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Nenhures

Nenhures

Início do ano lectivo

(Frank Sinatra, Quincy Jones: Mark the Knife [1984])

A Escola serve apenas para formar cidadãos. Patriotas, se em democracia. E cidadãos do mundo, se em boa democracia. O resto, o âmago e o invólucro, o "indivíduo", é matéria-prima para Família & Associados.

Num hoje chuvoso, início de Outono, arranca este ano lectivo, sarcasmo celeste. Nos seus 10 anos um rapaz começa o "liceu". Todas as gerações elegem os seus Modelos, mí(s)ticos, suas melodias e dissonâncias, meneios e desconcertos. Deixo-lhe esta "Mack the Knife". Que ele venha a apreender esta Naifa, as suas camadas de sentido, os nossos Modelos que a empunharam entoaram trautearam, tudo o que constituiu algo que parece tão simples, mera canção ... E assim fruir, esta canção e tanto do imenso circundante. Tornando-se, pois assim capaz, um cidadão competente. E um indivíduo interessante. Quanto ao resto?, isso da bondade? Isso já serão opções próprias. Pesada responsabilidade, sabemos nós, os mais-velhos ...

Boa sorte, puto!

Sociedade por quotas

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Quando era jovem foi a era do Pessoa. Ou melhor do pessoísmo, dos pessoanos e seus seguidores. Não sei porquê, terá sido o Portugal democrático (e assim país muito mais letrado ou a tornar-se letrado) a absorver o poeta. Ou por causa de coisas mais pequenas, as vasculhas do célebre baú, as inúmeras publicações (que edição escolher?, ra's parta!), os estudos em catadupa, os filmes sobre e a propósito, as ficções em torno ... enfim, todos, ou quase, tinham que ter "o seu Pessoa", nisto do desassossego leitor. As coisas mudaram, talvez porque a obra de Pessoa foi "fixada", canonizada. Ou porque as pessoas mergulharam noutras coisas. E assim, ao contrário dos anos 80s e até 90s, é possível cruzar algumas semanas sem que alguém nos venha falar do "seu Pessoa". Nisso um tipo também se distrai e dedica-se a outras coisas, o Sporting, romances novos, Marcelo Sousa, o chef Sá Pessoa, sei lá, uma miríade de ofertas que a vida nos traz ...

A caminho da casa de banho, no corredor, está a minha estante de literatura portuguesa. Caiu-me isto no regaço, sobre a pança ...

 

 

Não! Só quero a liberdade!

Amor, glória, dinheiro são prisões.

Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?

Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.

Quero respirar o ar sozinho,

Não tenho pulsações em conjunto,

Não sinto em sociedade por quotas,

Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.

 

Onde quero dormir? No quintal...

Nada de paredes — ser o grande entendimento —

Eu e o universo,

E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos

Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,

O grande abismo infinito para cima

A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,

Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.

 

Não quero! Dêem-me a liberdade!

Quero ser igual a mim mesmo.

Não me capem com ideais!

Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!

Não me façam elogiável ou inteligível!

Não me matem em vida!

 

Quero saber atirar com essa bola alta à lua

E ouvi-la cair no quintal do lado!

Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

" Amanhã vou buscá-la ao quintal"

Buscá-la ao quintal

Ao quintal

ao lado...

Eleições Presidenciais

Anda muita gente entusiasmada com as presidenciais, nisto de ter chegado uma bloguista à lista de candidatas, mão na anca, tom denunciatório, apesar de tão PS e de tanto ter militado naquele blog Causa Nossa radical socratista, de onde brotavam membros do governo e cabeças de lista eleitorais (e "bocas" racistas, já agora) ... Deixemo-nos de coisas, e digo eu: onde é que estavas em 2005? E em 2009? ... Deixemo-nos de coisas, não presta, a tal bloguista. Mesmo!

Ou seja, tendeis à "esquerda"? Pois tendes a candidata Matias ("que nariz", proclama este eleitor indeciso). Ides mais dextros? Pois então está aí o Mayan Gonçalves - certo, apareceu paroquiano naquilo do "sou do Porto", mas que fazer?, apenas pontapear a pequenez bairrista? Não aparece este no "Público" e afins, esses que tudo reduzem ao Venturismo? Pois, esse viés faz parte do "número" da imprensa.

Nas eleições? Fugir dos "Professores" ... E do legado socratista também.

Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento (3)

(Bianca Catasfiore - The Jewel Song)

"Ah je ris de me voir si belle en ce miroir..." [Ah, rio de me ver tão bela neste espelho] é o lendário refrão ... Desde 2015, feito torna-viagem, que quase todos os dias me lembro deste cume de Hergé. Pois um dos grandes problemas culturais de Portugal (o maior?) é mesmo o catasfiorismo dominante, a turba em ademanes, nos lavabos roncando trinados desafinados, cantarolando a perspicácia própria diante dos espelhos - em vez de retirarem os cabelos e pelos púbicos dos imundos ralos sobre os quais patinam.

Esta cena, minudência, da disciplina da Educação para a Cidadania e Desenvolvimento é mais um exemplo. Agora um coro de 500 cantores, mais a plebe ululante na plateia, vem guinchar que são belos nas suas doutas opiniões - entre os quais, no palco e em aplausos, um punhado de Catasfiores que eu conheço. Hoje mesmo, 7.9.2020, no final do telejornal da TVI (abençoado zapping) David Justino explicou pausada e competentemente tudo aquilo que é preciso pensar sobre o assunto - a reportagem sobre a matéria começa à 1.03.20 e a intervenção do antigo ministro da Educação começa à 1.05.40. E fê-lo apesar de repetidamente interrompido, em registo morcão, por Sousa Tavares.

De pouco servirá, as patetas e os patetas continuarão, em trinados, ciosos do que julgam sageza. Mas não é, é apenas o pouco que são.

Haddock, O Captain! My Captain ...

A Festa do Avante e a degenerescência de Pacheco Pereira

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(Festa do Avante, 2020: ninguém para lhe dizer "ó camarada!, toma lá uma T-shirt que não parece bem estares assim vestido ...")

O comentador Pacheco Pereira, conhecido do "grande público" pela participação num programa televisivo de comentário político reinstalado após pressão do secretário-geral do PS, no qual agora ombreia com a adjunta deste, apresentado numa estação propriedade de um conjunto de empresas portuguesas (e de figuras gradas dos espectáculos populares, como Cristina Ferreira, Pedro Abrunhosa e Tony Carreira), publicou em 5.9.2020, no "Público", jornal propriedade do grupo SONAE, este naco: "Mas a fúria actual com a Festa do Avante! é tudo menos inocente. Tem uma clara motivação política, longe de qualquer preocupação com a pandemia ( ...) 

No recinto [da Festa] são comuns formas de reconhecimento tribal entre “camaradas”, quer através das bancas de comida, objectos, artesanato local, quer inclusive com as delegações estrangeiras de outros partidos comunistas e movimentos revolucionários. A Festa é ao mesmo tempo provinciana e cosmopolita, e transmite aos que a visitam esse sentimento de que fazem parte de uma comunidade nacional e de um movimento internacional, com amigos e inimigos. (...) 

[A raiva contra a Festa do Avante] insere-se numa clara deslocação para um radicalismo de direita que se tem vindo a acentuar em várias áreas da sociedade portuguesa, e de que o Chega é apenas a ala populista mais visível, e as redes sociais o viveiro do ódio, mas que encontra expressão numa elite que está órfã do poder, apoiada em think tanks, subsidiados por grupos empresariais, com um peso crescente na comunicação social. Repetirei de novo que uma parte importante desta deriva vem da impotência, mas com o tempo essa impotência transforma-se em raiva. A vida política portuguesa vai ser crescentemente perigosa, num caminho que encontra em Trump um inspirador não nomeado por vergonha, mas real.  ( ...)".

Há três décadas o comentador foi meu professor, e muito bom nisso. Há uma dúzia de anos esteve em Maputo, onde, gratuitamente e apenas por respeito, fiz o possível por ajudar a organização que ali o levara a enquadrá-lo o melhor possível. Espero agora nunca mais me cruzar com o traste que lhe ocupou o corpo. E a mente.

Adenda: há meses um holigão fez a saudação fascista num comício do prof. Ventura (sobre isso escrevi isto). Mas não apreciar os javardos que se passeiam com o Estaline na pança já é ser adepto do Trump, jpp dixit ... 

 

Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento (2).

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Sei que, de novo, serei acusado de preciosismos (porventura mesmo de ademanes, crítica que julgo até eivada de preconceitos fóbicos) mas volto a falar da polémica sobre esta disciplina. Após os 100 avessos surgem agora 500 cidadãos (algo "gauchistes") assinando um documento, defendendo-a pois considerando que no seu programa está "plasmada" uma "visão holística" (ra's parta, só este linguajar justificaria o imediato encerramento da disciplina).

Entretanto os adversários da disciplina, grosso modo sitos "à direita", saúdam em satisfeito coro ("vá lá, um socialista que tem algum valor") o deputado PS Sousa Pinto, que se opõe à continuidade da disciplina. Diz o deputado que as questões da cidadania e desenvolvimento radicam na aprendizagem da História, de Péricles, Políbio, Augusto, Plutarco, a La Boétie, Gibbon, Koyré e etc.

É atraente o argumento. Mas é uma falácia. Pois a aprendizagem da História (Intelectual, Política e restante) não promove, por si só, a compreensão dos fenómenos e debates actuais. Como o comprova, sem qualquer dúvida, este momento no qual várias pessoas consabidamente cultas vêm saudar a pertinência, até exemplar, da postura deste Sousa Pinto sobre estas temáticas. Incapazes de notarem (desprovidas de pensamento histórico) que este mesmo Sousa Pinto foi - nisso colhendo imensa simpatia dos gerontes PS, em particular a do dr. Mário Soares - o atrevido criador, locutor, dinamizador, da tralha "causas fracturantes", nisso enviesando/colonizando o debate político português desde o período fundamental de adesão ao Euro e processos subsequentes. Com os evidentes custos que esta última década vem mostrando, já não para falar da anterior.

Elogios a este gajo? Ainda por cima por causa de um textículo tão pobrezinho e cagão como este? Tende juízo. E ide estudar, nem que seja Cidadania e Desenvolvimento. A ver se vos deixais de cair nestas patetices.

Educação para a Cidadania

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Há uma polémica sobre a disciplina Educação para a Cidadania. Como a minha filha não estudou em Portugal não conheço o programa e a prática (ela teve, no currículo da Escola Europeia de Bruxelas, disciplinas congéneres excelentemente leccionadas que muito contribuiram para a fazer uma jovem muito informada e com uma consciência bem densa).

Assim, e por curiosidade, fui ver o programa disciplinar, esse que sustenta toda esta polémica. O portal da DGE está em baixo (oops, início de Setembro ainda por cima ...). Como tal restrinjo-me aos dados da televisão pública, RTP Ensina.

A primeira coisa que se percebe é que a disciplina veicula um conjunto de considerações que se esperam constitutivos dos valores estruturantes da prática individual. Ou seja, é mesmo uma espécie da velha "Religião e Moral" do Estado Novo, um seu sucedâneo. Não estou a dizer que é a mesma coisa. Mas que cumpre a mesma função pedagógica: explicitamente formar (formatar, como se diz agora) os valores dos indivíduos-cidadãos. Os que negam esta homologia apenas assentam os seus argumentos num "tem que ser", num dever-ser dos valores que são agora transmitidos. Concorda-se com os conteúdos transmitidos? Ok. Mas não podem chamar hereges, demoníacos, imorais ou mesmo até, e pior, ateus, aos que os recusam. E tal como eu, e outros, pude acabar o ensino secundário isento das aulas de Religião e Moral (dado o saudável e iluminado ateísmo do Senhor meu pai) sem que isso prejudicasse o meu desempenho em Ciências e Letras, também os de agora o poderão fazer - ficando um bocadinho mais morcões em alguns assuntos, presumo eu, mas paciência ...

A segunda coisa que eu retiro desta visão sobre o programa de Educação para a Cidadania é que o Estado, através do seu "aparelho ideológico" Escola, impregna os jovens com a mistificação das relações laborais exploratórias do sistema capitalista, introduzindo-os ao famigerado "Empreendedorismo", esse ícone do individualismo assente na falácia da meritocracia. Fico estupefacto e até indignado com a audácia ideológica da Escola portuguesa, com esta reprodução da mundivisão capitalista. E ainda mais surpreso fico com a ausência de crítica a esta insidiosa prática pedagógica. Onde estão agora as Raquel Varela deste país?

A terceira coisa que retiro (repito, apenas baseado nos recursos partilhados pela RTP Ensina) é uma grande ênfase na homossexualidade e seu casamento, e nas dimensões violentas (físicas e psicológicas) das relações amorosas, neste caso significadas como heterossexuais. Há apenas um filminho sobre a sexualidade juvenil, passível de não ser considerada exclusivamente homossexual, cujo texto inicia atribuindo-a a fenómenos naturais (as hormonas que saltam, etc.). Ou seja, no até vasto manancial de recursos sobre amor, sexualidade, conjugalidade, não há um filminho que seja sobre a beleza do casamento heterossexual (o antes dito "canónico"), nada o erege como "valor". Nem há - num país que tem uma baixissima taxa de natalidade, por vezes a menor da Europa - um capítulo nesta "Educação para a Cidadania", e com um filmezito qualquer, sobre puericultura, sobre a beleza da pater/maternidade. Não estou a falar da reprodução do mito do "Presépio" familiar. Mas sobre o veicular da dimensão de reprodução biológica enquanto espaço de cidadania. Nada mesmo ... Porventura porque os ideólogos do Estado pensarão que não cumpre ao Estado orientar valores sobre sexualidade ou vida familiar e afectiva? Decerto que não, pois muito do resto que ensinam incide sobre isso. De facto, o que o quadro geral da disciplina deixa perceber é uma visão enviesada das temáticas sociais prementes, segundo a ideologia identitarista em voga.

Um último ponto, já não advindo da consulta à RTP Ensina. Especulo, mas julgo provável que muitos dos professores desta disciplina, provenham de licenciaturas mais retóricas, humanidades ou ciências sociais. Convirá perceber que, ao que fui ouvindo e deduzindo ao longo dos anos, algum desse ensino superior é muito doutrinário. E será assim normal que matérias socialmente algo sensíveis sejam, por vezes, leccionadas por gente que foi doutrinada na sua formação e tenda à doutrinação. Mas aí o problema não radica na disciplina. Nem no ministério da Educação.

Enfim, pode-se dizer que é estúpido não querer que os filhos aprendam o que ali se ensina. Porventura sê-lo-á. Mas temos o direito de ser estúpidos. De não crer. E de não querer. Se eu tivesse miúdos a estudar em Portugal em vez de subscrever abaixos-assinados paroquiais preferiria gastar algum tempo, no lugar de ver o "Preço Certo" do simpático Mendes ou a "Quadratura do Círculo" da isenta comentadora Mendes, dedicando-me a matizar junto desses filhos alguns exageros "identitaristas" veiculados por qualquer furibundo setôr ...

Festa do Avante no Covidoceno

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Festa do Avante? Vejo aqui uma fotografia da Feira do Livro de Lisboa e sorrio, gente amontoada. Leio que Sousa, o patético presidente da maioria dos portugueses, invectiva um serviço do Estado (a DGS), assim esvoaçando, pusilânime, sobre o aparelho de Estado, para não afrontar a tutela política, o governo. Leio também que lhe respondem, que não há publicações das directivas da DGS para outros eventos ("toma e embrulha, ó Sousa"). Também leio que o PCP não deveria realizar a Festa durante este covidoceno. Que é aquilo que eu penso, não por causa dos perdigotos mas porque maior demonstração da incoerência deste governo não há, "uns podem, outros não ..." é a imagem que fica de tudo isto. Mas nisso terá o PCP razão, o problema é mesmo o da atrapalhação estrutural destes mandantes (aquela senhora das pregadeiras que nos mandava visitar os lares, lembrar-se-ão as pessoas disso?, e que protestava contra o fecho das escolas ... a ministra que não mama copos sem máscara, etc.), da taralhouquice desta elite, apardalada.

Enfim, Festa do Avante? Faça-se. O Covid irá crescer um pouco, com ela ou sem ela. Sousa & Costa continuarão a ser muito bem aceites (Rodrigues faleceu-se no caminho, mas isso são danos colaterais). O meu problema com a Festa do Avante? Não são os perdigotos. É este:

Fui à festa do Avante desde o início. Pois o camarada Pimentel, apesar das suas suspeitas quanto ao desvio de direita "eurocomunista" de Berlinguer - tal como o de Carrillo e, também, também ..., de Marchais -, acompanhara-me diante dos italianos Area na FIL nesta hendrixiana "Internacional" e, no ano seguinte, deixara-me assistir a Eugenio Finardi, aí já ombreando com os míticos Fairport Convenction e outros.

Naqueles tempos a Festa do Avante conjugava gerações, a gente aterrava ali a beber durante três dias (e a fumar que se fartava, vá lá, que também era verdade), a "camaradar" entre nós e com os mais velhos dali, os camaradas mesmo, aqueles voluntários dos pavilhões regionais a rirem-se dos nossos "camarada" e nisso a serem camaradas, no servirem/ajudarem às cervejas e comes, para nos manterem em pé, e mesmo assim nós por vezes a desconseguirmos ... Nisso a gente, em tempos tão diversos, via pavilhões do mundo inteiro (o comunista, claro) e do resto do país, nestes com os petiscos locais, jogava-se xadrez com os macro-grandes mestres soviéticos e ouviam-se inúmeros músicos de todos os lados, desde os desconhecidos, e alguns que músicos!!!, e os Dexys Midnight Runners (que concertão), aquele Chico Buarque (no apogeu!!, ainda que trémulo por questões lá dele, biográficas), o Manu Dibango (Manu Dibango em Lisboa naquele tempo? tão raro que me obrigou a voltar àquela Festa, já anos depois de me ter recusado a frequentar aquilo), o rock celta então em voga, proto-etnomusic de então, o Ivan Lins provavelmente no melhor concerto da sua carreira (com a belíssima mulher de então, uma loura Lucinha a alumiar Lisboa), Jorge Pardo, o fantástico "corno" de Paco de Lucia, num pavilhão menor numa actuação inesquecível da qual nada recordo, Makeba sem eu saber quem era Makeba, o gigante Luis Gonzaga diante de uma audiência que não o sabia ouvir, Charlie Haden a enfrentar um público estupefacto e também Max Roach, e tantos outros, ali todos os anos polvilhados pelo discurso quase final do camarada secretário-geral, o grande Cunhal.

Foi mesmo isso que me acabou ali, no cruzar a chegada aos 20 anos, na azia, enorme, de ver que nenhum Godinho ou Vitorino, sempre cagões - e ainda hoje - com a puta da liberdade na boca, como se dela fossem arautos, dedicava alguma canção, pequena que fosse, àquele Sakharov então sob custódia, e das duras, que o Ary dos Santos, poeta histriónico gritador de poemas diante de milhares, nunca lembrava os homossexuais perseguidos (e bem fodidos) nos países lá deles. Um dia, sei lá quando, mas depois dos The Clash no Dramático de Cascais, irritei-me mesmo com a merda do público a cantar o hino nacional (sim, o bacoco "às armas") de punho direito erguido, "que faço eu aqui?!" qual Rimbaud na Ajuda, e, foda-se, nunca mais lá fui. Os gajos, mesmo aquela turba simpática, o povo d'aquém e além-Tejo, eram, e mesmo sem o saberem, pobre gente alienada (como dissera o tal Marx), e nisso o inimigo. Vil. Segui para outros concertos, mas nunca festivais.

(O trecho da minha memória da Festa do Avante fora já colocado neste postal)

 

O "Público", Sousa e a Feira do Livro

Uma cidadã, cuja aparência associa àqueles que os costumes lisboetas do lumpen-jornalístico sempre cuidam de desvalorizar intitulando-os como "popular" ou "mulher/homem", invectivou o presidente Sousa na Feira do Livro. Teve o surpreendente efeito de o fazer apelar ao voto anti-PS, coisa nunca ouvida até agora.

O interessante da cena é o compungido editorial do director do "Público", até indignado por assim se destituirem os políticos "da dignidade dos seus cargos e do estatuto das suas funções", dizendo o episódio um "prenúncio do que aí vem" de desvalorização dos políticos, não deixando de melifluamente aventar que se tratou "apenas [de um]a peça de uma engrenagem montada por um partido populista" e invectivando que se "perturbe a agenda do chefe de Estado", e que tal "tenha direito à glória nas televisões e mereça ainda aplauso de alguns que, dizendo-se defensores da democracia, aplaudem incidentes que a degradam".

É um editorial canino, aquilo da célebre "voz do dono" e espelha bem o que é este jornal, o mainstream PS e os acólitos (ex-)Livre. Apenas como ilustração deste seguidismo aqui deixo um filme de 2012, breve trecho da pantomina acontecida quando o PM Passos Coelho foi à Feira do Livro. Nem este plumitivo gemeu nem os seus adeptos leitores se indignaram ou sentiram o prenúncio do apoucamento democrático. Gente vil, nada mais do que isso.

Contingência

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Avisam-me que o governo da República decretou para daqui a algumas semanas a entrada do país num estado de contingência. Surpreende-me, sempre julguei ser esse um estado constante, perpétuo no sentido de ôntico. Afinal não será. E acrescentam-me que se deve tal ao covid, que piora aqui e alhures a olhos vistos. Então, e se assim é, porque decretar para o futuro? Será porque se perspectiva um ocaso? Ou mesmo a antes célebre flatulência-magistral?

 

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