Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

ucrania na ilha.jpg

Há alguns anos (muitos, já, cada vez mais, raisparta) fui mais uma vez à Ilha de Moçambique. À porta da Fortaleza, então sob qualquer intervenção, estava isto. Resmunguei, decerto (eu conheço-me, ainda que mal), a um "portão" barrando o acesso ao agora sacrossanto "Património Cultural" ungido pela UNESCO, pintado com as cores das duas empresas de telefones (Vodacom, MCEL) que invadiam todos os recantos do país com as suas publicidades... Só muitos anos depois alguém me soprou que talvez isto fosse obra, "como quem não quer a coisa", de algum imigrante (quiçá ex-"coooperante") ucraniano, ali resguardado em coisas da construção civil... Talvez. E que belo argumento para um conto seria...

Lembro a fotografia hoje, dois anos após a invasão russa da Ucrânia. Para além dos russófilos actuais (essa mescla nada-excêntrica de bafientos fascistas e comunistas) vejo críticas à Ucrânia e aos seus aliados ("ocidentais") porque a derrota militar se apercebe como provável, exaurido o país. Não deixo de achar uma triste piada ao ver a rapaziada que se imagina de "esquerda", no afã do seu nojo pela democracia liberal dita "ocidental", a filiar-se assim no ideário do "sucesso", do "empreendedorismo" bem realizado, essa ideia de que a fraqueza relativa (a tal derrota militar contra um inimigo superior) significa a fraqueza absoluta, como se uma injusteza ôntica.

E também encontro nenhuma piada aos que vêm "denunciar" a propaganda pró-ucraniana, que para eles conduziu a isto. Ou seja, implicitam que se devia ter apoiado/exigido a rendição imediata. Como esse "eterno comentador" (e mau escritor, já agora) Sousa Tavares que do palanque televisivo veio perorar essa tralha. E tem lugar cativo como "fazedor de opiniões". Por falar de propaganda e estar a botar uma fotografia da Ilha lembro a abjecta consideração do escritor Agualusa, logo no início da guerra, botando no Globo brasileiro o seu lamento de estar na distante Ilha enquanto os "nazis" defendiam a Ucrânia, regurgitando a energúmena propaganda russa, forma canhestra de ser "Sul". Típica, aliás.

De tudo isto me lembrei há horas, ao ver no telejornal as comemorações (fogo-de-artifício e tudo) em Moscovo dos dois anos de guerra. Dezenas ou centenas de milhares de mortos sofridos, idem de baixas alheias causadas, por um regime que se propunha derrotar em três dias (!!!) um poder de "drogados", "nazis", e até "judeus". E comemora.... E estes escritores sofríveis, e intelectuais de merda, e seus enlevados leitores? Dizem o quê?

Slava Ukraini! Especialmente se vier a sua derrota.

ricardo rangel.jpg

Amanhã, dia 15 de Fevereiro, será inaugurada esta exposição comemorativa do centenário de Ricardo Rangel. Para quem esteja perto é mesmo imperativo...

(Há uns anos participei num colóquio de homenagem - já póstuma - ao fotógrafo. Para isso escrevi um esboço que depois concluí neste "A Lente Pertinente: Ricardo Rangel no "Pão Nosso de Cada Noite"".  

Para uma abordagem mais especializada proponho a leitura deste artigo de Bruna Triana, o "Restos de passados, fragmentos de histórias: memória, temporalidade e cidade nas fotografias de Ricardo Rangel (1950-1975)".)

 

publico sobre chamusse.jpg

Aqui reproduzo o "lamento" do "jornal de referência" Público - ontem emitido numa rubrica curiosamente chamada "coluna do provedor" - por não ter noticiado o assassínio de João Chamusse, jornalista moçambicano, acontecido no passado 14 de Dezembro. A razão (desculpabilizadora) apontada remete para que o único jornalista daquela empresa que atenta sobre "África" estava de folga e a LUSA não ter noticiado o facto.

Retiro algumas conclusões: 1) na própria madrugada do acontecido recebi a notícia por WhatsApp. Compungido, de imediato lamentei o facto no Delito de Opinião. Assim disto retiro a primeira ideia, até mais privada: no Público não lêem blogs (e porventura também se isentam das "redes sociais"), decerto que por serem vis locais de "fake news" e populismos (que não os identitaristas); 2) naquela casa um assassínio de um jornalista se este africano é um assunto de "África", decerto que ao invés do que se for americano, asiático, oceânico ou europeu, porventura devido às tais questões de "identitarismo", dir-se-á racial neste caso; 3) os serviços em português da DW e da RFI logo noticiaram o assassínio, o que mostra que no Público não se lê a imprensa gratuita internacional; 4) no mesmo dia o "popular" e "populista" Correio da Manhã noticiou o facto ecoando a nota da LUSA, o que demonstra que no Público não só não se lêem os outros jornais portugueses como se indevidamente apontam falhas a agências noticiosas conterrâneas (e colegas) para se desculparem, bem a posteriori, desinteresses próprios.

Este é o estado do jornalismo de "referência". Do seu exercício e da sua provedoria.

(Postal no Delito de Opinião)

 

idasse 1.jpg

 Ídasse Tembe (1955): "Sem título", técnica mista sobre papel artesanal, assinada e datada de 2002, Dim. - 25 x 34 cm

(Acesso ao leilão digital desta obra)

De Idasse sou amigo, mesmo. Desde quase que cheguei a Maputo - o meu primeiro ukanyu bebi-o com ele, na machamba do seu sogro. Que dia!... E depois houve muitos, de partilhas nossas. Quando, bastantes anos depois, passou a sexagenário eu deixei um breve texto sobre ele, dizendo a verdade, só a verdade, (mas não) toda a verdade - pois muito mais haveria para escrever. Repito um trecho, apropriado para quem não o conheça: "Idasse é um sábio, apaziguador - até pessoalmente o sentimos, o seu convívio invadindo-nos de paz e isto sem recursos a quaisquer misticismos de pacotilha. Com profunda e única sageza convoca as concepções da "aldeia", daquele mundo tsonga do qual ele, ronga Tembe, provém. Trá-las naquela miríade de seres imaginados que nos rodeiam, míticos se se quiser. Nele vivemos num mundo de lagartos antropófilos e aves semagoiro, uma fauna dançarina panteão de pequenas divindades, poucopotentes, que entre nós cirandam, com e por mas talvez também contra nós, neste descaminho constante, sempre a refazermos, tropeçando. É assim que Ídasse é um sábio, filósofo na sua maneira, antropólogo mais do que nós. E o maior artista plástico moçambicano."

Vendo agora duas obras suas, forma de quase me eviscerar - ainda por cima por cá pouco as valorizam. Falo um pouco sobre elas. A primeira constava de uma exposição que o Ídasse fez em 2002, apresentada na Associação Moçambicana de Fotografia. E que deu brado... pois eram desenhos de nus, como este que aqui apresento. Foi considerada pornográfica!, o que me ri disso e ele também, teve até de ser acompanhada de um cartaz vedando as visitas aos menores... Enorme demonstração do moralismo cristo-marxista vigente na elite político-administrativa local. 

Vibrei com a exposição - naquilo de sonhar comprar tudo por atacado, coisa irrealizável pois então seguia já de salário de professor... Mas fiquei com esta "mulher escarificada". Pelo apreço que tive mas também por coisas cá minhas, uma ideia, mera especulação pois nada sustentada em investigação dedicada. Mas ainda assim acompanha-me a hipótese de que as escarificações femininas, formas de transição de estatuto etário e não só - e que demarcam onde "a mulher não é como peixe" - são uma codificação ("culturalização", se se quiser) das zonas admitidas como erógenas, assim um código da sexualidade legítima.

 

idasse 2.jpg

 Ídasse Tembe (1955): "Sem título", pastel sobre papel, assinada e datada de 1998, Dim. - 30 x 45 cm

(acesso ao leilão desta obra)

E esta segunda é um dos "Lagartos Dançantes" com que o Ídasse preencheu uma belíssima exposição em 1998, na qual fui mestre de cerimónias. Esses tais "lagartos", meio-míticos, meio-místicos, que acompanham o mundo, seus nossos "guardas", o panteão do qual o Ídasse é áugure, o único que eu conheço, talvez mesmo o único resistente.

Porventura o gosto eurocentrado fará encolher os ombros diante destas pérolas. Que posso eu dizer?

Gerente

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contador

Em destaque no SAPO Blogs
pub