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Nenhures

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A popular apresentadora de televisão foi acolhida na Assembleia da República, na qual defendeu a regulação dos conteúdos das "redes sociais". Presumo que a verdadeira "namorada de Portugal" esteja ainda desiludida com a revogação dos preceitos mais "controleiros" da lei - dita "Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital" - que o (ex-)deputado socialista Magalhães havia tentado estipular - e que haviam desagradado aos malvados adoradores do Algoritmo, ao próprio Presidente da República, reconhecido instangrameiro, e, presumia-se, aos tuíteristas do Tribunal Constitucional. Ciosa defensora da pluralidade informativa e da ética republicana na comunicação social, Ferreira, ela própria com responsabilidades directivas televisivas, estará preocupada com os processos monopolistas decorrendo nesses meios, sempre em prol de uma efectiva liberdade de informação promovida por uma comunicação social livre de pressões políticas, ameaçada que tal liberdade está pelo verdadeiro vazio legislativo existente.

Entretanto, Ferreira, que em tempos idos deixara no ar a hipótese de se candidatar a Belém, vai já pavimentando esse caminho. Presumo que para esse desiderato contará com o apoio do ilustre Senador, antigo cabeça de lista nacional escolhido pelo então primeiro-ministro José Sócrates, cônjuge de membro dos governos por aquele capitaneados e actual colega europarlamentar de Silva Pereira - entre outros -, e que do alto da sua (senatorial) experiência política nos alerta para o processo em curso, que será alimentado pelas tais "redes sociais" e pela imprensa "monopolizada". Processo no qual "o Ministério Público, entretido que está na sua guerrilha diária contra o Governo e os políticos, por via do seu órgão oficioso, o Correio da Manhã," minam a democracia, tal como ela deve ser. Esperemos então pelo pacote legislativo que nos defenderá da perfídia ôntica da ralé das "redes" e dos ilegítimos anseios dos capitalistas da comunicação social.

(Postal para o Delito de Opinião)

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(Fotografia de Richard Burbridge)

Na The New Yorker um grande artigo - "The Defiance of Salman Rushdie", escrito por David Remnick - sobre o regresso de Rushdie, debilitado mas recuperado do fanático atentado que sofreu há meses.... Encontro-o na página da revista no Twitter, na qual a este propósito abundam os comentários pejados da sanha assassina dos fascistas idólatras da superstição, uma coisa pavorosa.
 
(Uma viscosa aberração que é também "muito cá de casa". Pois não propôs há tão pouco tempo o PS de Costa um candidato ao Tribunal Constitucional, antigo governante de Guterres, íntimo correligionário de Sócrates, que como deputado dizia no parlamento serem os terroristas islamitas iguais aos artistas ditos iconoclastas - e isso diante do silêncio geringôncico, que para esse indivíduo não houve escrutínio"woke" nem "causas" libertárias?).

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Mais de 5 milhões de euros gastará a câmara municipal de Lisboa na construção de um palco destinado a umas jornadas católicas. Mas o tal altar-palco foi pensado como obra perene. Sobre estas construções religiosas a cargo do Estado já botei o que teria a dizer - noto agora, com assombro, que há já sete anos (!), a propósito da mesma câmara se dedicar à construção de uma mesquita. Resmunguei primeiro aqui e depois aqui (irado com uma atoarda de um director da revista "Visão"). Presumo que muitos dos apoiantes da tal mesquita se indignem agora com o Santo Palco. E, ao invés, que muitos dos apoiantes do novo altar se tenham indignado com o projecto da tal mesquita do Martim Moniz. Qu'isto vai quase tudo por cardápio.

A matéria de agora nem sequer é muito relevante. É pacífico dizer que o Papa é bem-vindo a Portugal e que a organização das tais jornadas é algo relevante e que é normal que autarquia e Estado se associem a uma realização de tamanha monta. Os custos do palanque são enormes mas a infra-estrutura é extraordinária e poderá vir a ser um equipamento importante para a cidade (ou ficará um "elefante branco", tratar-se-á de o saber dinamizar). Nada escandaloso num país da nossa dimensão que há pouco construiu 10 (dez) estádios para acolher um torneio de futebol... (vários deles logo tornados os tais "elefantes brancos"). Ou seja, a ocasião pode servir para uma construção marcante. A condição da aceitabilidade seria óbvia: após estas jornadas o "santo palco" torna-se um "grande palco", retiram-se os símbolos religiosos e fica um espaço cívico.

Entretanto o presidente Rebelo de Sousa, auditor-mor da vox populi, já se veio demarcar da dimensão dos custos, ainda que a hierarquia católica o tenha previamente informado. Servirá isto para que o presidente da câmara, Carlos Moedas, que sempre tão gentil tem sido com o PR - um pouco para além das óbvias obrigações exigidas pelas suas funções autárquicas - se desiluda sobre a lealdade institucional que habita em Belém...

Entretanto esta polémica lembrou-me um já antigo livro, que sobre uma época agora recuada matizava as associações entre Estado e igreja católica: "Pode, pois, dizer-se que o salazarismo foi, do ponto de vista das relações entre o Estado e a Igreja, não um nacional-catolicismo, à semelhança do acontecido em Espanha, mas um "catolaicismo", em que à laicidade do Estado se associou uma orientação católica dominante, à separação jurídica se juntou uma estreita colaboração moral, com a independência dos poderes conviveu um entendimento na prossecução dos interesses que, em muitos aspectos, foram coincidentes. Entendimento porém que sofreu uma evolução ao longo da extensa duração do regime, passando de uma aceitação quase unânime e de uma colaboração forte em muitos domínios, por parte dos católicos para com o regime nascente, nos primórdios, para uma crescente tensão e insatisfação, e para uma desagregação dessa colaboração, com passagem aberta a uma oposição expressa, tanto em termos hierárquicos como em termos laicais, à medida que ia mudando a Igreja, com os tempos, e o regime persistia em não se adaptar a eles." (Manuel Braga da Cruz, O Estado Novo e a Igreja Católica. Bizâncio, 1998, p.15). E que cada um interprete como quiser o que a história - em particular a desse "catolaicismo" - nos pode ensinar. E avisar. Bem para além dos maniqueísmos.

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(Fotografia de Gerardo Santos, Global Imagens)

Ainda não li com verdadeira atenção e portanto não sei bem o que querem os professores, quais as suas reclamações e exigências - não falo da aristocracia universitária, sempre lânguida e gemebunda com as "9 horas semanais" e as "reuniões" (nunca de efectiva responsabilidade, diga-se) que tanto a fadiga. Mas sim do operariado letrado, os "setôres", os do sol-a-sol nas suas longínquas courelas.
 
Apenas sei das minhas experiências, insignificantes serão mas talvez ilustrem alguma coisa. E também sei que nos últimos 28 anos houve um PS sozinho no poder durante 22. Ou seja, é ele o fautor do "estado da arte", não o gonçalvismo ou quejanda formulação. Convém sublinhar isto - e notei-o há dias pois, comiscando entre gente que me é muito querida, fervorosos eleitores socialistas, dissertavam eles sobre a "manipulação da extrema-direita", os "erros ortográficos" dos manifestantes, o carácter relapso dos docentes grevistas, as ânsias exageradas dos trabalhadores. Estupefacto com tamanho reacccionarismo anti-grevista - pois sabendo-lhes os antecedentes de "esquerda" - propus que nos associássemos e entrássemos no CDS, a ver se renovamos aquele vestusto agrupamento, bastante adequado a este tipo de discursos. Olharam-me desagradados, terei azedado o tão querido convívio. Aludo ao episódio porque o "PS", a "esquerda", é isto - a culpa da actual situação é do Vasco Gonçalves, os oponentes são fascistas, e o que se diz do Sócrates é uma cabala da imprensa neoliberal...
 
Mas enfim, vim deixar as minhas memórias, que é o que resta aos velhos. Há 40 anos fui fazer uma licenciatura com poucos candidatos. A licenciosidade institucional de então era tamanha que os professores evitavam dobrar as aulas e congregavam os parcos alunos no horário pós-laboral - passados uns anos um tipo olha para trás e invectiva a "lata" dos instalados, ainda por cima carregados de "ética revolucionária" ou lá como se chamava ao marxismo de então. Depois cresce um bocado e percebe que aquilo era já o comodismo, de facto corrupto, do funcionalismo que, décadas passadas, veio a descambar nisto d'agora Claro que ter "aulas à noite" foi um passo decisivo para ter eu adornado, lia tudo e mais alguma coisa que os noctívagos docentes afixavam mas não aparecia por lá, embrenhado noutras actividades menos académicas - Entrecampos tinha menos encanto do que o Bairro Alto e o Cais do Sodré. E do que os Olivais, já agora. Não divago, apenas enquadro, pois após uns anos coxos, a patinar, decidi atinar, fiz-me ao famigerado "mini-concurso" para ser setôr durante o dia e estudante à noite, a ver se assim me fazia doutor... Vim a conseguir.
 
Fui colocado mais próximo de casa do que era a rua da Atalaia. Mas num mundo muito diferente - e eu ia dos Olivais, não de um qualquer ninho de betos e queques...! Couberam-me 300 miúdos, filhos do operariado e do lumpen sitos para além do Trancão. Acolheram-me bem. A isso terão ajudado aqueles meus 22 anos. E também aquilo de no primeiro dia ter chegado de descapotável, emprestado, que fez furor na escola e logo me celebrizou. E de depois aportar no meu Fiat 600 voador, sempre sob pujante condução. E, talvez ainda mais, o de me fazer passear pela escola acompanhando uma beldade ali docente (Madrinha Mafalda, estás ainda mais bonita agora do que então), coisa que fazia brotar os romantismos até dos mais energúmenos dos alunos subindo assim a minha cotação... Apesar disso, no final do ano lectivo não só constatava que era impossível ensinar algo àquela mole desavinda como tinha frémitos de me voluntariar para os "Rangers" de Lamego, único estágio que considerava adequado para voltar a enfrentar universos daquela monta. "Nunca mais", clamei para mim, e segui no meu ror de trambolhões, fugindo da escola secundária como o demo da cruz. Mas sempre solidário com os (ex-)"camaradas" docentes (eles entrechamam-se "colegas", palavra horrorosa, como é bem sabido...), embrenhados em tão difíceis funções e vivências.
 
35 anos passaram, e cri que muito teria melhorado a escola neste país europeu, seu ambiente e nisso as condições laborais. Há alguns meses desesperei de ser convidado para secretário de Estado ou, vá lá, administrador não-executivo. Tendo sido basto publicitado um enorme défice de professores decidi concorrer. A duas íntimas, professoras apaixonadas pela sua profissão (e agora grevistas, já agora), anunciei os meus intentos e pedi conselhos: "estás louco?", "tu não aguentas!", "isto é terrível!!", "é muito duro!". Defendi-me, entre o "rancho", a "renda" e os "restos" que me cabem e tenho de pagar, e o "caramba, já fiz algumas coisas na vida..., tenho muitos kms atrás de mim". Ambas, à sua vez, coincidiram num "ok, se precisas, mas prepara-te, é mesmo muito duro". E lá me conduziram nos procedimentos, gentis, solidárias. E, presumo, pesarosas...
 
Ficou uma longa memória. Apenas para dizer isto: quando aquelas que seguem tão apaixonadas pela sua profissão tanto desaconselham um seu querido a ombreá-las isso tem de significar algo sobre as condições de exercício laboral
 
(The Waterboys - This is the sea)
 
Mas é claro que é mais fácil dizê-las joguetes do fascismo, e até deste agentes. O difícil mesmo é perceber que estamos no mar, que "isto é o mar". Cantar a já velha canção amarga. E navegar...

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A bica da manhã com amigo, ele décadas de empresário ("empreendedor", diz-se agora) do turismo - o que não é sinónimo de "industrial" da hotelaria e "restauração" (mais termos em voga, que sublinho nas aspas não vão os leitores pensar que me actualizei no papaguear). E se eu sou dos que em relação ao (governo) PS dizem "mata" ele é mesmo daqueles que logo clamam "esfola"! E assim o assunto - até porque ele não é de futebóis - que logo brota é este esboroar do governo e adjacentes, escandaleiras, demissões, acusações, bifidismos presidenciais, condenações, imprecações e até prisões.

Ora eu hoje acordei a modos que andrógino, qual Schiele, e até me venho sentindo assim. E resmungo o que senti na alvorada ao ler da demissão do assessor do primeiro-ministro, condenado em tribunal. Nunca ouvira falar do agora convicto Magalhães Ribeiro e nada simpatizo com o perfil, um socialista ex-presidente da câmara (Cartaxo) apeado em eleições e repescado para os gabinetes de São Bento. Parece figura típica... E do caso só conheço o que é dito nos jornais - deve ser uma peça da LUSA, por todos reproduzida. Mas se isso é o cerne da questão, caramba!... Ao que parece o homem, então ainda autarca, escreveu (ou um assessor dele) na página camarária no Facebook que reunira com a ministra da Saúde (a inefável Temido, a "super-Marta" para os socialistas) em plena pandemia. E que esta lhe prometera instalar uma qualquer infraestrutura sanitária no concelho... E agora condenam-no em tribunal por "más práticas" propagandísticas, pois aquilo coincidiu com um tal de "período pré-eleitoral". Mas bem se sabe que o uso dos meios de comunicação municipais para engrandecimento próprio e dos seus partidos é uma tradição - quando regressei a Portugal escrevi aqui do meu espanto, até enjoado, com esse tipo de desplante caciquista que encontrei na minha freguesia Olivais. E muito mais e até pior vi depois, nos Olivais e na rede de freguesias de Lisboa. Ainda assim a sentença deste caso no Cartaxo parece-me um abuso, um exagero. Não só devido a essa tradição comunicacional nas autarquias mas também ao seu conteúdo específico. Ou seja, ou isto se trata de uma cena tipo "evasão fiscal do Al Capone", apanhar um gabiru pelo único rabo de palha que tem - o que me parece ser muito rebuscado - ou então é um exagero judicial.

Por outras palavras, será um caso de "justicialismo" (eu sei, o termo tem outro significado mas vem sendo hábito usá-lo assim, e tenho de me actualizar, como acima deixei implícito), um tribunal a proferir uma sentença "exemplar". E não sendo eu lido em ciências jurídicas nem na filosofia do direito tenho a vaga impressão de que não há pior do que "castigos exemplares". E assim cada caso terá circunstâncias atenuantes e/ou agravantes. Mas não deve ser "exemplar", qual lição aos "vulgares", os da sociedade, proferida na vara do senhor doutor juiz. E se assim surgir torna-se um abuso... E é isto que me parece o affaire Cartaxo, concluía eu, já em mudas ânsias de uma segunda bica e, até, da partilha de um dos saborosíssimos jesuítas da casa.

Enfim, perorava eu a minha tendencial simpatia para com o socialista em causa esperando uma reacção abrupta do meu amigo, o tal "esfola" dedicado a este triste estado da república. Quando avança ele, impaciente até me querendo interromper a prosápia. Dizendo-me que pior ainda, por assim dizer, é o caso da antiga secretária de Estado do Turismo, Rita Marques. Afiançando-me que a senhora foi - e que é esse o sentimento daquele sector económico - uma boa governante: vinda de outra área, apanhando o Covid-19 e o colapso da actividade, percebendo bem a situação, promovendo de modo eficaz os possíveis apoios, não aparentando ter vieses favorecedores ("um gajo nunca sabe, mas não pareceu nada...", é a expressão canónica). Enfim, foi alguém competente, ágil, empenhado. Terá sido uma surpresa a sua não recondução, foi homenageada pelos agentes. E o mais normal é que tenha sido contratada - e até terá havido concorrência nisso - para trabalhar no sector... "Será, mas é ilegal", ripostei eu, azedo dado que o jesuíta afinal não tinha sido encomendado. "Sim, será", responde-me, mas que quererei eu?, "a senhora não é política, é independente, vai deixar de trabalhar?..."

Entretanto já se fez tarde, temos de avançar ao nosso destino, seguimos ao Sado. Fartos deste poder mas ambos, talvez cândidos, sentindo que há por aí uma histeria, talvez até anseios necrófagos. Contestemos, claro - no mercado paguei um panito por 400 escudos e o padeiro logo me avisou que para a semana custará mais 30 - mas há que calibrar o tom...

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