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Nenhures

Nenhures

19
Out21

Efemérides Sangrentas

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Dia de efemérides. Passam hoje 35 anos sobre o incidente de Mbuzini, no qual morreu o presidente Machel e quase toda a sua comitiva. Vários amigos e conhecidos moçambicanos assinalam o facto nos seus murais - alguns usando imagens do impressionante monumento idealizado pelo arquitecto José Forjaz para colocação no fatídico local. Acidente ou atentado?, continuam as dúvidas, as versões, as crenças, num processo de interpretação da história algo similar ao acontecido com a morte de Sá Carneiro e comitiva.
 
Por cá cumpre-se hoje o centenário do assassinato do primeiro-ministro António Granjo e de vários vultos da instauração da República, a dita "Noite Sangrenta", um dos momentos maiores do terrorismo político durante a I República, perpretado pelo que se poderá dizer, sob anacronismo limitado, a "extrema-esquerda" terrorista de então. O Pedro Correia no Delito de Opinião convoca o assunto.
 
O resto da sociedade, a corporação historiadora, os colunistas avençados, os "quadros" da função pública? Seguem fiéis militantes da higienização da I República, da produção da "amnésia organizada" sobre esse directo ascendente (republicano e maçónico) do poder socialista de hoje.
 
Nisso não só vigora o silêncio na imprensa. Mas também o popular, pois poucos (se alguns) se lembram de convocar o assunto nos seus murais. Há que preservar o mito da I República benfazeja. E para isso que faz o Estado, os seus oficiais mais importantes? Usa o dia do centenário deste brutal e tão significativo episódio para se congregar, sob o datado e anacrónico molde panteónico, em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, morto há 67 anos, nascido a 19 de Julho e falecido a 3 de Abril. Ou seja, nem sequer há um qualquer vínculo simbólico quase inultrapassável para que a cerimónia decorra hoje.
 
Julgo que nunca tinha assistido a tão descarada manipulação da história política portuguesa. Agora venham-me dizer que é preciso derrubar a estátua do João Gonçalves Zarco. E fazer "introduções contextualizadoras" ao Frei João dos Santos...

 

19
Out21

Ali ao PSD,

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Paulo Bento treinou o Sporting durante 4 anos e meio, lugar a que ascendeu após conquistar dois títulos juniores, sempre queridos num clube que muito se identifica com o ecletismo desportivo e a ênfase no desporto jovem ("formação", passou a dizer-se). Os 4 primeiros anos na equipa sénior foram bons, com alguns títulos e, acima de tudo, qualificações sucessivas para a apetecida Liga dos Campões, fundamental para as finanças dos clubes de topo. Para além de apadrinhar jovens jogadores, a desejável marca d'água do clube. Faltou o título nacional, usual pecha no clube - numa das épocas em particular por razões um pouco alheias ao estrito futebol (um pouco à imagem do que terá acontecido nas últimas eleições em Campo de Ourique nas quais, ao que li, parece que a equipa da casa terá ganho com um golo fora-de-jogo e sem que tivesse sido apontado um penalti a favor dos forasteiros).

Depois Paulo Bento passou a seleccionador nacional durante 4 anos. No Europeu de 2012 levou a equipa até às meias-finais e perdeu no desempate por grandes penalidades com a Espanha, a grande selecção do futebol mundial nas últimas décadas e que então foi sucessivamente campeã mundial e bi-campeã europeia. Serve para comparar com a idolatria à selecção de 2016 que ganhou o Europeu, também com desempate por penalidades e jogando muito pior. Diferença vinda da "lotaria dos penalties". Após esse torneio Bento liderou a campanha ao Mundial de 2014, um falhanço rotundo no qual foi público o mal-estar de vários jogadores. Depois continuou o seu rumo com garbo: foi campeão grego, esteve na "árvore das patacas" do futebol chinês e há anos que exerce o prestigiado cargo de seleccionador sul-coreano.

É interessante que após este belo percurso profissional nem sportinguistas nem adeptos da selecção tenham particulares saudades de Paulo Bento, e sobre ele escasseiam as evocações, inexistem as invocações, até resistem algumas imprecações. Certo, muito disso porque faltou o título nacional no clube e o europeu na selecção. E é evidente que o homem não tem "boa imprensa". Mas esse afastamento, até amnésico, funda-se numa imagem pública, talvez um pouco injusta mas... real pois existente. A de uma personalidade algo desabrida, pouco dialogante, confundindo convicção com inflexibilidade e nisso desperdiçando recursos e opções, e potenciando conflitos improdutivos. Por isso, e apesar dos seus resultados terem sido excelentes (não óptimos mas excelentes), nem o ansiamos nem resta grande admiração. E ficou até algum azedume. Eu, sportinguista, julgo isso muito injusto. Mas é o que é.

Sei que as analogias tendem a ser empobrecedoras. E as em futebolês ainda mais o são. Mas isto que se passa no PSD - partido do qual sou apenas muito ocasional eleitor - faz-me lembrar Paulo Bento. É possível que Rui Rio tenha sido bom treinador da Câmara do Porto (não sei, não vivia no país e não acompanhei). E talvez seja bom seleccionador do PSD (duvido muito mas não é o meu "país", não acompanho os meandros "técnico-tácticos", desconheço o "grupo de trabalho"). Pode até ser que o seu modelo táctico seja apropriado, mesmo que aparentemente algo desactualizado. Enfim, é possível que o homem tenha qualidades. Mas, de facto, eu não conheço ninguém que goste dele, mesmo aqueles que me são próximos e que simpatizam com aquele partido não o expressam. Ao longo destes anos nunca alguém me falou, escreveu ou "mensajou" - nem vi nas minhas redes sociais - algo de entusiasmado com suas declarações, propostas, iniciativas. E assim não tenho qualquer dúvida: quando Rio deixar a presidência do seu partido poucos o lembrarão. E muito poucos dele terão saudades. 

Ou seja, para ganhar o próximo título? Arranjai um "engenheiro" (oops, não é obrigatoriamente de Moedas que falo, é a Fernando Santos que aludo).

15
Out21

Gilets Rouges?

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Noite insone: a angústia advinda do aumento de impostos, a anunciar contracção da actividade económica. O qual se reflectirá no preço dos combustíveis: a gasolina trepando ao litro por 2 euros (416 escudos, convém que quem ganha menos - até em valor facial - do que há 20 anos não o esqueça), e - até pior - aumentando o do tabaco e o do álcool. Como assim continuar a carburar?
 
Mas deparo-me com notícias de que afinal ao OGE os partidos de massas - e seus "intelectuais orgânicos" - gritam "no pasarán", parece estar a geringonça algo escangalhada, mal oleada ou coisa assim, agita-se mesmo o Diabo Eleitoral, inquietado está até o Mestre-Escola desta plebe. Será? Terá chegado a hora dos gilets rouges? Serão estes temidos "Do Largo do Rato até São Bento"?
 
Só daria mesmo para rir não fosse isto tudo tão descorçonte a este proto-sexagenário...

12
Out21

Armando Vara

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Vejo nas redes sociais um largo punhado de gente a gozar com Armando Vara. Certo, o homem saiu da prisão um pouco mais cedo, 3 ou 4 meses, do que se previa, devido a uma inércia governamental com as medidas sanitárias prisionais face ao Covid. Mas, caramba, esteve confinado daquela maneira durante 2 anos e 9 meses. É muito tempo, merecido que seja. E é curial reconhecer que assim pagou a dívida que tinha para connosco, esta "rede social" Portugal. Será então educado suspender o sarcasmo para com Vara.
 
Além de que há muitos "parolos" (para usar o discriminatório termo que o ministro Augusto Santos Silva usa para definir os coniventes com a corrupção do poder político) para apontar. Desprezando-os. Vasculhando-os. Deixai Vara em paz. Olhai os outros.

11
Out21

Pedir desculpas pelo passado nacional

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Há pouco mais de uma década o Presidente Cavaco Silva realizou uma visita de Estado a Moçambique. Como é prática nessas ocasiões fez-se acompanhar por uma alargada comitiva: políticos, empresários, quadros da administração pública, agentes de produção cultural. No vasto programa constava um colóquio na universidade na qual eu trabalhava, dedicado à importância da língua portuguesa, o qual contou com a participação de destacados intelectuais moçambicanos (alguns dos quais foram então condecorados) e portugueses. 

A actividade decorreu na ampla sala do centro cultural universitário, um antigo cine-teatro com largas centenas de lugares. Os professores haviam sido convidados, os alunos mobilizados, a sala estava apinhada. Eu sentei-me bem lá no fundo, para fruir descansadamente o meu uniforme de "jeans" puídos e polo desbotado. Um dos painéis constava de alocuções de escritores consagrados, locais e portugueses - estes ali pois inseridos na comitiva oficial da visita de Estado. E assim, porque isso aceitando e liberdades criativas à parte, surgiam assumindo um difuso papel de representantes da sua área laboral, por episódico que fosse esse seu encargo.

Chegada a sua vez de dissertar, um desses consagrados escritores pátrios anunciou à audiência o seu agrado por estar em África. Pois, detalhou, sendo ele um escritor que no seu labor muito aprecia romper com as regras da língua estava entusiasmado por se encontrar entre africanos, e na terra destes, pois as suas línguas estão desprovidas de regras. Uma condição virtuosa, deixou explícito. E continuou naquilo que tinha para dizer, ao que se lhe sucederam as arengas de outros participantes. Terminado o ror de comunicações abriu-se o consuetudinário "espaço de diálogo", dedicado às perguntas oriundas da plebeia assistência. Instalou-se o tradicional silêncio, dada a provável exaustão dos seniores presentes e a timidez, até receosa, dos juniores diante de tamanhos protocolos ali patenteados.

Por isso, lá bem do fundo da sala e qual navio quebra-gelo, como se costumam auto-justificar os primeiros intervenientes destas ocasiões aquando das suas pálidas perguntas, aproveitei a ocasião. É que na sala estavam vários feixes de jovens que já me haviam sofrido como docente o que me fez sentir, talvez estuporadamente, alguma responsabilidade, uma espécie de fervor deontológico, por assim dizer... E resmunguei qualquer coisa como, caramba, aparecer alguém em XXI a clamar que as línguas africanas não têm regras gramaticais é de bradar aos céus, será um apogeu da incultura em qualquer um mas inadmissível em que tem por trabalho a... escrita e a leitura.

Depois aconteceu um inexistente debate, brevíssimo como é sua natureza quando assim. Ao qual, para gáudio de todos, se sucedeu um aprazível beberete, juntando alunos, professores e convidados. Como sempre mergulhei, com a convicção da militância, no universo dos canapés, de chamuças e adjacentes fornido. Logo um ou dois compatriotas residentes me abordaram num até enfastiado "ó Zé Teixeira, também não precisavas de ter dito aquilo, cai mal numa sessão destas...", respondendo-lhes eu, com a massa crocante escapando-se-me entredentes, já beiços abaixo, "o homem está aqui em representação, nossa mesmo...", "não vou deixar que os alunos acreditem em tal coisa ou, pior, que os portugueses pensam assim...". Deste modo arisco escapado à sanção comunitária avancei em busca de quem me trocasse o vinho branco, acídulo em demasia, por uma singela 2M ou mesmo, utopia, um gin tónico. Para ser interrompido por três ou quatro colegas moçambicanos, cada um deles num "ainda bem que disseste algo, eu não ia dizer nada dado o contexto", do cerimonioso que era o dia. Enfim, escorropichado o tal vinho, talvez até a posterior cerveja se entretanto alcançada, que a tanto não me chega a memória, regressei ao lar ainda conjugal. Para ouvir um sorridente, mas talvez já então desalentado, "já sei que estiveste a desatinar"...

Vem-me esta recordação agora quando, uma década escorrida, vejo um tipo que aquando quarentão pensava com tamanho défice sobre o real circundante, e África em particular,  a surgir na capa das revistas generalistas entoando o trinado da moda, o pimba do "Desculpa África" em ritmo extended version, meneando-se ao que julga ser o agrado da plateia. Deixemo-nos de coisas, pode ser que seja um bom ficcionista, não sei, nunca o li. Mas se assim for este é mesmo um caso de "quem te manda a ti, rabequista, remendar sapatos". Ou não o é (repito, não sei, nunca o li). E então será caso de usar o dito original... Enfim, o homem que conte as histórias que tem para contar, que é tarefa mais do que digna. E deixe-se de querer ser intelectual maître à penser, que não tem arcaboiço para tal.

Não me alongarei - mais uma vez - sobre esta gemebunda "desculpabilização" tão em moda entre tantos. Apenas repito o que ciclicamente vou metendo sobre estas pobres mentes de atrevidas gentes: 

"... a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação." (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

 

07
Out21

Ver para crer,

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qual São Tomé, foi o que pensei ao ouvir relato do Presidente Sousa em São Tomé. Pois logo após o empossamento presidencial de Carlos Vila Nova o nosso presidente cruzou a rua, despiu-se e foi ao banho. Totalmente insensível à dimensão simbólica do ritual político, que sedimenta legitimidades. Apoucando-o mas em terra estrangeira, e nunca em terra própria, pois não há notícia que tenha teatralizado - em molde de inversão ritual, essa sim de imenso significado político quando ocorre - a sequência das suas cerimónias de empossamento ou as dos governos que nomeou, ou na sequência dos seus discursos cíclicos (ou seja, rituais pois de incidência simbólica e política) aos tribunais e às forças armadas. 

E fá-lo apenas se essa terra estrangeira for uma antiga colónia africana portuguesa, onde decerto estas "diabruras" são recebidas com a complacência de quem vai mais ou menos acompanhando as idiossincrasias do presidente português. Os portugueses, na maioria eleitores do presidente Sousa e distraídos face aos seus parceiros africanos da CPLP, acham piada a estas coisas do "Marcelo". Ficariam, é certo, algo desconfortáveis se Sousa fizesse estas "partes gagas" no Brasil e nem imaginam que as fizesse em Atenas, Roma, Nova Iorque. Ou, ainda menos, à saída de um encontro com a rainha Isabel II ou com o Papa no Vaticano. E não achariam piada se um presidente angolano ou moçambicano viesse aqui a São Bento à tomada de posse do nosso presidente e depois saísse e fosse até ao Largo de Santos, trocasse de roupa no carro, e se sentasse a beber uns copos nas esplanadas, cercado de uma comitiva de jornalistas eufóricos. Ou, mesmo, se seguisse ao areal plantado no Cais das Colunas, ao Terreiro do Paço, ali vestisse o calção de banho, rodeado dos jornalistas e seus seguranças, e se fosse banhar.

Mas como é o "Marcelo", lá nas Áfricas, tudo tem piada. Os mais ignorantes julgam até que isto é bom, produtivo, para a melhoria das relações entre os países - não se vê na reportagem os "populares" locais a saudarem estas encenações? 

Isto é tão patético, tão "envergonhador"... E mostra bem o grau de preguiça de quem se debruça sobre as relações internacionais. Para além do estupor da imprensa, sempre sufragando estes rumos histriónicos. Vejo a notícia no Público, jornal que segue em frenesim "decolonial" (ou "póscolonial", ou lá como o quiserem chamar), tudo atropelando nesse rumo. Ora mesmo aí, nesse contexto "ideológico" da junção entre jornalistas e académicos de aparência "crítica", a reportagem de António Rodrigues vem com o interessante título "Assistência entusiasmada festeja mergulho de Marcelo no Golfo da Guiné". A alusão épica é evidente e - porque se trata do tal militante Público - só posso sorrir. Urge no jornal uma auto-crítica "decolonial"... E para quem me diga o contrário isto nem sequer é o mesmo do que a imprensa moçambicana noticiar um hipotético mergulho do presidente Nyusi no aprazível Algarve como "entusiasmo popular acolhe mergulho de Nyusi nas águas da Corrente do Golfo". É ainda mais estapafúrdio.

 

04
Out21

O Polígrafo, a queda de Medina e os Olivais

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A propósito dos hipotéticos efeitos nos resultados eleitorais de Lisboa tidos pela reportagem da "Sábado" sobre as práticas aquisitivas da presidente da junta de freguesia de Arroios, o Polígrafo tem hoje um artigo - de Carlos Gonçalo Morais - que mostra terem sido substanciais as perdas da candidatura de Medina nessa freguesia. E através da comparação com as outras freguesias lisboetas onde o PS não ganhou a freguesia (perdendo a presidência ou repetindo a derrota) evidencia ser Arroios uma das freguesias onde a punição eleitoral do PS, tanto para a Câmara como para a Junta, foi maior, apenas ultrapassada pela acontecida no Lumiar, deixando assim implícito (quase explícito...) que o desvendar daquelas deselegantes práticas da presidente da Junta terão lesado a candidatura camarária do partido incumbente. Para comprovar isso o artigo apresenta uma tabela com os resultados dessas freguesias. E conclui, certeiramente, que "é verdadeiro que a freguesia presidida por Margarida Martins – Arroios - foi uma daquelas em que o PS perdeu mais votos nas últimas autárquicas em Lisboa, quer para a Câmara Municipal, quer para a Assembleia de Freguesia, com a erosão a ser ainda maior para Margarida Martins do que para Fernando Medina."

Eu direi que é "Verdadeiro, Mas...". E recordo este meu postal, "Os Olivais e a derrota de Medina" - nisso para ele apelando à atenção do Polígrafo, se tal for possível. É certo que na freguesia dos Olivais o PS não perdeu a presidência da Junta (o critério que o artigo escolheu para a comparação). Mas as suas perdas foram substanciais, e isso será um dado interessante para esta reflexão sobre o peso global da derrota em Arroios. 

Para o evidenciar vou aduzir Olivais à lista de freguesias apresentadas pelo Polígrafo:

I. Perdas do PS nas freguesias onde deixou de ser a força política mais votada para a Câmara Municipal (Fernando Medina) + Olivais

FreguesiaVotosPontos percentuais
OLIVAIS237712,92
Lumiar1.97711,07
Arroios1.83911,17
Alvalade1.3438,97
São Domingos de Benfica1.2727,74
Avenidas Novas1.0318,43
Areeiro9468,82
Parque das Nações6478,68

 

II. Perdas do PS nas Assembleias de Freguesia onde deixou de ser a força política mais votada (candidatos às juntas) + Olivais

FreguesiaVotosPontos percentuais
OLIVAIS328018,8
Lumiar1.97711,07
Arroios1.83911,17
Alvalade1.3438,97
São Domingos de Benfica 1.2727,74
Avenidas Novas1.0318,43
Areeiro9468,82
Parque das Nações6478,68

 

Por isso este meu sorridente "Verdadeiro, Mas" ao cuidadoso artigo do Polígrafo, pois a derrota do PS não se deve apenas - como aqui comprovo - ao acontecido nas freguesias onde a coligação "Novos Tempos" ganhou a freguesia. Repito o que disse há dias: só as perdas do PS nos Olivais são superiores à distância (2194 votos) entre as candidaturas de Moedas e de Medina.

Enfim, é provável que com tudo o que aconteceu nos últimos quinze dias a concelhia do PS, alguns dos simpatizantes desse partido e até Fernando Medina estejam algo magoados com o desempenho de Margarida Martins em Arroios, e ela própria algo dorida com o ocorrido. Mas sosseguem ela e os seus correligionários. Pois, de facto, quem rebentou com aquilo tudo foi a "nossa" Rute Lima, presidente da Junta nos Olivais e colunista do prestigiado boletim "Público". Como os números o comprovam.

ADENDA: só agora reparo que o Correio da Manhã publicara este esclarecimento gráfico - 

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03
Out21

Olhar os políticos mortos em democracia

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(Visita presidencial a Moçambique, 1997: Hilário, Chissano, Coluna, Sampaio, Acúrsio, Eusébio. Desconheço a autoria da fotografia).

O Pedro Correia salientou (no Delito de Opinião 1, 2) a recente generalizada homenagem ao antigo presidente da República Jorge Sampaio - sobre o qual deixei memória da minha simpatia (1, 2). Foi notório ter esse luto suspendido críticas ao político. Sampaio foi um líder estudantil durante o Estado Novo tardio,  e veio a integrar a via radical do socialismo português. E depois já como secretário-geral do PS e durante sua presidência da câmara da capital deu corpo à velha palavra de ordem do PCP, a "maioria de esquerda". Assim sendo uma evidente influência para o cenário actual. E foi presidente da República durante uma década, convulsa. Esse percurso de seis décadas de preenchida e complexa actividade política dá azo a diferentes interpretações e avaliações. Mas na sua morte a sociedade portuguesa, suas instâncias estatais e outras organizações, a imprensa, bem como a miríade de opinadores na cidadania telemática, saiu a homenageá-lo. E os que a isso não se quiseram associar pelo menos evitaram críticas aceradas.

Isso tem sido recorrente, considerado curial, na morte dos políticos deste regime. Desde a emotiva reacção às traumáticas mortes de Sá Carneiro e Amaro da Costa, às reacções respeitosas e até condoídas face às relativamente precoces de Mota Pinto, Lucas Pires, Luís Sá ou Barros Moura, ou às mais recentes de Jorge Coelho e Pina Moura, exemplos entre tantos outros. Disso ainda mais significativo foram as reacções gerais aquando da morte de anciãos relevantes no regime, como Freitas do Amaral, Mário Soares ou Álvaro Cunhal. É evidente que sempre se mantém a pertinência da análise crítica (ou mesmo das meras invectivas) a posteriori. Mas o relevante, repito, é que em todas esses momentos houve um luto, implícito que seja, e um sufragar da importância desses indivíduos assente num evitamento crítico e num colectivo de elogios - por vezes até demasiado enfáticos, quiçá condizentes com a recente crítica do nonagenário Eugénio Lisboa ao modo português de produzir eulogias.

Claro que há sempre excepções, em especial nas "redes sociais" - ou seja, individuais e não editadas. Mas não só são sempre muito minoritárias como acabam por convocar sanções morais, nem que seja a mera sensação de "isso fica mal". Nesse âmbito haverá duas excepções mais significativas: as reacções desabridas de alguns pequenos nichos gerontes de oriundos/regressados das ex-colónias aquando da morte de Soares e também de Almeida Santos - as quais abordei aqui, aquando da morte de Soares: "trata-se de um envelhecido e traumatizado universo social [que] nunca abandonará a sua visão e os seus mitos (...) [e] a mágoa de um universo de portugueses vítimas da história, de facto vítimas do tardo-colonialismo do Estado Novo. Soares ficou-lhes, a esses meus compatriotas, até porque algemados a uma pobre e ignorante visão da história que precisa de autores, da antropomorfização causal, não como o símbolo mas como o agente do necessário e justo fim do colonialismo, para eles entendido como desnecessário, injusto e traição". Mas em geral vigorou a tal suspensão crítica, o período de nojo.

Também sobre os "militares de Abril", sejam os directamente envolvidos nas operações de 16 de Março e de 25 de Abril como os que vieram a ter papéis de alguma relevância no período posterior, o tom tem sido o mesmo. Desde o infausto destino de Ramiro Correia, afogado na lagoa do Bilene logo em 1977, à morte precoce de Salgueiro Maia, às bem posteriores do meu querido Aventino Teixeira, Melo Antunes, Carlos Fabião ou Costa Martins, até aos recentes falecimentos de Luís Macedo e Dinis de Almeida, passando pelos dos então mais relevantes, como Costa Gomes, Spínola ou Vasco Gonçalves, em nenhum desses momentos terá havido uma explosão de azedume. Os que lhe eram mais próximos, afectiva e/ou ideologicamente, homenagearam com a ênfase que lhes foi possível e o conteúdo que entenderam. Os outros assistiram. E os mais avessos a cada um desses indivíduos ter-se-ão eximido a desvalorizações públicas. Neste âmbito também encontro o mesmo tipo de excepção, o acinte com que alguns núcleos de regressados das ex-colónias receberam a morte de Rosa Coutinho, muito devido à avaliação crítica que faziam da sua acção como Alto-Comissário em Angola no período de transição para Angola - algo significativamente contrastante com o acontecido na morte de Victor Crespo, antigo Alto-Comissário em Moçambique. E também, ainda que oriundo de locutores de crença ideológica contrária, algumas invectivas que surgiram na morte de Jaime Neves, muito devidas a algumas das perspectivas avessas à democraticidade do 25 de Novembro.

E a isto se pode associar que não há no discurso público uma tendência invectivadora dos sobreviventes desse núcleo militar, ele próprio ideologicamente bem diferenciado, entre Sanches Osório e Mário Tomé, para exemplificar. De facto, por vezes vêm-se invectivas a Vasco Lourenço, muito devidas às suas algo truculentas proclamações, qua terratenente do regime, naquele tópico do "não fizemos o 25 de Abril para isto" quando o eleitorado vota ao invés das suas preferências. Mas essas são reacções - normais, legítimas - às suas posições actuais e não devidas, pura e simplesmente, a ser ele um "capitão de Abril". Ainda que sendo essa condição simbólica convocada por Lourenço para basear as suas proclamações políticas, se torne ela própria um argumento do contraditório que então se ergue contra esse militar. 

Em suma, grosso modo e com excepção de muito minoritários núcleos irredentistas do "anterior regime",  há em geral um apego ou relativa placidez face aos "militares de Abril" sobreviventes. E a generalidade dos cidadãos, nas suas diferenças ideológicas, vêm acolhendo com comoção e/ou respeito a morte dos "militares de Abril", agentes do momento fundacional do regime, e dos políticos que neste vêm sendo relevantes. Nisso assumindo os implícitos ditames culturais face à morte.

Há uma excepção, a qual se realça nestas comparações. A alargada reacção negativa na recente morte de Otelo Saraiva de Carvalho. A razão é simples, ter ele inspirado e dirigido um grupo terrorista que, em democracia, durante mais de meia década organizou e executou inúmeros atentados, assassinando 17 pessoas. Não tendo depois cumprido a pena devida, nunca tendo reconhecido os actos, mantendo sempre uma narrativa falsária da história, nunca se tendo retractado das vis acções cometidas.

Convém reafirmar que o movimento terrorista de Carvalho, as FP-25, não medrou num contexto que permita aos democratas atribuir-lhe alguma justificação histórica - uma "razão histórica" - mesmo que mantendo uma aversão aos seus métodos. Poderá ser que tenha tido alguma inspiração (um torpe romantismo) nas guerrilhas sul-americanas coevas, mas essas reagiam a violentos regimes de extracção fascista. E não podia reclamar fundamentos numa identidade cultural/nacional, como a ETA ou IRA, nem tão pouco associar a oposição à inicial democracia portuguesa à luta contra a ditadura franquista. De facto as FP-25 foram um estuporado e maligno tumor na sociedade portuguesa, só comparável (por analogia que seja) às Brigadas Vermelhas e Baader-Meinhof: sem ditadura para enfrentar, sem movimento sociopolítico que as ancorasse, sem putativa identidade histórica para reclamar. Apenas um conjunto de comunistas (então ditos "esquerdistas") fundamentalistas e desatinados. Terroristas assassinos.

Diante deste processo podemos notar as manobras de falsificação da história, que apenas querem fundamentar a acção política actual. A mais imediata é a reclamação de que "Otelo" (esse manuseio do nome próprio como estratégia de aproximação e de santificação do indivíduo) é o símbolo do 25 de Abril, nisso da Liberdade. Ora como qualquer um deveria saber não há símbolos "naturais", como se obrigatórios. Os símbolos escolhem-se, alteram-se. Carvalho foi o operacional fundamental das manobras militares de 25 de Abril. E foi-se tornando "símbolo" dada a sua personalidade voluntarista e desabrida mas muito pela intensa agit-prop do universo que se congregou nos GDUPS, base da sua campanha presidencial de 1976. E essa sua dimensão simbólica foi diminuindo por várias razões. Em primeiro lugar porque pouco simpático à maioria dos simpatizantes de outras ideologias, e porque havia outros militares bem-queridos e simbólicos para outras forças partidárias - o "Vasco" para os do PCP, o episódico "Vasco só há um, o Lourenço e mais nenhum" para os dos outros grandes partidos, que depois foram transitando para o apreço ao "Eanes" ou ao "Jaime Neves", nisso também reclamando o 25 de Novembro como data também fundacional da democracia liberal que sistematicamente sufraga(va)m nas eleições.

E "Otelo" viu esgarçar-se ainda mais a sua dimensão simbólica desde os finais dos anos 1980s. Exactamente pelo seu envolvimento no terrorismo e pelo longo processo jurídico que o desvendou - para os que apenas se lembram do "caso Maddie" ou do "Casa Pia" conviria recordar o quão mais traumático foi para a sociedade o processo das FP-25. E essa foi também a época em que a simbolização pessoal do 25 de Abril se foi desviando, encarnando na figura de Salgueiro Maia devido a um feixe de razões: pelo facto de ter sido um muito visível e determinado operacional da revolução; por ter um perfil castrense, tendo-se eximido a intervenções políticas, o que o tornava um material simbólico mais pacífico para a generalidade dos democratas; por ter sido alvo de algum destratamento da hierarquia militar; pelo comportamento indigno que para com ele teve o governo chefiado por Cavaco Silva. E, evidentemente, pela sua morte precoce, dínamo de uma comoção simbolizadora.

Ou seja, o estatuto simbólico de Carvalho não foi perene. Foi-se esvaindo, excepto para os que com ele comungavam ideais de radicalismo ideológico. Acontece que o estatuto simbólico de Salgueiro Maia também se foi desvanecendo, com o correr do tempo. Pois Maia  havia morrido e, acima de tudo, porque esse estatuto não ancorava em grupos orgânicos de pertença ideológica - para além do difuso apreço pela democracia, essa rotina pouco exaltante e, como tal, fraco motor para grandes construções míticas e personalizações simbólicas contemporâneas. Enquanto Carvalho - o "Otelo" dos dislates tonitruantes - estava por aqui, acarinhado pelos grupos de extrema-esquerda, requestado pela imprensa feita por gente moldada no "radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista".  E nesse fluir dos anos estes núcleos, de esquerdistas e de preguiçosos intelectuais feitos, foram fazendo por reatribuir ao terrorista Carvalho o estatuto de símbolo. 

Nisso procuram consagrar o seu ideário político, feito de alguma ideologia - quantas vezes difusa e atrapalhada - e de muita afectividade, uma sonsa erotização do político, fazendo por a ele reduzir o 25 de Abril, seus motivos e seus corolários. E para isso usam a constante falsificação da história. Elidindo o quanto podem a existência das FP-25, escondendo a intensidade dos seus actos, refutando a participação de Carvalho. Mentindo, explícita e implicitamente. E, talvez o mais abjecto de tudo, sempre reduzindo o papel de Carvalho em tudo isso a um devaneio, uma ingenuidade. Quando muito a uma tendência para a asneira. E invectivando de "fascistas" ou de "extrema-direita", "adversários da democracia" aqueles que os percebem e que se oposeram e opõem às aleivosias de Carvalho e dos seus "camaradas", bem como a estas aldrabices "revisionistas" que estes locutores vão proferindo.

E entretanto o Bloco de Esquerda - essa amálgama ideológica-afectiva da qual brotam estes "revisionistas" da história, que há anos coligou a miríade desses grupos de extrema-esquerda, e que se poderá dizer como aggiornamento dos velhos GDUPS, por mais que se reclame de transmutação social-democrata - continua a integrar nas suas candidaturas vários criminosos, condenados por crimes de sangue no caso das FP-25. Os quais não só não cumpriram as penas como se recusam à mera retractação. E nesta atrevida e falsificacionista versão da História e do Presente afirmam-se eles, esse amálgama coligada, os "democratas". E seremos todos nós, outros, os anti-democratas, pois avessos ao terrorismo ou à sua redução a uma insignificante, singela, até juvenil "asneira", e ao ideário extremista que acalentou todo aquele bombismo assassino.

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Este recente artigo é um exemplo tétrico do conluio com estas manobras de elisão manipuladora da história e do presente, desta reclamação da justeza dos afectos - e da colaboração actual - com os terroristas, acompanhada da invectiva insultuosa para com os democratas que se erguem contra a memória dos terrorismo e contra a actual falsificação da história. Trata-se de um texto de página inteira do jornal "Público". A descrição da sua autoria vem acompanhada das instituições públicas nas quais trabalha o colunista - o que é uma prática sublinhadora da relevância do autor e dos seus textos, uma costumeira estratégia de "sacralização". Trata-se de um elogio veemente de Carvalho, apesar das suas "contradições". É significativo que no longo texto sejam usados 6 acrónimos (PREC, MFA, SAAL, RALIS, UE, CEE), alguns dos quais sendo repetidos, mas que não compareça o "FP-25". De facto, a longa actividade terrorista de Carvalho é descrita apenas como "levou longe demais o seu radicalismo ingénuo" por isso tendo-se "perdido nas teias da violência". E nós, aqueles que não nos curvámos na sua morte, como é o hábito desde há décadas nas mortes dos agentes políticos, somos insultados como esse "Portugal ressabiado com a Liberdade e com a Responsabilidade".

O "Público" de Manuel Carvalho, que diante de um texto ocasional com uns dislates sobre vacinação sente necessidade de expressar o seu repúdio e até de o apagar, nada se sente com uma manobra destas, uma verdadeira produção de amnésia social e uma desvalorização do terrorismo nacional. Um conúbio com o mal. Que vem inscrita num coluna periódica. E as instituições públicas que neste órgão privado são feitas subscrever esta peça? Acham normal, e silenciam-se. Tal como todos os que nela trabalham. Assim sendo, seguem coniventes os lentes. E nós, futricas, somos ditos ressabiados.

Ficaremos então nós, democratas, como o fazemos desde há décadas, segundo os ênfases ditados pelas nossas preferências ideológicas e afectivas, a respeitar os notórios e até ilustres que vão morrendo. E vivendo. E a desprezar aqueles que terroristas. E os convictos falsários da História, daqueles admiradores. E, já agora, os que se silenciam diante destas aleivosias.

02
Out21

As homenagens da Câmara Municipal de Lisboa

jpt

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Na recente morte de Jorge Sampaio a Câmara de Lisboa tratou de o homenagear, utilizando espaços comerciais disponíveis, forma ágil de trazer essa evocação até ao quotidiano dos munícipes. Julgo muito curial que a Câmara homenageie deste modo, sentido e bastante visível, um seu antigo presidente, na hora do seu falecimento. Presumo que tal não tenha acontecido na morte de Nuno Krus Abecasis (1999) e de Aquilino Ribeiro Machado (2012) - não encontro registos fotográficos disso -, mas nada obsta a que se encete agora uma simpática e honrosa prática.

Mas o contrário pensarei se esta acção for dedicada a homenagear o antigo Presidente da República, como julgo ter sido o caso pois esta acção vem na sequência do realizado aquando da morte de Mário Soares. Pois se esta for uma prática a dedicar a todos os presidentes da República que venham a falecer isso será um  mimetismo das práticas simbólicas do Estado central, e assim uma intrusão nas funções que a este competem. O que transporta uma implícita reclamação de um estatuto especial da câmara da capital, um "centralismo municipal" lisboeta. O que se torna mais visível neste contrafactual: face ao registo relativamente contido do cerimonial do nosso Estado democrático muito nos impressionaria, até desagradavelmente, se todas as centenas de câmaras existentes inundassem os seus territórios com homenagens pictóricas por ocasião da morte de um antigo presidente da república. Estou crente que produziria até um travo autocrático, como se de tempero norte-coreano ou afim. Porquê então aceitá-lo na câmara da capital?

É certo que estas homenagens poderão ser justificadas por se terem dedicado a cidadãos naturais do concelho (Soares e Sampaio nasceram em Lisboa) que ascenderam à mais alta função do Estado. Se assim for então serão totalmente curiais. Deixando assim espaço para que na ocorrência de futuros falecimentos de antigos presidentes (longe vá o agoiro) sejam as câmaras respectivas a homenagearem esses seus ilustres naturais. Mas se é esse o vector que imprime esta homenagem póstuma então tem que ser explicitado. E não o é.

01
Out21

A Capa Alquímica

jpt

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[Postal para o Delito de Opinião]

A capa desta última "Sábado" é ordinária, abjecta. Remete para um texto da jornalista Maria Henrique Espada, que levou o algo desengraçado título "34 Histórias do Senhor 34% em Lisboa". Mas tem uma característica interessante, rara: tudo nela provém do texto mas não tem nada do que está no texto. Pois a capa transmuta os elementos que combina. É assim alquímica. E nisso demoníaca, pois apenas os desvirtua.

De facto, pode-se gostar ou desgostar do texto de Espada mas tem de se reconhecê-lo como curial. Trata-se de uma breve biografia do novo presidente da câmara lisboeta, num registo que é comum na imprensa e, julgo, de agrado dos leitores: isso de mesclar alguns detalhes da vida pessoal com o trajecto profissional e político daqueles que ascendem a posições de destaque. O trabalho assenta numa conversa com Moedas, já após as eleições, e em material de arquivo de imprensa, com ênfase em pretéritas declarações dele próprio. E se a abordagem de Espada é algo neutral, pois o texto não é um panegírico, nela até se detecta alguma simpatia para com o seu biografado. Ou, pelo menos, nem no explicitado nem num hipotético sub-texto se notam verrina ou alçapões para especulações avessas.

Quantos aos elementos apostos na capa, a tal poção alquímica: o texto alude à infância bejense de Moedas e lembra a sua alcunha de miúdo, mas sem qualquer malvadez. Pois quase todas tivemos alcunhas em miúdos - os mais pequenos são (quase) sempre os "minorcas" ou "inhos" - e isso é um tópico neste tipo de textos. E refere o episódio conjugal mas sem nada de sumarento, de espreitadela moralmente indevida: ecoa declarações do próprio Moedas aludindo aos efeitos pessoais do excesso de trabalho (aquando no governo), aludindo a problemas tão comuns entre os casais. Também a nota sobre o alcoolismo paterno assenta em descomprometidas declarações de Moedas, sendo que o seu pai é referido e citado no texto com respeito e até desvelo. Tal como a doença da irmã não é dramatizada mas surge no âmbito de um bom ambiente familiar. Finalmente, mesmo a referência aos "negócios imobiliários" surge plácida, inserida no percurso profissional de Moedas e sem qualquer alusão especulativa sobre um assunto que poderia (e poderá) dar mais azo à maledicência, isso do presidente da câmara ter experiência nessa actividade económica. Ou seja, vejo a indignação com esta capa no twitter, fb e no meu whatsapp. Mas presumo - ainda que não conheça Maria Henrique Espada e nada saiba sobre os procedimentos internos na "Sábado" - que a pessoa mais incomodada com a capa será a jornalista, ela-própria. Com o que nela conspurcaram o seu trabalho. 

Será certo que a feitura desta capa pretende torná-la comercialmente apelativa, incrementar vendas e tráfego electrónico. E nisso terá algum resultado, momentâneo. Mas é evidente que tem outra força motriz, um azedume revanchista, que procura achincalhar alguém que surpreendeu a paz podre dominante. E os seus fluxos redistributivos. O qual incrementa este ambiente político que convoca direcções editoriais ao denegrir e/ou apoucar das figuras de oposição. Em verdadeiras campanhas orquestradas - como, em verdadeira via obscurantista, um consagrado avençado da "Sábado" quer negar. Cumpre-nos punir estas vergonhas, negando aos produtos dessa imprensa a compra e os clics. Mas também olhando com desdém esses colunistas, constantes ou episódicos, que (se) abrilhantam na "Sábado", sempre alcandorados a estatutos críticos, escavando estratégias e defeitos alheios. Mas que agora, hoje na internet, para a semana na próxima edição da "Sábado", se calarão, incapazes por doença de conivência de se demarcarem desta abjecção. Desta, repito-me, alquimia demoníaca.

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