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Nenhures

Nenhures

12
Set21

O meu 11 de Setembro

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Passam vinte anos sobre o atentado que começou o século. Muitos recuam e narram como viveram o dia. O mal disto de um tipo blogar há já 18 anos é que já vasculhou todas as memórias. E assim há já muito tempo que botei como em Maputo vivi o meu 11 de Setembro de 2001: está aqui, no velho blog ma-schamba. Deixo a ligação para se algum dos parcos visitantes deste Nenhures ainda tenha curiosidade sobre isso.

17
Ago21

Sobre o Afeganistão

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Sobre esta coisa do Afeganistão deparo-me com vários conhecedores da situação. Desde um ex-deputado e agora candidato em Loures pelo BE que surge no reflexo típico de culpabilizar o Ocidente, cujos governos "bombardeiam (...) governos progressistas". Para outros - decerto que "progressistas" - aquilo é ab ovo culpa dos EUA, pois descobrem que estes apoiaram a guerrilha anti-soviética [note-se que há um já velho filme sobre isso, "Charlie Wilson's War" (Jogos do Poder) com o actual Jimmy Stewart, o grande Philip Seymour Hoffman e a divindade Julia Roberts, não estando assim estes investigadores a dar-nos grandes novidades]. Mas nenhum desses aborda os motivos da invasão soviética, decerto que por os considerarem irrelevantes.
 
Muitos, até não interseccionalistas, lamentam o destino das mulheres afegãs - mas poucos (não leio sequer um) se preocupa com a gente afegã qual eu. Outros, mais interseccionalistas e nisso paladinos da etnicização de Portugal e restante pérfido Ocidente, anunciam que o decadente governo afegão pró-ocidental descurou uma etnia (os pastós), deixando assim entender que a etnicidade é algo problemática, mas estarão certos que apenas nos longínquos vitimizados transeuropeus. Outros ainda, que leio há anos defendendo o status quo luso, apontam que a derrocada do poder de Cabul se prendeu a ter sido muito corrupto, assim anunciando que - decerto que apenas fora de Portugal - a corrupção estatal enfraquece as vias democráticas. E outros ainda, de recorte mais intelectual, concluem que os ocidentais nada percebem sobre o Afeganistão.
 
Continuo a crer que está (quase) tudo nos livros, e só lamento não ter a militância, a disciplina e, acima de tudo, a inteligência para ler o que me falta e, acima de tudo, reler o que me fez. Enfim, daquilo que me passou pela frente deixo um aviso e uma memória: o aviso, superficial, é sobre o que virá aí naquelas bandas. Será de ler "As Novas Rotas da Seda" do Frankopan. Quem o ler poderá fazer postais no FB, e nos blogs. E, alguns, até irão à TV botar faladura.
 
A memória, que é a coisa importante: está tudo no "O Americano Tranquilo" (há várias edições portuguesas) de Graham Greene (1955). Li-o aos 16 anos e descobri-me Thomas Fowler. Não como alter ego, como acontece nas leituras juvenis. Mas como reconhecimento, num "eu sou este gajo". Ainda hoje me surpreendo como me conheci tão cedo. Reli-o três vezes até aos 25 anos e não mudei de ideias. Depois aos 40s e sorri, na comprovação desse reconhecimento. Quando for à capital, às estantes do meu pai, relerei de novo, agora quase aos 60, usando este exemplar paterno, aquele com o qual descobri Fowler (jpt). Não me dará para postais de FB ou de blog. Mas, claro, e como sempre, dá-me para encolher os ombros diante dos convictos a la carte.

16
Ago21

Burquinis

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"No meu tempo" li um pouco sobre o enquadramento e o significado da moda (devo ter começado pelo Eco, que estava na moda). Confesso que não fiquei esperto no assunto, perdi-lhe os rumos e os ritmos. E agora, em pleno Verão 21, lembrei-me (sei lá porquê...), que não tenho lido ecos dessas "identitaristas" "interseccionalistas" a defenderem a virtude identitária dos burquinis. Passou de moda? Ou essa é mesmo gente de plástico, ordinário?

22
Jun21

Alemanha-Hungria "lgbt"

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Sei que alguns dirão deste postal que é botado por um vil homofóbico. Outros avançarão mesmo que "o velho é mas é um recalcado". Enfim - e sem mais delongas sobre as minhas hipotéticas pulsões -, vejo que a Alemanha receberá a Hungria nesta jornada do Europeu. Os húngaros acabam de aprovar uma lei avessa à sinalização da normalidade da homossexualidade junto de menores, entre outras moralices. E a federação alemã de futebol pondera (ou já decidiu) afrontar isso, decorando o estádio desse jogo iluminando-o com as cores simbólicas do movimento internacional homossexual. Um ministro de Orbán já protestou contra a mistura do futebol e política (como se estivessem apartados). E os paladinos do identitarismo em voga apupam-no enquanto louvam a Alemanha por esta atitude (nesta semana os tipos do BE não dirão que a Merkel é nazi e que o seu país gosta desta crise do Covid-19 porque com ela lucra). 

Daqui a pouco, entre 1 e 5 de Setembro decorrerão duas jornadas da qualificação europeia para o próximo Mundial. Será que as federações nacionais de futebol irão ter proclamações políticas sobre questões relevantes, afrontando selecções adversárias devido a problemáticas como a fragmentação petrolífera, as questões palestiniana e cipriota, a exploração de recursos árticos, o estatuto de Gibraltar (que também joga), a guerra na Ucrânia, etc.? Não, então reinará o tal apartar entre "política" e "desporto". O qual, hoje em dia, só se dilui nas questões "identitárias", como se estas éticas. 

Mas se o fundamental actual são estas coisas "identitárias", das "liberdades individuais", pergunto-me uma outra coisa: o Mundial-22 é no Catar. A federação portuguesa, "instituição de utilidade pública", concordou com isso, e até terá votado favoravelmente. Tal como a alemã. País com o qual Portugal jogará um particular no dia 4 de Setembro. Ora no Catar as pessoas com uma peculiar parecença comigo, com a minha "identidade" como se diz agora ainda que eu não a reclame, podem ser condenadas à morte. Entenda-se, não só é proibido sinalizar a nossa normalidade aos menores de 18 anos. Pode-se ser condenado à morte! Como em vários outros países, para além de outros onde gente com essa semelhança sofre pesadas discriminações. E, se o argumento quantitativo é importante, na Europa são bem mais do que os homossexuais. 

Mas agora, ao fim destes anos todos deste convívio e conúbio, de turismo e negócios conjuntos, e até de tantos futebóis com estes Catares, toca de agitar os bracinhos abespinhados no jogo da bola húngaro, colori-lo com as cores correctas, afrontar os malvados? E depois, muito ciosos da cidadania europeia, arrumar os cachecóis da selecção até ao próximo Mundial? No Catar? Deus Nosso Senhor me perdoe, mas que .... gentinha. Que hipocrisia bacoca.

05
Jun21

Tiananmen, 32 anos depois

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(Tiananmen, 5 de Junho de 1989, fotografia de Liu Heung Shing / Associated Press)

32 anos depois. E mesmo que tanto tempo passado tantos não aprenderam nada - alguns desses até herdam cargos de museus das "resistências". Outros ainda entendem qualquer interrogação sobre o regime "comunista" chinês como acto de servidão ao "capitalismo ocidental" - e a polémica de 2020 sobre a disseminação do Covid-19 bem o mostrou.

1989 foi um ano fantástico. De derrube de imenso mal pelo mundo afora. E também um abanão no comunismo chinês, colonialista e ditatorial. Este resistiu. Brutal e boçal, em versão "actualizada", de economia de mercado, um capitalismo estatizado. Por cá, e não só, os brutos continuam dele adeptos. De uma imagem qualquer, boçal de irreal, que dele têm. Alimentada pelo ódio visceral que têm pela liberdade, pela democracia. E, muito, ao "ocidente".

Deixo filme do célebre "homem do tanque", sempre emocionante - como o é a fotografia acima, o casal acoitado, expectante, que só agora mesmo conheci - e um outro com a explicação dada por Stuart Franklin do contexto da fotografia do "homem do tanque". Quão maior este desconhecido, pois corajoso e conhecedor, do que estes "revolucionários" de meras crenças. Alguns aqui no rincão. Outros, ainda os ouço e leio, loquazes algures ali ao Índico:

(Tank Man, no youtube)

(The Story Behind the Iconic ‘Tank Man’ Photo | Developing News)

21
Jan21

Biden

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Tomou posse, com um bom discurso. Tem a minha simpatia. Aprecio-o muito por critérios agora ditos imperiais: é homem, heterossexual e velho como eu. Católico, como a minha mãe. Apesar de ser branco e eu não, é quase da minha espécie ...

17
Jan21

Berlusconi

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Em 1994 durante meses trabalhei na missão de observação eleitoral das primeiras eleições democráticas na África do Sul, nas quais Mandela ascendeu a presidente. Foi um período magnífico! Se conflitos e temores subsistiam tudo isso coexistia com o enorme alívio no final daquela maldita ditadura racista e uma alegria esfuziante no dia-a-dia, traduzindo uma vaga de esperança em melhores futuros. A qual, naqueles últimos anos, se vinha espalhando num vasto alhures. Ao sul da África a Namíbia tornara-se independente, a paz aportara a Moçambique, o delírio sanguinário mugabiano havia amainado, em Bicesse prometera-se uma paz em Angola. Esse alindar da coisa mundial viera desde quinze anos antes com o sucessivo descalabro dos fascismos da América latina, encetado com o triplo "Sandinista" dos The Clash já pós-punk, o qual nós, portugueses, mais acompanháramos na comoção do "Directas, Já!" brasileiro. Depois, entre Glasnot e Perestroika, findara o perverso comunismo europeu, que tantas mentes e almas corrompera por cá (e ainda corrompe, malevolência zombie …) e o receio - pavor mesmo - da guerra nuclear desvanecera-se. Mesmo o malvado comunismo colonialista chinês aparentara abanar no massacre estudantil de Tiananmen – esse, há que dizê-lo, ainda hoje nunca evocado por tantos, debruçados no demoníaco abismo do seu pensamento abissal. O hediondo maoísmo cambojano estava em estertor florestal - e sobre esse país mártir muita coisa tétrica então ouvi, nas horas dos inúmeros uísques, de colegas ali observadores das Nações Unidas, vários deles macerados após por lá terem trabalhado durante anos. Tudo isso, e o findar mundo afora de tantos outros "conflitos de baixa intensidade" - como a insensível literatura europeia os chamava -, catapultados pela luta entre os ditos “Leste” e “Ocidente”, trazia um grande optimismo. Democratizador. Nisso também fruidor.

Certo que aquele ali tão festivo Abril eleitoral foi também o da hecatombe ruandesa, surpreendente e total supra-sumo da maldade racista. Mas estávamos tão embrenhados naquela missão - e do resto alheados, naqueles tempos pré-internet e mesmo ainda dos velhos rádios Motorola -  que só já em meados de Maio, regressado a Portugal, tomei consciência daquilo, não só contra-senso mas também, assim o parecia, contra o sentido da história de então, por titubeante ou mesmo imaginário que este viesse. Entretanto, se na Europa ardiam os Balcãs, e de que sanguinária forma - como me narrava o meu parceiro de missão, um francês com quem partilhava casa, mesa, carro e bares, que lá trabalhara durante dois anos na Cruz Vermelha - o optimismo geral presumia essas dores apenas como se parto de algo melhor. No fundo, então, e como disse Álvaro Guerra nas suas belíssimas "Crónicas Jugoslavas" (1996), "O certo é que eram raríssimos os que se atreviam a encarar as ameaças do futuro".

Nesse ambiente o único trajecto algo divergente, ainda que nele pouco tivesse atentado, veio-me de um colega italiano, Andrea, um tipo da minha idade, economista algo viajado, vindo com a bonomia daquele que avança para rotundo e calvo, por estereótipo que seja... O que dele mais recordo foi o final de tarde do domingo 1 de Maio, regressando eu a East London, vindo de Bisho, após uma longa sessão de acompanhamento da contagem de votos. E logo que saí do carro, até perro de exausto, ainda porta aberta, ele lesto a surgir-me, saído do átrio do hotel onde sediávamos os nossos escritórios, para me estreitar em abraço de condolências, o italiano "tiffosi" comovidíssimo informando este português da morte de Ayrton Senna.

Mas dele algo mais lembro. Da sua alguma excentricidade durante aqueles meses de verdadeira festa política, tamanho era o nosso entusiasmo. Pois esses dias de frenesim jubiloso, para mim decorridos entre Ciskei e Transkei – que nesse tempo ainda sobreviviam os inventados “bantustões” independentes -, casavam com noites longas quase-nada dormidas, em aceleradas conversas entre nós e também com amigos sul-africanos – que nos haviam recebido como se sorvendo com sofreguidão os ventos do mundo -, regadas a caixas de Castle e de uísque barato, fervilhando de análises sobre a política sul-africana. Especulando futuros de curto prazo, cerzindo-os à catadupa de acontecimentos locais, daquele ali que se veio a tornar Eastern Cape. E, mais ainda, aos da azáfama nacional, naquela sucessão de arruaças sanguinolentas entre ANC e Inkhata, a deriva angustiada do Partido Nacional libertando-se do seu “nacionalismo cristão” mas ainda sob ele ajoujado, o já então vislumbre do Partido Democrático, o exacerbado racismo do histórico PAC sempre fiel ao lema “one settler, one bullet”, as expectativas sobre o verdadeiro impacto eleitoral do partido de Viljoen, o general consagrado como o “Rommel africânder”, o peso do extremismo de Winnie Mandela, a violência dos fascistas de Terreblanche, a aparente bipolarização entre o radical sindicalista Ramaphosa e o seráfico liberal Mbeki – que bem depois se veio a perceber não tão estruturante assim. E tudo isso sobre o gigantesco encanto do Madiba.

Mas o Andrea tudo isto cruzava, bebericando mas também meneando a cabeça de proto-calvo, resmungando a sua angústia com as desventuras da sua Itália - mais longínqua ainda por ali tão desfasada do que vivíamos - naquele período de erupção de Berlusconi e dos seus confrades secessionistas e ditos neo-fascistas, eleitos exactamente naquele Março. Pois foi durante aquela, afinal curta, missão que o Forza Italia surgira, e num ápice se tornara governo. Era o sufragar da tele-democracia, epíteto naquele caso literalmente literal, pois o homem era mesmo dono de tv, o estipular do reino do “partido pessoal” – como Bobbio lhe veio a chamar. Nisso crismando a pujante ladainha do poder dito sem ideologia, do líder junto ao seu povo, como se dele emanado, pois avesso a partidos, e destes livre, e ao Estado, a este punindo purificando-o. Líder assim corpo humano feito soberania, e nisso também enfrentando o exterior, esse “demónio multilateral” que tantos “nacionalistas” de vários matizes querem esconjurar.

Enfim, coisas do populismo stricto sensu – naquele caso avivado na crença futeboleira de fazer a Itália vingar como fizera no A.C. Milan, e na sua riqueza pessoal, advinda de ele homem capaz e sábio pois propenso ao êxito - que viemos a conhecer melhor depois, com gente como os longínquos – “orientalismo” oblige – Shinawatra e Buttho, mais o mariola filipino de agora, ou os mais próximos Fujimori e Chávez, cada um deles como cada qual mas, de facto, trinca do mesmo saco. Ou ainda, claro está, o Trump mais recente, de facto apenas mais um do ramalhete, por mais sonante que os EUA sejam.

Ali em East London o Andrea fora surpreendido com tudo aquilo lá na sua Itália. E por isso, de quando em vez, queria disso falar, desabafar que fosse. Pouco espaço, se algum, lhe davam, lhe dávamos, que todos esbracejávamos naquela apneia do “now is the time …”, em regime de monopólio de atenção. Talvez tenha sido eu a conceder um pouco mais de tempo, porventura solidariedade latina. Ou não. Ou não, mesmo … Pois vinha eu de onde continuava a década de Cavaco, já num fedor compósito, adocicado pelos miasmas vindos de Macau, a “árvore” que os de Soares abanavam, cobiçosos. E por isso mais – apenas um pouco mais, é certo – atentei nos resmungos do Andrea. E lá concluíamos, convictos de estarmos certos nisso, que o ninho de Berlusconi e dos seus comparsas pós-proto-neo fascistas era bem claro, aquele desabar havido do sistema partidário italiano. Na morte do PCI, daquele Berlinguer tão abjurado pelos nossos comunistas,  muito por causa daquele “compromisso histórico” - findado com o cadáver de Moro no porta-bagagens de um carro -, que tão antevisto fora por Guareschi através do afinal simpático Peppone, o siamês do Don Camilo. Mas, e acima de tudo, devido ao descalabro da Democracia-Cristã e do seu Andreotti e dos socialistas italianos, com seu Craxi exilado. Fora essa ruína, institucional e moral, a pura devassidão política que deixara uma terra de ninguém, a charneca onde Fini e Berlusconi medravam. Esse era o nosso diagnóstico, algo acelerado … Depois, saltitando entre JB, Cutty ou Famous, a tríade dominante, logo seguíamos – e aí ele também, pois desabafado – a sonhar o magnífico futuro do maravilhoso país que era a África do Sul.

Nem sei como foi, qual a causa disso, mas passaram 27 anos! Vou assim já um pós-novo ou mesmo proto-velho. Nisso alimentando-me muito das memórias para compreender este Outono. E quando olho para o meu país o que penso, o que sinto, é que o abraço tunisino de Soares a Craxi ainda está. Ainda é. E o resto vem por si …

09
Jan21

Dia de Reis, 2021, fim de década

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Dia de Reis, 2021: Washington, parlamento.

Estes anos 10 de XXI foram, de facto, a "década chinesa" - e isso notou-se bem quando em final de 2020 se assinou o tratado de comércio livre dos 15 da Ásia-Pacífico, enquanto a semi-intelligentsia cristo-"ocidental" discutia com minúcia erotizada o iminente Brexit e as eleições americanas. Julgo que daqui a largos anos sobre esta era os vindouros afirmar-lhe-ão ainda outros dois traços centrais: a continuidade do até surpreendente solavanco indiano (pois o choque dos gigantes asiáticos será estruturante desse futuro); e - num nível que lhes será bem mais fundamental do que tanto tonto ainda grasna - a incapacidade dos países ricos em enfrentarem a reconversão industrial ecologicamente imposta.

Mas neste nosso reduto, o tal "Ocidente" - esgarçando-se como o centro do mundo, que o foi nos últimos 250 anos -, a "década" teve outros traços fundamentais muito, demasiado, marcados pelos abalos internos nos EUA, provocados pela decadência da pax americana, promovida por forças bem mais relevantes do que a óbvia incompetência externa das suas últimas presidências. Por um lado, o crisma das eunucas "agendas identitárias" - total reprise do que a lenda narra como ambiente ideológico aquando da queda de Constantinopla diante do imperialismo islâmico, aquilo da querela sobre o "sexo dos anjos" - submergiu o velho pensamento progressista, metastizado após a queda do comunismo.

E por outro lado, o recrudescer das "agendas soberanistas" - mero invés das outras, pois de facto também elas apenas "identitárias" -, de cariz ferozmente reacccionário, mesclando laivos de liberalismo económico, demagogicamente apropriados, com um conservadorismo radical. Foi esta a "década" encetada pelo movimento Tea Party, de facto um proto-fascismo teocrático. E mais perto de nós, entre outros epifenómenos na Mitteleuropa, os manobrismos de Farage, acoitados pelo paupérrimo Cameron. E tudo isto exponenciado nesta ascensão de Charles Foster Kane à presidência do país mais poderoso do mundo. 

Muito se diz que a democracia ("sempre frágil, sempre vulnerável, corruptível e muitas vezes corrupta", disse-a Bobbio, quando dela fez a apologia) é frágil. Sim, é-o, tem esse enorme vigor. O da fragilidade. No Dia de Reis de 2021 a "década" acabou - esta, que tanto demonstrou essa fragilidade. Findou de modo algo sanguinolento. Mas como farsa. Resta-nos, acima de tudo, olhar os farsantes e seus adeptos, seja lá qual for a sua "identidade", como o que são: farsantes. Alguns malévolos. A maioria apenas imbecis. E combatê-los. Com denodo, aos primeiros. E com infinita ferocidade aos outros, pois muito mais perigosos. E numerosos. Vera pandemia que são.

29
Dez20

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

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