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Nenhures

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(Postal para o Delito de Opinião)

Anteontem, dia 5, cumpriram-se dois anos exactos sobre a última vez que eu toquei na minha mãe - a qual veio a morrer no final do ano. Pois apesar do Estado, através da directora-geral da Saúde Graça Freitas, continuar a apelar a que se visitassem os lares de idosos - e isso nesse mesmo dia em que Espanha os vedava a visitantes -, decidimos em família não mais arriscar o perigo de contagiar a nossa tão querida matriarca. Uma semana depois, e ainda que o governo português continuasse na sua senda de apelar à despreocupação - na qual ficou memorável a crítica dessa directora-geral à escola das suas netas que encerrara devido à situação -, e após a minha filha ter vindo do Reino Unido onde estuda, confinámo-nos em porto recôndito e seguro. Só vários dias depois, a 18 de Março,  o governo restringiu a ideia da "falsa segurança" ao uso de máscaras e de testes ao Covid, e concedeu na necessidade de uma clausura generalizada. [Para quem tenha interesse deixei este "O capitão MacWhirr e o Covid-19", um texto algo detalhado sobre o início da pandemia em Portugal]. E seguiu-se o longo período, estes dois anos que agora se cumprem, cujo percurso todos recordamos, com mais ou menos detalhes.

Se é certo que o final da pandemia fora já por vezes aventado, o sucesso da vacinação e a eclosão de variantes virais sucessivamente menos letais permitiu, no último terço de 2021, compreender que o espectro "Covid-19" se desvanecia. Tratar-se-ia agora, passados estes dois longos anos, de recuperar dos pesadíssimos efeitos económicos que este causou - bem como de sarar os défices sanitários que lhe foram adjacentes, e de recuperar um "ânimo" social, o qual também tem efeitos económicos. Nisso "agilizar" recursos que foram concedidos ao país - planificar e executar a célebre "bazuka". Mas também de induzir e possibilitar reinserções na economia global, talvez algo alterada pelo embate pandémico, até pela própria consciencialização que este causou da necessidade de introduzir alterações nas interdependências produtivas e comerciais. E a isto se juntaria o desafio das medidas estruturais de absorção do efeito do choque (tectónico?) das alterações no mercado energético, um necessário processo global em curso. 

Estes eram desafios - até gigantescos - antevistos para esta transição 2021-22. Tudo isto é agora sumamente complexificado pela eclosão da guerra russo-ucraniana. Um facto imprevisível à governação, mesmo que a esta se possa exigir a constante preparação para a previsível imprevisibilidade, na consciência da relativa imponderabilidade do real. Estamos assim diante de enormes desafios para a governação do país, um escaldante palacete de São Bento.

Ora um dia, mais tarde, muitos farão a história deste período. E constatarão que Portugal enfrentou este final da crise pandémica mundial e o ressurgimento da guerra na Europa numa peculiar - e talvez até absurda, dado o contexto - governação. Pois o actual presidente da República decidiu, motu proprio, dissolver um parlamento funcional e promover eleições legislativas. E que estas, apesar de decorrerem após meio século de democracia parlamentar, ocorreram sob uma incúria legislativa e executiva tal que obrigou o Tribunal Constitucional - apesar do próprio Presidente, já em funções há 6 anos, ser um renomado constitucionalista - a prolongar a sua realização. 

Devido a este abstruso processo Portugal enfrenta o final da crise Covid-19, o impacto do recrudescer do choque energético e a inesperada guerra na Europa, com um governo de gestão em funções durante 5 meses. Ao qual se seguirá, como a imprensa anuncia, um governo com várias alterações no seu organograma, implicando reformulações legislativas e reconfigurações na administração - sempre indutoras de delongas nos serviços. 

Se tudo isto é insignificante, então algo tem de ser constatado sobre a real importância do exercício governativo. Mas se não é insignificante - como julgo não o ser - então algo terá que constatado, e decerto que o será pelos futuros historiadores, sobre a competência do garante da ordem política, o actual presidente da República. O qual não só promoveu esta situação como permitiu que decorresse desta forma, decerto que por superficial desatenção e deficiente análise. E a futura avaliação deste mandato terá que ser imensamente negativa, até surpreendida num "como foi aquilo possível?". Mas aqui no presente o que pode espantar, ainda que percebendo que tal é um sintoma do estado deste regime, é o facto de que nem espanto nem ira vêm acolhendo este exercício presidencial. E os seus efeitos, desequilibradores. E prejudiciais aos extremos desafios que o país enfrenta neste contexto mundial.

 

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Enquanto a tropa russa alastra na Ucrânia as nossas reacções avulsas de populares opinativos serão pouco relevantes. Mas ainda assim elaboro sobre parte do que ontem vi nas  minhas contas nas redes sociais (FB, twitter):
 
1 - vigora o argumento de que a responsabilidade (dolosa) é dos norte-americanos, dado o seu desígnio de alargar a NATO, com conúbio da União Europeia. Vi isto, viçoso, por cá e entre moçambicanos.
 
Entre estes últimos reconheço os locutores como gente ligada, ideológica e/ou afectivamente, ao Frelimo da I República, associável (na sua complexidade) ao movimento comunista internacional e vinculada ao anti-colonialismo. Entre os portugueses percebo (ainda que tenham ditos mais heterogéneos) simpatizantes dos dois partidos comunistas tradicionais ou do recente dito pós-marxista.
 
Nestes é interessante a noção que aceita como justificável e legitimada uma invasão militar devido às políticas de relacionamento diplomático de um país vizinho. O que é - neste caso totalmente explícito - uma afirmação de uma soberania menorizada, o primado de uma tutela regional internacional, a qual se diria imperial. Isto é particularmente estranho entre moçambicanos, que têm recente experiência própria disso mas que agora surgem defendendo que se faça o mesmo alhures. Mas não têm qualquer rebuço, entenda-se vergonha, em acorrer aos teclados para perorar tal simpatia pelo efectivo colonialismo alhures - o que não é totalmente surpreendente, e recordo que em trinta anos a ler sobre Moçambique nunca vi um intelectual ou político desse país botar sobre a ocupação colonial do Tibete por mais vozeares revolucionários-progressistas anti-coloniais que emitam. Mas, claro, não se pode ter tudo...
 
2 - um outro traço do "opinativismo" pró-russo (de facto, um mero anti-americanismo) é que ninguém alude à participação da Bielorússia, da qual partiram tropas russas nesta invasão. Um país que é um verdadeiro protectorado russo, com um regime imposto por Moscovo, numa verdadeira lógica imperial (ou colonial, para usar uma linguagem mais austral).
 
Ora como nestes núcleos locutores - particularmente os portugueses - há imensa gente muito loquaz sobre a questão dos "refugiados", não deixa de ser interessante este "esquecimento". Pois é bem sabida a desumana política de Minsk para os refugiados. Mas nem isso chama a atenção ou corrói o simpático silêncio destes opinadores. E já nem aludo sobre o que essa efectiva tutela de Moscovo sobre a Bielorrússia (bem como outras regiões) significa sobre o verdadeiro desígnio de Putin...
 
3. Para percebermos o seguidismo, avulso mas também institucional, destes núcleos políticos convirá ler o que disse ontem na Assembleia de República o deputado comunista João Oliveira - esse mesmo, que tantos democratas louvaram lamentando não ter sido reeleito. Seguindo os argumentos do presidente Putin, até mesmo a ladainha dos "nazis ucranianos" - tal como há anos aqui o publicista do activismo anti-discriminações étnicas e raciais, o célebre dr. Ba, clamava "vêm aí os nazis ucranianos" aquando de um jogo da bola. Pois a cartilha comum destes núcleos políticos já tem historial...
 
4. Enfim, para todos estes "camaradas, companheiros, amigos", austrais e setentrionais, mais ou menos vinculados, ideologica ou afectivamente, ao "espectro do comunismo" (Marx, Engels, 1848), deixo aqui ligação ao comunicado oficial do Partido Comunista de Espanha sobre a invasão russa da Ucrânia. E, chamo a atenção dos menos lidos, trata-se de um texto num país com uma relação histórica com a NATO muitíssimo mais problemática do que Portugal. Também por isso é um texto muito relevante. Pela diferença que tem face ao mero bolçar dos pró-putinescos.
 
5. Claro que nada disto reduzirá o desprezo, mesmo ódio, pelo "Ocidente" e pela democracia, que vigora entre estes locutores. Excepto, friso, quando é para nele e sob ela se viver. E para morrer (e esta última meia-palavra é mais do que suficiente para qualquer bom entendedor).

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To Whom It May Concern:
 
Licenciado em ciência social e pós-graduado em matérias de desenvolvimento local; praticante da língua francesa e da inglesa; conhecimentos de Word e de comunicação nas redes sociais; forte sentido de empreendedorismo; espírito abnegado e voluntarioso, dotado de grande motivação; capacidade de integração em diversos contextos; fácil inserção em grupos de trabalho; jovialidade e franqueza como características pessoais fundamentais; adequado guarda-roupa e bons modos à mesa.
 
Procuro posto de assessor de vereador municipal (com ou sem pelouro atribuído), remuneração e horário a combinar. De preferência na Câmara Municipal de Nenhures ou suas cercanias, mas disponível para qualquer distrito de Portugal Continental e Ilhas Adjacentes, digo, Regiões Autónomas...
 
Contacto por mensagem privada, sff.

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Leio que o novo deputado Pacheco de Amorim foi à tv reafirmar a pertinência da categoria "raça" (vá lá, ao menos não lhe chamou "etnia" como tantos dos bem-pensantes de hoje em dia). E proclamar, como se salvaguardando-a, a originária "branquitude" lusitana, à qual atribui significado politicamente relevante. Consta que o seu líder, o prof. Ventura, já saiu a terreiro atribuindo-lhe boa nota no exame oral.
 
Sei, por experiência própria, que é algo espúrio tentar convencer adultos racialistas (crentes nas "raças") da inadequação de tal crença. Pois as pessoas mais limitadas (o que é muito diferente de "incultas") vêm, à vista desarmada, que as populações têm cores de pele diferente e disso sentem como necessário corolário a existência de diferenças, em termos de lhes graduar habilidades físicas e/ou intelectuais. E mesmo morais (ou contextuais, no caso dos actuais missionários esquerdistas), do "malandros" ao "coitadinhos". Já para não falar de que julgam que tais cores, "rácicas", lhes atribui habitats apropriados, qual "cada macaco no seu galho". Ou seja, a operação intelectual - aparentemente simples - de retirar qualquer importância - biológica, cultural, política, intelectual - à cor da pele dos indivíduos é, afinal, coisa demasiada para as capacidades dos morcões.
 
Quanto à nossa - abençoada, é sempre bom lembrá-lo - branquitude lembro este episódio (memória que vai dedicada aos morcões racialistas a la CHEGA e aos outros morcões que não são CHEGA).
 
Tinha a minha filha Carolina apenas 7 anos e fotografou-me assim, decerto uma experiência que lhe foi traumática. Dizia-me eu, aquando nestes propósitos capilares (que foram breves), que estava "fazendo jus aos antepassados". Vendo a fotografia poder-se-ão retirar algumas conclusões individuais: um idiota em modo carnavalesco, um idiota tout court, um promíscuo homossexual dos anos 80s, um treinador de futebol das "distritais". Ou em termos colectivos, "raciais", um mero semita, qual "seu Nacib" da TV Globo, ou mesmo até um degenerado half-breed (melhor dizer assim, pois linguajar com pedigree de Ivy League, precioso para os esquerdalhos anti-americanos actuais).
 
Enfim, era eu mais ou menos assim (mas decerto que sem bigode), e um dia fui com dois colegas amigos, mais-novos antropólogos, petiscar almoço à "barraca" da Lenine onde o Eduardo White tinha então poiso certo. Quando entrámos ele ainda não chegara mas quem estava era um outro antropólogo, um ainda jovem norte-americano que fizera doutoramento sobre Moçambique. Juntámo-nos e lá vieram as moelas e as 2M, que se acumularam dada a boa conversa que foi decorrendo.
 
Aquele nosso competente colega é um louro (e talvez bem apessoado, ainda que as mulheres tendam a não concordar com os meus raros juízos nessa matéria). Mas não exactamente WASP, que o apelido lhe anuncia ancestrais mais euro-orientais. Porventura acalentado pelo incessante fluxo das garrafas, deixou-se contar a história da sua formação. Nesse rumo botou uma interessantíssima consideração - que eu logo fixei, pois similar ao que ouvira várias vezes de vários mais-velhos moçambicanos, como ao Monstro Sagrado Mário Coluna, ao Zé Craveirinha ou (talvez, não posso afiançar) ao Kalungano, como exemplos. Haviam-me estes contado do seu espanto quando conheceram Lisboa - ou Luanda, onde o paquete fazia escala - e viram pela primeira vez brancos a fazerem trabalhos braçais, como "almeidas" ou engraxadores...
 
Pois, para meu gáudio, o nosso colega narrou o mesmo. Californiano do sul, licenciara-se numa universidade dali mesmo. Depois, ainda muito jovem, partira para Londres para o seu mestrado. E naquela urbe espantara-se porque.... pela primeira vez via brancos na recolha do lixo e outros trabalhos braçais. E ao tal ouvir espantei-me eu também, num imediato "então? mas na tua terra quem é que faz tudo isso?". Ao que ele me disse "os latinos". E logo o interroguei "bem, então eu não sou branco!". Ao que ele, de súbito num ricto deveras atrapalhado mas... já não tinha volta a dar-lhe, sussurrou "não."
 
E todos nós-outros à mesa, que não ele, pois ali a sentir-se com as mãos pelos pés, nos rimos, eu num até desalentado "porra, que já nem branco sou". E os meus amigos num gargalhado "mais-velho, por esta não estavas tu à espera...".
 
E meter o que isto significa nas cabeças das pessoas é muito difícil. Quando as cabeças são fracas. E as pessoas estúpidas.

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[Postal em registo de diário não intimista, para quem ainda me ature. Que leva uma modesta dedicatória à memória de Pierre Bourdieu, bem importante na minha formação e que morreu há 20 anos, exactamente cumpridos há 4 dias]
 
O meu ontem foi de "actividades culturais", nas quais se poderão reconhecer as minhas "disposições" (aquilo do celebrizado "habitus") mas também encontrar opções político-ideológicas, estas mais relevantes de sublinhar em período pré-eleitoral. E aqui as descreverei pois sei que tenho alguns amigos, e decerto que vários "amigos"-FB, que me consideram um pernicioso direitista, vinculado a prejudicar os compatriotas explorados ("desfavorecidos", como dizem os eunucos), os trabalhadores ("colaboradores", dizem os outros direitalhas e... tantos outros ainda que pejados de tiques linguísticos de "género"), aqueles que estão no sopé da "escadaria" social (como ilustram os reaccionários). E quero alijá-los de quaisquer dúvidas sobre essa minha malevolência que ainda os possam atormentar. 
 
À alvorada fui abastecer-me a um mercado municipal, em demanda de víveres frescos. Assim numa postura iliberal, pois aceitando a tutela estatal sobre o comércio. E até (verdadeiramente) socialista, pois eximindo-me ao verdadeiro oligopólio das "grandes superfícies" - as quais, de facto, tendem a constituir-se em monopsónios face a sectores dos produtores nacionais. Almocei um magnífico arroz de choco com a sua tinta, de confecção caseira, opção gastronómica evidenciando um conservadorismo cultural que raia o nacionalismo mais exaltado.
 
À noite vi o Sporting-Santa Clara, atenção futebolística demonstrativa do meu vínculo ao obscurantismo, à alienação do povo, típico da minha adesão às forças políticas mais conservadoras e avessas aos interesses populares. Depois assisti a um precioso documentário sobre Ingmar Bergman, transmitido anteontem (25.1) na RTP2 e disponível na RTP Toca (dita Play, na grafia do socialista-"lusófono" Acordo Ortográfico de 1990), mais uma opção iliberal patente no consumo de uma programação estatal, pejada que está esta de "marxismo cultural" - apesar das características peculiares do tal Bergman. Muito recomendo a quem se possa interessar que o veja, bem como aproveito para recordar aos que podem aceder ao canal privado HBO que neste está disponível um punhado de filmes deste mestre. Estou consciente que estas referências me aproximam de uma postura pedagógica, em tempos própria de uma esquerda fabiana, até mesmo depois transformada em social-democrata.
 
Finalmente, recolhi ao leito onde reli alguns trechos - até devido à memória do belo almoço havido - do "Un homme dans sa cuisine", um delicioso auto-retrato enquanto cozinheiro de Julian Barnes, minha apetência que evidentemente refracta a minha condição de género, homem branco heterossexual e pequeno-burguês (ainda que empobrecido). E depois continuei a minha releitura de "Nónumar", um mimoso livro - muito dedicado ao Ibo - do poeta moçambicano Júlio Carrilho, que há pouco morreu. Opção que decerto demonstra a minha costela neo-colonial, nesta atenção dedicada a uma antiga parcela do Império português, e até, quiçá, uma "nostalgia colonial" epistemologicamente poluente.
 
Tentei então dormir. Mas estava insone, porventura devido à excitação futeboleira. Ou talvez a algum excesso comensal cometido. E fui até ao Facebook, deparando-me com imensas proclamações políticas entre os meus "amigos-FB", alguns reais, a maioria apenas virtuais. Nisso me demonstrando um eleitor fragilizado, produto das campanhas de desinformação que grassam nestas redes sociais, desprotegido da mediação correcta, exercida pelos jornalistas e comentadores avalizados ("anunciados na tv"), e assim propenso a opções direitistas.
 
Muitos falam da (política de) Saúde. É normal que após dois anos desta monumental pandemia, e do monopólio de atenção que esta congregou, este tema seja dominante. É normal, mas não é saudável. Pois escasseiam os debates e as reflexões (para além do "achismo" avulso) sobre os "modelos" (eu prefiro dizer "estratégias") de desenvolvimento deste país estrafegado, pela gigantesca dívida, pela estrutura económica, pela composição demográfica, etc. E assim a política de Saúde torna-se qual um Grand Canyon ideológico, com imensa gente a clamar contra os que querem "privatizar" a Saúde, alguns mesmo falando dos defensores dos "barões da medicina" (imagem literária de antanho), nisso "demonizando" (de facto criminalizando) uma "direita" de pulsões assassinas, até gerontófobas.
 
E assim, já noite longa, lá li mais alguns e algumas clamando contra a maldita direita que quer privatizar a Saúde, invectivando os defensores do "apetecível negócio" que esta é. O que é engraçado é que eu os conheço, pessoalmente. Sei que são quarentões, cinquentões e até sexagenários, sendo há décadas professores de universidades públicas. Ou seja, têm ADSE. Vivem, e fruem, como os grandes financiadores da medicina privada, dos convénios público-privados nesta área. E nunca, mas mesmo nunca, aludem a isso quando saem a terreiro clamando, a teclas juntas e voz exaltada, contra os "liberais", sabujos dos interesses privados na Saúde.
 
Foi então que, já cabeceando sonolento, me lembrei da velha frase de Pierre Bourdieu sobre os cientistas sociais: "os sociólogos têm a tendência de serem sociólogos dos outros e ideólogos deles mesmo". E assim, com a sageza que me é própria, produto das minhas vastas leituras, proferi dois ou três peludos palavrões dedicados a estes "sociólogos" no Facebook. E adormeci, no sono dos injustos (de direita).
 
Hoje, ao acordar, e enquanto sacudia as remelas, ocorreu-me a dúvida: quando (ou se) um dia reencontrar algum destes "democratas" devo dizer-lhes de viva-voz o palavrão que resume o que deles penso? Ou deverei sorrir, alegrando-me num "há quanto tempo, como tens passado?" Sendo assim um hipócrita filhodaputa tal e qual eles o são. No seu quotidiano opinativo. Mas já me conheço, dependerá do dia. E, acima de tudo, se se trata de uma bela amiga ou de um destes emplastros armados em parvo - opção beligerante que, mais uma vez, refracta o machismo estrutural deste tal homem, heterossexual, branco e pequeno-burguês. E que nessa horrível condição segue carregadinho de desprezo por estes hipócritas.

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