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Nenhures

Nenhures

Dois meses confinados: rescaldo

(Lou Reed Live, "Vicious")

Daqui a pouco, a 13.5, cumprirei dois meses confinado aquém-Tejo, em magnífica companhia anfitriã. Quero partilhar alguns momentos cruciais deste excêntrico período:

1. Tenho 55 anos e está a tocar, bem alto, o cd "Lou Reed Live".

2. Estreei-me no focinho do porco e nas caras de bacalhau. A minha ética e o meu palato aprovaram.

3. Passei imenso tempo com a minha filha. Julguei que ser pai é a melhor coisa do mundo. Mas agora mesmo, a propósito de um desgraçado filicídio, aprendi na facebookpedia, com doutos lentes, que a família é um mero e vil mito afectivo que, sob tutela do Estado capitalista, reproduz as (exploratórias) diferenças sociais. Voltei a 1983, àquele inicial ISCTE. E duvido se não há gente confinada desde então ...

4. Perdi o meu nome: (ex?)amigos, da geração dos assistentes dos reedfeet dos 80s, desnomearam-me quando me irritei com a ignomínia de me dizerem culpado pela disseminação do Covid-19 em Moçambique. E que pagasse por isso. Falando sem rebuço? Brancos a comprarem o espaço que ninguém lhes vende. Eu estou numa quinta, cuspo para o chão ... (é para ti, Isabel, que eu não desnomeio as pessoas).

5. O vil dr Vitor Gaspar passou 850 milhões de euros ao banco do amigo do prof. Cavaco Silva e o dr. Passos Coelho fingiu que nada sabia disso. Nós, na esquerda, manifestámo-nos contra este neoliberalismo.

6. Os liberais (que significa "fascistas" no linguajar actual dos académicos da esquerda) suecos, bielorussos, nicaraguenses e brasileiros, não confinaram a população.

7. A economia portuguesa desde os 1960s que não estava tão bem, segundo um mandarim (és tu, João, e eu estou numa quinta, escarro para o chão).

8. O Queen Margot não aumentou de preço e a cerveja do Lidl é bebível se bem gelada.

9. A "Vicious" ainda mexe comigo ...

10. Um dia destes desconfinar-me-ei. A ver se chegado além-Tejo não me deparo logo com um mandarim.

Liberdade?

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O número 3 da revista digital "Mordaz" foi ontem publicado. Está disponível aqui (gratuita, sem publicidades agarradas). Aqui partilho o texto que lá publiquei.

Liberdade?

Durante muito tempo vivi longe. Conheci gente. Alguma de mim gostou, outra nem tanto. Um desses homens não me deu simpatia ou ser-lhe-ia eu indiferente. Vivia de escrever. Um dia mataram-no. Ele tinha um colega, qual concorrente. Esse gostava de mim, e partilhávamos uns uísques noctívagos. Meses antes, em deriva madrugadora, encomendara-lhe cautela com o que botava. Indignou-se, de vozear e perdigoto, como se eu ali censor. Recuei e, por carinho, resmunguei-lhe que pelo menos não guardasse informação, afixando o “nada na manga”. Nem me respondeu, só levantou o queixo em esgar. “Tuga”, terá pensado. Mas pelo menos não mo disse, e isso valeu. No funeral grassava o medo. Denso. Três conhecidos pediram refúgio em minha casa, qual asilo. Anuí, mas lembrando não ser porto seguro. Outrem fez o elogio fúnebre, belo, qual pegando no facho. A meu lado alguém murmurou “ele está a fazer para ser o próximo”. Findo o discurso cruzou-me e disse-lhe “calma, ninguém está seguro…” e ele replicou, cavo, “queres que me cale, Zé?” assim calando-me. Esta era gente do mesmo partido, que cruzara tétrica guerra civil, enormes mudanças, e vivia ríspidas eleições entre os velhos inimigos. Um jornalista, que então já não estava, até ao fim batalhara e batera, até nos seus próprios correligionários, apontando políticos e polícias, estrangeiros e nacionais. Sarcástico, escrevera um “cabricionário”, dicionário do cabritismo, aquilo de “o cabrito come onde está amarrado”, que alguns dizem africano mas é universal. Outro passou anos enfrentando aleivosias do seu partido e dos outros. Prometera clamar “até ficar rouco” e amigos picavam-no, dizendo-o na senda de mártir, ao que ele casquinava. Continuou para além de rouco, já só com um fio de voz, até à sua última semana.

Eu era professor. Então, como acontece nas universidades, a geração do meio empurrava a mais velha. Mas ali e então tudo tinha um tom político. O café do campus era à frente do meu gabinete. Nas mesas as polémicas viviam-se, com críticas magoadas aos poderes. Estrangeiro e jovem estava sem ser parte. E notava os engravatados fatos azuis nas mesas vizinhas. Meneava para os sinalizar e aqueles mais-velhos, gente também do mesmo partido, mas sem locais de recuo, outros ofícios ou riquezas, só professores, encolhiam os ombros. Alguns, a velha guarda mesmo, elevavam a voz. Para que os esbirros não perdessem pitada.

Anos passaram. Escritores foram até ao osso, explícitos ou em subtexto, seguindo os passos do poeta que para isso, convocando os plácidos citrinos, reinventara a literatura do seu país. Investigadores vasculharam, e por isso foram ameaçados. Suportaram o que puderam, e alguns partiram para sabáticas involuntárias ou para outras vivências. Um dia, à saída do café que frequentava, um colega jurista foi morto. Depois um politólogo foi raptado e, avisado de ordens para não o matarem, dispararam-lhe sobre as pernas. A outro raptado iam-no matar decepando-lhe as pernas mas os assassinos fugiram à chegada da população. Todos por terem opinado livremente na tv. E refiro apenas quem conheci. Os sobreviventes continuam, como outros, investigadores, professores, jornalistas, a trabalhar, a criticar. E muitos deles com vínculo afectivo ao partido do poder. E, note-se, num país onde o Estado tem enorme peso na redistribuição, directa ou indirecta, dos recursos.

Cinquentão, voltei a Portugal. País temperado, seguro, pouco crime e nada de violência política, nem da vigilância abrasiva e das ameaças soezes. Afinal democracia já instituída, sinal do envelhecimento da minha geração. E conflitualidade tépida entre linhas políticas, nada do abrasivo a que vinha habituado, pois enormes linhas de consenso real entre os grandes partidos. E grande homogeneidade na população, bem diversa do mosaico que conheci, passível de exacerbar conflitos. E sim, o Estado muito influencia na distribuição de recursos, através de empregos, subsídios, etc. Mas bastantes empregadores alternativos.

Uma coisa me espanta. Não encontro quem bote em público criticando o seu pequeno partido, o seu “nós”. Reina a defesa a todo custo, o pobre catenaccio político. Gente tão diferente, tão mais escassa do que alhures.

Liberdade? Sim, decerto. Mas tão fraca gente.

Cabo Delgado

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(Quissanga, na semana passada)

O que se passa em Moçambique é verdadeiramente extraordinário, único. Ontem a guerrilha islâmica atacou Muidimbe, situando-se na encruzilhada Nairoto (e daí a Montepuez) - Mueda (anunciada junto da população como próximo alvo). E regressou a Mocimboa, de onde, tal como de outros locais da costa, há já fluxo de refugiados marítimos para Pemba. Nesta há tensão e, porventura especulativos, rumores sobre ataques nos "bairros", nos arrabaldes.

Há filmes, oriundos dos próprios guerrilheiros. Ouve-se português, para além de suaíli e outras línguas que desconsigo identificar. Mas são o suficiente para discordar daqueles que negam a sua origem interna, pelo menos parcial. E é explícita e reclamada (os filmes são da autoria dos guerrilheiros) a causa islâmica. Seja ou não a única, a motriz fundamental, isso é o que a análise poderá questionar mas nunca negar a priori.

Em Maputo continua o silêncio estatal, algo quase único na história. Em Maputo continua o relativo silêncio geral: no facebook vejo mais gente a ecoar a falsidade emitida pela grupos demagogos homossexuais que andam para aí a gozar com a doença do ministro da Saúde israelita do que sobre o Cabo Delgado. É a inconsciência generalizada!!! E alguns intelectuais continuam, ciosos, a higienizar o seu querido Islão, o bem-estar da família. Não há nada como ir a Meca para toldar a mente.

Quanto a nós, se pontapearmos os cristãos, em particular os católicos, tudo bem (e como tantos deles o merecem). Mas criticar os islâmicos? Nem pensar.

Uma década

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(Lago Niassa, fotografia feita no Nkwichi Lodge, 6.4.2010)

Meus queridos amigos,

Até cruel, de cego que é, este sistema FB. A lembrar-me que há exactamente dez anos estava com a família em magníficas férias no Lago Niassa, numa maravilhosa reserva natural (hoje em perigo de descontinuação) lá quase perto de Cobué.

Uma década!, como imaginaria tamanha mudança, este outro Algures e deste modo, enclausurado? O rumo não foi o esperado, pois um tipo sempre crente, optimista, até sonhador, por mais que encene o pessimismo antropológico. Mas não me posso queixar, pois a princesa aqui ao lado, a salvo, acoitados em nicho de amizade e carinho. Com ar livre. Cães e ar livre ... E por enquanto sigo isento (ou assintomático) de maleitas, desta inédita ou das outras recorrentes, tão ou mais devastadoras.

Uma década! De perdas dolorosas. O meu pai. O amado presépio. Alguns amigos muito queridos, desses que são arquivo e mesmo bússolas. Um punhado de conhecidos, verdadeira paisagem reconfortante porque fértil. Até, um pouco, o Sul (ou o norte, como os cosmógrafos disseram). Nada de espantar, isto é o envelhecer, nada mais do que isso.

Uma década! Onde envelheço? Do Brasil amigo pede-me um texto sobre o covid no meu Algures. Tento-o e desisto. Pois, onde é o meu Algures, Omar? Há já dias que Bitches Brew toca, auto-repetindo-se. É um sítio, sim. E não é aquele Lago, de há uma década, isso é óbvio. Mas, e só nas últimas horas, falo com queridos durienses, transtejianos, um bruxellois, maputenses e no Cabo Delgado. Sobre os mesmos assuntos. Então, e neste cruzar, onde é o meu Algures?

Um companheiro atira-me "como estás, velho resmungão?". Sê-lo-ei, "resmungão"?, pois velho é certo que já vou. Ontem li uma amiga, com vínculos afectivos ao poder daqui - isto do "pêésse" que tanto conforto a tantos dá - invectivar um qualquer crítico. Através do antigo anúncio do Johnnie Walker, ao outro apoucando como daqueles que vêem "o copo sempre meio vazio". Ora eu bebo (nunca antes do meio-dia, friso). E, como todos os bebedores, sei que o problema não é se o copo está meio cheio ou meio vazio. Pois bebê-lo-emos da mesma maneira. A angústia real é se há outra garrafa. Estás-me a seguir, Tó-Zé? Teremos outra garrafa? Serei "resmungão" por causa desta angústia? Sede, se a quiseres chamar assim?

Onde é o meu Algures, Omar? Não é, decerto, onde os mais graduados se atrevem a escrever que a economia portuguesa vai melhor do que nunca. Li isso por tua culpa e desembainhei a cimitarra do Salgari, a catana "lá da terra". Mas está romba, cansada, deixei cair, em desânimo. Mas o que é isto?, quem é esta gente, por mais "querida" que (te) surja? O que é que aqui, neste meu Portugal, putativo e desejável Algures, se exporta? Metalomecânica, pequeníssimas empresas, industriais e super-industriosas, logo diz o meu amigo Zé, que é da área. E o nosso Carmona, tão louvado nas suas práticas, que escolhe ele para a pantomina do dia, para a "auto-estima nacional"? Vai propagandear a cultura de tomate, produzir folclore cotovelando campónia. Onde é o meu Algures? À mesa destes louvaminheiros? Não.

Onde é o meu Algures? Neste que me é putativo os bem-pensantes clamam por um Plano Marshall. Eu tenho 55 anos, o meu país está sob um Plano Marshall desde os meus 21. Como o sei? Porque quando ele começou baixaram as taxas sobre o uísque, e as tascas e cafés passaram a estar decoradas com prateleiras de Logan, Cutty, JB, Grants e etc. E parámos de beber bagaço e similares - efeito da secular guerra europeia entre as aguardentes frutícolas e as cerealíferas, como Braudel ensinou. Eu lembro-me disso, desse Marshall que ainda aqui está. Mas se eu (e outros) disser isso serei "resmungão"? Não, pior ainda, dirão que sou ressentido, (extremo)direitista, populista, fascista ou afascistado. Ou, pior do que tudo, liberal, qual agente de Pinochet.

Onde é o meu Algures, Omar? É o meu pai. Este fim-de-semana fui visitá-lo, ainda que vigore isto do "fica em casa". Entre outras coisas sobre tudo isto d'agora contei-lhe uma, sobre este meu putativo Algures. Uma simpática colega perguntou - nisto das redes sociais - se os seus amigos (de facto rede de antropólogos) "de esquerda" (mas, frisou entre parêntesis, também algum "de direita" que ela possa ter, nunca se sabe ...) estão a pagar às empregadas domésticas. Dúzias deles, repito, dúzias deles apareceram, ufanos, tão "esquerda" eles são, a confirmar que pagam às empregadas, e até que "algumas delas são como família". Eu ri-me ao contar o detalhe, o meu pai fez aquele seu gesto característico, semicerrando os olhos, baixando ligeiramente a cabeça enquanto a meneia e suspirou pelo nariz. Praguejei e escorropichei o copo, nada mais há a dizer sobre esta gente e suas mentes. E, porque o meu pai morreu há já tanto tempo que pouco fala comigo, apenas breves conselhos, vim-me embora.

É este o meu Algures, Omar? Afinal é isto o envelhecer, ficar confinado com esta gente? Uma "maldita gente má"? Nem isso são ... Vão apenas numa abissal inconsciência. Até viciosa. Horrível.

Aqui em Nenhures é quase meio-dia. Está quase na hora, daqui a bocado vou beber um copo. Aparecei.

Moçambique

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Amigos perguntam-me o que penso sobre o que se passa em Moçambique, em especial sobre o conflito de Cabo Delgado, diante de tão díspares versões sobre as causas. Será aquilo efeito das maquinações dos "americanos", abordagem dos "franco-atiradores" mercenários, rapina dos "cleptocratas", globalização da ideologia integrista islâmica?

Não sei, nem respondo (respondi). Estou longe, longe demais para sopesar a realidade dessas várias interpretações. E para tentar depurar as versões da poluição que os seus locutores lhes colocam, essa por vezes proveniente dos interesses desses "intérpretes" mas muito mais do olhar embaciado de cada um de nós, até embaciadíssimo em tantos.

Mas respondo. Comigo está, trouxe-o num saco, este "Silêncio Escancarado" de Rui Nogar, poeta interventivo (para o situar aos leitores portugueses poderei dizer que uma espécie de Manuel Alegre local). Homem do seu tempo, como todos o somos, ainda que alguns se eximam um pouco a essas algemas. Como? Na dúvida, essa única máquina do tempo de que dispomos. 

Nogar foi, repito, um homem do seu tempo, sua característica não defeito. E é um exemplo das nossas limitações. As ideológicas, do como cada um procura o pobre conforto das certezas alheias. E as vivenciais, de como o nosso sítio nos limita o entendimento. Conjugadas essas algemas, as da crença e as do tempo/espaço, a bruma é enorme. Até com efeitos formais, nisso estéticos.

O que quero dizer? Em 1967 o poeta, preso na cadeia da Machava, deixava este elogio  "Diante das cinzas dispersas de Che" [ lágrimas rastejando / pela agreste crosta / desta angústia lacerante / dois guerrilheiros / na última emboscada / contra a iniquidade / dos muros vidrados  / da nossa madrugada / dois guerrilheiros / combatendo lado a lado / tu e a humanidade inteira], preso (algemado) à mistificação da figura de Ernesto Guevara que o movimento comunista internacional promoveu (e de que Manuel Alegre foi um já serôdio e anacrónico paladino). Não conheci Nogar, morrera já quando eu cheguei a Moçambique. Mas pelo que me contaram dele, empenhado escritor e divulgador literário, não seria homem de questionar a produção iconográfica do movimento ideológico que abraçara. Mas mais importante do que isso, como homem do seu tempo e mesmo que quisesse demarcar-se dessa iconologia dificilmente o faria: nem em 1967 nem depois ele teria conhecimento de quem era Ernesto Guevara. Sim, saberia da sua brutalidade, que talvez até louvasse. Talvez não da sua arrogância boçal, do "fuzilamos e continuaremos a fuzilar" em plena ONU. Que se calhar também por ele seria louvada. Mas não sabia, decerto, da incompetência política e militar do argentino e, acima de tudo, do seu profundo racismo, patenteado na sua passeata africana. 

É isso que ditaduras, arquivos fechados, prisões, falta de informação provoca. Não apenas meros, e mesmo maus, versos mas um desconhecimento que alimenta malvados ídolos de pés de barro, pobre estatuária, ineptas versões do real. E, pior, sonhos pesadelos.

Mas numa "alma" (uma vontade) poética há quase sempre um vislumbre do caminho a ter. Mostrou-o Nogar, em 1964, ano do meu nascimento e também do início da guerra de independência moçambicana, no seu "Escreveram de longe pedindo-me versos". No qual terminou "oh não, não me peçam versos agora". Julgo que será a melhor forma de responder a quem me pergunta o que penso sobre Moçambique: "não me peçam versos agora". 

Pois não estou, não sinto, não apalpo, não sei ... Permito-me apenas lembrar livros - e é essa uma das vantagens da democracia, não termos tutelas sobre o que se pode ou não ler [e esta é afirmação suficiente para sustentar o princípio de que cada académico ou intelectual, catedrático ou não, que ande a higienizar ditaduras que praticam a censura oficial é um desprezível inimigo]. E então, nessa liberdade de leituras que iluminem possibilidades interpretativas, mas não as limitem num mero seguidismo, talvez coisas de há 30 anos sejam boas pistas. Quando Mbembe chamou a atenção para a necessidade de novas linguagens do poder em África, e Bayart e Geshiére (por exemplo) ligaram os discursos religiosos - a que nós, em pobre topologia evolucionista, chamamos feitiçaria - às dinâmicas políticas continentais. Velhos e novos conflitos e porosas e flutuantes linguagens sobre estes. 

Dá mais jeito, é mais higiénico, negar isso e convocar teorias da conspiração? Nisso, de facto, apenas clamar feitiços alheios, qual chupa-sanguismo? Bem, se se é académico é um pouco estranho. Mas não há tantos deles religiosos, assim supersticiosos? Assim sendo, aqui no aquém-Tejo, deixo o discurso aos crentes. Eu estou blindado, aliás. Talvez a "vacina" tenha já prescrito, tantos anos passaram. Mas o meu remédio, a vacina biomédica chamada "dúvida" continua a funcionar. Apenas, e repito, "ah, não me peçam versos agora".

 

José Mucavele

José Mucavele, Mufana wa Livala

O sistema-FB avisa que hoje o magnífico José Mucavele se torna septuagenário. Confinado aqui aquém-Tejo estou longe dos meus discos, por isso cruzo a alvorada ouvindo as escassas (e roufenhas) reproduções existentes no youtube.

E com elas ascendem-me algumas memórias. Entre elas a de um espectáculo dele, noite longa até à madrugada no Xiphefo de Inhambane, em Janeiro de 1998, cidade na qual ele não tocava desde 1979, coisas também dos efeitos da guerra civil. Um momento verdadeiramente único. E polissémico, no meu sentir.

Mas mais ainda lembro um episódio nem musical: uma noite, talvez ainda em XX, fomos em trio até uma discoteca, aquela que ladeia (ladeava?) a Assembleia da República - foi mudando de nome, esqueci-o, só recordo que tinha uma pista de dança com soalho em madeira, que até a mim fazia dançar [Adenda: é óbvio, como pude esquecer o nome?, que se trata do Matchedje, como me lembra um comentador]. A casa estava bastante cheia, gente muito jovem. E o que me tocou, e muito, a reacção à sua chegada, ele informal como sempre, e o enorme, profundo respeito, que de imediato o rodeou. Não a excitação, o êxtase, com que habitualmente os jovens recebem os ídolos da música e da tv. Mas algo diferente, denso de tão pausado. E nós sentados, ele com a sua água, nós com as nossas cervejas, e os mais-novos, paulatinamente, vindo saudá-lo. Ao Mestre? Mais até como se ele Herói (no sentido grego, semi-divino).

Nós não entendemos as líricas, sempre alguém tem que as traduzir. E as gravações escasseiam. Mas crede, o (agora mesmo) mais-velho é Grande.

Saudações e Parabéns. Ou seja, muita Saúde e todo o Bem.

Os dias do COVID (21): o meu ponto de ruptura

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(Texto meio-desconexo em registo diarístico. Ou seja, blog:)

1. Saio na alvorada, após as 3 ou 4 horas de sono que vou tendo. Aqui na quinta aquém-Tejo as nêsperas estão a despontar, colho laranjas,  uma ou outra tangerina, limões para a limonada. Passeio sobre o orvalho. Fumo em jejum e fujo à introspecção. Depois tento escrever um trabalho que me é infinito e será infindo, leve-me ou não a gripe. Ensaio projectos que nunca farei - nem nunca teriam os parcos financiamentos que exigiriam, pois quem quererá antropologias agora, no futuro que aí vem? Procuro ler, o de tudo um pouco que trouxe. Mas a mente salta, leva horas a estacionar, nada avança. E resmungo o mundo, resmungo-o no tom superficial, esse que é o adequado ao (meu) bloguismo, procurando espantar os temores. Resmungo as delongas havidas nas medidas sanitárias no meu país, esperando estar a exagerar seus efeitos. Resmungo os delírios da "nova direita" internacional, mergulhada num ideário que irá custar imensas vidas e - também - mais desastres económicos. Resmungos apenas blogais pois não sou intelectual comentador - e agora tanto me dariam  jeito uns trocos avulsos para as contas domésticas, e assim desnudo-me na inveja que tenho desse dinheiro fácil da opinação. 

Mas, de súbito, choco com versões, discursos, que me são ponto de ruptura. Pois iro-me, na vontade do abismo abaixo dessa perfídia alheia. Diante desse desrespeito, malévolo. Se desonesto se irracional nem julgo. Nem apupo. Apenas desembesto. Aqui. Minha forma de sobreviver.

2. Desde meados de 1918 a "gripe espanhola" devastou mais do que a hecatombe da Grande Guerra, entre 20 a 30 milhões de mortos. Também em Portugal - uma das minhas bisavós foi vítima. Durante as comemorações do centenário do armistício apanhei este cartoon numa bela exposição sobre a I GM na Bélgica.  É notável a sua legenda: "Podendo viajar porque espanhola, ela não se poupa: é a gripe "globe-trotter!...", caricaturando a sua chegada à fronteira belga neste formato torero. A mensagem era explícita, anunciando o que agora se diz pandemia, a sua origem e o seu modo de disseminação. E denotava o contexto político de então: a "espanhola", e este toureiro que a ilustra, podia viajar pois a Espanha mantivera-se neutral na I GM.

Sabemos hoje que a gripe de 1918-1919 não teve origem em Espanha. Porventura brotou nos Estados Unidos. E ter-se-á disseminado na Europa através dos contingentes militares americanos, devastando uma população exaurida por quatro anos de guerra. Ora na Espanha neutral, sob regime democrático e imprensa livre, as notícias da epidemia espalharam-se, em contraste com o silêncio imposto pela censura militar vigente nos países beligerantes. Daí o epíteto "gripe espanhola", uma "má fama" assim devida à liberdade de informação. E à paz. À democracia, sempre frágil, sempre manipulável, sempre corrompível. Mas democracia.

3. Um século depois enfrentamos ameaça homóloga mas os seus efeitos serão menores pois amenizados pela parafernália industrial e o conhecimento médico - a "biomedicina", como a apoucam os (pós-)marxistas multiculturalistas identitaristas de retórica new age. Mas mesmo assim este é o pior momento das nossas gerações. Um confinamento generalizado que convoca cenários quase-apocalípticos, tantas vezes cine-ficcionados que assim julgados irrealizáveis.

Em cada um vinga a angústia pela saúde da familia e parentela espiritual. E até pela própria. E com a sua comunidade particular, com o que se passa(rá) no nosso Portugal e nos países outros, mais naqueles que nos são próximos em geografia ou sentimento. E, vá lá, em alguns, mesmo com o mundo. Mas também uma outra angústia, sobre o futuro: pois a crise económica que aí vem amarfanha as esperanças para os próximos anos. 

Nisto vou algo egocêntrico, alvitro sobre o que acontecerá connosco, comigo e com o meu grupo alargado, etário, social. Trememos agora, terrores com a sorte dos nossos filhos, angústia com a dos nossos pais, já avoengos. Suspendemo-nos à espera de "alisar curvas", como se um gráfico fosse totem e nos proteja. Talvez, talvez ... Mas depois dessa "curva achatada", daqui a um mês, dois meses, que nos sobrará para os próximos cada-vez-menos anos que nos restam, àqueles de nós que sobreviverem ao vírus? Que nos restará a nós, os pequeno-burgueses ditos "classe média", os que toda a vida viemos remediados, agora desempregados, profissionais liberais desvalidos, ou meros eventuais, já cinquentões ou sexagenários, aqui chegados em casais naufragados, endividados e tão taxados? A nós, que conseguimos boiar no rescaldo da crise financeira da década passada, pois então ainda algo mais jovens, mas nisso também feitos tão trôpegos? Que ocaso teremos?

Pesadelo comigo e com os outros que me ombreiam. Só imagino uma hipótese. Esperaremos neste "confinamento", e na "mitigação", algumas semanas enquanto for isso lei. E logo que esta aligeirar, e será em breve, pois "as coisas" precisam de voltar a funcionar, o show must go on, teremos de ser os primeiros a sair, antes da madrugada, a calcorrear a praça de Grève - que o agora propagandeado "teletrabalho" será para os outros, para os já empregados, a "aristocracia da classe média" como se disse naqueles séculos anteriores. Seremos assim a segunda vaga de convívio consciente e voluntário com o vírus. Agora os profissionais de saúde, da ordem, dos transportes, cidadãos até heróicos. E depois seremos nós, mas surgindo como lumpen, mão-de-obra não-institucional, apenas disponível, alguns ainda podendo arriscar negócios de parcas esperanças, a maioria procurando trabalhos para os quais não estávamos preparados, desqualificados assim. E teremos ainda outros problema: se então andarilhos poderemos voltar a casa, conviver com os filhos e pais, arriscar contaminá-los? Ou precisaremos, burguesotes habituados a sanitário próprio e banho diário, de nos recolher a compounds por razões sanitárias? E estes existem? Talvez, se o Estado (e as câmaras) convocarem esse demencial manancial de "hostais" e "hoteis" que brotaram no portugal disneylandico, na patética west coast que o país quis ser.

4. Neste meu remoer, nem duas semanas confinado, de súbito cheguei ao meu ponto de ruptura. Pensava um texto - de blog, claro - tipo "manifesto". Sobre a necessidade de articularmos com os países africanos (sim, a propósito de Moçambique, minha  paixão) o combate a esta pandemia. Nos quais os défices hospitalares são enormes. Certo é que as suas composições demográficas são diferentes, e outros serão os impactos da gripe. Mas também letais. Pois será agora que instâncias como a CPLP ou, e ainda mais, o acordo de Cotonu deverão funcionar. Mesmo que estejamos agora com a "corda na garganta". Pois se nos escandalizamos com as reticências do ministro holandês, algo alheando-se da situação espanhola, se exigimos comunhão na UE para o enfrentar da gripe e o avivar das economias, como poderemos virar as costas às realidades pauperizadas com os quais temos compromissos políticos e de ombrear humano?

Todos estes processos, internos, europeus, globais, exigem congregação. Entender o que se passa, e algo concordar com o que fazer - agora mesmo, amanhã. E depois de amanhã. O socorro sem pressupostos é uma obrigação humanitária. Mas a reconstrução, a reabilitação pós-covídeo, exige acordos. Lisura, mesmo que discordante. Em suma, temos que perceber como isto nos aconteceu, como o combater, e como o ultrapassar.

5. A pandemia tem razões naturais. Mas também tem causas políticas, complexas. A gripe foi potenciada pelos mecanismos ditatoriais do comunismo chinês, que protelou a divulgação da informação e as estratégias de combate à então epidemia. E que permitiu a disseminação da população residente na zona da inicial infecção. Foi uma típica reacção de uma burocracia totalitária, como várias que a história de XX tanto comportou. E para isso contou também com a fragilidade das Nações Unidas, e da sua OMS, que foi cúmplice desse protelar, timorata face ao poderio chinês. Assim assassino e devastador.

Há alguma similitude com 1918: então os países sob censura militar calaram a situação, a democracia pacífica anunciou-a e ficou com o ónus da sua origem, cujos custos não terão sido apenas simbólicos. Agora as democracias, na pluralidade das suas reacções e nas delongas habituais nos seus processos de tomada de decisão, estão sob uma enorme pressão. Um desastre. Com temíveis repercussões futuras, económicas, políticas. E culturais. É tempo para nos congregarmos frente ao vírus mas também em defesa da democracia. Adiar um pouco as querelas entre os mais liberais e mais estatistas, mais "politicamente correctos" e mais conservadores, mais do género mais da nação, mais laicos ou mais soberanistas, etc. Conciliar diferentes perspectivas em defesa do que é fundamental. Ou seja, ceder excepto no que é fundamental. Como meter isto num postal de blog, como meter o Rossio na Betesga?

6. Estava nisto, neste blogar, quando fui abalroado, causando o tal meu ponto de ruptura. Ao deparar-me com um postal de Facebook de uma colega minha, moçambicana. Algo soez, vil, abjecto. E, para minha dor, logo subscrito por meus amigos e antigos alunos. A tese propalada, mas não original, pois já por aí grassa, é simples: fomos nós, europeus (entenda-se, a UE) que contaminámos África. Portanto teremos (com os EUA) de pagar aos países africanos por essa praga que lhes enviámos. Não os chineses, frisa ela (e tantos outros), pois esses "respeitaram a quarentena", ao contrário dos indisciplinados europeus, ao contrário dos americanos (e antes dos britânicos) com suas diferentes políticas de absorção viral. 

Locutora e seus subscritores são pessoas com estatuto reconhecido, não meros "populares" prenhes de atoardas. Estou diante de "intelectuais orgânicos" a quem Estados e algumas fundações pagam para pensar e ensinar. Mas doutrinam estas falsidades. Ímpias. Por mais que sempre alardeando a sua refutação dos preconceitos, das discriminações, logo agora surgem reproduzindo, de facto ipsis verbis, o antigo cartoon que encima este postal. Para eles somos nós o torero de então, o agente disseminador, poluidor. Não porque somos um toureiro espanhol mas porque somos o branco "ocidental" - mesmo que tantos destes locutores sejam brancos, até "ocidentais".

Pois o que os move, o que os conduz na produção desta falsificação da história (hiper-contemporânea), é o ódio à democracia, aquela a que repudiam, com desprezo, como "democracia formal". O seu ódio ao mundo "pan-ocidental" (como disse Wallerstein, para o apartar do leste europeu e lhe agregar as antigas colónias de povoamento britânicas). Por isso, por esse efectivo amor ao comunismo e aversão aos países europeus, e ao mundo  democrático, vêm agora - neste catastrófico momento - reclamar que paguemos a África uma infecção que consideram termos causado. Elidem, como agentes do conto do vigário, as práticas chinesas que nos conduziram a este estado das coisas. Louvam a sua "disciplina" - construída, sabe-se, por formas de controlo totalitário com tecnologia intrusiva das liberdades individuais que resistimos a aceitar como desejáveis na democracia liberal [veja-se o breve filme]. E toda e qualquer informação que lhes questione as malvadas teses, o entoar do seu odioso comunismo, consideram falsidades dos americanos, aquilo da invectiva à "voice of America" como nos tempos soviéticos tanto se ouvia ...

 

(This is How China Beat the Corona Virus - should we copy?, por George Thompson)

Mas não é só a apologia do capitalismo de Estado chinês, através da falsificação consciente da realidade (ou seja, da violação grosseira das regras deontológicas que presidem a expressão pública de funcionários públicos académicos).  É a mistificação, doutrinária, de um "Sul" ("abissal" no jargão): por isso seríamos nós condenados a pagar pela pandemia que espalhámos em África. Não a China, que tem enormes contingentes de nacionais nos países africanos, que atrasou o reconhecimento e o combate à epidemia e que permitiu a fuga de milhões de pessoas da zona original do vírus. E não o Brasil, que segue uma política epidemológica ainda mais liberal - e desconexa - do que a dos EUA (ou da Suécia, ou as que a Grã-Bretanha e Holanda ensaiaram). Ou seja, essa apologia do "Sul" conduz a que nem "amarelos" chineses, nem "pardos" brasileiros sejam imputáveis. Apenas nós, "brancos" euro/norte-americanos. Ainda que tendo sido os nossos contextos abalroados e estejamos, repito, com "a corda na garganta". E para esta via intelectual nada importa o fenotipo do "intelectual", apenas o seu can-can de "orgânico" ...

E, para cúmulo da impudicícia destes locutores (e subscritores), tudo isto assenta na total desresponsabilização dos Estados africanos e das suas sociedades, de facto uma forma elíptica de (auto-)racismo. A epidemia é conhecida há já meses (ainda que tendo sido elidida pelo poder chinês, delenda est Carthago ...), e a sua travessia intercontinental acontece há algum tempo. Que fizeram os Estados africanos para se fecharem? Mesmo para barrarem estes horrorosos "diabos brancos", nós-mesmos, que transportamos malévola ou "indisciplinadamente" a temível maleita? Nem isso é questionado. E se nós o perguntarmos decerto que serão invocados, como explicação causal das ausências administrativas, o perene impacto estruturante, assim inibidor, do comércio de escravaturas, do colonialismo, do neocolonialismo, da discriminação dos afrodescendentes. E mais alguns detalhes, mais ou menos avulsos. 

7. Meu ponto de ruptura? O vírus não é um inimigo, é agente de patologia. O inimigo é este tipo de gente. Falsária. Interlocutora. Interna. Melíflua quando precisa (de subsídios, de investimento, de emprego). Abjecta, como agora. Na crise que aí vem é preciso defender a democracia. Não apenas dos soberanistas xenófobos, a crescente extrema-direita. Mas também destes racistas comunistas. Um democrata não defende caças às bruxas ou saneamentos ou limites à liberdade de expressão. Mas temos a obrigação de os apontar, aos falsários, de os refutar. Desprezar. De os combater, sim. Mas também de escarrar para o chão à sua passagem.

A guerra no Norte de Moçambique

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O ataque em curso a Mocimboa da Praia  é o maior cometimento do movimento fascista islâmico em Moçambique, e é prenúncio de um verdadeiro descalabro. Ao que se noticia os terroristas (convém explicitar que a imprensa simpática a este movimento terrorista, moçambicana e estrangeira, continua a denominá-lo pelo afável termo de "insurgentes", uma simpatia que advém tanto por deriva multiculturalista como por ser financiada por grupos económicos simpáticos à causa do integrismo islâmico) ocuparam hoje a vila, chegando a içar a bandeira. A fragilidade da soberania - apesar dos apoios militares mercenários russos - face à expansão das movimentações desta guerrilha fascista é notória. Pois se já Mocimboa pode cair que nos trará o futuro breve? ....

MoçambiqueMapaNortedopaís.jpg

Continua a haver várias interpretações, incompetentes e desonestas, sobre o conteúdo deste movimento armado. Desde as teorias conspiratórias, que apontam como causas os interesses "multinacionais americanos" - como é tradicional nos imbecis - ou a "Frelimo", como é típico da paranóia, rebuscando teses sobre as estratégias esconsas das tais "multinacionais americanas" dedicadas à exploração dos recursos energéticos no norte do país. Até às interpretações vazias,  que doutoralmente apontam a "pobreza" e a "exclusão" como causas deste processo.

Deixemo-nos de coisas. Este é um movimento fascista (o "ur-fascismo") de cariz teocrático. Tem dinâmicas internacionais, de recrutamento e organização. Foi induzido e dinamizado por várias elites económico-religiosas islâmicas do Índico ocidental. E tem profundas cumplicidades, até por temor, com sectores islâmicos muito mais moderados, tanto no país como no estrangeiro. Ou seja, o fascismo islâmico, tanto naquele recanto nortenho de Moçambique, como em largos contextos em África e alhures, tem a cumplicidade, estratégica ou meramente defensiva, de vários sectores político-económico-religiosos islâmicos. Uma "direita" e um "centro-direita" islâmicas, se se quiser manter a analogia.

Estas são também as inimigas. Talvez as principais. Por mais carregadas de capital que surjam, e disponíveis para o "investirem" sem os limites impostos por ditames de "condicionalidade política", como foi sendo prática dos países e até sociedades da União Europeia. E por mais difusoras da retórica do Islão "religião da paz". O que, de facto, desde a sua origem, não é - e por mais que a docência marxista multiculturalista, corrompida, o negue, a história do islão recente e antigo é uma sucessão de crescentadas. Escravistas, já agora.

Agora venham os supersticiosos, obscurantistas, ignorantes, crentes nas patetices religiosas, em mezinhas e deuses patéticos, dizer-me que estou a falar contra a religião muçulmana. Não estou. Estou a falar de política. E de décadas de cumplicidade das elites muçulmanas, dos núcleos enriquecidos muçulmanos, com estes movimentos fascistas. São eles os inimigos, não apenas estes infectos terroristas a fugirem-se de campónios miseráveis.

Um texto sobre o desenvolvimento

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(eu-mesmo, nesta década, durante uma consultoria, decerto que a norte do Save)

Vou com 55 anos. Fui ao médico. Não me deu más notícias (longe vá o [auto-]agoiro). Ainda assim cheguei à idade de olhar para  o retrovisor. Por isso deixei agora mesmo, na minha conta na rede academia.edu, um texto de memórias, sobre a minha formação intelectual, sobre a aprendizagem da antropologia, sobre o que penso da disciplina na qual me licenciei. E sobre o que retirei da minha experiência em trabalhos de antropologia do desenvolvimento. Não é uma coisa teórica, é mesmo uma memória de quase 40 anos de olhos entreabertos, a constituirem este meu "olhar embaciado".

O texto chama-se A Apneia Desengajada: Uma Experiência Desenvolvimentista. A quem tenha a gentileza do interesse, e a simpatia da paciência, bastará "clicar" neste título para aceder e, até, gravar.

 

O Sábado e Tó-Zé Martinho

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Morreu o simpático e popular homem de tv To-Zé Martinho, que a minha geração conheceu no histórico "Visita da Cornelia". A revista Sábado dedica-lhe um afável memorial. E lembra que ele "namorou" (depois no texto confunde-se e fala em casamento) com "a filha de uma rainha de uma tribo africana" lá em Mocambique, aquando da guerra. Não será particularmente relevante . Mas, ainda assim, e diante de tamanho dislate, , não seria de exigir mais cultura ao jornalista? E ao seu chefe de redacção?

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