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Nenhures

Nenhures

19
Out21

Efemérides Sangrentas

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Dia de efemérides. Passam hoje 35 anos sobre o incidente de Mbuzini, no qual morreu o presidente Machel e quase toda a sua comitiva. Vários amigos e conhecidos moçambicanos assinalam o facto nos seus murais - alguns usando imagens do impressionante monumento idealizado pelo arquitecto José Forjaz para colocação no fatídico local. Acidente ou atentado?, continuam as dúvidas, as versões, as crenças, num processo de interpretação da história algo similar ao acontecido com a morte de Sá Carneiro e comitiva.
 
Por cá cumpre-se hoje o centenário do assassinato do primeiro-ministro António Granjo e de vários vultos da instauração da República, a dita "Noite Sangrenta", um dos momentos maiores do terrorismo político durante a I República, perpretado pelo que se poderá dizer, sob anacronismo limitado, a "extrema-esquerda" terrorista de então. O Pedro Correia no Delito de Opinião convoca o assunto.
 
O resto da sociedade, a corporação historiadora, os colunistas avençados, os "quadros" da função pública? Seguem fiéis militantes da higienização da I República, da produção da "amnésia organizada" sobre esse directo ascendente (republicano e maçónico) do poder socialista de hoje.
 
Nisso não só vigora o silêncio na imprensa. Mas também o popular, pois poucos (se alguns) se lembram de convocar o assunto nos seus murais. Há que preservar o mito da I República benfazeja. E para isso que faz o Estado, os seus oficiais mais importantes? Usa o dia do centenário deste brutal e tão significativo episódio para se congregar, sob o datado e anacrónico molde panteónico, em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, morto há 67 anos, nascido a 19 de Julho e falecido a 3 de Abril. Ou seja, nem sequer há um qualquer vínculo simbólico quase inultrapassável para que a cerimónia decorra hoje.
 
Julgo que nunca tinha assistido a tão descarada manipulação da história política portuguesa. Agora venham-me dizer que é preciso derrubar a estátua do João Gonçalves Zarco. E fazer "introduções contextualizadoras" ao Frei João dos Santos...

 

11
Out21

Pedir desculpas pelo passado nacional

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Há pouco mais de uma década o Presidente Cavaco Silva realizou uma visita de Estado a Moçambique. Como é prática nessas ocasiões fez-se acompanhar por uma alargada comitiva: políticos, empresários, quadros da administração pública, agentes de produção cultural. No vasto programa constava um colóquio na universidade na qual eu trabalhava, dedicado à importância da língua portuguesa, o qual contou com a participação de destacados intelectuais moçambicanos (alguns dos quais foram então condecorados) e portugueses. 

A actividade decorreu na ampla sala do centro cultural universitário, um antigo cine-teatro com largas centenas de lugares. Os professores haviam sido convidados, os alunos mobilizados, a sala estava apinhada. Eu sentei-me bem lá no fundo, para fruir descansadamente o meu uniforme de "jeans" puídos e polo desbotado. Um dos painéis constava de alocuções de escritores consagrados, locais e portugueses - estes ali pois inseridos na comitiva oficial da visita de Estado. E assim, porque isso aceitando e liberdades criativas à parte, surgiam assumindo um difuso papel de representantes da sua área laboral, por episódico que fosse esse seu encargo.

Chegada a sua vez de dissertar, um desses consagrados escritores pátrios anunciou à audiência o seu agrado por estar em África. Pois, detalhou, sendo ele um escritor que no seu labor muito aprecia romper com as regras da língua estava entusiasmado por se encontrar entre africanos, e na terra destes, pois as suas línguas estão desprovidas de regras. Uma condição virtuosa, deixou explícito. E continuou naquilo que tinha para dizer, ao que se lhe sucederam as arengas de outros participantes. Terminado o ror de comunicações abriu-se o consuetudinário "espaço de diálogo", dedicado às perguntas oriundas da plebeia assistência. Instalou-se o tradicional silêncio, dada a provável exaustão dos seniores presentes e a timidez, até receosa, dos juniores diante de tamanhos protocolos ali patenteados.

Por isso, lá bem do fundo da sala e qual navio quebra-gelo, como se costumam auto-justificar os primeiros intervenientes destas ocasiões aquando das suas pálidas perguntas, aproveitei a ocasião. É que na sala estavam vários feixes de jovens que já me haviam sofrido como docente o que me fez sentir, talvez estuporadamente, alguma responsabilidade, uma espécie de fervor deontológico, por assim dizer... E resmunguei qualquer coisa como, caramba, aparecer alguém em XXI a clamar que as línguas africanas não têm regras gramaticais é de bradar aos céus, será um apogeu da incultura em qualquer um mas inadmissível em que tem por trabalho a... escrita e a leitura.

Depois aconteceu um inexistente debate, brevíssimo como é sua natureza quando assim. Ao qual, para gáudio de todos, se sucedeu um aprazível beberete, juntando alunos, professores e convidados. Como sempre mergulhei, com a convicção da militância, no universo dos canapés, de chamuças e adjacentes fornido. Logo um ou dois compatriotas residentes me abordaram num até enfastiado "ó Zé Teixeira, também não precisavas de ter dito aquilo, cai mal numa sessão destas...", respondendo-lhes eu, com a massa crocante escapando-se-me entredentes, já beiços abaixo, "o homem está aqui em representação, nossa mesmo...", "não vou deixar que os alunos acreditem em tal coisa ou, pior, que os portugueses pensam assim...". Deste modo arisco escapado à sanção comunitária avancei em busca de quem me trocasse o vinho branco, acídulo em demasia, por uma singela 2M ou mesmo, utopia, um gin tónico. Para ser interrompido por três ou quatro colegas moçambicanos, cada um deles num "ainda bem que disseste algo, eu não ia dizer nada dado o contexto", do cerimonioso que era o dia. Enfim, escorropichado o tal vinho, talvez até a posterior cerveja se entretanto alcançada, que a tanto não me chega a memória, regressei ao lar ainda conjugal. Para ouvir um sorridente, mas talvez já então desalentado, "já sei que estiveste a desatinar"...

Vem-me esta recordação agora quando, uma década escorrida, vejo um tipo que aquando quarentão pensava com tamanho défice sobre o real circundante, e África em particular,  a surgir na capa das revistas generalistas entoando o trinado da moda, o pimba do "Desculpa África" em ritmo extended version, meneando-se ao que julga ser o agrado da plateia. Deixemo-nos de coisas, pode ser que seja um bom ficcionista, não sei, nunca o li. Mas se assim for este é mesmo um caso de "quem te manda a ti, rabequista, remendar sapatos". Ou não o é (repito, não sei, nunca o li). E então será caso de usar o dito original... Enfim, o homem que conte as histórias que tem para contar, que é tarefa mais do que digna. E deixe-se de querer ser intelectual maître à penser, que não tem arcaboiço para tal.

Não me alongarei - mais uma vez - sobre esta gemebunda "desculpabilização" tão em moda entre tantos. Apenas repito o que ciclicamente vou metendo sobre estas pobres mentes de atrevidas gentes: 

"... a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação." (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

 

03
Out21

Os 90 anos de Narana Coissoró

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Leio aqui que hoje mesmo Narana Coissoró completa 90 anos, uma bela idade, e que haverá uma homenagem em molde convivencial (haverá melhor forma?) agregando familiares, amigos, colegas e correligionários.
 
E logo lembro este seu tão interessante trabalho, publicado em 1966, que li e reli ainda em XX e no qual tanto aprendi. E que está escondido, muito pela nossa (não tanto minha) mania de considerar "datado" o que nos é passado, e nisso apoucar aquilo que, como tudo, é fruto dos quadros teóricos do seu tempo. Infelizmente neste momento disto umas dezenas de quilómetros do meu exemplar, bem que gostaria de o folhear, nisso vasculhando os (imensos) sublinhados e gizar uma rápida recensão, em forma de vénia. Pois se escrever de memória (cada vez mais romba, a minha) nada mais conseguirei do botar meras generalidades sobre o livro, e temo que mesmo essas poluíveis por leituras outras, anteriores e posteriores, sobre essas temáticas e contextos - percebi-o ao tentar encetar coisa pouca que fosse.
 
Fica então apenas a tal vénia por quem, em tão peculiar momento e tão específico contexto de dinamização dos estudos portugueses em África, se abalançou a tamanha investigação, isso das questões de sucessão (e descendência), recenseando e tratando tanta informação. Algo precioso para quem estude Moçambique, já agora.
 
Adenda: Para quem não conheça o livro deixo a transcrição de uma breve recensão feita pelo grande Richard P. Werbner:
 
"The Customary Laws of Succession in Central Africa. By NARANA COISSORÓ. [Doctoral thesis, University of London, 1962.] Lisbon: Junta de Investigag6es do Ultramar, 1966. (Estudos de Ciencias Politicas e Sociais, 78.) Pp. li, 412, bibl. 60 escudos.
 
A reference work for jurists, primarily, this is a comprehensive and highly technical handbook of judicial rulings and jural norms of succession, up to 1962, among Plateau Tonga, Bemba, Ngoni, Nyakyusa, Cewa, and Yao. A chapter is devoted to each separately (except for Cewa together with Yao), following roughly the same legal lines: general background, funeral rites, administration of the estate, property left by the deceased, intestate succession, succession to women, testate succession. Standard ethnographies, government or travellers' reports, and also fourteen unpublished cases are the sources. Finally, there is a discussion of the African Wills and Succession Ordinance (Nyasaland) and of conflicts of law. This examines questions of legal pluralism, showing where African personal law and tribal rules of construction take precedence. The author suggests that, in colonial times, an African could draw up a will, a formally valid instrument, which could still be challenged as not being "essentially valid", because it was not in accord with the testator's tribe's customary laws "governing his civil status regarding succession"'. The author adds, however, "Unfortunately, the Africans are not aware of this legal distinction and sometimes they think that the admission to probate makes the dispositions in the will unchallengeable." Readers familiar with the ethnography will also find other unfamiliar distinctions, as in his argument about the necessity for personal law to apply for the validity of a will; "Otherwise a simple written paper - "nuda cogitatio" - in the eye of law - would change the civil status of an African to that of a non-African pro hac vice." The compendium lacks an index, though the table of contents is very full and does allow cross-reference."
 
[Richard P. Werbner, Africa: Journal of the International African Institute Vol. 41, No. 2 (Apr., 1971), p. 176]

11
Set21

Jorge Sampaio em Maputo

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(Hilário, Chissano, Sampaio, ColunaAcúrsio, Eusébio, Vicente, Maputo, Abril 1997, fotografia de Jorge Brilhante)

[Postal para o És a Nossa Fé:]

Em 1997 o Presidente Jorge Sampaio visitou Moçambique, fazendo-se acompanhar de uma grande comitiva. A viagem foi uma assinalável sucesso, muito potenciando as relações entre os dois países, então ainda algo maceradas pelo processo de descolonização e pelos constrangimentos do subsequente processo político moçambicano. Nessa comitiva presidencial iam 4 futebolistas nascidos em Moçambique - também servindo de representantes simbólicos dos "4 grandes" clubes: Hilário, Acúrsio, Eusébio, Vicente. E, claro, logo se lhes juntou Mário Coluna, o "Monstro Sagrado" - então presidente da Federação Moçambicana de Futebol. 

Nesse momento tive o privilégio de acompanhar esse magnífico Quinteto. E desde então não só reencontrei algumas vezes o nosso Hilário e o "King", Eusébio, como tive o privilégio de criar amizade, não íntima mas bastante convivencial, com o "Monstro", Coluna. Conheci-os num almoço na popular cervejaria Piripiri, prévia a uma passeata pela Baixa da cidade na qual acompanharam o presidente Sampaio. Pude então perceber algumas das características do político: eu já vira Soares em Luanda, num notável desempenho patenteando uma extroversão verdadeiramente carismática. E viria a ver Cavaco Silva em Moçambique, num perfil público muito mais rígido, o qual sempre me pareceu muito mais o de um homem em luta com a sua timidez do que efeitos de uma concepção hierática da sua função. Sampaio era diferente, não exactamente um homem de rua ou de palco, pois não um carismático. Mas apresentando uma bonomia tão explícita que era recebida pela população como uma simpatia natural, à flor da pele. Assim encarnando a confiança.

Voltou a Maputo em 2001 para uma das cimeiras da CPLP, numa era em que estas congregavam mesmo os chefes de Estado. No nosso caso numa chefia bicéfala, pois para o efeito agregávamos o PR e o PM, naquele tempo Guterres. (Re)Vi Sampaio numa recepção à comunidade portuguesa, à qual acorreram cerca de 3000 pessoas. Enquanto ele circulava entre nós fui rodeado por vários compatriotas. Ocorrera-lhes que seria aquele o bom momento para fazer chegar ao presidente um ror de preocupações que tinham - impostos aos emigrantes, taxas de importação de veículos, apoios à comunidade, etc. E passara-lhes pela cabeça que seria eu um bom porta-voz para as colocar, dado que conhecia algumas das pessoas que ali o circundavam. Resisti, num "era só o que me faltava...", insistindo que "isso são coisas para colocar aos deputados, ao secretário de estado, ao cônsul..." mas não os consegui desiludir, insistentes num "vá lá, Zé Teixeira" e sem de mim se apartarem.

Passado algum tempo, mantendo-me eu de copo de vinho na mão e tasquinhando o queijo da serra e o presunto gentilmente disponibilizados, o Presidente Sampaio foi-se aproximando da nossa zona. Recrudesceram os patrícios nos seus incentivos à minha capacidade reivindicativa. Assim sendo, e ao estar aquele Grande Sportinguista já à distância de apenas duas braçadas roguei-lhe "dá-me licença?, Senhor Presidente, posso-lhe fazer um pedido?", ao que ele, arvorado com um sorriso aberto, logo ripostou "claro, em que lhe posso ser útil?".

"- Ó Senhor Presidente, por favor, use a sua influência para fazer as pazes entre o dr. Roquette e o dr. Luís Duque" (então desavindos na nossa Direcção). Riu-se, abertamente, elevando as mãos em sinal de impotência e ripostou "Ó Homem, isso está bem acima dos meus poderes...". E deixou-nos uma dúzia de palavras de circunstância, logo seguindo na sua ronda entre nós, aqueles milhares de convivas.

Os meus vizinhos, enfim, resmungaram um bocado comigo...

11
Set21

Jorge Sampaio em Moçambique

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[Fotografia de Jorge Brilhante]

Votei três vezes em Jorge Sampaio, uma para presidente de Lisboa e duas para presidente de Portugal. E pude assistir à sua visita a Moçambique em Abril de 1997, e aqui o recordo nessa época, muito justificadamente condecorando a tão saudosa Maria Inês Nogueira da Costa, excepcional directora do Arquivo Histórico de Moçambique, na presença do embaixador Ruy Brito e Cunha (encoberto) e do então jovem Mia Couto, ladeando pinturas de Malangatana e Noel Langa.
 
Essa visita foi um verdadeiro sucesso, promovendo um efectivo "degelo" nas relações entre os dois países. Algo que, como é evidente, correspondeu à postura de Chissano. Mas também muito se deveu a ele próprio, pelo empenho e cuidada afabilidade e também pela excelente equipa de assessores que organizara em Belém, a qual muito bem soube gizar o que então era fundamental. Sampaio voltaria a Maputo em 2001, então para uma cimeira da CPLP, um cenário multilateral que lhe dava uma agenda menos pressionante sendo então óbvio que ali se sentia imensamente bem, num afectivo "em casa".
 
Morreu ontem, aos 81 anos. Quaisquer críticas a algumas das suas decisões políticas suspendem-se agora. Que é o curial quando morre um homem probo.
 

10
Ago21

Em Cabo Delgado

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Sobre Moçambique é importante ler (e ouvir) o que vêm dizendo alguns intelectuais e jornalistas nacionais, e este artigo é um bom resumo. Por um lado, a constatação - que surge também como um lamento - de que a situação militar no Cabo Delgado se alterou radicalmente com a recente chegada de um pequeno contingente ruandês (ao qual se seguiram vários contingentes dos países da SADC), culminando na recente reconquista de Mocimboa da Praia. E o quanto isso é demonstrativo da fragilidade do Estado moçambicano (e não só das suas forças armadas). 

Por outro lado, a consciência de que a abordagem governamental - que muito se reforçará com os presumíveis sucessos da força militar internacional - continua a não reconhecer as causas sociais, económicas e políticas endógenas que vêm alimentando este conflito. E nesse sentido é importante ouvir o filme (5 minutos) incluído no artigo, com declarações muito ponderadas de Elísio Macamo. Ou seja, e como é patente há vários anos, se é urgente combater a guerrilha é também fundamental reestabelecer um contrato social, não só no Cabo Delgado mas em todo o país.

Há outros dois assuntos (entre tantos) que me ocorrem: os EUA acabam de publicar um rol de responsáveis locais do movimento internacional islamista em África, incluindo a liderança no Cabo Delgado. Que isto sirva para sedimentar a ideia de que se este conflito não se resume a uma agressão islamista externa, também não lhe é excêntrico - como muitas das ênfases nas causalidades internas propalaram ao longo do último ano e meio. 

Finalmente, e para nós portugueses interessados nesta temática: as causas da actual situação moçambicana são múltiplas e as dinâmicas (e putativos efeitos) da missão militar internacional são complexas. E algumas serão até, por enquanto, indiscerníveis. Mas para tentarmos perceber o processo convirá afastar-nos da poluição de uma imprensa demagógica. Eu sei que o "Público" já se me tornou numa "bête noire" (e ao longo dos anos que vivi em Moçambique quantas vezes bloguei resmungando com as incompetências daquele jornal sobre o país). Mas quando, como recentemente, o "Público" proclama que esta intervenção estrangeira é "uma guerra por procuração da França", reduz-se à indigência, ao "grau zero" analítico, à mera teoria conspirativa - por mais que estejamos conscientes da influência dos macro-interesses da indústria extractiva. Ou seja, que os meus compatriotas evitem comprar/visitar esse boletim. Para as questões moçambicanas e, note-se bem, para as restantes tralhas.

31
Jul21

O Nobre Colono

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Aos meus 57 anos, 18 deles vividos em Moçambique, aprendo agora - em texto publicado por prestigiado intelectual lusófono, debruado com eruditas citações de escritores franceses algo esquecidos (o que sublinha a culta autoridade do seu citador) - que os portugueses que nasceram naquela ex-colónia têm uma "marca distintiva: uma certa candura, simplicidade, afectuosidade e fácil entrega, em suma, uma total falta de ronha, em língua de boa cepa moçambicana. Coração na boca, capaz dos maiores dislates, mas não intrinsecamente mau, bem ao contrário." Aprendo ainda que aqueles que duvidam dessa beatitude inata dos colonos oriundos da "Pérola do Índico" são vis "Tartufos".
 
E vejo este texto saudado nas redes sociais e replicado (elogiosamente) na imprensa moçambicana. Face ao sucesso deste magnífico trecho analítico, resta-me esquecer de vez as malditas leituras com que fui poluindo a minha mente nestas últimas décadas, algo avessas a estas "personalidades de base" (e talvez mergulhar nos tais clássicos franceses, que ficam sempre bem quando referidos). E louvar o bondoso (pois nascido em Moçambique) coronel Carvalho, aliás, o querido Otelo, mote da eulogia a que aludo. E estender-me em genuflexões diante de Mestre Eugénio Lisboa, autor destas tão doutas palavras.
 
(Poderia, como opção, ter soltado um peludo palavrão. Mas as mulheres da minha família não me deixam. Ou seja, mais vale Tartufo do que malcriado)

13
Jul21

Morreu Artur Ferreira

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A Ceifeira é infatigável. Agora morreu o Artur Ferreira. Decano fotojornalista de automobilismo, com centenas de GP's de F1 no arquivo e inúmeras histórias desse meio, vivia como os bólides que fotografava: terá sido o homem mais acelerado que conheci. Um verdadeiro globetrotter, numa personagem peculiar e com uma mundivisão muito própria que não se coíbia de afixar.
 
Conheci-o em 1997 quando foi a Maputo apresentar uma exposição fotográfica, enorme, a "Por esses Oceanos ao Encontro de Culturas". Fez-se na Associação Moçambicana de Fotografia, então apenas a parte africana do acervo. Voltou depois, e no Camões se apresentou a parte asiática. Nos anos subsequentes dirigiu várias revistas em Moçambique, entre as quais a "Índico" da LAM. Tinha uma capacidade industriosa espantosa, pois tudo isso fazia enquanto viajava constantemente, saltando de continentes como nós íamos à vizinhança.
 
Devo-lhe algo: em 1998 fui em casal à Zambézia. O Artur Ferreira estava em Quelimane a fazer uma reportagem. E deu-nos uma boleia aérea no dia em que foi fotografar os montes Namuli e o Delta do Zambeze. Teria dado uma grande crónica esse dia. Mas ficou uma esplendorosa memória.

02
Jul21

Jane Flood

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Leio que a Jane Flood morreu agora, nos seus 63 anos, em Zanzibar. Na sua peculiaridade a Jane também correspondia um pouco à imagem de um certo tipo (até literário) de senhora "british", na sua informalidade mesclada de generosa "flamboyance", de riso solto e genuína empatia pelo que a rodeava. Algo que alguns entendem como candura mas que é, de facto, a inteligência da curiosidade despreconceituosa. Nunca fomos íntimos mas tinha por ela grande simpatia. Algumas vezes nos sentámos juntos, bebendo um copo de vinho branco - com ela eu suspendia a rude cerveja e o agressivo uísque - em conversas soltas, num pidgin em que mesclávamos o seu mau português e o meu atrapalhado inglês.
 
Nessas conversas, e nas tantas vezes que nos cruzávamos, era notório o verdadeiro encanto que a Jane tinha por Maputo, pelo património herdado - arquitectónico, urbanístico, artístico - e pelo pulsar actual, as exposições, os ateliers, os bairros bem para lá do "cimento" burguês, a música. Aquela senhora amou mesmo Maputo e quem lá está. E isso era-me muito agradável de assistir e de fruir, ainda que a minha paixão estivesse alhures, pois pelo país afora.
 
Nisso a Jane acabou por criar a Maputo a Pe Tours, passeios pela cidade muito bem organizados. Eu fiz alguns, aproveitando para conhecer o roteiro da arquitectura de Pancho Guedes - grosso modo, um pouco após o espantoso trabalho de divulgação que a então cônsul portuguesa Graça Gonçalves Pereira realizou.
 
Enfim, nos últimos tempos a morte tem acontecido a muitos dos meus queridos e simpáticos. Isso acabrunha. E hoje fico mesmo triste com a morte da Jane (nesta foto ela é a mulher branca, a terceira a partir da esquerda, entre a equipa da "Maputo a Pé", indo para a Macaneta em 2016). Amanhã ela será cremada em Zanzibar às 9 horas. Uma amiga publicou que ela nos convidou para "ok, chorarmos um pouco mas não muito". E para que vistamos roupas coloridas (claro) e bebamos um copo de vinho.
 
Eu não sou muito desses rituais. Mas amanhã a essa hora certa, matinal, estarei neste meu aqui de verde garrido e beberei dois copos de vinho. Um pela memória da simpatia da Jane e um outro pela da sua risada, única. Aliás, beberei ainda um terceiro: lembrando o amor dela por Maputo.

 

27
Jun21

Sonhámos Um País

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(Texto para o grupo de Facebook Nenhures - no qual divulgo as publicações deste blog):
 
Algumas impressões ainda a propósito do filme moçambicano "Sonhámos Um País" do Camilo de Sousa e da Isabel Noronha, que foi transmitido na passada semana pela RTP2 :
 
1 - Não vou aqui debater o filme. Pois - e apesar de eu, ao longo dos anos, ter depurado blog(s) e o meu FB dos dichotes alheios mais abrasivos - sobre a temática dos processos independentistas há sempre o risco de se cair num exasperado ambiente de "prós" vs "contras", de invectivas aos "tugas" (neo)colonos e aos "turras" comunistas. E não tenho paciência para isso, o que é razão mais do que suficiente para este meu evitamento.
 
2 - Mas alerto quem não o viu para que se trata de um belíssimo filme. Uma querida amiga - que investigou sobre a história cultural do país mas não é moçambicana e nunca ali viveu -, por mim alertada para a transmissão, escreveu-me "obrigada, chorei ao ver". 
 
Também eu me comovi e não tanto por conhecer o protagonista-realizador. Mas por no filme reencontrar - mesmo num objecto destes, um sofrido memorialismo analítico - os constrangimentos intelectuais impostos pela socialização no nacionalismo e, ainda mais, pelo impacto omnipresente do carisma da I República, em particular de Machel (Samora, como se o nomeia em Moçambique, forma óbvia de exaltante aproximação afectiva). Ilustro isso com a forma como a este se refere um dos três protagonistas do filme, um dos seviciados: repetidamente alude ao "saudoso marechal". Ou como quando Camilo de Sousa refere as instruções recebidas para documentar a situação dos campos de reeducação sendo que depois estes recrudesceram. Isto denota as contradições no poder de então mas também a ambivalência (quase sempre apagada) do próprio Machel. Mas mais interessante ainda, em particular para quem não esteja preso à "avaliação" retrospectiva do processo político - num verdadeiro "ajuste de contas", por vezes apenas revanchista mas na sua maioria devotado a reclamar legitimidade no presente - é reconhecer através do filme a força imensa que teve o moralismo, puritano mas também profundamente racista (e "tribalista", para usar o termo de então), naquela fase política mas também como molde de interiorização de uma forma particular de nacionalismo. Os quais, moralismo e racismo, se mantêm como adubo dos valores que são consagrados, no espaço político e privado.
 
E também por isso, por no filme se encontrarem estes nós górdios ideológicos que demarcam a análise do processo - mesmo num magnífico trabalho como este - que volto a recomendar a entrevista de Camilo de Sousa ao José Navarro de Andrade (a partir dos 30'30'' nesta ligação ao programa "Muito Barulho Para Nada", edição de 22 de Julho de 2020). Ambos sábios, sem oposição nem afronta por parte do entrevistador (como é tão costume na tv) mas uma verdadeira conversa, de facto sobre mundivisões. Desiludidas.
 
3. Nos comentários, no grupo "Nenhures" e em outros murais de FB, percebi que o filme nunca foi projectado ou transmitido em Moçambique. Estreado em 2020 em parte isso dever-se-á à contracção que o Covid-19 provocou. Mas talvez não só, pois presumo que haja algum evitamento local dado que é um objecto de difícil digestão interna: trata-se de uma dolorosa análise crítica "por dentro". Pois o Camilo é um "antigo combatente" e nunca "dissidiu" (para usar a velha terminologia). É então necessário procurar evitar o relativo silenciamento que este tipo de obras sempre promovem - naquele país e em tantos outros. E assim que pelo menos a RTP-África o transmita, o que seria um verdadeiro acto de "serviço público". Mas também que instituições culturais em Moçambique, nacionais ou estrangeiras, organizem a sua projecção pública, nas quais muito mais se induzem debates e memorialismos.
 
4. Sobre o período dos campos não inexistem textos. João Paulo Borges Coelho publicou "Campos de Trânsito" (em 2007) e Ungulani Ba Ka Khosa o "Entre Memórias Silenciadas" (em 2013). Seria interessante saber o impacto que estas obras realmente tiveram no contexto letrado do país. No qual este assunto dos "Campos de Reeducação", e da "Operação Produção", continua a ser mais aludida do que dissecada. E seria ainda mais interessante voltar-se a esses livros, debatê-los, o que é forma de os fazer ler, convocar a curiosidade sobre eles. E também Licínio de Azevedo fez dois filmes incidindo nesse período e na ideologia de moral pública então dominante, "A Última Prostituta" (1999) e "Virgem Margarida" (2012).
 
5. Finalmente quero chamar a atenção para uma excelente tese de doutoramento sobre esta matéria, realizada pelo investigador moçambicano Benedito Machava, "The Morality of Revolution: Urban Cleanup Campaigns, Reeducation Camps, and Citizenship in Socialist Mozambique (1974-1988)" [basta carregar no título que se pode gravar o documento completo]. É tempo desta tese sair do remanso dos esconsos acervos universitários e ser traduzida, publicada e lida. E, acima de tudo, debatida. O mesmo se aplica à tese de doutoramento de Isabel Noronha, co-autora deste filme, intitulada "Tacteando o Indizível", a qual ainda não li mas que decerto será contributo para um debate alargado (e ponderado, se possível) sobre este processo histórico, suas práticas e dimensões ideológicas.

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