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Nenhures

Nenhures

Berlusconi

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Em 1994 durante meses trabalhei na missão de observação eleitoral das primeiras eleições democráticas na África do Sul, nas quais Mandela ascendeu a presidente. Foi um período magnífico! Se conflitos e temores subsistiam tudo isso coexistia com o enorme alívio no final daquela maldita ditadura racista e uma alegria esfuziante no dia-a-dia, traduzindo uma vaga de esperança em melhores futuros. A qual, naqueles últimos anos, se vinha espalhando num vasto alhures. Ao sul da África a Namíbia tornara-se independente, a paz aportara a Moçambique, o delírio sanguinário mugabiano havia amainado, em Bicesse prometera-se uma paz em Angola. Esse alindar da coisa mundial viera desde quinze anos antes com o sucessivo descalabro dos fascismos da América latina, encetado com o triplo "Sandinista" dos The Clash já pós-punk, o qual nós, portugueses, mais acompanháramos na comoção do "Directas, Já!" brasileiro. Depois, entre Glasnot e Perestroika, findara o perverso comunismo europeu, que tantas mentes e almas corrompera por cá (e ainda corrompe, malevolência zombie …) e o receio - pavor mesmo - da guerra nuclear desvanecera-se. Mesmo o malvado comunismo colonialista chinês aparentara abanar no massacre estudantil de Tiananmen – esse, há que dizê-lo, ainda hoje nunca evocado por tantos, debruçados no demoníaco abismo do seu pensamento abissal. O hediondo maoísmo cambojano estava em estertor florestal - e sobre esse país mártir muita coisa tétrica então ouvi, nas horas dos inúmeros uísques, de colegas ali observadores das Nações Unidas, vários deles macerados após por lá terem trabalhado durante anos. Tudo isso, e o findar mundo afora de tantos outros "conflitos de baixa intensidade" - como a insensível literatura europeia os chamava -, catapultados pela luta entre os ditos “Leste” e “Ocidente”, trazia um grande optimismo. Democratizador. Nisso também fruidor.

Certo que aquele ali tão festivo Abril eleitoral foi também o da hecatombe ruandesa, surpreendente e total supra-sumo da maldade racista. Mas estávamos tão embrenhados naquela missão - e do resto alheados, naqueles tempos pré-internet e mesmo ainda dos velhos rádios Motorola -  que só já em meados de Maio, regressado a Portugal, tomei consciência daquilo, não só contra-senso mas também, assim o parecia, contra o sentido da história de então, por titubeante ou mesmo imaginário que este viesse. Entretanto, se na Europa ardiam os Balcãs, e de que sanguinária forma - como me narrava o meu parceiro de missão, um francês com quem partilhava casa, mesa, carro e bares, que lá trabalhara durante dois anos na Cruz Vermelha - o optimismo geral presumia essas dores apenas como se parto de algo melhor. No fundo, então, e como disse Álvaro Guerra nas suas belíssimas "Crónicas Jugoslavas" (1996), "O certo é que eram raríssimos os que se atreviam a encarar as ameaças do futuro".

Nesse ambiente o único trajecto algo divergente, ainda que nele pouco tivesse atentado, veio-me de um colega italiano, Andrea, um tipo da minha idade, economista algo viajado, vindo com a bonomia daquele que avança para rotundo e calvo, por estereótipo que seja... O que dele mais recordo foi o final de tarde do domingo 1 de Maio, regressando eu a East London, vindo de Bisho, após uma longa sessão de acompanhamento da contagem de votos. E logo que saí do carro, até perro de exausto, ainda porta aberta, ele lesto a surgir-me, saído do átrio do hotel onde sediávamos os nossos escritórios, para me estreitar em abraço de condolências, o italiano "tiffosi" comovidíssimo informando este português da morte de Ayrton Senna.

Mas dele algo mais lembro. Da sua alguma excentricidade durante aqueles meses de verdadeira festa política, tamanho era o nosso entusiasmo. Pois esses dias de frenesim jubiloso, para mim decorridos entre Ciskei e Transkei – que nesse tempo ainda sobreviviam os inventados “bantustões” independentes -, casavam com noites longas quase-nada dormidas, em aceleradas conversas entre nós e também com amigos sul-africanos – que nos haviam recebido como se sorvendo com sofreguidão os ventos do mundo -, regadas a caixas de Castle e de uísque barato, fervilhando de análises sobre a política sul-africana. Especulando futuros de curto prazo, cerzindo-os à catadupa de acontecimentos locais, daquele ali que se veio a tornar Eastern Cape. E, mais ainda, aos da azáfama nacional, naquela sucessão de arruaças sanguinolentas entre ANC e Inkhata, a deriva angustiada do Partido Nacional libertando-se do seu “nacionalismo cristão” mas ainda sob ele ajoujado, o já então vislumbre do Partido Democrático, o exacerbado racismo do histórico PAC sempre fiel ao lema “one settler, one bullet”, as expectativas sobre o verdadeiro impacto eleitoral do partido de Viljoen, o general consagrado como o “Rommel africânder”, o peso do extremismo de Winnie Mandela, a violência dos fascistas de Terreblanche, a aparente bipolarização entre o radical sindicalista Ramaphosa e o seráfico liberal Mbeki – que bem depois se veio a perceber não tão estruturante assim. E tudo isso sobre o gigantesco encanto do Madiba.

Mas o Andrea tudo isto cruzava, bebericando mas também meneando a cabeça de proto-calvo, resmungando a sua angústia com as desventuras da sua Itália - mais longínqua ainda por ali tão desfasada do que vivíamos - naquele período de erupção de Berlusconi e dos seus confrades secessionistas e ditos neo-fascistas, eleitos exactamente naquele Março. Pois foi durante aquela, afinal curta, missão que o Forza Italia surgira, e num ápice se tornara governo. Era o sufragar da tele-democracia, epíteto naquele caso literalmente literal, pois o homem era mesmo dono de tv, o estipular do reino do “partido pessoal” – como Bobbio lhe veio a chamar. Nisso crismando a pujante ladainha do poder dito sem ideologia, do líder junto ao seu povo, como se dele emanado, pois avesso a partidos, e destes livre, e ao Estado, a este punindo purificando-o. Líder assim corpo humano feito soberania, e nisso também enfrentando o exterior, esse “demónio multilateral” que tantos “nacionalistas” de vários matizes querem esconjurar.

Enfim, coisas do populismo stricto sensu – naquele caso avivado na crença futeboleira de fazer a Itália vingar como fizera no A.C. Milan, e na sua riqueza pessoal, advinda de ele homem capaz e sábio pois propenso ao êxito - que viemos a conhecer melhor depois, com gente como os longínquos – “orientalismo” oblige – Shinawatra e Buttho, mais o mariola filipino de agora, ou os mais próximos Fujimori e Chávez, cada um deles como cada qual mas, de facto, trinca do mesmo saco. Ou ainda, claro está, o Trump mais recente, de facto apenas mais um do ramalhete, por mais sonante que os EUA sejam.

Ali em East London o Andrea fora surpreendido com tudo aquilo lá na sua Itália. E por isso, de quando em vez, queria disso falar, desabafar que fosse. Pouco espaço, se algum, lhe davam, lhe dávamos, que todos esbracejávamos naquela apneia do “now is the time …”, em regime de monopólio de atenção. Talvez tenha sido eu a conceder um pouco mais de tempo, porventura solidariedade latina. Ou não. Ou não, mesmo … Pois vinha eu de onde continuava a década de Cavaco, já num fedor compósito, adocicado pelos miasmas vindos de Macau, a “árvore” que os de Soares abanavam, cobiçosos. E por isso mais – apenas um pouco mais, é certo – atentei nos resmungos do Andrea. E lá concluíamos, convictos de estarmos certos nisso, que o ninho de Berlusconi e dos seus comparsas pós-proto-neo fascistas era bem claro, aquele desabar havido do sistema partidário italiano. Na morte do PCI, daquele Berlinguer tão abjurado pelos nossos comunistas,  muito por causa daquele “compromisso histórico” - findado com o cadáver de Moro no porta-bagagens de um carro -, que tão antevisto fora por Guareschi através do afinal simpático Peppone, o siamês do Don Camilo. Mas, e acima de tudo, devido ao descalabro da Democracia-Cristã e do seu Andreotti e dos socialistas italianos, com seu Craxi exilado. Fora essa ruína, institucional e moral, a pura devassidão política que deixara uma terra de ninguém, a charneca onde Fini e Berlusconi medravam. Esse era o nosso diagnóstico, algo acelerado … Depois, saltitando entre JB, Cutty ou Famous, a tríade dominante, logo seguíamos – e aí ele também, pois desabafado – a sonhar o magnífico futuro do maravilhoso país que era a África do Sul.

Nem sei como foi, qual a causa disso, mas passaram 27 anos! Vou assim já um pós-novo ou mesmo proto-velho. Nisso alimentando-me muito das memórias para compreender este Outono. E quando olho para o meu país o que penso, o que sinto, é que o abraço tunisino de Soares a Craxi ainda está. Ainda é. E o resto vem por si …

Dia de Reis, 2021, fim de década

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Dia de Reis, 2021: Washington, parlamento.

Estes anos 10 de XXI foram, de facto, a "década chinesa" - e isso notou-se bem quando em final de 2020 se assinou o tratado de comércio livre dos 15 da Ásia-Pacífico, enquanto a semi-intelligentsia cristo-"ocidental" discutia com minúcia erotizada o iminente Brexit e as eleições americanas. Julgo que daqui a largos anos sobre esta era os vindouros afirmar-lhe-ão ainda outros dois traços centrais: a continuidade do até surpreendente solavanco indiano (pois o choque dos gigantes asiáticos será estruturante desse futuro); e - num nível que lhes será bem mais fundamental do que tanto tonto ainda grasna - a incapacidade dos países ricos em enfrentarem a reconversão industrial ecologicamente imposta.

Mas neste nosso reduto, o tal "Ocidente" - esgarçando-se como o centro do mundo, que o foi nos últimos 250 anos -, a "década" teve outros traços fundamentais muito, demasiado, marcados pelos abalos internos nos EUA, provocados pela decadência da pax americana, promovida por forças bem mais relevantes do que a óbvia incompetência externa das suas últimas presidências. Por um lado, o crisma das eunucas "agendas identitárias" - total reprise do que a lenda narra como ambiente ideológico aquando da queda de Constantinopla diante do imperialismo islâmico, aquilo da querela sobre o "sexo dos anjos" - submergiu o velho pensamento progressista, metastizado após a queda do comunismo.

E por outro lado, o recrudescer das "agendas soberanistas" - mero invés das outras, pois de facto também elas apenas "identitárias" -, de cariz ferozmente reacccionário, mesclando laivos de liberalismo económico, demagogicamente apropriados, com um conservadorismo radical. Foi esta a "década" encetada pelo movimento Tea Party, de facto um proto-fascismo teocrático. E mais perto de nós, entre outros epifenómenos na Mitteleuropa, os manobrismos de Farage, acoitados pelo paupérrimo Cameron. E tudo isto exponenciado nesta ascensão de Charles Foster Kane à presidência do país mais poderoso do mundo. 

Muito se diz que a democracia ("sempre frágil, sempre vulnerável, corruptível e muitas vezes corrupta", disse-a Bobbio, quando dela fez a apologia) é frágil. Sim, é-o, tem esse enorme vigor. O da fragilidade. No Dia de Reis de 2021 a "década" acabou - esta, que tanto demonstrou essa fragilidade. Findou de modo algo sanguinolento. Mas como farsa. Resta-nos, acima de tudo, olhar os farsantes e seus adeptos, seja lá qual for a sua "identidade", como o que são: farsantes. Alguns malévolos. A maioria apenas imbecis. E combatê-los. Com denodo, aos primeiros. E com infinita ferocidade aos outros, pois muito mais perigosos. E numerosos. Vera pandemia que são.

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

A elisão dos cristãos

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(Bruxelas)

O que está acima, imagem e legenda, é um postal que deixei abandonado em rascunho na Páscoa de 2019, aquando dos terríveis atentados no Sri Lanka e a propósito das comunicações de Barak Obama e Hillary Clinton, então lamentando os atentados aos "adoradores da Páscoa". O dístico toponómico é de uma rua de Bruxelas que me chamara a atenção - infelizmente não encontrei a origem da denominação, e presumo até que tenha alguma especificidade histórica que deslustre qualquer extrapolação. Mas recupero-o nesta quadra cristã, religiosa e cultural. Não tenho agora grande paciência para elaborações "globalizantes" sobre este folclore "interseccionalista" que está na moda, decerto que já candidato a "património intangível" da UNESCO, entre ranchos de "cante", "caretos" e agitadores de "chocalhos". Entre o qual tais "homens cristãos", cultuais ou meros culturais, são sempre pontapeados em detrimento de outros cultos, esses sim sacralizados. E, já agora, por ali ou acolá, erradicados quando não dizimados. Face ao silêncio propagandístico, académico e subsidiado. Ambiente de anuência que é, com toda a certeza, refracção do nosso complexo de culpa. Cristão. Ateu cristão.

 

José Rodrigues dos Santos e a "solução final"

(excerto da entrevista à RTP3 de José Rodrigues dos Santos, publicitando o seu livro O Mágico de Auschwitz)

 
Não que eu sacralize/absolutize o Shoah. Horrores feitos pelos maoísmo chinês e cambodjano (nunca vituperados pelos nossos actuais sociais-democratas, já agora) ou pelos ruandeses (fruto - como dizem os nossos interseccionais "não vindos do marxismo" - dos brancos alemães e belgas, que por lá passaram décadas antes mas que eram, como já disse, "brancos" e ainda por cima "ocidentais", e por isso culpados do que o futuro traz) tiveram intensidades e perversões similares. Mas estes ditos do locutor José Rodrigues dos Santos mostram duas coisas: que o homem ou é parvo ou se faz de parvo; que o serviço público de televisão, que dá publicidade extensa (que ficcionista tem ao seu dispor 23 minutos de divulgação de um novo livro?) a esta abjecção intelectual, tem que acabar.
 
*****
 
Tendo colocado este postal no meu mural de FB uma boa amiga diz-me que estou (como tantos outros) a deturpar as palavras do escritor. Respondi em modo coloquial, que não emendarei. E transcrevo essa minha resposta, sem grandes retoques formais:
 
Sei - e já o botei ene vezes ao longo dos blogo-anos - que as citações são apropriações, assim podendo ser truncagens manipulatórias. E sei que JRS é alvo a abater no rossio doutoral lisboeta - não tanto por vender muito mas acima de tudo por não ser "camarada e amigo". Por isso contextualizo esta minha reacção (apropriação! Talvez deturpação ...):
 
1. Eu não venho com o preconceito blasé contra o escritor JRS. Nunca li as suas ficções - leio muito pouca literatura portuguesa actual. (Porque dedicado a Moçambiqeu deveria ter lido "O Anjo Branco",  está nos meus preguiçosos planos, mas ainda não o fiz). E abomino a estuporada posição "não li e não gosto" - muito típica dos doutores de Lisboa, recorrente nos direitolas quando falam de Saramago.
 
2. O que vejo nesta entrevista, e em particular neste trecho, é um tom coloquial, melhor dizendo, um acto coloquial. Não é uma derrapagem, não é alguém a expressar-me com menos ponderação, expressando-me menos acertadamente, a não dizer com exactidão o que quer dizer, devido a uma qualquer incompreensão ou mau manuseio do meio que está a utilizar. Pois este homem há 30 anos que apresenta o telejornal, dominará como poucos as estratégias comunicativas na tv, de aproximação com os ouvintes, de condensação de mensagens. Isto não é uma crítica velada, é uma mera constatação do seu estatuto profissional. Ou seja, não só está totalmente à vontade como sabe imensamente bem como as suas palavras são acolhidas pela sua imensa mole leitora. Que é constituída, na sua maioria, por leitores populares, não exactamente por clones de Carlos Vaz Marques (jornalista que divulgou este excerto) nas suas qualidades e defeitos, nem mesmo por aqueles literatos sub-medianos que dizem serem grandes escritores alguns jornalistas como Lucas Coelho e Araújo Pereira, e que desprezam os leitores de JRS. Sem rebuço, sabe que na sua maioria quem o aprende - e aqui estou a ser assumidamente arrogante, cagão mesmo - é gente menos empenhada nas interpretações textuais.
 
3. Antes de eu partilhar este trecho li o que JRS respondeu a esta polémica: que a culpa é das "redes sociais". Ou seja, nós-cloaca. E nisso segue pensadores como Sousa Tavares ou Pacheco Pereira, vai bem acompanhado ... Reclama que para se avaliar o que ele pensa e quer dizer sobre o Shoah se deverão ler dois dos seus livros - e aqui tem meia-razão. Pois, de facto, em termos absolutos sim. Mas também se pode avaliar o que alguém diz sobre o que escreve. Principalmente quando se trata de alguém que é peixe graúdo no mar em que fala.
 
Há vários textos publicados nesta verdadeira polémica e ele respondeu-lhes. Não vou condensá-los aqui. Mas a minha opinião sobre JRS (escritor) impõe-se como quadro de interpretação. Não pelo que escreve (que não li) mas pelo muito que diz sobre o que escreve. Acho que disse há tempos "sou um divulgador" mas de facto é um simplificador, um simplismo constante sobre temas "polémicos". Foi-o quando entendeu postular (para gáudio de tanta direitalha lusa) que o fascismo vinha do comunismo (ou do socialismo). O que é uma pantomina - caramba, eu não sou um "ilustre lente" mas li alguma coisa na vida, nem me vou por a discutir tamanha simplificação de processos intelectuais, político-sociais, que merecem e exigem muito mais do que esta fast-food. Exactamente tal como agora usa Arendt e a sua "banalização do mal" - que, aliás, tanta ofensa causou quando ela publicou o livro sobre Eichmann, por incompreensão de leitura. A mesma incompreensão feita de leituras lineares que são o objectivo mas também o método de JRS.
 
Por exemplo, se não estou em erro - li aquilo há imenso tempo - Arendt escreveu que muitos judeus (responsáveis) cooperaram com os nazis e foi lido e vituperada como se estivesse a dizer que "colaboraram" com os nazis, e a semântica é tudo nestes casos. É um pouco o mesmo, em sentido inverso, - salvaguardadas as diferenças intelectuais entre o monstro intelectual que Arendt foi e este nosso locutor - como quando JRS anuncia, oralmente, que escreve sobre como os judeus se "adaptaram". Ora que muitos, aqueles a quem foi possível tentá-lo, "estrategizaram" para sobreviver nos campos é muito verdadeiro (basta regressar ás leituras de juventude, Levi ou Wiesel, ou ao magnífico "Maus" de Spiegelman). Mas é isso "adaptação"?
 
4. Sei que há uma espécie de censura moral para quem ofenda uma forma específica de falar do Shoah. Que parece ser uma menorização daquele horror quando se belisca a especificidade, o "único" que aquilo foi como expressão do mal. Isso é muito produto do seu eco cultural, literatura, cinema e historiografia dedicada. E foi isso o que, em modo "lite", resmunguei no postalito, acima. Claro que aquela monstruosidade foi específica (um cume no antisemitismo euro-cristão de séculos. E que tanto sobrevive em muito da arabofilia actual do pós-marxismo. Temos, aliás, a candidata Gomes como referência disso).
 
Trata-se da necessidade, qual mandamento moral, de olharmos Shoah como único, exemplo-mor, e o povo judeu como "Escolhido" pois mártir. Algo que se torna uma censora da forma como daquilo se fala (até Arendt veio a sofrer disso, repito-me). E implica silêncios - sobre o genocídio cigano, dele contemporâneo. Ou, ainda mais silencioso, o facto de 3 décadas antes os alemães pré-nazis terem feito um "holocausto" na Namíbia, em modalidade pré-industrial. Ou o imediatamente posterior massacre chinês no Tibete sobre o qual ninguém perguntará ao candidato Ferreira (nem a punhados de sociais-democratas matisianos). Mas, caramba, reduzir essa especificidade, esse Demo-Único, ao nazismo e ao holocausto judeu, afrontar a "maneira correcta" sobre como ele falar, não é nestes termos mariolas do JRS - "li a transcrição de um documento que augurava ser mais humano matar por gás do que deixar morrer à fome" e isso é algo estruturante da "solução final" industrializada. Isto é demais, é um abastardamento do intelecto. Não sou contra a literatura "lite" (eu vejo séries de tv, e como todos que as vêm não posso negar o apreço pelo registo "lite"). Mas contra este abastardamento sou.

Ideologia do género

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Período de nojo (2): estive alguns dias alheado das notícias. Agora, vindo ao rossio deparo-me com algumas pérolas. Não haja dúvidas, o real luso é fervilhante ...

Leio o recente artigo "Mil e uma noites sem Marielle" [Franco], da autoria da social-democrata Joana Mortágua, evocando o assassinato da autarca brasileira: "Vereadora eleita pelo PSOL, negra, lésbica, (...), Marielle exerceu o seu mandato (...) No dia 14 de março de 2018 foi assassinada a tiro e imediatamente o mundo soube que o seu silenciamento teve motivações políticas." Uma justa evocação da assassinada, um acerado abordar do contexto político que a vitimou. 

Mas há mais, para mim: na esquerda (e nalgum centrismo) comunitarista - em particular nas secções feministas e racialistas - muito se contesta a existência de uma qualquer "ideologia de género". Dizem-nos, a nós que a reconhecemos, que somos do piorio. Mas é nestas coisas, nestas amputações cirúrgicas, que ela é tão reconhecível. Ao ler o texto (justo, sublinho) logo me lembrei deste meu texto de blog (Março de 2018): "Sopesar os pesares". No qual abordei esta óbvia deriva da ideologia de género: como a elite política portuguesa se mostrou pesarosa diante do assassinato de uma vereadora de um município do Rio de Janeiro mas sem qualquer pesar pelo assassinato do presidente do município de Nampula. Face ao então invocado, tal como agora, a única diferença que se podia e pode encontrar é esta: a assassinada era negra e homossexual; o assassinado era negro e heterossexual. 

E por isso mesmo, três anos depois, nenhum social-democrata português publica uma invocação de Mahamudo Amurane, presidente do conselho municipal de Nampula, assassinado no dia da Paz (4 de Outubro) de 2017.

(E ainda me irão chamar reaccionário, homofóbico, misógino e outras coisas que tais, por um textinho destes. É a social-democracia que temos ...)

Americanices

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Nas últimas horas vários amigos (e amigas ...) têm-me enviado notícias com este teor - que anunciam o iminente divórcio do presidente americano -, decerto que impulsionados por um postal em que elogiei a Senhora de Donald Trump [já agora, a latere, e principalmente para @s mais feminist@s, não notais o imundo machismo d@s lus@s muito americanizad@s que falam da Melania e da Kamala mas de Trump e de Biden?]. Nessas risonhas (ou não ...) mensagens surgem mesmo implícitos (e até explícitos) incentivos a que aproveite eu a situação e tome alguma iniciativa de cariz romântico ...

Longe de mim tal ideia, e não apenas pela modesta vetustez em que atasco. Mas porque, ainda que não sacralize o vínculo conjugal, não considero cavalheiresco promover, e muito menos aproveitar, a ruptura dos elos afectivos alheios. Sempre a lamento. E espero, sinceramente, que estes hipotéticos desaguisados matrimoniais - porventura potenciados pela pressão das funções presidenciais -, sejam ultrapassados pelo casal.

Entretanto, aqui e no blog várias pessoas (em especial senhoras) me criticaram o texto elogioso da Sra. Trump, pois considerando aquele casal assente numa relação económica, segundo o consabido padrão do homem idoso abonado e da mulher jovem materialista. Modelo que consideram imoral. E até gente das ciências sociais me veio com essa ladainha (murmuro aqui, mesmo envergonhado, até antropólog@s ecoaram essa invectiva apatetada, imagine-se o desgraçado estado em que isto segue ....).

Ou seja, esta gente pensa que o casamento como vínculo deve assentar apenas num tipo de relação moral, nem tanto a da paixão assolapada do dramalhão (proto)romântico Paul et Virginie mas muito mais a da sequela Lagoa Azul, da qual agora decalcam os seus paupérrimos ideais e ainda piores concepções da existência. E vêm-me chatear com isto, sem qualquer vergonha pela ignara visão que têm da vida.

Já agora, e a modos que adenda: apesar de no bucólico sossego de Nenhures, não deixo de me irritar com a parvoíce d@s luso-entusiasmad@s com a eleição de uma mulher para a honorífica vice-presidência americana (e tant@s del@s no restos dos dias tão sensíveis ao anti-americanismo "abissal"). É que, apesar de tudo, a gente é europeia ("nordestina", no tal linguajar "abissal"). Na história, nos valores e até no chamado "modelo social europeu". Contexto no qual temos a presidente von der Leyden (não "a" Ursula, claro). E no qual desde há muito que a estadista mais importante é a chanceler Merkel (não "a" Angela, claro). E no qual é relevante o esquivo Boris Johnson, epígono de Thatcher (que nunca "a" Margaret, claro). Esta americanização dest@s ufan@s, esta afinal sua tesão pelo "noroeste", é mesmo muito parola.

Acerca da dita "primeira-dama"

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Abaixo botei um postal sobre Melania Trump, e provocou algum acinte nos comentários. Regresso ao tema: nada me move contra a senhora, que é, para meu gosto, muito bem apessoada, razão mais do que suficiente para o meu apreço. Apenas usei o assunto para sarcasmo. Pois muito me irrita isto das pessoas se verem como muito progressistas, atentas às boas causas - à antigamente dita "condição feminina", termo entretanto substituído por "género" , em particular - e que assaltam (ou louvam) a personalidade das esposas dos políticos de que gostam ou que repudiam. E, pior ainda, andam por aí - e quantos e quantas dizendo-se "feministas" - avaliando o desempenho das "primeiras-damas" (mulheres de presidentes da república e mesmo de presidentes de tantas outras coisas ...)

Enfim, a este propósito, e porque é fim-de-semana, aqui coloco um velho postal meu, de 13 de Abril de 2004. É sobre esse tipo de "progressistas", que seguem ufanos - tantos deles agorta muito críticos da mulher de Trump.

Cônjuges presidenciais

Quero chamar a atenção para um aspecto anti-democrático no exercício do sistema político (...)  que trai a República, provável que inconstitucional, decerto que imoral: a existência de uma chamada "primeira-dama", com direito a gabinete e a colaboradores, e de quem se espera e aceita uma actividade pública enquanto tal. Deslize monárquico, mas não sobrevivência - gostaria de ver alguém conhecedor escrever sobre as "primeiras-damas" da I República para poder sedimentar esta ideia de uma posterior, e muito contemporânea, reconstrução subreptícia de um ideal de "família presidencial". Ou seja, não se trata de uma mera continuidade da imagem do casal real, é um recurso "monarquizante" devido, muito provavelmente, às pressões do marketing político e a influências externas (First Lady americana como paradigma?).

Nunca nada me moveu contra as Senhoras cônjuges dos Presidentes da República. Mas não lhes posso aceitar nenhum papel público enquanto tal. Como cidadãs sim. Mas nunca como mulheres de (Senhoras de ...). 

Dir-se-á que têm obrigações de representação. Não é nada de natural, é uma opção política. Mas até a aceito. E também que se gaste muito e bom dinheiro com a sua representação.* Mas nada mais. Nenhum outro papel se lhes poderá aceitar. Na República vota-se num cidadão para exercer funções. Apenas isso - e é um enorme, respeitadissimo e, lembre-se em alturas de efemérides políticas, conquistado "Apenas"! Tudo o resto são desvios, graves, à lógica, à moral, à ideologia republicana.

Ainda mais me espanta a cega aceitação de que as Senhoras cônjuges dos Presidentes tenham particular atenção e acção pública em áreas determinadas: a saúde materno-infantil, os desvalidos, a segurança social, o apoio aos idosos, as catástrofes, a educação básica e, aggiornamento óbvio, as minorias étnicas. E, claro, as modas e bordados, perdão, a moda. Mas na sua (ilegítima, repito) acção nunca surgem elas ligadas à investigação científica, aos mineiros, à questão das pescas, ao desporto de alta competição, à indústria, à reforma da administração pública e eníssimos etcs.

Ou seja, no seu (ilegítimo, birrepito) papel as Senhoras cônjuges dos Presidentes nada mais fazem do que repetir a velha divisão sexual de trabalho, as dicotomias de género da família burguesa de XIX-XX: o doméstico, a socialização das crianças, os desvalidos, os doentes e idosos.

Esta é já uma dimensão sobrevivência que uma sociedade em franca transformação das relações de género assiste complacente. E nenhum(a) paladina dos fervores feministas surge reclamando contra este vero folclore. O que me não me espanta. Mas diverte, pois atento ao folclorismo maximalista dessa mole tonitruante.

Para os trinta anos de exercício democrático da República bem que se poderia romper com este atavismo de género. Mas mais do que tudo romper com esta traição ao ideal republicano.

* Li algures que é costume os costureiros portugueses emprestarem vestidos às cônjuges dos presidentes (ou pelo menos deste último: o qual muito prezo, e de quem sou eleitor, para que não se pense que há aqui qualquer ataque pessoal). Que tal acontece principalmente aquando de visitas ao estrangeiro, para divulgação da moda portuguesa. Não sei se isto é verdade. Li e espero que não seja. Porque seria semelhante ao Presidente andar a pedir roupa emprestada nos alfaiates. Ou usar t-shirts da Sumol ou Super-Bock para defesa da indústria portuguesa.

Portanto decido-me, dogmático. O que li é mentira! Se não for, pague-se, pague-se o que for preciso para que a representação do casal presidencial seja o melhor possível. Mas não os usem, nunca, para publicidade empresarial. Qualquer que seja ela.

A primeira-dama

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Cada vez mais parece possível que o actual presidente americano perca estas eleições. Deixo aqui o meu elogio à Senhora de Donald Trump, actual Primeira Dama: pela sua beleza e impecável elegância. E porque sempre incansável no zelo pelos desvalidos - doentes, empobrecidos -, pelos idosos, pelas crianças, no âmbito da nobre missão que lhe coube abraçar. Foi, é, e decerto continuará a ser um símbolo da feminilidade. Uma verdadeira "european queen". Fará falta!

Caricaturas e liberdade

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Na sequência do assassinato do professor francês Samuel Paty, devido a ter mostrado caricaturas aos seus alunos, a pastora da Igreja Protestante de Roubaix, Sandrine Maurot, convidou os crentes de todas as religiões a "publicarem uma caricatura na sua própria religião, defendendo a liberdade de expressão".

(O meu muito laico sportinguismo é o meu sentimento mais próximo, ainda que imensamente distante, da religiosidade. Ou seja, resta-me isto ...)

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