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Nenhures

Nenhures

O caso Marega

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Muitos falam sobre o "caso Marega". Quem melhor falou foi o seu treinador, Sérgio Conceição, ao exclamar "isto é uma vergonha, c....!". Quem também escreveu bem foi o meu amigo (e ex-bloguista no ma-schamba) Miguel Valle de Figueiredo no seu mural de Facebook: "Ena! Descobriu-se ontem que há selvagens nas claques de futebol!!!" - e disserta, infelizmente em publicação apenas acessível para as suas ligações, sobre a extensa rede de cumplicidades com este fenómeno de "claquismo", esse lumpen congregado e excitado pelos interesses mancomunados em torno do futebol. Interesses económicos, políticos e da corporação jornalística.

Como estou no blog sportinguista És a Nossa Fé tenho escrito sobre claques - por exemplo, alguns meses antes do "caso Alcochete" botei este "O governo está a dormir" (E continua a dormir), sobre a inactividade governamental face a este fenómeno induzido das claques futebolísticas, e sobre o que disto se pode esperar. E mesmo na última semana tornei a abordar a matéria, premente no Sporting Clube de Portugal. Quem não lê esse blog não compreende a intensidade do que digo: o ambiente dessa gente, e que chega à internet, é abrasivo, de uma violência verbal, intelectual, insuportável. Cada vez que escrevo sobre claques (ou algum dos co-bloguistas o faz) o fel alheio respinga, irracional, odioso, chega-nos em doses até dolorosas. É incomparável com outras áreas temáticas no país. Garanto, é quase inacreditável o conteúdo e o tom dos comentários que recebo quando abordo a necessidade de extirpar isto da organização dos espectáculos desportivos.

Entenda-se muito bem, esta escumalha, sita em várias terras e inúmeros clubes (esta de Guimarães tem fama de ser a mais aguerrida, mas em Braga pedem-lhe meças. A do Porto é horrível, a benfiquista cultua o assassinato de adeptos de outros clubes, a do Sporting é asquerosa e bem sabida a sua tendência para os atentados contra atletas, etc.) está aí, activada. E à mão de semear.

Alguns escrevem mal: o mariola Ventura desvalorizou o caso. E umas horas depois, ao ver os ventos levarem a bola para o outro campo, titubeou um pouco. Ventura é um problema que temos, todos. Ou quase todos, pois há um punhado que o apoia. A nossa vantagem é exactamente esta, ele titubeia, é fraca gente. Viu-se quando, como ele próprio disse, não soube o que fazer diante da saudação fascista do seu apoiante. Vê-se agora no recuo tuiterístico diante da indignação geral. E temos um problema colectivo, nas nossas diferenças, porque o que Ventura e estes amorais que o apoiam - alguns deles tão activos nas redes sociais, outros apenas no blaseísmo lisboeta de apoucarem os opositores desse tralha - querem é este claquismo disseminado na opinião pública, e instalado nos poderes. Talvez mesmo, num dia mais distante, tendo o poder.

E está também muito mal a igreja católica. Quando o padre José Antunes, presidente da AG do vitória de guimarães (em minúsculas, claro), diz que o jogador tem que ir para o psiquiatra, seria importante que a hierarquia da igreja dissesse algo, se demarcasse desse seu membro energúmeno. Mas as horas passam e, fiel à lentidão eclesiástica, o clero mantém-se mudo. Talvez, creio, daqui a umas décadas algum sucessor do cardeal Manuel Clemente, o ilustre Prémio Pessoa crente no exorcismo, se pronuncie. Mas, então, ainda que venha pio tarde piará.

A eutanásia

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Como deveria ser sabido a eutanásia foi uma prática corrente. A estatização da sociedade reduziu-a, tal como aumentou de forma espantosa os serviços médicos (das maternidades aos paliativos, passando pelas vacinas). E espalhou a química. Vivemos melhor, com menos dores (físicas e morais), e muito mais tempo. Com tudo isto muito regulamentado (por legislação, por protocolos médicos).

Dito isto, a eutanásia a ser praticada será sempre nessas condições: muito especiais, previstas e controladas. Não haverá comités populares para acabar com os velhinhos, doutores neoliberais a poupar dinheiro ao SNS, enfermeiras demoníacas a terminar espécies determinadas de pacientes (genderizados, racializados, classificados) ...

A reacção negativa à eutanásia é muito primitiva. Lembra-me aquilo do aborto (perdão, ivg): seguir-se-ia um aumento gigantesco de malvadas mulheres a esventrarem-se, cultuando fetos devastados. Mas ... reduziram os abortos (perdão, as ivgs).

Vivemos melhor? Óptimo. Deixai-nos lá morrer melhor. Em liberdade. Naquilo do livre-arbítrio. Ou, dizendo de outra forma, tende (bom) juízo.

O mito da "União"

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(Postal para  o És a Nossa Fé)

(Há leitores [demasiado] apaixonados pelo tema [e desabituados de ler sobre outras coisas, o que se nota na forma como desinterpretam, invectivam, "julgam"]. São esses que, em não concordando com um texto, logo reagem apenas em função do "sei bem o que é que este gajo quer...". Por isso insisto em convocar o que fui escrevendo ao longo dos anos sobre o SCP. Não é que não mude de ideias, mas é na continuidade do que fui botando que devo ser discordado, desprezado, insultado e não em função desse miserável e corrente "sei bem o que é que este croquette filhodaputa quer ...":

Em 8.6.18 disse-me avesso a Varandas; em 9.7.18 insisti que Varandas não era o homem adequado. Em 4.2.19 apontei a sua falta de ponderação ... que causara "este naufrágio, este descalabro anunciado". Em 29.9.19 insisti que o presidente falhava e que as eleições antecipadas iriam acontecer, mais tarde ou mais cedo. Antes, neste blog, terei sido dos últimos (eu julgo que fui o penúltimo) a apoiar Bruno de Carvalho, ainda que com alguma ironia já desencantada, descrente que ele se reequilibrasse: 10.4.18 #JeSuisBruno. O qual vinha elogiando, como em 5.6.15 por tentar fugir à pérfida economia do futebol. E o qual dissera a personalidade portuguesa do ano em 2013.

Bem antes,  vivendo muito longe, fui vendo como o Sporting ia decaindo num rosário de presidências algo estranhas: a 28.4.06 questionei como podia Soares Franco queixar-se da herança de ... Sousa Cintra. Em 14.3.08. irei-me sobre a rábula do "Projecto Roquette", algo encetado então há quase 15 anos, e que devastou o clube (ainda há pouco li a notícia sobre o início do projecto imobiliário nos terrenos do antigo estádio, coisa que não será pacífica). A 6.11.09 notava a total inaptidão de Bettencourt. Etc.)

Encimo este postal com a fotografia do convívio da Juventude Leonina (que agora, para minha vergonha, um co-bloguista chama em retórica ilusionista "grupo organizado de adeptos"), ocorrido em Fafe, cerca de dois meses após o ataque a Alcochete. Não é necessário grande elaboração. Apenas repetir o óbvio. A crise futebolística e económica que o clube sofre é, em grande percentagem, devida ao indigno e inaceitável ataque que o tal "grupo organizado de adeptos" fez às instalações do clube. Nem discuto se o então presidente teve responsabilidades, directas ou indirectas, nem se os jogadores se aplicavam ou não o suficiente, nem se tinham ou não direito moral e jurídico para rescindir. Digo que o mais antigo e conhecido "grupo organizado de adeptos" do clube, com as suas lideranças participantes, atacou as instalações do clube, agrediu funcionários e causou enormes prejuízos, económicos e morais, ao clube. Digo que meses depois, em confraternização, os outros "adeptos" "organizados" em "grupos" demontraram solidariedade com os agentes dessa acção. E digo que desde então não houve qualquer demonstração de repúdio dessa acção por parte dos "adeptos" que se "organizam" nesse "grupo": nem cisões dentro do "grupo", nem abandonos em massa por parte desses "adeptos", nem eleições internas sob o signo da ruptura. Mais ainda, digo que as suas atitudes nos estádios e pavilhões não têm demonstrando nem repúdio por este passado, nem inflexões comportamentais, nada disso.

Mais, como nos lembrou Paulo Bento, esta pressão agressiva destes "grupos organizados de adeptos" sobre as direcções do clube tem sido constante ao longo já de décadas, com efeitos morais lamentáveis e económicos e desportivos gravosos.

A questão actual fundamental não é se Frederico Varandas é ou não um bom presidente, se é competente ou não na gestão do futebol. Para avaliar se o presidente deve ficar ou se é fundamental realizar eleições antecipadas, convirá saber como estão as finanças e a economia do clube. E se a gestão actual é dolosa. Ou se nessa área tem conseguido, dentro dos constrangimentos conhecidos, conduzir o clube num sentido positivo ("sentido positivo" quer dizer "um bocado melhor do que antes"). Quanto às outras actividades julgo que nada de gravoso se passa. Resta o futebol sénior: onde o panorama é ... algo habitual. Um pouco mais cinzento do que em anos transactos, mas não pior do que em alguns deles. Tudo o resto - como dizer que isto é o pior de que há memória, - não é uma democrática divergência de opiniões, é pura demagogia. Pois não tem base em dados factuais, apenas numa ileitura do passado recente. E do real actual. 

Ontem houve uma manifestação contra a direcção. Faz parte. Há notícias que houve agressões a membros da direcção e a uma familiar. As reacções são tétricas, e mostram o tipo de gente com quem se partilha a paixão clubística: a) alguns dizem que como não há imagens, não será verdade. Ou seja, na cabeça de alguns destes meus concidadãos o que não está filmado não é crível. O que significa isto? Que tenho em meu torno abjectos cidadãos que querem tudo filmado. Isto não é exagero meu. É apenas a reacção ao fedor da bronquidão circundante, de "adeptos organizados" e de "adeptos atomizados"; b) outros exclamam que se é a direcção que o afirma então é uma falsidade. Ou seja, desconfia-se não dos "grupos organizados de adeptos" que têm este historial de violência, intra e extra-muros, mas sim de cidadãos normais que, por paixão, se dedicaram à administração do clube (com alguma falta de jeito para tal, penso eu, mas isso é outra coisa).

Há muita gente, e neste blog também, que continua a defender que é necessário "unir" os sportinguistas, quem ataque os "divisionistas", aqueles a quem repugna a co-pertença desta gente. Só me pergunto, que género de comunhão é possível com este tipo de cidadãos? Que objectivos comuns se têm (ganhar a "taça"?)? Que racionalidade comum se tem? Aqueles que pugnam pela necessidade da união com a malta das catacumbas, dos insultos, das agressões, pugnam por terem os mesmos valores, de algo comungarem com essa turba? Alguns dirão que o valor é o "Sporting" mas seria interessante que explicitassem isso, sem debitarem o lema "Esforço, Dedicação, Devoção e Glória", pois isso é o lema, não são valores. Que comunhão há com esta gente? Gritar ao mesmo tempo quando uma bola entra entre postes? É importante que o explicitem. Um clube é uma associação desportiva, "é-se" de um clube por "associação" voluntária com outros. Que associação tendes com estes holigões, que associação quereis ter com estes holigões, que ideias e práticas comungais com estes holigões? São importantes porque fazem barulho no estádio? "Animam"? Não vedes o resultado, moral, económico, securitário, desportivo, desse "barulho", dessa "animação"?

Finalmente: um blog é um espaço de diálogo. Mas até que ponto é que é aceitável produzir textos, promover o debate entre gente que partilha a paixão do clube, ou a paixão de clubes (temos aí um pequeno núcleo de comentadores benfiquistas, que nos vem cutucar), e ao longo de anos acoitar, e nisso até promover, vozes insanas, adeptas da violência, do desrespeito cívico, da apropriação do património moral e da dissipação do património económico do clube? Qual é a lógica de continuar a aceitar a boçalidade, a agressividade, o insulto, a perfídia caluniosa, e até a ameaça, a aleivosia constante, que alguns continuam a deixar, continuamente, nos comentários deste blog? Democracia não é aceitar isso. Democracia é aceitar que estas gentes, na sua hediondez, têm direito a ter blogs, a neles escreverem. E aí dizerem as baboseiras que os caracterizam, e a pugnarem pelas desideias que os comandam. Ou seja, qual a razão de continuarmos, nós, co-bloguistas, a aceitar este lixo internético neste espaço gratuito, sem agenda interesseira? Porque damos nós palco a isto? Chega.

A censura nas escolas do Brasil

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O naco é tétrico. O governo estadual da Rondónia faz uma lista dos livros que devem ser retirados das escolas por terem "conteúdos inadequados". E dá instruções para maior vigilância docente, para futuro alargamento deste index.

Quanto Bolsonaro apareceu por cá inúmeros o acolheram com satisfação, pois adverso ao PT (partido corrompido, o que muito nos incomodava, dado que portugueses). E por se opor ao "marxismo cultural", esse veneno, de composição alquímica. Aqui no FB esses simpáticos a Bolsonaro continuam a perorar sobre política: dizem mal de Rio, gostam mais ou menos daquele neo-Chicão, (semi)simpatizam com o comentador Ventura, desprezam Cristas, um ou outro simpatiza(ou) com o IL. Lá fora abominam o Macron e aquele inglês perdedor, resmungam Merkel, e o pior de tudo é a "Greta do Ano", Cintra Torres dixit, e cá na terra "a Greta da Guiné", como bolsou uma miserável militante PSD entre as loas a Passos Coelho (pobre homem, com tais valquírias imundas). Para o bem geral, mundial? Trump é que os tem no sítio, Erdogan é um islâmico mas ao mesmo tempo, sabe o que faz ... E Putin, eslavo que seja, é um Estadista. A "Europa" é que nada vale, pois não corresponde ... (a quê não explicam, mas isto do FB não dará para tudo). E no meio disto, de vez em quando, olham ao Brasil: para continuar naquilo do malvado PT, o Bolsonaro é que sim! Até, repito, por causa da luta contra aquilo do "marxismo cultural".

Ora aqui está como agora esta tropa, alguns até "liberais", é recompensada. A lista dos livros a retirar, o index dos marxistas culturais. Entre outros, só conhecidos desses "intelectuais", há gente algo conhecida: Nelson Rodrigues Kafka, Machado de Assis. Até, em delírio radical, Edgar Allan Poe. Isto é só princípio, que outros se seguirão.

E decerto que com estas belas novas muito se humificam as lascivas gretas, fronteiras e traseiras, desta tropa lusa. Nos anseios de que mais dia menos dia ...

 

Os decoloniais e os nomes

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O meu nome? José Flávio. "Flávio" por nome de avô paterno. Para meu desgosto juvenil. E fui "Flávio" até à universidade, só já doutor disso me libertei. Para os amigos? "Zezé". Não "Zezé" porque "bem", "queque" ou "beto" (na velha tipologia que o MEC celebrizou). Mas "Zezé" porque Zés muitos havia e fiquei, aos 10 anos, no Maracangalha dos Olivais, "Zezé Moreira", então célebre treinador brasileiro em breve comissão no Boavista ... E, muito raramente, ainda há quem, olivalense está claro, me chame "Zezé Moreira", assim logo a desfazer-me em serôdio carinho.

O meu nome? Taveira (amputado do seguinte Pereira, por motivos de espúria economia no registo), o lado matrilinear transmontano. Trisavô capitão-mor de Mogadouro, ao que consta, bisavô "centurião de África", morto em Angola pelas sezões na ocupação de um qualquer Uíge, avô oficial do 28 de Maio. E o devido, pois patrilinear, Pimentel Teixeira, também apelido compósito. Origem? Maçãs de Dona Maria, ali para o centro do país, concelho de Alvaiázere. Nome de séculos, parece que um qualquer rústico daquela colina comprou uma carta de armas em meados de XVIII - cacique local, está visto, acontece nas melhores famílias.

O meu nome? Tal como o meu avô o fora Pimentel foi o meu pai, "engenheiro Pimentel" nos serviços, "camarada Pimentel" em tanto do resto. Porque mais raro do que Teixeira, e porque não fez a tropa naqueles seus anos 40s. Mas eu? Teixeira, desde a primeira tarde no Calhau, o alferes de Mafra a vociferar um "Sô Teixeira" isto ou aquilo, pois até aí fora o tal "Flávio" para os que não me "Zezéavam". E desde aí o meu nome? Zé Teixeira, em quase todo o lado.

Mas depois, já em Maputo, tive um chefe, delicioso, que me chamou, quando colérico ou entusiasmado, "jpt". Assim bloguei anos, o Zé Teixeira em Maputo a blogar "jpt". Um dia apareceu-me o facebook, em 2008/9. Criei uma conta para divulgar o blog em nome de "José Pimentel Teixeira" (o FB não aceita iniciais). Pouco se lembrarão disso, mas houve então uma polémica lisboeta, uns ciosos (até bloguistas, e gauchistes, claro está ...) a vociferarem contra os nomes compósitos, "cagança" ululavam ... E eu deixei cair o Pimentel, pois de facto não o uso na vida, só no tal blogal "jpt". E nos seus sucedâneos, nas coisas de teclas. Porquê? Pela tal coisa blogal, um tipo habitua-se a assinar assim ... Mas, aqui entre nós, que ninguém me ouve, também um pouco por cagança, pois de facto o uso da maioria dos compósitos é mesmo isso. Não sempre, mas muitas vezes ...

 

Porquê este longo arrazoado, quase intimista? Li ontem este artigo, "O Padre António Vieira no país dos cordiais", publicado no "Público", vero manifesto da esquerda actual. Contra muita coisa e, nisso, contra a recente estátua lisboeta do Padre António Vieira, coisa do presidente Medina, ao que julgo entender. E concordo, aquela estátua -se fosse importante - não tem ponta por onde se lhe pegue, estetica e conceptualmente, bloguei-o aquando da festarola inaugural.

Mas o artigo tem muito mais coisas, as atoardas contra o nosso passado malvado, como se esse estivesse a acontecer e fosse necessário sustê-lo. Os apelos à destruição das tralhas a que chamamos monumentos, pois demoniacamente colonialistas, como se tudo fosse Palmira, a Idolátrica. E os tão necessários elogios a Katar Moreira e a Ba, como se estes arautos do vento que passa. Opiniões, a cada um as suas ...

Mas o que adorei foi o ditirambo contra uma gente que é o "comentariado tradicional, grisalho e conservador - predominantemente masculino, branco, lisboeta e de uma certa classe social". Depreendo que falem de gente que vai à TV e aos jornais e que não aprecia o dr. Ba e a dra. Katar Moreira. E que não pugna por derrubar estátuas, bustos, igrejas, menires e sucedâneos que por aí abundam, pais afora.

O douto artigo é escrito a oito mãos. Googlei-os, aos donos das mãos: 2 brancos de sexo masculino, 2 brancas de sexo feminino (quanto ao género só eles poderão responder, julgo que esse é o paradigma agora respeitável). Ainda não grisalhos, ao que surgem. Tratam-se de quatro pessoas daqui idas para universidades americanas, nas áreas de ciências sociais e humanas [vamos ser "neo-liberais" e crer naquele vil mito liberal da "meritocracia"?]. E os quatro assinando com ... nomes compósitos.

Mas muito indignados com .... "uma certa classe social".

Isto é patético.

Elísio Macamo sobre Portugal

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(À esquerda Joacine Katar Moreira, então deputada do partido Livre; ao centro de óculos e calças o seu assessor; à direita, com identificação ao peito, o GNR que a escoltou na Assembleia da República, a primeira vez que um deputado português requereu protecção policial nas instalações do parlamento)

O sociólogo moçambicano publicou um texto sobre Portugal, "Ser apenas negra, feminista radical e gaga", incidindo sobre a questão do racismo, seu legado e presente. Isto a propósito do "caso Livre". Infelizmente Macamo escolhe uma via mais fácil (bem diversa daquela que usa habitualmente para analisar com rara profundidade a situação moçambicana - será algo normal, pois a atenção sobre o nosso país ser-lhe-á um pouco secundária). A via fácil? Pega num texto de Sousa Tavares e zurze-o. E daí conclui sobre algumas características do presente português e, acima de tudo, sobre as potencialidades meritórias do movimento agora ex-Livre. Alguns dirão que MST é criticável pois exemplar, por representativo de um pulsar luso agora acometido por Katar Moreira ("Eu sou o incómodo", exclamou ela, biblicamente, há algum tempo). E nisso não deixarão de ter razão, o "Miguel" (MST é um dos "miguéis" que alguma classe média urbana portuguesa da minha geração reclamava como "seus" locutores naqueles 80/90s da CEE) fala e escreve há tantos anos que acaba por representar um médio denominador comum. Mesmo que sinuoso, aparentemente a la carte consoante a semana. Ou melhor, talvez por isso mesmo.

Mas o pontapear, ainda que com a sua usual elegância, do luso-articulista tem alguns custos, por mais abrangente que seja a finta com que Macamo antecede o remate. Assim de repente custa-lhe dois desperdícios, inabituais nas suas reflexões: em primeiro lugar, desconsidera dinâmicas da sociedade portuguesa. Ou, como diziam os antigos (desculpar-me-ão o eurocentrismo etnocêntrico desta in/evocação), arrisca-se a "tomar a nuvem por Juno". E, o que é muito pior, quer inibir o debate, ao reificar os agentes. Que mais pode significar uma tirada destas: "... aquele fosso pós-colonial entre ideias e a prática, um fosso que leva o articulista a esperar que uma deputada afro-descendente tenha que ser perfeita em tudo para ter legitimidade para se fazer ouvir."? Ou seja, porque Portugal foi um país colono, porque vivemos uma situação pós-colonial, estamos vedados a criticar uma política negra pelas suas propostas, seus diagnósticos ou metodologias? A negar a sua demagogia? A assobiar para o lado diante dos dislates? Porque é mulher, negra e gaga (características que ela própria invoca como capital político) as críticas que lhe são feitas derivam de uma exigência à perfeição da "afrodescendente" (parece que agora nós, "latinos", temos que falar e escrever à americana, por isso uso o termo)?

É certo que o texto de Macamo é basto saudado, por intelectuais lusos ou residentes. Pelos que se consideram lúcidos resistentes. É, para eles, um texto bem-vindo a este país, ditatorial. Pois, como dizem, reproduzem ou, pelo menos, anuem, Portugal vive num apartheid. Que nós, portugueses, brancos, pelos vistos cultivamos, reproduzimos, defendemos. Cônscia e/ou inconscientemente.

E se não concordamos com esta aberração demagógica? Com este agit-prop? Com este "fraccionismo", o identitarismo comunitarista, o "velho" "tribalismo" se falando em terminologia mais usual na discussão política moçambicana? O qual é, a um nível mais imediato, apenas uma visão estratégica estadocentrada, sequiosa e mesmo esfaimada de subsídios, a serem geridos in vitro, nas modalidades patrimoniais típicas destes núcleos sociológicos, tão pejados de veterania socratista. E, num nível mais profundo, essencial mesmo, um aggionarmento maoísta e guevarista, na ânsia de produção de raças(e quejandas)-para-si, como se estas motores de uma história à medida dos anseios destes intelectuais oníricos, presos a pulsões de heroicidade.

Macamo, de longe e elegantemente, alheio à sociedade portuguesa, dir-nos-á oriundos de um magma "póscolonial", disso frutos. E, quiçá, vítimas, pois seguindo numa bruma, algemados ao "inconsciente histórico" colonial. E não perceberá, por desinteresse, porque está feito o seu ombrear, o seu "número" entre "pares", quão diferente é o seu rumo analítico sobre o seu país, provocatório pois complexificador, problematizador, inquietador, e verdadeiramente inquieto, do que estas simplificações a la carte, interesseiras e espaventosas, a que agora decidiu associar-se.

E não notará, porventura, que entre estes demagogos histriónicos alguns são mulheres mas outros não, quase nenhum é negro, pelo menos com visibilidade pública (há apenas um, Ba, que defende a instauração de "policiamento comunitário") e não se conhece outro gago para além de JKM (a qual defende a instauração de "comissários políticos" nos serviços do Estado). Ou seja, Macamo desencontrar-se-á com o facto de que aqui não se está a exigir perfeição à preta (e gaga) para que ela possa falar, como ele atrevidamente reduz. Onde "mulher, negra e gaga" são argumentos próprios desta tropa, e não invectivas alheias. Que o que se passou e passa com esta mulher é uma vilania rasteira. Por iniciativa própria. E que estamos num debate político onde Katar Moreira é a cara de perspectivas peculiares, anti-democráticas, secundada por um conjunto de "intelectuais orgânicos" radicalmente demagogos. E estamos num debate poluído pois quem grita demagogias colhe demagogias. E é esse lixo demagógico adverso que procuram incentivar, crendo-o estrume da sua luta.

De quando em vez, um determinado autor francês, veterano investigador sobre Moçambique, publica algo  na imprensa moçambicana. E é usual  Elísio Macamo surgir a refutá-lo. Assim como se lhe criticando um "atrevimento", ou um "simplismo", sorrio eu. É mesmo recorrente que entre nós, alguns leitores, comentemos "haverá algo de pessoal naquilo?", mas é provável que não haja, será mesmo apenas o crivo crítico particularmente acerado. Percebo-o agora melhor, a Macamo. Naquela sua irritação. Que agora é a minha. Nesta exigência, irritada, patriótica (coisa que Macamo compreende e respeita, mas que estes agit-propeiros  portugueses tanto desprezam, idólatras que são de todas as "identidades" excepto da nacional, da qual são iconoclastas), de que quem escreva sobre o meu país seja tão profundo e analítico como quando escreve sobre o seu próprio. Ou então que fale de pataniscas de bacalhau e de vinho verde. E do nosso Sporting.

 

Porreiro, pá!

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Há uma gripe lá na China, morrem uns chineses, preocupam-se uns chineses, andam aflitos os sacaninhas dos chineses? "Porreiro, pá", que ainda iremos fazer uns cobres, aumentar as exportações para lá ...  É isto a nossa ministra da agricultura. Onde vai o PS encontrar estes tipos? Sim, mesmo sendo eles, onde conseguem desencantar este tipo de gente?

Lisboa Jardim

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Jardim Lisboa: vamos ter uma cidade mais ecológica, mais ajardinada, mais bilhete-postal. Como contestar?

Leio que haverá ciclovia na Almirante Reis. Já vejo os lisboetas pedalando avenida acima, uns virando à Graça, outros do Areeiro descendo (e subindo) a Moscavide e por aí ... Acho muito bem. Muito saudável. Muito moderno. Muito Medina, digamos assim.

Entretanto: anteontem, sexta-feira, eram 19.57 quando entrei na estação de metro dos Anjos. 6 minutos para comprar bilhete, pois apenas duas máquinas e meia dúzia de pessoas na habitual atrapalhação de quem não as conhece. Depois 9 minutos para o comboio. Saí na Baixa-Chiado. Aguardei 7 minutos pelo comboio. Chegou, entrei. E aguardei que arrancasse. 2/3 minutos. Na estação seguinte idem, estancado. Na estação seguinte idem. Saí no Marquês. Esperei 7 minutos pelo comboio. Lá aportei ao Rato. Entrei no restaurante, passando já do "um quarto para as nove" e os amigos a protestarem, risonhos, com o meu atraso. Ansiosos por me verem? Ou, como eu, a resmungarem: a pé tinha(s) chegado mais depressa? Pois dos Anjos ao Rato de metro levei mais de três quartos de hora ...

Jardim Lisboa, como contestar o iluminismo do dr. Medina, a cidade-bilhete-postal? As ciclovias avenidas acima e abaixo? Os eixos pedonais? Os etc. e tal?

O CDS

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A primeira vez que li falar do novo presidente do CDS foi na sexta-feira véspera de congresso, no mural-FB de uma amiga (real) que é dirigente do partido. Demonstrando o seu apoio àquela candidatura. Por maioria de razão nunca ouvira falar do senhor que nesta fotografia está, com notório vigor, ao lado do novo líder. E só dele tenho eco nesta semana. Vejo que não se trata exactamente de um jovem, assim deduzindo que há meia dúzia de anos já não fosse um adolescente radicalizado semi-inconsciente.  Ou seja, é medianamente responsabilizável - como qualquer um de nós, "homens e as suas circunstâncias" - pelo que então dizia. Leio agora que este vigoroso político, eleito dirigente nacional daquele partido, é apreciador da "competência" da PIDE e nada aprecia a memória do "agiota" Sousa Mendes.

Interprete-se bem isto, não se trata de anti-semitismo (o enérgico político até lamenta a extorsão de que teriam sido alvos os judeus às mãos do diplomata português). A aversão a Sousa Mendes é um traço típico, houve e há quem assim pense, assente numa razão: o homem, por razões da sua consciência, violou as instruções de Salazar. Nem sequer discuto a pertinência da "razão de Estado" que conduziu o Estado Novo de então, a tudo fazer para que não fosse o país palco daquela guerra. E nem sequer apelo ao extenso rol de democracias instituídas que então tão pouco solidárias foram com o êxodo judeu. Apenas digo que o governo de Salazar não quis acolher fluxos de refugiados judeus - ainda que bastantes tenham chegado. E que Sousa Mendes recusou essas instruções. A "História" (ou seja, as sensibilidades actuais) deu razão a Sousa Mendes. Mas, para alguns, refutar - ainda que assim, naquela pungente realidade - as instruções de Salazar é ainda hoje motivo de menosprezo. De opróbrio. E de calúnia - aprecie-se ou não a acção de Sousa Mendes, parece claro que não actuou com objectivos económicos, não foi "agiota" como invectiva tão a posteriori o adulto vigoroso político..

Dito isto, ao ler que um homem destes está na actual direcção do CDS tive o reflexo normal num tipo medianamente informado e relativamente decente: o CDS está a cavalgar a vaga actual de reforço do populismo de direita, a "fascistar-se", a querer competir com o fenómeno venturista, e deitar mão do piorio que por aí há. Lamento, claro, que esse seja o rumo do partido de Lucas Pires, de Adriano Moreira, de alguns outros dirigentes históricos, de gente respeitável (como o é a minha amiga a que acima aludo). Sombrios sinais dos tempos.

Depois, ontem, li um excerto citado no FB de um artigo de Rui Ramos. Afinal o tal fascistóide já estava na Comissão Política anterior, de Cristas, e ninguém, no seu partido, na imprensa, no "redessocialismo", se importava. Entenda-se, o vigoroso membro da Comissão Política do CDS entretinha-se com loas (que agora foi apagar) à PIDE e a Salazar.

Bem antes de Ventura, bem antes da propalada "vaga populista" (de direita). Afinal, é apenas o CDS. Este lixo.

 

A reversão do património cultural africano

O partido LIVRE - do historiador Rui Tavares (ex-coligação trotskistas/estalinistas/maoistas) e do advogado Sá Fernandes (ex-candidato do MDP, ex-membro do governo PS, aquele partido do "socialismo democrático/social-democracia") e que como tal diz surgir com a inovação de ser esquerda que nada tem a ver com o marxismo - acaba de propor a devolução do "património cultural" aos países africanos.

Eu sou tintinófilo. E como tal nada me choca a ideia. Cresci com ela. [Sim, eu sei que há antropólogos aldrabões e outros funcionários públicos intelectuais ignorantes que dizem ser Tintin obra racista, bem demonstrando a sua desonestidade demagógica]. Só me pergunto a que dinâmicas externas e internas é que responde esta proposta parlamentar e quais as condições da sua realização. Pergunto-me e respondo-me. Isto é demagogia pura do advogado Sá Fernandes e do historiador Rui Tavares. E da tralha restante que os acompanha. Entenda-se, entre outras coisas, trata-se de (mais) um advogado aldrabando na vida pública.

E mais, para não entrar em detalhes mais "técnicos" e políticos sobre esta questão do património e da museologia: o Partido LIVRE (dos tais importantes e ponderados cidadãos, em especial do referido Ilustre Causídico) quer comissões de devolução desse património constituídas por "activistas antiracistas". O Dr. Ba, deles compagnon de route, propôs há tempos a instalação de "policiamento comunitário" nas cidades. Agora o dr. Sá Fernandes e o historiador Tavares avançam com a ideia da activação de "comissários políticos".

E a gente não os pode insultar. Tem até que os tratar como "democratas". Há até gente que lhes soletra os nomes. E há mesmo quem respeite, tipo "Doutor Sá Fernandes". Que gente ...

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