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Nenhures

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Às oito e um quarto soou o apito inicial. Logo nos primeiros minutos houve uma oferta da defesa do Moreirense e o Sporting inaugurou o marcador. Bons augúrios. Pois se é certo que o Sporting está pujante - há 50 anos que nenhuma equipa marcava tantos golos, é evidente que o jogo flui, nisso Trincão reassumiu-se, e também o jovem Quaresma recuperou o estatuto de "muito prometedor", o sueco avançado é um verdadeiro achado, o médio dinamarquês é bem mais do que se esperava, Gonçalo Inácio está soberbo, o "nosso" Catamo pegou de estaca, Adan não está como no ano passado ... -, o Moreirense vem fazendo um bom campeonato e sempre se teme uma escorregadela em qualquer "terreno difícil". Ainda por cima porque o malvado Benfica também está forte, com avantajada panóplia de recursos. Enfim, cinco minutos estavam decorridos e o sempre difícil primeiro golo estava alcançado, a repousar a equipa, assim mais disponível para explanar o seu jogo. E nos minutos seguintes viu-se que estava mandona, ciosa de si, empurrando os de Moreira de Cónegos para o seu último reduto, com pressão alta, muita posse de bola num jeito quase turbilhão. A sossegar o adepto no sofá, tão esperançoso nisto do "este ano é que é". Apesar do tal Benfica...

Por tudo isto às 8.30 passo o canal para a outra peleja, o combate, perdão, o debate entre o capitão do PSD, perdão, AD e o capitão do PS. Para "Meia-hora" daquilo, "Vê-se o debate, que demora a primeira parte do jogo e depois volta-se, até durante o intervalo". Entretanto telefonara-me um amigo sportinguista, mesmo já durante o jogo, por coisas cá nossas, e anunciara-me estar o Capitólio cercado por polícias arruad(c)eiros.

Chego ao evento e deparo-me com algo diferente do que esperava, quase um Super Bowl politiquês. Haviam-se congregado as três estações televisivas generalistas, num verdadeiro espavento, deslocadas para o tal "Pavilhão dos Debates" e o embate previsto para uma duração de uma hora, afinal! Ou seja, a de serviço público e as outras com alvará público para emitirem, delineam um modelo de debate eleitoral que reestabelece o velho primado da "bipolarização", como se esta uma realidade virtuosa, esse aldrabismo que os fazedores de opinião propalavam há décadas. Consagrando - e nisso reproduzindo - um "estatuto preferencial" para o PSD e para o PS. Como se isso seja uma realidade "natural", geológica até, e assim autojustificada.

A árbitra Clara de Sousa fez soar o apito inicial e logo Montenegro, campeão da sua causa, foi ao tapete. Pois perguntado sobre o que pensava daquela policiesca ululante que os circundava mostrou-se para com ela muito compreensivo, fazendo nisso lembrar António Guterres titubeante, e de lesto passo atrás, diante da arruada dos produtores de vinho, nesse então dispostos ali ao Terreiro do Paço reclamando contra a redução da taxa de álcool permitida aos condutores. O que lhe valeu um KO técnico, como estarão recordados alguns dos mais antigos... Logo, lesto, Santos assumiu-se como vigoroso estadista, situando que há limites no entre as "quatro linhas" da democracia, rijo num que "não se governa sob pressão", no fundo reclamando ordem unida à polícia. E nisso fez lance de três pontos, como no basquete. Depois seguiram-se 55 minutos de "você lá, você cá", entre chutos para a frente com previsões económicas salvíficas, futebol de praia sobre promessas aos "jovens" para que estes não emigrem, e um catenaccio ríspido dedicado aos pensionistas ("como reformar um país em que os governos tanto dependem dos velhos eleitores?", mastiguei eu enquanto me servia do pacote de vinho, um decente Palmela a preço apetitosíssimo).

Disso tudo ficou-me na retina uma bela ida à linha, seguida de cruzamento bem medido, em que Santos proclamou que com ele não se patinaria, ao contrário dos anteriores governos socialistas - nisso invectivando os modelos de jogo instaurados pelos antigos treinadores Costa, Sócrates e, decerto, Guterres. Assim como se proclamando "eu sou o Rúben Amorim do PS". E entretanto prometeu que nos próximos tempos o seu partido iria estudar as "áreas económicas estratégicas" para as quais será dirigido o investimento público. Assim recordando-nos que o PS está, grosso modo, no poder há trinta anos e, ainda mais, de modo seguido nos últimos oito - nos quais ele próprio governou, ao que parece um pouco a contragosto. E que nesses longos períodos não conseguiu descobrir quais as tais "áreas estratégicas" preferenciais. Do outro lado Montenegro optou pelo jogo de repelões, com algumas entradas duras, para meter o adversário em respeito, num arcaboiço técnico que me lembrou o seu (quase) conterrâneo Paulinho Santos. Ou, para ser mais actual, o geniquento e bem sucedido molde táctico-comunicacional do nortenho Sérgio Conceição. 

Tudo aquilo demorou - o tal desplante das estações televisivas - e terminou já a meio da segunda parte do confronto de Moreira de Cónegos, tendo encontrado o Sporting a ganhar por 2-0, e decorrendo o jogo em modo modorrento. "Este ano é que é", para o Sporting? A ver vamos, que será bem bonito se tal for. Depois caí à cama.

Hoje, na alvorada, "busco" notícias sobre o embate do Capitólio. Os comentadores dão notas aos contendores, como se tudo aquilo integrasse o velho Prémio Somelos-Helanca do "A Bola", quando o jornal existia. Os tipos do Sporting dizem que o Sporting ganhou, os tipos do Benfica dizem que o Benfica ganhou. Os tipos do Porto estão calados. E ainda não há notícias sobre as punições aos polícias que invocaram "doença" para faltarem ao Famalicão-Sporting. Nem sobre o despedimento dos médicos que lhes passaram os atestados médicos fraudulentos.

Para a semana vamos a Vila do Conde, mais um "campo difícil", o sempre codicioso Rio Ave. Lá para Março votar-se-á.

(Postal para o Delito de Opinião)

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(Escola Secundária dos Olivais, nos anos 1980s, agora chamada Eça de Queirós e reconstruída)

Consta dos anais familiares que o filho do casal Pimentel sofreu de uma agudíssima nefrite aos seus três anos, causando angústia familiar. Já na convalescença o seu pediatra, o consagrado doutor Abílio Mendes, - que o petiz viria, alguns anos mais tarde, perceber como o homem diante do qual o seu pai assumia a pose mais respeitosa, numa mescla de agradecimento pelos dotes médicos e de anuência à sua postura avessa à "situação" de então -, o doutor Abílio Mendes, dizia, recomendou que a criança fosse criada o mais ao "ar livre" possível. E assim quatro anos feitos foi inscrito no Colégio Valsassina, tanto pela (vera) excelência do ensino ministrado como pela esperada robustez advinda dos ares da magnífica Quinta das Teresinhas. E assim, enquanto os homens novos da sua família partiam para as guerras d'África, medrou, mais ou menos viçoso, jamais o último do  pelotão (excepto na traumática mesa alemã, nessa ex aequo com alguns outros coxos medrosos), e nem tanto o primeiro na meta ou no quadro de honra e louvor... Nas vésperas do então notório exame da 4ª classe irrompeu o saudado "25 de Abril" e subsequente imensa agitação. Poucos dias após a "intentona" da "maioria silenciosa", já sem bibe e calções, o rapazola avançou até ao andar térreo do edifício dos "grandes", para cursar o Ciclo Preparatório, o qual cumpriu ali resguardado do PREC circundante.

Depois, Constituição aprovada, "normalidade democrática" (enfim...) encetada, e após oito anos de permanência naquele ninho de saber, ao tal filho do casal Pimentel foi dada paterna "guia de marcha" para se apresentar, logo que possível, na Escola Secundária dos Olivais, então a inaugurar. Para cumprir o obrigatório rumo de encetar o ensino secundário, o então chamado 7º ano. Como o festivo evento estava atrasado o rapaz ainda fruiu o seu Colégio até Janeiro, quando, finalmente, a novel Escola oficial estava pronta e encetou o ano lectivo, pujante no seu chão de material tóxico que alguns anos depois seria substituído.

O menino sentiu a transferência como um descalabro. Deparou-se com um compósito social assustador, a pequenada da zona oriental daquela Lisboa, com a insurreição discente - da qual, alguns anos depois, se tornou agente activo, forma óbvia de se integrar e afirmar - e com a impotência docente. E com pormaiores impressionantes, como o nunca mais ter tido Educação Física, dada a inexistência de um pavilhão ou mero espaço disponível. E da ausência de quaisquer actividades extra-curriculares, às quais estava habituado, ali resumidas a espontâneos campeonatos de flippers na fronteira tasca do Sô Álvaro, onde corriam também taças sub-15 de "submarinos" (o cálice de bagaço dentro das "imperiais"), e as maratonas de ganzas, então fumadas em cachimbos de prata (os invólucros dos maços de tabaco). Tudo isso causou efeitos tremendos nos hábitos laborais e na aprendizagem curricular - ainda que alguns anunciados falhanços fossem ultrapassados  pela intervenção doméstica do paterno engenheiro, se em questões "científicas", e da materna (e bilingue) professora, se em questões linguísticas, isto para além dos laivos colhidos na biblioteca caseira. Pois o capital cultural familiar reproduz a estratificação social, aprenderia depois o já pós-adolescente quando estudando ali ao Campo Grande...

Um dia, mais tarde, já homenzito, chaves do Fiat 600 no bolso, cigarro na mão, o filho enfrentou o pai "com que propósito é que me tiraram do Valsassina?, é que aquela escola era uma catástrofe!". O Camarada Pimentel sorriu - naquele seu sorriso algo desanimado diante do mundo imperfeito que não se aperfeiçoa à velocidade tão desejada. E resumiu "Não queríamos que fosses um menino de colégio!"...

O filho do casal Pimentel cresceu. E até amadureceu. Estudou antropologia - "nos Olivais, não ali ao Campo Grande", faz sempre questão de dizer. Depois envelheceu, empobreceu, ensimesmou. E nisso tudo nunca foi um "menino de colégio...".

Obrigado Camarada Pimentel. Obrigado Pai António. Obrigado Mãe Marília.

(Lembrando tudo isto: nesta nossa continuada "normalidade democrática" o político "já-não marxista" Rui Tavares tem a descendência em boas escolas privadas, como refere o Paulo Sousa? Não vejo problema, não vejo contradição radical entre defender uma boa escola oficial e dar o melhor enquadramento possível aos filhos. Nem todos têm de seguir as mesmas concepções de paternidade. E não confundamos a esfera pública e a privada. Pois o problema é o da demagogia nas posições e o da irrealidade das propostas. E o LIVRE é um partido muito demagógico. Nisso até melífluo. Tenhamos fé que as boas escolas façam medrar melhores cidadãos entre as futuras gerações.) 

Adenda: não quero provocar ou alimentar polémicas. Mas somando ao que disse escreve-me um amigo, após ler o postal, chamando a atenção para que a mulher do político do LIVRE é uma diplomata. Se outra razão fosse necessária - que julgo não ser - para justificar a colocação dos filhos em escolas de ensino internacional, privadas sempre, esta seria mais do que suficiente. 

(Postal no Delito de Opinião)

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Na Universidade Católica as suas associações dos alunos de Estudos Políticos e de Direito promovem um ciclo mal intitulado "Conversas Parlamentares" - porventura alçando-se a constituírem elas próprias um parlamento, através da elisão de um simples "com...". Enfim, petulâncias juvenis que fazem parte do crescimento.

Esta semana convidaram o parlamentar André Ventura, o qual acedeu a participar. Como basto noticia a imprensa, um jornalista do Expresso foi trabalhar a essa actividade. Alguns estudantes - decerto que com alguma participação na organização - decidiram expulsar o jornalista. Apenas o "removeram", afirmam, com desfaçatez sob caraça de candura. Ou seja, agrediram-no: impediram-no de fazer um legítimo ofício, agarraram-no e puseram-no fora da sala.

A tentação de acusar o inflamado orador Ventura logo vingou na imprensa. Acusam-no de não ter evitado a situação - o que não lhe competiria, pois ali convidado, ainda que pudesse ter matizado os ânimos estudantis se deles tenha tido percepção, até dado o seu estatuto professoral para além de político. Acusam-no também de ter um segurança que mandou uma "boca" ao jornalista. E acusam-no até de antes ter escrito no actual "X" que é preciso meter na ordem os jornalistas - associando-se nessa vertigem ordenadora ao seu presidente parlamentar, Santos Silva, que antes apelou a que pusesse na ordem os do Ministério Público. E esse desígnio de Ventura nada inova entre os seus pares, pois é consabida a tradicional vontade dos incumbentes em impedirem as "perguntas do Correio da Manhã...".

Julgo que neste caso o afã condenatório sobre Ventura - como se não houvesse outras suas diatribes passíveis de serem apontadas - não vinga. Não só por ter sido um seu assessor que "safou" o jornalista, isto para além de ter sido o próprio partido a divulgar/convidar a imprensa para acompanhar a actividade. Mas porque o relevante aqui é a atitude intelectual dos estudantes.

A Universidade Católica tem fama de ser uma instituição de excelência. Como tal é deveras surpreendente que os seus alunos  - ainda para mais participantes nas organizações das suas associações de estudantes, o que não implicando serem dos "melhores alunos" os indicia como empenhados e atentos - de Ciência Política estejam imbuídos de tamanha aversão pela democraticidade da sociedade, que tem como item fundamental a liberdade de informação. Demonstrada não só no episódio até rocambolesco da "remoção" do jornalista em causa, mas mais ainda no atrevido propalado propósito de organizar sessões com políticos fechadas à imprensa. É este tipo de gente que a Universidade Católica licencia em Ciência Política, é este o ambiente intelectual que os currículos e a docência de Ciência Política na Universidade Católica promove? Mais ainda, é este tipo de organizações públicas fechadas à comunicação social que o Instituto de Estudos Políticos induz e acolhe? Quase o mesmo se poderá dizer quanto aos estudantes de Direito - ainda que o vínculo  das Ciências Jurídicas com a democraticidade não seja tão linear como o é o da Ciência Política vigente em regime democrático. Mas neste caso há outra dimensão, pois o que se assiste é que os estudantes de Direito da Universidade Católica se dedicam, sem pruridos, a violar a lei nas instalações da sua universidade. E não se trata de ilegalidadades do foro privado, meros deslizes pessoais, aquilo dos "vícios privados, públicas virtudes". Pois estamos diante de "vícios públicos", crimes públicos, isto de um "arreda" ao jornalista, de o "sacudir". Dá a sensação de que algo de podre está naquelas docências, a promoverem estas consciências...

Quanto ao resto, notei uma minudência a caminho de majordência: foi noticiado que um dos rapazolas mais vigorosos na sacudidela do jornalista é militante da... IL. Talvez conviesse apurar a veracidade disso. E caso seja verdade que alguém pondere se tais actos são ... liberais.

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1. Um amigo envia-me o artigo desta semana de António Barreto, também embrulhado num "lê". Clarividente sobre o PS este "Santos e diabos. Polícias e ladrões" que o autor, como sempre, colocou também no blog Sorumbático.

2. Enviaram-me o artigo dizendo-me "lê". E eu li, a coluna de Clara Ferreira Alves no Expresso desta semana. Texto algo escatológico. E que (também) deixa isto: "o Congresso do PS foi um festival de onanismo".

Expresso

3. Ao final do dia é uma jovem portuguesa, mais do que potencial emigrante, que me chama a atenção para uma notícia no "Expresso" - sabendo ela que eu não leio o jornal, nem mesmo o folheio. Diz-me ela que pela sua experiência - os conhecimentos da sua geração - deve até pecar por defeito essa perspectiva de que 30% dos jovens (até aos 39 anos) já emigraram.

O que seria inacreditável - se a realidade não nos obrigasse a acreditar nisso - é que nos últimos 30 anos praticamente só um partido governou. E o fruto deste regime, do conjunto de políticas económicas mais ou menos (des)articuladas que esse partido vem executando, é isto. E não só a sociedade, conservadora, envelhecida, timorata, continua a nele votar como nos seus agentes acredita. E continuam a dizer, tantos os seus avençados como os seus adeptos pagadores de impostos, que a emigração foi no tempo do ... outro (já agora, esse outro que governava um país esmagado pelos constrangimentos do FMI/BM/UE, dada a crise que governo anterior muito alimentara).

O grau de inconsciência dos portugueses - melhor dizendo, dos portugueses que por cá ficam a residir - é incomensurável.

(Aqui junto postais que coloquei no Delito de Opinião: 1, 2, 3)

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O Novo PS

Nestes anos de após-socratismo - a que alguns chamam, por errado e preguiçoso comodismo, "costismo" - teve sucesso mediático o deputado Sousa Pinto. Justiça lhe seja feita, é homem dotado de excelente verve, timbre algo desalinhado e pensamento notoriamente articulado, e em assim sendo Sérgio Pinto grassou na comunicação social como "comentador político". E nisso teve momentos excelentes, até antológicos - como aquando daquela monumental arrochada na criatura do LIVRE, convocando a memória do tempo em que esse Tavares (bem como a "simpática" Matias) eram coordenados por um antigo STASI. E quem viu a cena lembrar-se-á do ar estuporado do tal Tavares, o então já antigo inventor da deputada Moreira, tornando o episódio uma verdadeira delícia. Mas o sucesso e apreço colhido por Sousa Pinto junto de um eleitorado sito à direita do PS não veio apenas do garbo das suas "performances", mas sim da referida aparência algo desalinhada, do tom crítico, às vezes até altaneiro, para com o seu próprio partido e respectivos governos. Coisa rara nos tempos que correm, em particular no PS, em que década após década se veio instalando um crescente "centralismo democrático" na expressão pública dos seus militantes. Assim Pinto instaurou-se, talvez até apesar de si-mesmo, como um símbolo não apenas de uma consciência crítica no PS mas também como da expectativa de haver possibilidade de um diálogo, confrontacional que seja, com um partido que no restante é feito de avençados e de intelectuais "orgânicos", de gentes quais os Morgado Fernandes (o gajo do "Super-Marta") e Santos Silva (o "parolo" da AR, não o amigo do antigamente...).

Sempre sorri um bocado diante dessas expectativas, pois apesar do prazer tido com algumas das suas airosas e até pertinentes saídas, fui-me lembrando ser ele "em tempos o agitado inventor das “causas fracturantes” agora tornado xuxu dos salões do centro bem-pensante, encantados com a verve do homem em avatar crítico". Ainda assim, e para evitar desesperanças extremas quanto ao futuro do maior partido português, esse que governou o último quarto de século, fui ouvindo de quando em vez o que o homem dizia. E quando Sérgio Almeida Correia aqui publicou um louvor a uma sua recente apresentação na Associação Comercial do Porto fui ouvi-la por inteiro. E saudei as declarações, tendo até comentado o meu agrado com um socialista que disse "não sendo um liberal tenho de fazer um caminho comum com os liberais", um pouco como penso, pois não sendo um furioso liberal (económico) julgo relevante um olhar liberal para a nossa sociedade, e saudável ouvir isso de alguém de um partido em que tantos preferem "caminho comum" com os "amigos e camaradas" estatistas-marxistas. 

Passados estes meses o PS atrapalhou-se com mais um ciclo de histórias provenientes do seu âmago socratista. E escolhem o patético (e estatista) Pedro Santos como líder. O antigo jovem das "causas fracturantes", de que Soares tanto gostava? O tal xuxu socialista do tal eleitorado "centrista"? Está vigoroso adepto de Pedro Santos. Com as suas propostas económicas e a sua praxis governativa.

Este é o novo PS que vamos ter. Espero que pelo menos as audiências televisivas dos painéis de comentário político baixem... Pois não há mesmo nada a esperar destes tipos.

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As Crianças na Política

Uma querida amiga, de esquerda - até eleitora do PS, que não há bela sem senão - envia-me por telefone esta fotografia (que encabeça esta notícia sobre o recente congresso do PS). Está ela um pouco incomodada, parece-lhe uma novidade no comércio ("marketing") político daquele velho partido, com o novo secretário-geral a agitar o filho, usando o petiz para convocar simpatias...

Enfim, eu apenas sorrio. E lembro-me de que há poucos anos, na alvorada da Iniciativa Liberal, um pequenino grupo de militantes daquele partido foi-se a uma "arruada" - como se vem dizendo -, distribuindo panfletos, apresentando o partido. Nas imagens televisivas viu-se o que se passava, uma vintena de tipos, para aí, burgueses ("um partido de quadros" será, assim o dizem...), alguns com aparência de constituirem casais, todos com o ar da alegria vinda da inexperiência nesse tipo de actividade. Era fim-de-semana, alguns levavam os filhos, miúdos, em verdadeiro "passeio de família". Estes entusiasmados com o afã dos pais até terão carregado os folhetos e mesmo entregue alguns...

Logo depois à "esquerda" - nas redes sociais e talvez até na imprensa - choveram dichotes e até impropérios contra aquela... utilização das crianças na política. Coisas (pérfidas) das gentes da "direita", apuparam.

Agora? Pedro Santos leva o rapazola impúbere para o palanque, a encantar a militância com a sua encenada faceta de "pai tão querido"? Ninguém pia. "Porca miséria", esta hipocrisia dos bem-pensantes.

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A Besta é a Direita

O Diabo, a Besta, é a "direita", disse Costa no recente congresso partidário, feito patusco na sua (pouco) aparente despedida às massas socialistas - após o seu estampanço provocado pelo "casinho" de ter o seu homem de extrema confiança sido apanhado com umas dezenas de milhares de euros escondidos em livros na antecâmara primo-ministerial ("e é preciso saber de quem é esse dinheiro", casquinou na televisão Ana Gomes, essa grande apoiante de Pedro Santos).

Há alguns dias o Paulo Sousa deixou aqui um avisado postal com o tétrico rol das guerras em curso, precioso para que sacudamos o torpor de uma espécie de eurocentramento, de monopólio de atenção nos conflitos que nos são mais próximos, geográfica, económica e culturalmente, na geoestratégia europeia e na geoafectividade individual. E, assim, também influenciando as formas como nos situamos politicamente, e avaliamos os nossos agentes. Pois as posições assumidas pelos nossos políticos face às guerras na Ucrânia e Israel nos são mais relevantes do que aquelas que proferem sobre a República Centro-Africana - apesar de lá termos tropas -, Moçambique - apesar de lá haver uma relevante comunidade portuguesa e das relações históricas e da CPLP -, Iémen ou outro qualquer lugar.

E nesses conflitos que nos são mais relevantes não costuma haver muitas dúvidas nas formas como se classificam os contendores. É certo que comunistas e fascistas portugueses defendem que a culpa da guerra russo-ucraniana é das democracias "ocidentais", os EUA e a UE em particular, utilizando eles retóricas múltiplas para expressar desprezo e oposição à autonomia dos países - a Ucrânia, neste caso - nas suas políticas de aliança, e nisso desprezivelmente consagram o "direito de ingerência", tópico (brejnevista) que perseguem desde os anos 1970s, quando o Tordesilhas dos blocos ideológicos foi posto em causa pelo já velho Acordo de Helsínquia. Essa vilania analítica vem sendo embrulhada de díspares formas, desde o atrapalhado modo como a futura professora do ISCTE Mortágua subscreveu o argumento hitleriano do direito ao "espaço vital" dos Estados imperiais até ao ademane "realpolitik" dos (neo)fascistas intelectualizados. E é também certo que alguns, poucos, mais atreitos às tais democracias "ocidentais", balbuciam o carácter fascista (islâmico) do agressor Hamas, e vários recordam as dinâmicas geoestratégicas que terão promovido a inesperada acção original da actual guerra em Israel, que muito ultrapassam a "questão palestiniana".

Ainda assim para o comum do mortal algo politizado e crente na vigente topologia ideológica europeia é difícil não concordar com as formas gráficas como se qualificam os poderes russo e israelita. A Rússia é uma sociedade capitalista sob um poder autocrático, uma ditadura com encenação democrática, com opositores presos e assassinados, evidentes limites à liberdade de imprensa e de associação, e que de modo sucessivo violou militarmente tratados internacionais - algo que os fascistas actuais justificam moralmente devido ao pretérito silêncio das tais para eles repugnantes democracias "ocidentais". Ou seja, Putin e seus apaniguados têm todas as características usualmente atribuídas à "extrema-direita". São, nos termos de António Costa, o Diabo, a tal Besta Imunda.

Já Israel é uma sociedade democrática. Que dirime a questão de Gaza (e não só) violando os preceitos da equidade vigentes e exigíveis nas democracias e viola consistentemente as proclamações das Nações Unidas. Sem pruridos formais, é um Estado fora-da-lei, prisioneiro da complexidade da sua situação mas oscilando desde há décadas entre perspectivas internas diferentes sobre a resolução daquele nó górdio. Até há meses seria pacífico considerar o seu primeiro-ministro Netanyahu um homem da direita, o tal Diabo de Costa, na forma como geria o seu país e as relações com os palestinianos. E esta forma desabrida, desumana, revanchista como vem actuando militarmente mostra-o de acordo com a tradicional imagem da "extrema-direita", alheada dos direitos humanos e do primado da concórdia internacional. Ao ver-se agora o povo de Gaza bombardeado, e por mais respeito que se tenha pela soberania israelita e desprezo pelo fascismo islâmico, será preciso um grande arcaboiço amoral para não clamar que Netanyahu é uma Besta Imunda, o tal Diabo.

Há algum tempo soube-se que Fernando Medina, sucessor de António Costa como presidente de Lisboa, depois seu ministro das Finanças e seu mais do que evidente delfim no PS (vê-lo-emos no futuro, estou certo), tinha assumido uma sua directiva política: o executivo camarário lisboeta comunicava aos serviços de informação israelitas (e já no período de Netanyahu) e aos russos (os de Putin) as movimentações dos oponentes - portugueses (!) e estrangeiros - aos seus regimes.

Um tipo lembra-se disto e apetece-lhe perguntar ao camarada do Carlos César, ao correligionário do Sócrates, ao amigo do Escária, "ouve lá, ó Costa, quem é o Diabo? Quem é a Besta, Imunda?". Ou, noutros termos mais curiais, "ó Senhor Doutor, afinal quem é que é de Direita?".

(Aqui associo três postais que publiquei durante a semana no Delito de Opinião).

 

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