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Nenhures

Nenhures

A Oeste do Canal (de Moçambique)

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(A Oeste do Canal: Textos Sobre Moçambique)

Se eu pudesse publicar um livro seria mais ou menos este. Há vários anos colocara na minha conta na rede Academia.edu uma colecção de textos. Agora mantive-lhe o nome mas mudei o conteúdo:

"A Oeste do Canal" é uma colecção de 64 textos meus escritos entre 2003 e 2017: apresentações de livros, textos para catálogos de exposições, comemorações de efemérides, textos para premiações de júris aos quais pertencera, artigos de jornal, notas de leitura sobre livros menos conhecidos, algumas cenas da vida do país, entre as quais breve análise das manifestações em Maputo. E, mais do que tudo, sobre amigos, vários dos quais escritos aquando da sua morte, forma de os ir lembrando.

Aos que se possam interessar: basta pressionar a ligação que acima deixo e gravar o pdf. Se depois ainda tiverdes a gentileza de ler ficarei muito agradecido.

Jorge de Sena em Moçambique

Em época da comemoração do centenário do seu nascimento descubro esta entrevista de Jorge de Sena. É um momento magnífico (entre os 10 minutos e a 1 hora e 43 minutos desta gravação). E tem a particularidade de ter sido gravada (e censurada, pois só foi emitida em 2010) em Moçambique na viagem que Sena fez em 1972. Quando contactou com as gentes da extraordinária "Caliban", e também visitou a Ilha e a partir dela escreveu. Mas o que tornará o documento ainda mais interessante para alguns que aqui passarão é o ser uma entrevista feita por Leite de Vasconcelos, homem tão importante na imprensa em Moçambique. O qual ainda conheci, brevemente, pois pouco antes da sua morte, por gentil iniciativa do Camilo de Sousa e da Isabel de Noronha.

(Deixei aqui um pequeno apontamento dedicado aos livros de Leite de Vasconcelos)

Alugam-se Quartos ... (Craveirinha respondeu)

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Li agora o jornal "i", o artigo sobre o aluguer de quartos para estudantes. Uma coisa absolutamente demencial, tétrica. Uma especulação desbragada, quartos até aos 1000 euros mensais, uma vergonha num país com os salários como estão. Haverá muita gente que tudo isto reduz à "lei da oferta e da procura". Gente cristã, maioritariamente católica, gente agnóstica, de extracção cristã, gente islâmica também, decerto, gente ateia. Mas todos, ainda que ateus ou monoteístas, divinizando o tal "mercado", como se este entidade indiscutível.

E, na sequência da insuportável leitura ali na esplanada do café, acorro a casa, pegar neste "Contacto e Outras Crónicas", uma colectânea de textos de imprensa de José Craveirinha, organizada por António Sopa. Pois em 5 de Maio de 1973 José Craveirinha publicava este texto no "Notícias da Beira". Era então, e se muitos o sentiriam também o poeta o pressentiria, o ocaso colonial. Usando retoricamente o género epistolar para o seu já falecido pai, um Craveirinha de Aljezur, apontou o género rapace que acometia a população colona - sobre o financiamento bancário à construção civil, politicamente induzido para fixar a população colona, muito haverá para dizer mas a questão aqui é outra. Craveirinha desnuda como a especulação imobiliária e a mentalidade que esta gera foi o sinal de um fim de época. 

E esta vergonhosa pilhagem de agora, a coberto do turismo e dos universitários deslocados, é mesmo isso: o sinal do final de uma época. Do salve-se quem puder. Digam-me só uma coisa, depois de lerem o trecho: para onde enviarão os vossos contentores?

Mensagem para um ex-algarvio: meu pai

Quando resolveste vir para África e deixaste a tua Aljezur, nem Tu sabes o que viria a acontecer. Pois isto agora está muito diferente, Pai. Não há dúvidas de que os tempos são outros. E as pessoas também. Principalmente as pessoas. Como exemplo há o problema da habitação. Nos teus tempos o problema era ver os escritos nas janelas ao fim do mês. Ninguém pensava nas rendas como se pensa agora: como uma mina. Agora existe uma nova classe de gente que Tu, meu Pai, não havias de gostar de certeza com o Teu feitio. O sr. Senhorio é uma entidade soberana, actualmente. Mas não penses, Pai, que se trata de gente muito instruída: doutores, directores, etc. Não. É gente que anda por aí. Gente que veio quase nos porões com uma camisa e um par de calças no baú. (...) Pois nem fazes uma ideia, meu Pai, o que essa gente faz em matéria de milagres. (...) O egoísmo terrível de alguns desses improvisados proprietários de prédios excede tudo quanto se possa imaginar. E são homens de humilde posição social e de modesta condição trabalhadora. Mas com uma ganância!!! Parece que nem dormem a pensar no modo de abanar a árvore das patacas. E nem olham aos meios para se deitarem à sombra da bananeira. No teu tempo, fazer uma casinha correspondia a uma série de sacrifícioss durante anos e anos e muito trabalho. Pois agora, não. Os mesmos que sofreram para pagar uma renda de casa, depois são os primeiros a especular. Passam a senhorios e tornam-se exigentes, duros, implacáveis. Não querem saber de desgraças alheias. Querem mais, mais, mais. (...)

Certos homens, quando exploram o seu semelhante, não sabem que estão a explorar a sua própria condição de gente. São homens do povo explorando-se a si mesmos. São o próprio cancro. Julgam que ser senhorio é ser Deus. Querem a Terra e o Céu. Espremem o compadre-inquilino sem dó nem piedade: vivem obcecados pelo aumento das rendas. Nunca pedem; exigem.  (...)

Meu Pai: quando deixaste o Algarve e vieste para Moçambique, não era assim! Agora, nem fazes uma ideia! Há  uma Universidade, mas curso de senhorio é o melhor. (...)"

No Xigubo, de Craveirinha

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Dizem os entendidos, e nisso deverão ter razão, que o melhor Craverinha foi o de mais tardia publicação, e de mais íntima verve (o livro "Maria", em seu torno), assim algo desvalorizando, pelo menos comparativamente, as suas primeiras e mais programáticas décadas, aqueles de "Manifesto", o da proclamação da legitimidade cultural e política local. Será, repito, talvez verdade. Mas regresso ao Xigubo, ao velho Craveirinha, então mais novo, claro. E há nacos de uma sapiência ...

"Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos / e na minha boca diluem o abstracto / sabor da carne de hóstias em milionésimas / circunferências hipóteses católicas de pão. / E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo / vendem-me a sua desinfectante benção ... / Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço / em rodelas de latão em vez dos meus autênticos / mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens / do ciúme e da colheita de amendoim novo."

É este um trecho do seu célebre - e ideologizado dirão os "estetas" de hoje - "África". Escrito lá pelos anos 1950s, presumo. Informo os que não sabem que "mutovana" é um amuleto. E que quase 70 anos depois continua a ser raro - entre boreais e austrais - quem diga, escreva ou pense algo assim. Principalmente lá pelo sul, cada vez com mais crendices cristãs e/ou corânicas. Mas também muito pelo norte.

A actualidade de José Craveirinha

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Em 1999 o incansável António Sopa organizou este curioso pequeno livro duplo: "Contacto e Outras Crónicas" e, do outro lado em formato invertido, "A Seca e Outros Textos" de Rui Knopfli - uma glosa do "verso e anverso" que os dois autores seriam, mutuamente -, duas colecções de textos, textos de opinião de Craveirinha, idem e breves contos de Knopfli, publicados nas décadas de 50 e 60.

Releio bocados - francamente, pouco me diz este Knopfli, bem diferente de quando poeta. Mas Craveirinha? Ui, aguçado como lhe eram as unhas (alguém se lembrará das suas enormes e tratadas unhas?).

Deixo três breves citações, com dedicatórias. A primeira (de 1957) para todos. A segunda (também de 1957) para os sacralizadores lusos no "empreendedorismo" turístico - e lembrando-os que o texto é do poeta nacional moçambicano, que entre outras coisas esteve preso 4 anos por ser independentista; a terceira (de 1964) - que será necessário extrapolar - vai para os gauchistes multiculturalistas, mais ou menos pós-modernos pós-coloniais. E lembrando-lhes a mesma coisa. Se, claro, forem capazes de simples acto intelectual da extrapolação - coisa que, neste país carregadinho de académicos racialistas, muito duvido.

- "Oh, missão ingrata esta, a de escrever verdades" (p. 19).

- "Todos nós sabemos que Lourenço Marques é das cidades mais visitadas por turistas sul-africanos ... Quando se faz turismo não se pretende encontrar fora da terra natal o que se nos tornou banal na nossa. Se não, qual o atractivo do turismo? ... Não se requer subserviência de idioma ... Os barbeiros, cabeleireiros, alfaiates, hoteleiros e outros que tais, estão menosprezando a esperteza do forasteiro, dando-lhe facilidades a mais na vida. Vamos puxar pelos seus reflexos, fazê-lo descobrir a bela língua portuguesa; língua bonita, língua com história ... Escrevendo os letreiros somente em português continuamos amigos à mesma; a diferença é que passamos a dar ao que é nosso o justo valor: o valor das coisas que nos pertencem e fazem parte cá da Casa. Casa esta que é nossa." (em "Barber's shop, boarding house, ice-cream today e outras barbaridades", pp. 21-22).

- "E é crença de muitos esclarecidos que uma temática estritamente enraízada no folclore de Moçambique só poderá ser interpretada por indivíduos de cor. Não." (em "Canção da Angónia", um elogio a Gouvêa Lemos, p. 25) - e, já agora, se me aparecer aqui algum intelectual a apoucar o uso da palavra "folclore" saiba de antemão que deve é ir estudar em vez de se "armar aos cucos".

 

Voltar a casa: Aníbal Aleluia

Laban

Voltar a casa, após um ano. É voltar às estantes, militantemente desarrumá-las, ler bocados, livros a reler, recomeçar os abandonados, reesquecer os esquecidos. Depois, uns dias depois do tal regresso, acampei aqui, esteira e tudo, debaixo das estantes moçambicanas. Reabri e releio, entre tanta outra coisa, dois livros de entrevistas a escritores moçambicanos (melhor dizer, de Moçambique), ambos publicados em 1998, este "Encontro com Escritores" de Michel Laban, 3 volumes, e o "Os Habitantes da Memória", de Nelson Saúte.

Ambos começam com Aníbal Aleluia, o qual infelizmente nunca conheci, falecido antes de eu chegar a Moçambique  pela primeira vez. Grande verve, excelente pensamento, e modo absolutamente excêntrico no país. Noto que perdi o seu MBelele e Outros Contos - e irrito-me comigo mesmo, pois é o tipo de livro que dificilmente reencontrarei, num mundo em que abunda tralha "autorada" por gente iletrada e Aleluia não é reeditado. Será lido? Mas vejo via motores de busca, e assim me "des-irrito", que o Nelson Saúte escreveu, e bem, há pouco um "Elogio a Aníbal Aleluia" - que assim recomendo.

aleluia gajo

Vou agora reler o seu curto "O Gajo e os Outros", o que dele me ficou. E deixo duas citações das suas entrevistas, que muito mostram o perfil: do intelectual e do cidadão. Decerto que foi daqueles homens, inquietos, com quem se aprende. Ao contrário de tantos simpáticos que para aí andam, perorando:

"Fui marcado por um tal de Romão Félix que, sob o pseudónimo de Parafuso, utilizou o método dos blackface minstrels usando um pseudo-linguajar de negro a que muito racicamente chamavam de "pretoguês" para fazer pouco, principalmente, do negro evoluído. Epígonos de Parafusos e macaqueadores de vária espécie recuperam esse linguajar que o nosso poeta nacional [Presumo que Aleluia se refira a Craveirinha] escalpelizou um dia. Na onda de desvios e anfibologias oraculizantes surgem os espíritos levianos e dão-se as mãos em elogios mútuos num cabotinismo concertado. E é assim que esses movimentos parecem vingar, até que um dia apareça um inocente a mostrar a nudez do rei. A tristeza é quando aqueles que de facto têm jeito e sabem distinguir os caminhos a percorrer batem palmadinhas nas costas dos imitadores desajeitados(em Nelson Saúte, Os Habitantes da Memória, p. 29).

E depois (em Michel Laban, Moçambique: Encontro com Escritores, 37) ao apropriar-se de Guerra Junqueiro para referir a sua terra de então. Mas um dito que devemos reclamar de volta, pois radicalmente nosso, não sei dos outros: "Isso que para ai está é uma bacanal de percevejos numa enxerga podre”.

João Paulo Borges Coelho

Quem me conhece - e aqueles que têm paciência para o que boto em blog, pois há quinze anos que repito isto - sabe o quanto gosto da ficção de João Paulo Borges Coelho. O seu "As Duas Sombras do Rio" é um dos livros da minha vida - e o único entre esses que li com 40 anos (de facto, com 39). Tem um punhado de livros excelentes. E é, para além de ficcionista, um intelectual extraordinário. E sem ademanes ou superficialidades.

Finalmente a sua obra é publicada no Brasil. Começa pelo seu segundo livro "As Visitas do Dr. Valdez", um texto riquíssimo. Estranho é que no Brasil tão tardia seja a atenção sobre este escritor. Como sintomática é a relativa desatenção portuguesa sobre este universo ficcional ancorado em Moçambique.

A propósito dessa edição brasileira foi agora divulgada esta entrevista a JPBC, 32 minutos com alguém que se justifica, sempre, ouvir. Que isto a alguns convença a comprar os livros e a lê-los. Dizem-me os interessados que é difícil encontrar-lhe os livros, a gente sabe que a editora Caminho nada ajuda. Insisti. Pois muito se justifica.

Arte e literatura no Moçambique tardo-colonial

Artes, literatura, imprensa, livrarias em Lourenço Marques e na Beira tardo-coloniais. Uma delícia de filme,  não só mas também devido à locução de Gomes Ferreira - grande memória da minha juventude - um mestre de locução, voz, dicção e sotaque que já não existem.voz, dicção e sotaques que já não existem. E pelo plácido texto, tão de época (não o são quase todos os textos?). E porque surgem Macambaco (tão jovem que nem o reconheci) e Knopfli, entre outros.

(E, em registo pessoal, tenho a ideia de que, pelo mero relance, reconheci a casa onde Fausto Rocha surge pintando - será na actual Av. Kim-Il- Sung?)

Ricardo Rangel

RR

Noto, agora mesmo, que há alguns dias (11.6) se cumpriu uma década que o Ricardo Rangel morreu. Já?! Está cá ainda, claro. Pelas fotografias, frutos da sua "lente pertinente". E pelas saudades que dele se têm. Eu, e decerto que muitos outros.

O seu trabalho é visitável aqui (a sua galeria digital). Na fotografia, com a sua mulher Beatrice, na varanda da sua casa, face à baía.

A capela manuelina na Ilha de Moçambique

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Este é o actual estado da Capela da Nossa Senhora do Baluarte na Ilha de Moçambique, devastada pelo ciclone que assolou a região no final de Abril. A capela é mais do que simbólica: está na extremidade da Ilha, é a primeira igreja cristã no Índico austral (construída cerca de 1522), é o único edifício manuelino em toda a região (e presumo que em toda a África austral).

Não creio que o Estado moçambicano possa, na actualidade, repará-la. Muitos (portugueses e até moçambicanos) dirão que por incúria. Não me parece: as urgências e as emergências são gigantescas e os recursos muito escassos. Muitos (portugueses) dirão que é abandono de agora. Falso: a história da Ilha, pelo menos de XVIII para a frente, é a das constantes reclamações do estado arruinado das edificações - crises económicas, abalos na administração, guerras. E, acima de tudo, as intempéries. Pois ali a manutenção dos edifícios é trabalhosa e custosa, tanto devido às razões climáticas como ao particular material utilizado nas construções - de facto, na Ilha a ideia de arquitectura perene tem que ser bem relativizada. Lembro os opinadores apressados que em finais de 1960s se procedia à "reabilitação da Ilha", dado o estado deficitário em que já se integrava, piorado com a crise económica devido à abertura do porto de Nacala na década anterior. 

Em 1996/1997 esta capela estava em muito mau estado, tal como toda a "cidade de pedra-e-cal". A Ilha havia sido proclamada Património Mundial pela UNESCO e houve alguma atenção sobre os edifícios. Em Portugal, a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses - então comissariada por António Manuel Hespanha, um grande intelectual e que fez um belíssimo trabalho, na sequência do que havia feito Vasco Graça Moura, ainda que com um perfil algo diferente de intervenção - promoveu a reabilitação desta capela, devido ao seu estatuto histórico e ao seu simbolismo. A intervenção não foi muito cara (o edifício é pequeno e, julgo, não particularmente complexo) e correu muito bem, sob direcção do arquitecto José Forjaz e com utilização suficiente de mão-de-obra local. Eu sei que os tempos são diferentes, que há menos disponibilidades financeiras no Estado português.

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E que nas instituições culturais não abundam homens da densidade de Graça Moura ou António Hespanha (ou, noutro plano, Lucas Pires ou Carrilho), que possam sensibilizar-se, de imediato, para os efeitos efectivamente culturais, e como tal socioeconómicos, de uma intervenção num edifício destes. Mas ainda assim espero que haja nas autoridades portuguesas pessoas com a suficiente atenção para Moçambique e para a questão do património cultural tangível para disponibilizar a ajuda necessária para uma intervenção nesta capela, de importância única. E que o Estado moçambicano possa e queira acolher esse contributo.

Digitalizado a partir do diapositivo original 6x6, cota AGU/DD2074

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