se terem oposto, nos últimos anos, aos governos moçambicanos.

Tudo isto, tanto o acinte contra os "portugueses" - quantas vezes apresentado por académicos luso-moçambicanos, característica sociológica reconhecível por quem tenha algum conhecimento da sociedade moçambicana - como as calúnias ao deputado devidas a espúrias auto-categorizações ideológicas, bem como as críticas de índole política, foram também formas de desvalorização do documento acordado no Parlamento Europeu enquanto proposta de enquadramento de futuras articulações relativas ao conflito de Cabo Delgado. Sobre isso resmunguei há cerca de uma semana, em comentários no grupo de Facebook Nenhures, no qual ecoo as publicações deste blog. Transcrevo esse meu resmungo, sem particulares cuidados de rearranjos formais:

*****

O breve discurso de Paulo Rangel no PE, antecedendo a Resolução do PE sobre a situação humanitária no Norte de Moçambique, é um facto muito secundário neste processo conflitual, ainda que a Resolução possa vir a ser algo significante em termos de política internacional se obtiver (se obtiver, sublinho) alguma relevância na indução de articulações multilaterais face ao conflito existente. As quais são o explícito objectivo dos 3.08 minutos do discurso e, com muito maior ênfase, o da Resolução aprovada e da qual Rangel é um dos signatários (talvez o primeiro, mas isso não posso afiançar pois apenas o depreendo da leitura do documento e da ordem dos eurodeputados proponentes que ali está aposta, a qual poderá ser aleatória). Mas, ainda que venham a ter tais efeitos benéficos pois apaziguadores, são - discurso e Resolução do PE - meros epifenómenos.

Mas o que me é relevante é o conjunto de reacções que este discurso obteve por parte de intelectuais moçambicanos e/ou de intelectuais com interesses biográficos, intelectuais/afectivos, e laborais sobre Moçambique. Os quais têm diferentes mundivisões (provindo de diferentes campos ideológicos) e com diferentes interpretações do processo moçambicano. E isso é-me relevante porque denota um ambiente intelectual, apesar dessas mesmas diferenças "ideológicas".

Eu não sou eleitor do partido de Paulo Rangel - em 38 anos de eleitor votei uma vez no PSD e teria votado outras duas se não estivesse ausente do país. Não o conheço, nem a nenhum dos outros eurodeputados da sua (ou outra) bancada. Nem a qualquer deputado ou dirigente nacional daquele partido. Não tenho empatia pessoal por Rangel que facilitasse alguma adesão à sua argumentação - é certo que não devemos restringir as considerações políticas a empatias pessoais mas estas ajudam a apreensão menos desfavorável, a uma maior atenção à argumentação de alguns locutores (por exemplo é o que me acontece com Marisa Matias, e digo-o sem qualquer brejeirice, pois não é o facto de ser uma senhora bem apessoada que me convoca alguma simpatia auditiva [ou, pelo menos, não é só isso] mas muito mais a forma como se expressa).

Ou seja, não sei quais os seus pressupostos quanto a Moçambique, não conheço a sua mundividência. Não tenho a mínima ideia sobre se terá (ou não) "interesses" (como o acusam alguns intelectuais moçambicanos) de cariz esconso, ímpio, ínvio sobre o país. Apenas procurei ouvir o que o homem disse (3.08 minutos, repito) e ler o texto do qual foi signatário. Coisa que, estou certo, a maioria dos detractores (alguns insultuosos, outros radicais críticos, outros meros deturpadores) não fez. Fi-lo, exclusivamente, pelo hipotético interesse que este momento político poderá ter para a urgente resolução da situação no Cabo Delgado.

V. [este meu texto é em resposta a um comentário do investigador João Cabrita, que fizera curiais críticas políticas a Paulo Rangel] argumenta contra ele, tal como outros o fazem, alguns em mero ad hominem. Então, e sem sobranceria, e já que o faz em contraposição a breves textos meus sobre o assunto, eu convido-o a reler o que eu escrevi e ver qual será, de facto, a pertinência de tamanho ataque, e até, azedume. Para facilitar eu cometerei o pecadilho da auto-citação:

1. Chamei a atenção para a recente Resolução do PE - cujo texto se articula completamente com a posição que V. refere elogiosamente da comissária da CE Urpilainen diante do governo moçambicano. Algo que, em última análise, nos recorda para que servem as resoluções do PE. Ou seja, louvar a proclamação de Urpilainen e as recentes declarações de organismos de direitos humanos relativas à situação no Cabo Delgado, enquanto se elide o texto da resolução do PE e se protesta com Rangel, é uma verdadeira e total contradição.

Ao referir a intervenção de Rangel escrevi em introdução: "Tem estado bem Paulo Rangel, e o PSD, no acompanhamento desde há meses no Parlamento Europeu da situação em Moçambique relativa à guerra no Cabo Delgado. E fez aqui uma boa intervenção, adequada àquela instituição, fundamentada e ponderada.", referindo um historial de produção documental que julgo encetado cerca de meados de 2020. Ainda assim aproveitei para criticar o reducionismo socioantropológico patente no breve discurso e, ainda maisno texto, devido a que reduz o universo populacional a cristãos e muçulmanos. Pois há sempre mais algo a dizer, mais algo a esmiuçar. Mas apesar dos defeitos, imperfeições ou incompletudes desta posição (ou doutras posições), há ou não algumas virtudes ("potências") no que foi apresentado?

Há quem negue essas virtudes ("potências"/potencialidades) a Rangel e ao texto que ele co-propôs, apenas porque antes não tomou posições que se julgam apropriadas - críticas aos governos moçambicanos, entenda-se que é disso que se trata. Eu fico na minha: nestes últimos meses, e face à involução da situação do Cabo Delgado, tem sido positivo o contributo daquele eurodeputado e daqueles com quem ombreia neste assunto. É isso que julgo agora relevante. E produtivo.

2. Num texto anterior, numa comovida reacção ao horrível filme do recente assassinato cometido por soldados, eu escrevi: "Este tétrico assassinato não é apreensível para se falar de outras coisas, para avaliar os males do mundo, para comparar com outros fenómenos ou aquilatar das posturas próprias ou alheias. Pois este assassinato à beira da estrada, a mãe nua defecando em pavor face à matilha das feras humanas, é o mal absoluto."

O que quis dizer, nesta atrapalhada forma, é que a urgência em entender a situação do Cabo Delgado (e também a das formas de acção por lá, claro) deve abarcar a multiplicidade causal de todo este processo. Que serão, a la Braudel, indiciadores de causas de longo e curto prazo, e "ocasionais". Mas defendendo que a compreensão do fenómeno exige a sua delimitação. E nisso, também, a limitação da sua utilização como analogia.

Especifico: urge salvaguardar a identidade do fenómeno, a sua "individualidade", apesar das tantas influências causais que tem. E reclamando a improdutividade, da negatividade até, de o utilizar para discutir questões que lhe poderão estar associadas ou lhe poderão ser associadas analogicamente (já o vi como bandeira da questão de "género" porque uma mulher foi morta, como discurso anti-movimento black lives matter, etc).

Ou por outras palavras, e como dizem muitos críticos da ligação da UE com os governos de Maputo: os processos eleitorais moçambicanos influenciaram este conflito? Talvez. Mas ao privilegiar a discussão desse processo eleitoral, se se o escolhe de antemão como o fundamental para entender o que se passa no momento presente, está-se não só a simplificar (por crença) o fenómeno como se está a confundir, a criar obstáculos ao enfrentar do problema. O enfatizar, em função de preocupações anteriores, de determinado fluxo causal prejudica a compreensão e envenena o necessário debate (intelectual e político).

3. Alguns entendem que este é um processo exclusivamente interno, uma luta contra a Frelimo e o seu governo. É isso que eu retiro de algumas leituras que faço e da hierarquia de significâncias que muitos deixam trasnsparecer - muito patente nas críticas que se fazem ao "colaboracionismo" de Rangel e restantes instâncias europeias com o governo moçambicano. Em meu entender isso cerceia várias dinâmicas que são ali aparentes, em particular internacionais.

E insisto, com todos os limites das acções multilaterais, com os efeitos disruptores dos interesses das grande multinacionais extractivas, até com os resquícios da velha doutrina Monroe - e, subsidiariamente, da tralha lusófona (contra a qual tanto tenho escrito in-blog e out-blog) - não vejo dimensões negativas no breve discurso de Rangel. Pelo contrário, nele encontro explicitamente:

a) o reconhecimento do drama humanitário;
b) o fundar desse drama na violência terrorista;
c) a afirmação das difícil situação económico-social moçambicana (o que abre campo para a discussão dos modelos de intervenção desenvolvimentista - ainda que, evidentemente, esse não seja o cerne do discurso e da Resolução. Nem seria normal que o fosse - aliás, não só seria avesso à questão central como seria, imediatamente, considerado como uma intrusão);
d) o reconhecimento do peso negativo das alterações climáticas (algo tão negado por uma extrema-direita europeia, fiel a um irredentismo industrialista), factor que não vejo nenhum crítico ad hominem referir e, muito menos, saudar;
e) o reconhecimento da ausência da solidariedade internacional, europeia em primento lugar, com a situação no Cabo Delgado;
f) o reconhecimento que há países europeus com especial "responsabilidade" face a Moçambique dada a antiguidade e proximidade de relações diplomáticas (e só um alfabetizado iletrado é que julga "responsabilidade" como mero sinónimo de "tutela" - mas há intelectuais que o fazem, para meu espanto, face à evidente ignorância linguística ou incompetência hermenêutica que assim patenteiam);
g) o reconhecimento que o silêncio internacional e das instâncias nacionais (situação tantas vezes afirmada/lamentada por vários intelectuais e jornalistas moçambicanos, seja em textos de imprensa seja nos seus murais de FB) teve como excepção o bispo de Pemba - recentemente atacado na imprensa moçambicana por falar do assunto;
h) a disponibilidade para envolver a UE (a Comissão Europeia) nos esforços de concertação com outras instâncias regionais multilaterais (a UA e a SADC) para colaborar com o governo moçambicano.

Atacar isto? Qual é o problema deste "ponto da situação"? Discordâncias pontuais, diferentes visões ou hierarquias de significação, seriam normais. Reacções insultuosas, deturpadores, caluniadoras? Ou, pura e simplesmente, revanchistas, como um pouco o é a sua?

De facto, o texto de Resolução do PE de que Rangel é signatário (e porventura parcial autor) é, na linguagem diplomática - que tem que reger as relações entre este tipo de instâncias políticas internacionais -, basto crítico do governo moçambicano. O texto nota as delongas no reconhecimento da gravidade da situação e as delongas (e até inaptidão) nas medidas necessárias. O texto insta o Estado a permitir inspecções de organismos internacionais, insta-o a cumprir uma vasta parafernália de tratados internacionais. E insta-o a articular-se internacionalmente, segundo os critérios que definir no cumprimento da sua soberania, para enfrentar a situação. Esse é o texto (também) do deputado que tanto é contestado por "cumplicidade" com o governo moçambicano.

4. Há outra proposta de Resolução de autoria portuguesa, que não congregou qualquer reacção negativa, nem sua nem dos intelectuais moçambicanos que tanto se abespinham contra Rangel. É a de Marisa Matias (consulta-se aqui). É interessante lê-la. Por um lado elenca como factores negativos a intervenção da indústria extractiva internacional. Mas aí, minha visão sobre esse documento, opta por se centrar apenas nos agentes europeus, algo compreensível pois apresentada no Parlamento Europeu.

Mas ainda assim considero esse viés deficitário. Pois sendo uma análise política da situação e uma proposta de conjugação de esforços internacionais, congregando multilaterais, seria positivo (menos “eurocêntrico”) identificar outros intervenientes externos, como empresas de origem americana e asiática e as redes de economia paralela e criminal do contexto índico, que tanto influenciam o contexto regional nortenho moçambicano, nacional e naquela área da África Austral. Mas mais ainda, essa proposta é, no seu sub-texto, bastante mais crítica do Estado moçambicano do que a Resolução que veio a ser aprovada, em moldes que me parecem menos apropriados a uma linguagem de relações internacionais – e me faz aventar, no mero contrafactual, sempre espúrio, que muito negativa seria a reacção dos intelectuais moçambicanos que clamam contra o “paternalismo” de Rangel, se fossem confrontados com o teor da Resolução proposta por Matias.

Mas mais do que tudo, para quem contesta o “centramento” de Rangel. O texto da proposta de Matias tem toda a aparência de ter sido escrito para consumo interno, num evidente “gilletjaunisme” de agit-prop, descentrado-se da urgência da acção face ao conflito moçambicano. Pois num documento que se pretende incentivador de uma conjugação de esforços das instâncias europeias com outras multilaterais e agentes internacionais em prol da resolução da crise de Cabo Delgado, Matias opta por invectivar, literalmente, a “hipocrisia de Macron”. Será que isto era para passar, é este o tipo de discurso que se espera produtivo? Será que o objectivo é um contributo para a resolução da situação? Ou é um mero (e face à gravidade da situação, até vil) "eurocentrismo"?

É interessante ver como os intelectuais moçambicanos não se incomodam com tamanha subalternização da questão de Cabo Delgado em prol de uma linguagem “que fique bem na fotografia”, uma verdadeira secundarização da situação. Gente intelectual que tem décadas de militância, de análise crítica, de responsabilidades executivas e legislativas, e é incapaz fazer actuar um mínimo de “realismo político” invectivando tamanha demagogia, tamanha inconsciência? Confesso não só a minha estupefacção como a minha indignação. Cívica.

5. Aconteceu que um parlamentar europeu falou na primeira pessoa do plural ("nós"), referindo-se a uma necessária congregação entre os constituintes desse parlamento, as 28 nações que pertencem à União Europeia. Para um catedrático moçambicano isso é uma coisa horrível e serve-lhe de pretexto para um insulto soez, a invectiva insultuosa em função da nacionalidade de Paulo Rangel. É também a evidência de uma incapacidade para entender um contexto de locução, os constituintes daquele areópago, e um sinal óbvio de incapacidade de entender o audível e o legível. Ainda mais abjecto é o coro de intelectuais portugueses e moçambicanos (até mesmo gente há muito aboletada em Portugal, terra dos tais “tugas”) que vão saudar, aplaudir, tamanho desaforo. Francamente, locutor e plateia ultrapassam o linha da indecência.

6. Intelectuais moçambicanas aventam em público que o discurso de Rangel (e, concomitantemente, a proposta de Resolução que apresentou) se deverá a ele “ter interesses” no país – numa formulação que apela a uma polissemia, dando azo a uma nada subliminar acusação desta intervenção se sustentar em interesses esconsos, pois inditos, de cariz pessoal, privado. Como atrás disse não conheço Rangel, e não posso elaborar sobre o assunto, sabe-se lá o que ele (ou os seus colegas de bancada) terá na agenda. Cumpre-nos a nós, cidadãos, em particular os portugueses, escrutinar, sob as nossas limitações, as suas efectivas ou putativas associações - é isso a democracia. A qual tanto desvalorizam como meramente "formal", enquanto apoiam e apoiaram durante décadas ditaduras de poderes inescrutáveis mas suportadas em mitologias "progressistas" de utopias distopianas. Mas como as pessoas que fazem essa insinuação em público têm responsabilidades intelectuais e institucionais a acusação (ainda que feita “en passant”) ganha outros contornos.

Não me alongarei sobre isto, este tipo de insinuações são graves mas são também forma de delimitar a forma como se concebe a reflexão e a acção relativamente a Cabo Delgado. Para estes intelectuais moçambicanos (e alguns torpes portugueses) os estrangeiros (ou, pelo menos, os portugueses) que podem opinar/actuar sobre esta situação terão que pertencer a um “Nós”, o conjunto pré-determinado, por critérios de pertença partidária ou conúbio ideológico, que é considerado "bom" e "virtuoso" (segundo os critérios próprios que eles próprios estipulam, de proximidade ideológica e, porventura, da amizade.). Já os outros, alheios a essa filiação ideológica, dever-se-ão calar ou serão insultáveis por serem "portugueses" (tugas) ou serão alvo de acusações caluniosas.. Talvez por isso Marisa Matias, apesar de ter feito uma proposta de Resolução, não é alvo dessa suspeição. Não me ocorre a mim presumi-la algemada a interesses malévolos na sua preocupação política com o Cabo Delgado. Mas cumpre-me interrogar-me porque são outros intervenientes políticos alvos dessa suspeita, ainda para mais quando tal é efeito de meros pressupostos de afectos ideológicos.

Mas mais surpreendente é a reacção face ao facto de que Carlos Zorrinho, eurodeputado do Partido Socialista, também é signatário da proposta da Resolução aprovada (assim porventura seu co-autor). E que também discursou (aqui o registo fílmico da sua intervenção). E que disse mais ou menos o mesmo que Rangel – ou seja, é também, nas viciosas palavras catedráticas (sufragadas, aplaudidas, "laicadas", com impudicícia e imoralidade, por antropólogos aqui imigrados e outros portugueses), um outro “tuga”. Para mais, e decerto porque é deputado do partido do governo, enfatizou as relações diplomáticas bilaterais, elogiando as acções do governo português. Uma deriva discursiva, normal em si mesma, pacífica, mas que daria mais azo ao tipo de reclamações anti-intrusão paternalista que grassaram no campo intelectual moçambicano. Ou seja, desnecessária e mesmo improdutiva, para quem conhece os "ruídos" na apreensão das relações entre Portugal e Moçambique, que carrega as normais chagas da antiga relação colonial.

Mas mais do que tudo julgo necessário dizer isto: em utilizando a mesma “epistemologia da suspeição” que deixa insinuar em público que a intervenção de Rangel se deve a malevolentes intuitos pessoais ter-se-á que fazer o mesmo ao membro do Partido Socialista que com ele ombreia, na apresentação da Resolução e no conteúdo discursivo. E ainda posso dizer mais: se tivermos em consideração o problemático processo que o PS viveu na última década - que é consabido, e que é também conhecido por via noticiosa no contexto intelectual moçambicano (e no académico, que tem algumas relações bem estreitas com a academia portuguesa), bem como a presença de vários das suas figuras gradas nos negócios internacionais em Moçambique (lembro que o único membro da elite socialista que está preso teve importante papel na articulação das empresas portuguesas e seu Estado com o processo extractivo em Moçambique), mais razão poderia haver para se aventar a intromissão de intuitos privados no grupo parlamentar europeu do Partido Socialista. No qual existe aliás pessoa com fortes vínculos profissionais e laborais ao país.

A mim, clamo-o, não me passa pela cabeça essa alusão, não ponho em causa a honorabilidade pessoal dos actuais eurodeputados socialistas, e a lisura dos motivos que os levaram a sufragar este texto de Resolução. Mas surpreende-me que os intelectuais moçambicanos que praticam em público a tal “epistemologia da suspeição” para com Paulo Rangel a suspendam para com os seus colegas do Partido Socialista. Ou sabem algo, e deveriam explicitá-lo em público quando dizem que “Rangel deve ter interesses”. Ou nada sabem, apenas peroram em inconsciência, somente preocupados em situarem-se … no espectro político português.

Ilha de Moçambique em Évora

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É hoje inaugurada a exposição "Ilhéus", em Évora. São fotografias recentes de Moira Forjaz feitas na Ilha de Moçambique - a fotógrafa é autora do sempre lembrado livro "Muipiti, Ilha de Moçambique", publicado no início dos 1980s. Consta que a exposição será apresentada por Paola Rolletta e Alexandre Pomar. Coisa para os privilegiados que percorrerão o Alentejo, amanhã e nas semanas subsequentes ...

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