Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

O Nobre Colono

moz.jpg

Aos meus 57 anos, 18 deles vividos em Moçambique, aprendo agora - em texto publicado por prestigiado intelectual lusófono, debruado com eruditas citações de escritores franceses algo esquecidos (o que sublinha a culta autoridade do seu citador) - que os portugueses que nasceram naquela ex-colónia têm uma "marca distintiva: uma certa candura, simplicidade, afectuosidade e fácil entrega, em suma, uma total falta de ronha, em língua de boa cepa moçambicana. Coração na boca, capaz dos maiores dislates, mas não intrinsecamente mau, bem ao contrário." Aprendo ainda que aqueles que duvidam dessa beatitude inata dos colonos oriundos da "Pérola do Índico" são vis "Tartufos".
 
E vejo este texto saudado nas redes sociais e replicado (elogiosamente) na imprensa moçambicana. Face ao sucesso deste magnífico trecho analítico, resta-me esquecer de vez as malditas leituras com que fui poluindo a minha mente nestas últimas décadas, algo avessas a estas "personalidades de base" (e talvez mergulhar nos tais clássicos franceses, que ficam sempre bem quando referidos). E louvar o bondoso (pois nascido em Moçambique) coronel Carvalho, aliás, o querido Otelo, mote da eulogia a que aludo. E estender-me em genuflexões diante de Mestre Eugénio Lisboa, autor destas tão doutas palavras.
 
(Poderia, como opção, ter soltado um peludo palavrão. Mas as mulheres da minha família não me deixam. Ou seja, mais vale Tartufo do que malcriado)

Morreu Artur Ferreira

artur-ferreira.jpg

A Ceifeira é infatigável. Agora morreu o Artur Ferreira. Decano fotojornalista de automobilismo, com centenas de GP's de F1 no arquivo e inúmeras histórias desse meio, vivia como os bólides que fotografava: terá sido o homem mais acelerado que conheci. Um verdadeiro globetrotter, numa personagem peculiar e com uma mundivisão muito própria que não se coíbia de afixar.
 
Conheci-o em 1997 quando foi a Maputo apresentar uma exposição fotográfica, enorme, a "Por esses Oceanos ao Encontro de Culturas". Fez-se na Associação Moçambicana de Fotografia, então apenas a parte africana do acervo. Voltou depois, e no Camões se apresentou a parte asiática. Nos anos subsequentes dirigiu várias revistas em Moçambique, entre as quais a "Índico" da LAM. Tinha uma capacidade industriosa espantosa, pois tudo isso fazia enquanto viajava constantemente, saltando de continentes como nós íamos à vizinhança.
 
Devo-lhe algo: em 1998 fui em casal à Zambézia. O Artur Ferreira estava em Quelimane a fazer uma reportagem. E deu-nos uma boleia aérea no dia em que foi fotografar os montes Namuli e o Delta do Zambeze. Teria dado uma grande crónica esse dia. Mas ficou uma esplendorosa memória.

Jane Flood

jane flood.jpg

Leio que a Jane Flood morreu agora, nos seus 63 anos, em Zanzibar. Na sua peculiaridade a Jane também correspondia um pouco à imagem de um certo tipo (até literário) de senhora "british", na sua informalidade mesclada de generosa "flamboyance", de riso solto e genuína empatia pelo que a rodeava. Algo que alguns entendem como candura mas que é, de facto, a inteligência da curiosidade despreconceituosa. Nunca fomos íntimos mas tinha por ela grande simpatia. Algumas vezes nos sentámos juntos, bebendo um copo de vinho branco - com ela eu suspendia a rude cerveja e o agressivo uísque - em conversas soltas, num pidgin em que mesclávamos o seu mau português e o meu atrapalhado inglês.
 
Nessas conversas, e nas tantas vezes que nos cruzávamos, era notório o verdadeiro encanto que a Jane tinha por Maputo, pelo património herdado - arquitectónico, urbanístico, artístico - e pelo pulsar actual, as exposições, os ateliers, os bairros bem para lá do "cimento" burguês, a música. Aquela senhora amou mesmo Maputo e quem lá está. E isso era-me muito agradável de assistir e de fruir, ainda que a minha paixão estivesse alhures, pois pelo país afora.
 
Nisso a Jane acabou por criar a Maputo a Pe Tours, passeios pela cidade muito bem organizados. Eu fiz alguns, aproveitando para conhecer o roteiro da arquitectura de Pancho Guedes - grosso modo, um pouco após o espantoso trabalho de divulgação que a então cônsul portuguesa Graça Gonçalves Pereira realizou.
 
Enfim, nos últimos tempos a morte tem acontecido a muitos dos meus queridos e simpáticos. Isso acabrunha. E hoje fico mesmo triste com a morte da Jane (nesta foto ela é a mulher branca, a terceira a partir da esquerda, entre a equipa da "Maputo a Pé", indo para a Macaneta em 2016). Amanhã ela será cremada em Zanzibar às 9 horas. Uma amiga publicou que ela nos convidou para "ok, chorarmos um pouco mas não muito". E para que vistamos roupas coloridas (claro) e bebamos um copo de vinho.
 
Eu não sou muito desses rituais. Mas amanhã a essa hora certa, matinal, estarei neste meu aqui de verde garrido e beberei dois copos de vinho. Um pela memória da simpatia da Jane e um outro pela da sua risada, única. Aliás, beberei ainda um terceiro: lembrando o amor dela por Maputo.

 

Sonhámos Um País

sonhamos um país.jpg

(Texto para o grupo de Facebook Nenhures - no qual divulgo as publicações deste blog):
 
Algumas impressões ainda a propósito do filme moçambicano "Sonhámos Um País" do Camilo de Sousa e da Isabel Noronha, que foi transmitido na passada semana pela RTP2 :
 
1 - Não vou aqui debater o filme. Pois - e apesar de eu, ao longo dos anos, ter depurado blog(s) e o meu FB dos dichotes alheios mais abrasivos - sobre a temática dos processos independentistas há sempre o risco de se cair num exasperado ambiente de "prós" vs "contras", de invectivas aos "tugas" (neo)colonos e aos "turras" comunistas. E não tenho paciência para isso, o que é razão mais do que suficiente para este meu evitamento.
 
2 - Mas alerto quem não o viu para que se trata de um belíssimo filme. Uma querida amiga - que investigou sobre a história cultural do país mas não é moçambicana e nunca ali viveu -, por mim alertada para a transmissão, escreveu-me "obrigada, chorei ao ver". 
 
Também eu me comovi e não tanto por conhecer o protagonista-realizador. Mas por no filme reencontrar - mesmo num objecto destes, um sofrido memorialismo analítico - os constrangimentos intelectuais impostos pela socialização no nacionalismo e, ainda mais, pelo impacto omnipresente do carisma da I República, em particular de Machel (Samora, como se o nomeia em Moçambique, forma óbvia de exaltante aproximação afectiva). Ilustro isso com a forma como a este se refere um dos três protagonistas do filme, um dos seviciados: repetidamente alude ao "saudoso marechal". Ou como quando Camilo de Sousa refere as instruções recebidas para documentar a situação dos campos de reeducação sendo que depois estes recrudesceram. Isto denota as contradições no poder de então mas também a ambivalência (quase sempre apagada) do próprio Machel. Mas mais interessante ainda, em particular para quem não esteja preso à "avaliação" retrospectiva do processo político - num verdadeiro "ajuste de contas", por vezes apenas revanchista mas na sua maioria devotado a reclamar legitimidade no presente - é reconhecer através do filme a força imensa que teve o moralismo, puritano mas também profundamente racista (e "tribalista", para usar o termo de então), naquela fase política mas também como molde de interiorização de uma forma particular de nacionalismo. Os quais, moralismo e racismo, se mantêm como adubo dos valores que são consagrados, no espaço político e privado.
 
E também por isso, por no filme se encontrarem estes nós górdios ideológicos que demarcam a análise do processo - mesmo num magnífico trabalho como este - que volto a recomendar a entrevista de Camilo de Sousa ao José Navarro de Andrade (a partir dos 30'30'' nesta ligação ao programa "Muito Barulho Para Nada", edição de 22 de Julho de 2020). Ambos sábios, sem oposição nem afronta por parte do entrevistador (como é tão costume na tv) mas uma verdadeira conversa, de facto sobre mundivisões. Desiludidas.
 
3. Nos comentários, no grupo "Nenhures" e em outros murais de FB, percebi que o filme nunca foi projectado ou transmitido em Moçambique. Estreado em 2020 em parte isso dever-se-á à contracção que o Covid-19 provocou. Mas talvez não só, pois presumo que haja algum evitamento local dado que é um objecto de difícil digestão interna: trata-se de uma dolorosa análise crítica "por dentro". Pois o Camilo é um "antigo combatente" e nunca "dissidiu" (para usar a velha terminologia). É então necessário procurar evitar o relativo silenciamento que este tipo de obras sempre promovem - naquele país e em tantos outros. E assim que pelo menos a RTP-África o transmita, o que seria um verdadeiro acto de "serviço público". Mas também que instituições culturais em Moçambique, nacionais ou estrangeiras, organizem a sua projecção pública, nas quais muito mais se induzem debates e memorialismos.
 
4. Sobre o período dos campos não inexistem textos. João Paulo Borges Coelho publicou "Campos de Trânsito" (em 2007) e Ungulani Ba Ka Khosa o "Entre Memórias Silenciadas" (em 2013). Seria interessante saber o impacto que estas obras realmente tiveram no contexto letrado do país. No qual este assunto dos "Campos de Reeducação", e da "Operação Produção", continua a ser mais aludida do que dissecada. E seria ainda mais interessante voltar-se a esses livros, debatê-los, o que é forma de os fazer ler, convocar a curiosidade sobre eles. E também Licínio de Azevedo fez dois filmes incidindo nesse período e na ideologia de moral pública então dominante, "A Última Prostituta" (1999) e "Virgem Margarida" (2012).
 
5. Finalmente quero chamar a atenção para uma excelente tese de doutoramento sobre esta matéria, realizada pelo investigador moçambicano Benedito Machava, "The Morality of Revolution: Urban Cleanup Campaigns, Reeducation Camps, and Citizenship in Socialist Mozambique (1974-1988)" [basta carregar no título que se pode gravar o documento completo]. É tempo desta tese sair do remanso dos esconsos acervos universitários e ser traduzida, publicada e lida. E, acima de tudo, debatida. O mesmo se aplica à tese de doutoramento de Isabel Noronha, co-autora deste filme, intitulada "Tacteando o Indizível", a qual ainda não li mas que decerto será contributo para um debate alargado (e ponderado, se possível) sobre este processo histórico, suas práticas e dimensões ideológicas.

A falsa marquise de Cristiano Ronaldo

cristiano-ronaldo-juventus-real-madrid-champions-l

Viva CR7!

Em Lisboa, e não só, os "parvenus" ("arrivistas" se em português arcaico, "parolos" se sob a bigotry do sociólogo Augusto Santos Silva, a qual segue ainda imune às denúncias dos "movimentos sociais") sentem-se muito lesados com a sala de treino que o CR7 instalou no invisível terraço da sua casa. O generalizado clamor ofendido seria suficiente para a declaração de um "estado de emergência cultural", tamanha a calamidade que demonstra. E a apressada promessa municipal de uma vistoria punitiva é mais do que suficiente para uma ampla razia defenestradora.
 

Enquanto não termino esse manifesto sanguinário deixo este meu velho texto, um "Viva o CR7!". Que muito "bate bem", ao invés desta chusma compatriota.

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

À saída de Nelspruit não paro nos semáforos desligados, que quando assim funcionam como sinal de "stop", pois nenhum carro se avistava no cruzamento. E logo dois policias saltam à estrada, mandando-me parar. "Estou tramado!", resmungo, antevendo os rands da multa e o atraso na viagem. Desculpo-me, explico-me, eles impávidos. Claro que viram a matrícula moçambicana, e tão habituados estão ao tráfego inter-fronteira, mas perguntam-me para onde vamos ("Maputo", respondo), de onde somos ("portugueses", digo-lhes), se viemos às compras. Que não, esmiúço, em busca de hipotética solidariedade, que ali vim para trazer a miúda ao (orto)dentista, a Carolina a comprová-lo no banco traseiro, com o aparelho dentário tão brilhante, acabado de calibrar na visita mensal. Um deles (suazi? tsonga? sotho?, não lhes consigo destrinçar a origem), inclina-se sobre a minha janela, quase enfiando a cabeça no carro e pergunta "how are you, sissi (maninha)?" e assim percebo que não pagarei multa. Depois diz-me "se você é português vou-lhe fazer uma pergunta" e eu logo que sim, dando-lhe um sorriso prestável, antevendo uma qualquer dúvida sobre ares ou gentes de Moçambique. Mas afinal "Qual é o melhor, Ronaldo ou Messi?". Eu rio-me, num "Ah, meu amigo, são ambos excepcionais, diferentes mas excepcionais", enfatizo, mas ele insiste, "mas qual é o melhor?". "Ok", e enceno-me, olhando à volta, "só vocês é que me ouvem, assim posso falar, sou português mas o maior é Messi", e estou a idolatrar o jongleur, o driblador dono da bola, alegria do povo, nós-todos miúdos de rua. "Não, você está errado" riposta ele (ndebele? zulu? khosa?, não lhe consigo destrinçar a origem), "Ronaldo é o melhor. Messi nasceu assim, Ronaldo é trabalho, muito trabalho!". Ri-se, riem-se, rimo-nos, e conclui num "podem ir". Avanço pela N4 e sorrio a este afinal meu espelho, apatetado europeu (armado em) intelectual com prosápias desenvolvimentistas, a levar uma lição de ética de trabalho de uma pequena autoridade (formal) africana.

 
(Fica a historieta para os que acham mal resmungar com os patrícios que, sistematicamente, apoucam o labor do maior atleta em actividade. Talvez nisso ombreando com Federer, mas muito mais célebre).

Mulheres no Facebook

mulher.jpg

(Mulher de Willendorf)

 
Desde há anos que quase todos os dias recebo propostas de ligação-FB ("pedidos de amizade") de minhas desconhecidas oriundas de dois agregados. Muitas provêm da uma globalizada (e assim anglófona) "spam red light", de perfis obviamente falsos. Mas o outro agregado constitui-se de perfis na sua maioria visivelmente reais. São oriundas da "pérola do Índico", mulheres muito jovens em poses simpáticas, sempre dotadas de formas muito generosas. Amplas.
 
Deste segundo universo retiro duas superficiais conclusões: 1) como os padrões estéticos são culturalmente tão diferentes, o primado do roliço a Sul contrastando com o consabido (e até doentio) primado do esguio a Norte. Sobre isso, e sem grande deambulações dietéticas, logo concluo um "Ainda bem!"; 2) que na minha sociedade estas púberes publicitações pessoais, femininas e provavelmente também masculinas, estarão alojadas no Instagram, o que demonstra diferentes manuseios nacionais destas redes sociais. Ancoro-me nisto: nestes largos últimos anos de FB não me lembro de ter recebido quaisquer propostas de ligações reais enviadas por jovens portuguesas, surgindo com estas poses (não "porno", friso, apenas "simpáticas", quais sedutoras). E ao que consta os nossos jovens estão inscritos no Instagram e outras redes.
 
Mas sigo com terceira conclusão, mais especulativa (e talvez preconceituosa mas juro que não malévola): é que este fluir constante de raparigas (muito)jovens propondo ligações a homens tão velhos como eu deixa entender uma propensão socialmente aceite para o "sugar daddysmo". Acredito no "vive e deixa viver" dentro do espectro do real livre-arbítrio. Mas, e sem exageros moralistas - que não me venho anunciar como santo -, ver isto, este constante fluxo, custa um bocado. É mesmo pungente.
 
Em suma, e pela parte que me toca: não tenho disponibilidades económicas nem disposições éticas para exercer o papel de "sugar daddy". Ou seja, meninas não peçam "amizade" a este velhote.

Gerhard Liesegang

Liesegang2.jpg

Aos 80 anos morreu Gerhard Liesegang, autor de uma preciosa e vasta obra sobre a História de Moçambique, desde o seu doutoramento sobre a história do Estado de Gaza. Seguiu como praticante de Antropologia Histórica, e nisso foi enorme exemplo da irrelevância destas divisões disciplinares de que alguns são tão ciosos. Ele próprio assim se anunciava, não só na simpatia com que olhava os colegas antropólogos como quando deixava cair ter estudado (aquando na Londres dos anos 1960) com professores como Isaac Schapera, Raymond Firth, Robin Fox, Lucy Mair ou Tom Bottomore. De facto, nele subsistiu com pertinência a ambiciosa tarefa boasiana, da extrema abrangência do exercício individual das ciências sociais. Nisso fazendo-o um verdadeiro sábio.

Era um homem de enorme simpatia, a qual nem a sua (aparente) timidez escondia. E dono de uma dicção dificílima de captar - lendária até, e sempre carinhosamente evocada por colegas e ex-alunos. A qual nos convocava para ainda uma maior atenção para o que ele proferia. Lembro-me que em 1994 no meu segundo dia em Moçambique José Soares Martins (Capela) - sabendo que eu ia para o Norte - me mandou ter com ele. Recebeu-me em casa, ali à Polana, e no seu jardim deu-me um enorme "briefing" sobre o Cabo Delgado, numa total disponibilidade diante do miúdo que ali lhe batera à porta, de modo inopinado. Saí dali estupefacto, tanto pela dimensão da minha ignorância como pela sageza e simplicidade do Professor.

A última vez que o vi foi em 2017, quando apresentou o livro "Costumes Ancestrais do Povo Makhwa-Metto, de Montepuez", uma memória etnográfica de João Eduardo de Conceição, organizada pelo filho do autor, o antropólogo Rafael da Conceição. Decorrendo a cerimónia na Matola, diante das autoridades locais, o Professor dissertou sobre a relevância da obra e, depois, com o seu célebre sorriso plácido, aproveitou para inflectir o discurso e deixar uma radical crítica ao descuido com o património arqueológico daquela zona, triturado pelo "desenvolvimentismo", coisa que, como frisou, "já vem do tempo colonial e não mudou". Assim mostrando-se não só sábio como exemplo de intelectual.

Muito do que escreveu está em alemão, língua que não domino. Mas há um manancial em inglês e em português. E a melhor maneira de homenagear um autor não é botar encómios. É lê-lo e relê-lo. Deixo ligação para a sua página na rede Academia.edu e para uma entrevista sua, realizada em 2010 pelo meu colega Guilherme Mussane. E é para onde vou agora, relê-lo. Pois o Professor Liesegang é daqueles que conta

Sporting e Cabo Delgado

cabo delgado.jpg

Há demasiado futebol na sociedade portuguesa, omnipresente na imprensa, constante no bate-boca popular, viçoso como "futebolês" no linguajar e, assim, empobrecendo as interpretações do real. Mas isso também corresponde à competência do jogo nacional entre o espectáculo desportivo mais popular no mundo: o campeonato é o 6º europeu mais pontuado, a selecção sénior é a 5ª mundial mais cotada e actual campeã europeia, dados que muito ultrapassam a dimensão económica e a demográfica do país. Nisso treinadores, jogadores e o trio de clubes mais representativos têm uma enorme visibilidade internacional.
 
Neste quadro o Sporting conquista o tão ambicionado título após 19 anos. E assim congrega uma imensa atenção nacional e além-fronteiras. Três dias depois joga o "clássico" dos "clássicos", o Benfica-Sporting, a sempre "taça da 2ª circular" diante do eterno rival. Nas suas camisolas os jogadores trocam o seu nome de campeões pelo dístico "Cabo Delgado", convocando a atenção solidária para o drama ali vivido desde há 3 anos e meio. O qual durante tanto tempo conviveu com o silêncio da sociedade moçambicana, das suas instâncias estatais e da imprensa tradicional bem como, friso, da maioria da intelectualidade do país. E também com a "distração" internacional. Vivi 18 anos em Moçambique, e também no Cabo Delgado, região pela qual então me apaixonei. Muito por isso ontem tanto me comovi ao saber deste inesperado gesto do meu clube - naquilo do gratuito encenado e inútil que é o clubismo.
 
Hoje de manhã corro o FB e vejo reacções lá na "Pérola do Índico". Alguns - uma minoria do que leio - protestam com esta intromissão nos assuntos internos, nessa pantomina a que reduzem o apreço pela soberania. Mais refinado segue o sociólogo Elísio Macamo, um dos mais afamados intelectuais nacionais. Conhecedor da sociedade portuguesa, onde até publica textos de índole política para gáudio dos "decoloniais", enfileirados no demagógico comunismo identitarista que por cá foi grassando, Macamo saúda a acção sportinguista mas não deixa de a apodar como "gesto imperial".
 
Muitos gostam de nos chamar "tugas" da "Tuga", nisso sinalizando o desprezo pelo nosso país e por nós-povo, assim ditos mole de gente rasca. Ao ler estas reacções e, acima de tudo, este "gesto imperial" sinto-me um "tuga", um vero "maguerre". E clamo um matinal "fôôôôôda-se...!", assim mesmo, com circunflexo maiúsculo e longo e arrastado "ô". Não injúria, nunca praga, mas uma verdadeira "onomatopeia imperial".
 
E depois, já azia liberta, regresso-me a burguesote bem-falante. Para findar assim: é isto, são estes clamores, o cerne do "pensamento decolonial". Que se saracoteiem @s académic@s das causas, neste garimpo de "gestos coloniais". Eu? Vou ver a bola...

Debate sobre Cabo Delgado

afsessions.jpg

O debate "Terror ao Norte de Moçambique: Causas e Consequências para a Segurança Internacional" com Emílio Jovande Zeca, Énio Tuande, Fátima Minbire, Jorge Cardoso, Jorge P. Silva, Liazzat Bonate, Paola Rolletta. Uma organização das "Africa Sessions", hoje, sábado 10 de Abril, às 17 horas de Portugal continental.

 

Quem somos

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em destaque no SAPO Blogs
pub