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Nenhures

Nenhures

Carta para a minha filha devido ao atentado de Londres

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Quando te digo para não cederes ao politicamente correcto não estou a ser o tal pai apenas velho e reaccionário, que decerto pareço. E não, não estou a ser apenas o tal pai que despreza, visceralmente, a turba de demagogos - quantos deles meu colegas antropólogos ou similares - sequiosos dos financiamentos socratistas ou quejandos, viçosos na estufa do "Choupal até à Lapa", de Telheiras ao Bairro Alto, e tão loquazes na defesa da "tolerância" e no ataque a nós-todos, "brancos" "ocidentais" (excepto eles próprios, porque homossexuais aka gays, guevaristas, "genderistas" ou tralhas semelhantes).

Quando te digo para não cederes ao politicamente correcto é para que possas pensar o mundo, nele actuar ou apoiar. Com sentido crítico. O que implica tino, imenso tino. E independência dos financiadores, burocratas estatais quase sempre.
 
E digo-te isto, comovido e até um pouco aflito - apesar do mim-mesmo que se vê rude pois experimentado, nada atreito a histerismos, mas pai -, ao ler esta notícia, a mostrar como aí nas universidades onde andas também vigora esta mentalidade, do medíocre e torpe "correctismo":
 
 
Minha querida, o problema não é o "Boris", goste-se ou não dele. O verdadeiro problema, horrível, é esta gente, vizinha, colega (até amiga) que faz por incompreender e esconder - por interesse, para ter ganhos económicos e estatutários, nos meneios e trejeitos em que se anima - que "tolerância" é sinónimo de "segurança". Urge afastar-nos deles. Que as polícias, em democracia, cuidem dos escassos guerrilheiros terroristas. E que nós, cidadãos, nos afastemos, combatendo-os, destes colaboracionistas "intelectuais".
 
Um beijo, muitas saudades.

Eu Sou o Desconforto!

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"Eu sou o desconforto" (falta ao título jornalístico do Expresso o óbvio ponto de exclamação) não é apenas o catasfioresco trinado "rio-me de me ver tão bela neste espelho". É mesmo uma proclamação bíblica, a sublinhar uma desmesurada autopercepção.

Desde Bruno de Carvalho que o país não tinha uma personagem destas. A imprensa delira, as redes sociais fervilham. Alguns demagogos (ainda) rejubilam. Vem aí o Natal. Depois o delírio continuará. Até (nos) cansar.

 

Por um referendo nos Olivais

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A história é simples: a Câmara de Lisboa decidiu instalar a EMEL na freguesia de Olivais. Escolhendo um modelo todo desatento às características urbanísticas (espaciais e sociológicas) do "bairro". A presidente da Junta (PS) desde há anos garantira que sob sua presidência a EMEL nunca seria instalada, e disso também fez argumento de campanha eleitoral. Tudo isso foi varrido, e aí já está o processo de instalação do parqueamento pago. Com efeitos brutais na mobilidade/sociabilidade dos habitantes de tão peculiar freguesia. Para se justificar diz a presidente Rute Lima (entrentanto candidata à AR por Lisboa) que os opositores à EMEL são "comunistas", e assim segue ufana no desdizer-se.
 
Não se trata apenas da rapina económica (impostos e taxas) estatal. Nem só do alijar das responsabilidades camarárias na situação automóvel - nas últimas três décadas a construção imobiliária, de estações de metro, e o crescimento do aeroporto, nunca foram conjugados com o do estacionamento (parques ou silos).
 
É pior ainda: pois as instâncias camarárias foram forçadas a aprovar a realização de um referendo aos fregueses para decisão sobre a instalação da EMEL. E estão a protelar a sua realização enquanto vão instalando o parqueamento pago. Ou seja, não é pura irresponsabilidade camarária, não é pura demagogia dos políticos. É mesmo violação dos procedimentos legais democráticos. O partido do poder, no centro de Lisboa, a comportar-se assim. E o (empobrecido) cidadão que pague, cada vez mais. Sem qualquer racionalidade, sem considerações do impacto social destas medidas punitivas, sem procurar desenhar modalidades menos agressivas.
 
Hoje, sexta-feira, depois do horário de trabalho, às 19 horas, é de ir até ali à Encarnação/Olivais Norte, diante da sede da Junta. Para exigir a realização do referendo. E depois que a população freguesa diga do seu entender: se sim, se não, e como. Mas, acima de tudo, para ecusar que o poder político continue a tentar fintar o povo. Demagogicamente.
 
Por isso clamo: "De pé, ó vítimas da fome"! E lá estarei, ombreando com o "sal da terra". Contra esta gente.

A subserviência do PS (e do BE) ao patronato

Anteontem o Flamengo ganhou. Creio que a esmagadora maioria dos portugueses que gostam de futebol, polémicas à parte, dichotes esquecidos, torceram pelo Jesus e festejaram os feitos do peculiar e brilhante treinador. Benfiquistas e sportinguistas em particular, unidos na bola pelo JJ. Essa comunhão nacional foi logo saudada pelos políticos, PR à frente - e bem.

Talvez isso sublinhe ainda mais este episódio, que o Pedro Correia muito bem titula de "inqualificável". Esta semana na AR foi proposto um voto solidário com Bernardo Silva, acusado de racismo e castigado pela corporação inglesa de futebol (Liga), o colégio do patronato. A acusação é vil, a sentença injusta e os danos morais (e reputacionais) grandes. A arrogância patronal óbvia. Fui ler o texto da moção solidária com o jogador internacional - é absolutamente liso, sem "sub-texto", como tantas vezes estas moções têm. Diz da necessidade de combater o racismo no desporto. E salvaguarda Silva, dizendo da incorrecta acusação e sua decente personalidade - e quem tem ligações ao mundo do futebol (e na AR há quem tenha) sabe que isso é bem verdade, Bernardo Silva é um campeão muito peculiar, na sua robusta personalidade, que o torna particularmente querido. E, de facto, socialmente exemplar.

Mas o voto de solidariedade com o futebolista e de crítica ao patronato do futebol inglês foi chumbado. Pelo BE e pelo PS. A propósito de quê?, com que fundamentos?

Hoje, com toda a certeza, o secretário-geral do PS e tantos dos seus militantes mais conhecidos, andarão a louvar o outro campeão da bola, Jesus, a associarem-se à alegria do povo. Amanhã, caso o Manchester City ganhe troféus relevantes (a Liga dos Campeões, por exemplo), lá virá Costa fazer o mesmo, saudar Silva. E lá aparecerão nos jardins de São Bento, a coordenadora Martins e o sec-geral Costa em particular, a receberem a selecção antes do próximo Europeu. E, nesse dia, com toda a certeza se o Diabo não vier a tecer lesões, recebendo então Bernardo Silva, o magnífico jogador.

A hipocrisia desta gente é enorme. Tanta que até funciona quando é desnecessária, mero reflexo. Da sua natureza. Vil.

O Gesto

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Muito faço este gesto. Não, não sou um "supremacista branco", mesmo que deteste visceralmente aquele partido tribalista do doutor Tavares, tão do apreço de alguns antropólogos portugueses (e até, para minha dor, de amiga antropóloga). E de quejanda tralha socratista.

Faço-o, ao gesto, expressando filosóficos "que pitéu!", "que belo uísque!!", "de chorar por mais ...". Ou coloquiais "na mouche", "óptimo!", "certo!", "impecável", "isso mesmo". Pois é esse o seu antigo significado, canónico, o tal galicismo "na mouche": "no alvo!, arqueiro". Ou seja, aquilo a que os que falam (e pensam) por onomatopeias clamam "OK".

Hoje há por aqui uns pândegos, senhoras finórias e rapazes de teclado espigadote, a interromperem as suas diárias loas a Passos Coelho, Portas, os liberais, e a alguns estrangeiros muito na berra, que me enchem o facebook mostrando-me gente conhecida e de várias cores a fazer o mesmo gesto. Meus colegas gestuais, por assim dizer.

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Querem, estes atrevidos, com isto convencer-me (e se calhar a outros) que os garbosos polícias foram em "arruada" a São Bento acompanhados do deputado André Ventura mostrar ao parlamento e respectivo governo que tudo está OK, que as suas políticas e atitudes são na mouche. De "chorar por mais".

A minha família proibiu-me de dizer palavrões no FB e no blog. Estou assim limitado. Ficam assim apenas subentendidas as práticas que recomendo às tais senhoras, tão passoscoelhistas, e aos (serôdios) rapazotes espigadotes. Quereis-me tomar como parvo? Ide ..

 

O novo hotel brasileiro da Vila Galé

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Quando surgiu esta "onda Bolsonaro" gerou-se, por influência dos discursos brasileiros de então, uma onda contrária, invectivando-o fundamentalmente por ser anti-negros e anti-mulheres. Logo me pareceu uma abordagem descabida: o homem não iria legislar contra "negros" (o espectro "pardos/negros") nem contra mulheres. O que era (e é) de esperar é que rompa com políticas de "discriminação positiva", o que é debatível.

Mas o que logo pareceu óbvio é que a grande questão, e a mais importante sob o ponto de vista internacional, seria a sua política amazónica, tanto por declarações explícitas sobre a matéria como pela sua adesão ao totem "mercado". E, acima de tudo, pela importância nos seus apoiantes dos sectores "ruralistas". Entenda-se bem, a depredação ecológica e a refutação dos direitos fundiários das populações ameríndias, na Amazónia e não só, não é uma consequência desta abordagem política, é um projecto político por si só. Claro que então, e depois, isso foi muito (muitíssimo) menos abordado, tanto pela inexistência de movimentos amerindófilos como pelo estado sub-intelectual dos movimentos ecologistas portugueses mais mediatizados, os inscritos no espectro partidário.

Temos agora esta notícia sobre um projecto de explícita rapina dos direitos fundiários de uma população ameríndia. É algo mais do que esperado. A particularidade é que é levada a cabo por uma empresa portuguesa, o segundo maior grupo hoteleiro nacional, Vila Galé Hotéis. A reacção da sua administração à denúncia desta inaceitável acção (que foi descrita pela antropóloga portuguesa Susana Matos Viegas, profunda conhecedora daquela área), não é boçal. É sim um negacionismo estratégico, indigno de tão imoral. A única dúvida que este projecto levanta é a do estatuto da Vila Galé: será pirata, actuando por conta própria? Ou será corsária, devastando com o apoio do Estado português? Assim de longe julgo que será mesmo uma empresa bucaneira. Mas a ver vamos, se haverá reacção governamental que nos demonstre não só a inexistência de "carta de corsário" emanada como também a oposição efectiva (ou seja, com punições legalmente aceitáveis e economicamente penosas) do governo português a práticas destas.

Como portugueses pouco temos a dizer sobre as políticas brasileiras. Mas muito podemos dizer à Vila Galé. Evitarmos os 23 hotéis em Portugal e dos 8 que já têm no Brasil. Neles não fazer turismo ou organizar congressos, nem neles nos acolhermos para viagens laborais. Inclusive repudiando reservas que outros (em contextos laborais) nos façam nessas instalações. Explicitando a causa. E, claro, exigirmos ao nosso governo o explicitar do repúdio por tais gentes, bem como que as instituições estatais e municipais nunca sejam clientes nem apoiantes desta empresa.

Contra este projecto, ainda em deliberação pelo governo brasileiro, foi lançada uma petição. Subscrevê-la será bonito, simpático, uma espécie de suave ombrear com os que defendem direitos justos e tão dificilmente adquiridos e de ainda mais difícil manutenção. Mas não suficiente. Pois diante disto urge mesmo, sensibilidades políticas à parte, bradar "Que se lixe* a Vila Galé". E exigir que o nosso poder ouça o urro.

*Texto censurado por instâncias familiares.

Os "pequenos partidos" na Assembleia de República

Notícia interessante: os partidos tradicionais da esquerda recusam conceder aos novos 3 partidos parlamentares tempo para participação nos debates. Mas na anterior legislatura concederam-no ao ecologista PAN, abrindo excepção aos regulamentos (ditos "regimento"). Foram então magnânimos, assim se sentiram. Não o querem ser agora, porventura porque não se defrontam com uma novidade paladina de "cães e gatos" mas sim com 3 afrontas ideológicas ao status quo. Mas isso, essa atitude discricionária de quem assim tanto mostra que se sente proprietário daquela casa, pouco vingará.

O relevante é que a anterior legislatura (4 anos) funcionou com uma excepção aos regulamentos, considerada aceitável e legítima. Mas mesmo assim os partidos - até o PAN, que beneficou dessa "magnanimidade", qual mimoso "pet" - não modificaram esses regulamentos. E que o Presidente da Assembleia, que agora surge como se voz avisada, não induziu essa alteração nem clamou publicamente pela sua necessidade.

Andaram os partidos e andou Ferro Rodrigues "a dormir na forma", como se diz no dialecto castrense? Ou, pelo contrário, bem despertos, a deixar "correr o marfim" para manterem o controlo, "corporativo", da casa de todos nós por vias da "pessoalização" hierarquizada das decisões? Aquilo do paradigma do favorzito nas decisões públicas, neste caso o tempo para falar no plenário, noutros aquilo que tanto se sabe? Pois esse é o paradigma dominante, "regimentos" frágeis, maleáveis ou contornáveis, decisões "magnânimas", "atençõezinhas", ou seja, "leis não aplicáveis literalmente" como defende Santos Silva?. Escolha-se a opção.

Ferro Rodrigues tem razão, agora paladino da equidade? Nada disso, quatro anos de silêncio é o que se lhe deve cobrar. Tarde piou, é o que cumpre dizer.

O aeroporto do Montijo?

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Este do Tim Curry é um dos ícones da minha adolescência (sim, eu sou "tóxico", mas cresci nos 1970s ...). E muito me tenho lembrado dele nestes últimos dias. A propósito destes direitinhas, uns mui liberais, outros algo Chegas, até Cêdêésses, uma nesga envergonhada deles psd não-Rio, que andam há um ano a gritar contra a Greta, a bufar contra os "marxistas culturais" do aquecimento global, a clamarem contra a cabala dos cientistas, a espumarem e flatularem "no pasa nada" no ambiente, etc. e tal.

E agora surgem, de repente, travestidos sem a onda do Tim Curry, mesmo quais prostitutos de rua barata, carregadinhos de doenças sexualmente transmissíveis, a protestar contra a perfídia, incompetência e malandrice dos socialistas, pois estes prontos, ao que parece, para decidirem por um aeroporto num Montijo que será, afinal, dizem estes malandretes, ... inundável pelos efeitos do aquecimento global.

Alguém chama a "ramona", a por ordem no beco infecto, a meter estes burguesotes histéricos na choldra? Só até amanhã, a ver se se acalmam ... que a gritaria não deixa dormir a vizinhança.

Postal ilustrado para a Vera (1): o corredor

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Passou já um quarto de século! Em 1994 trabalhei uns meses na preparação das eleições na África do Sul, aquelas nas quais Mandela e o ANC ascenderam ao poder. Foi o histórico e esfuziante fim do apartheid. E para nós, estrangeiros, também sublinhava a época, essa da crença num futuro ainda assim melhor, o da imperfeição democrática, derrubados que haviam sido os fascismos sul-americanos e os comunismos europeus, chegados os BRICS asiáticos mais desempoeirados e abanadas as ditaduras africanas, naquilo do "ajustamento estrutural", não tão santo assim, mas isso só o viríamos a perceber depois ...

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Integrei um pequeno grupo de observadores colocado no Cabo Oriental, num corredor a que então chamavam "Border", encastrado entre os bantustões Ciskei e Transkei, nominalmente independentes, um naco de terra fértil, coroado com a maravilhosa Hogsback, da qual se diz ter Tolkien retirado inspiração para criar o seu universo ficcional, e culminado com East London, rica cidade pois melhor porto índico do país. Entre o pequeno grupo de colegas logo a maioria se acomodou naquela plácida cidade, congregando-se numa até modorrenta sucessão de visitas às actividades pré-eleitorais decorridas nas suas imediatas ... imediações. E, sendo franco, pois tanto tempo já passado, na fruição das aprazíveis instalações de veraneio que East London tinha.

Nestas missões trabalha-se em pares. Tive a sorte de me ter calhado como parceiro um enérgico francês, vindo de uma missão de dois anos na guerra na Jugoslávia, na qual trabalhara para a Cruz Vermelha. D. e eu logo fizemos para nos baldarmos a esse remanso, tão desejado pelos tais colegas. Assim, e para contentamento de toda a equipa, ficámos encarregues de acompanhar o que se passava nas "townships" circundantes, e também no Ciskei e no sul do Transkei. As distâncias eram grandes, as jornadas decorriam em ritmo frenético. A experiência foi fabulosa.

Éramos jovens, bebíamos muito, dormíamos quase nada.  Deitávamo-nos tardíssimo, madrugávamos de noite, mata-bichávamos bifes tártaros, com o ovo cru, e partíamos no nosso pequeno VW Citi 1800, voando até, pois isentos de limites de velocidade por sermos observadores eleitorais. Lembro-me de dizer a D. ser ele o homem em quem mais confiava no mundo, pois adormecia no "lugar do morto" a mais de 180 kms/h naquele carrito. Pois se eu guiava depressa, ele fazia-o ainda mais. Assim, e sem exagero, "íamos a todas".

Assistíamos a reuniões políticas, era essa a nossa função, o de "mostrar a bandeira", a da U.E., nisso a todos confirmando estar a "comunidade internacional" presente, para assegurar uma eleição "livre e justa", sem incidentes nem violências. Foram centenas naqueles trepidantes três meses: vi Mandela no Ciskei, um dia maravilhoso, Mbeki e Ramaphosa, os dois anunciados vices, FW, Winnie - que mulher!, que carisma ... Holomisa, o homem do Transkei, e a queda de Gkozo, o homem do Ciskei (bloguei pequenas memórias disso aqui). E imensas outras, pequenas, de cariz local. A logística era sempre igual: na véspera sabíamos as reuniões (comícios ou afins - ninguém dizia "arruada" naquele tempo) previstas e seguíamos desde a madrugada. À chegada éramos aguardados por "comités locais de paz", gente de organizações não-governamentais que nos enquadravam, tanto para questões da nossa segurança como para nos servirem de intérpretes. Claro, nem sempre existiam esses "comités", mas sempre alguém nos acolhia.

Nessas manifestações as únicas verdadeiramente difíceis eram as do Pan-African Congress. Histórico movimento de resistência anti-colonos e anti-apartheid, o partido estava então submerso à enorme vaga Mandela/ANC, como os resultados eleitorais vieram a mostrar. Tratava-se de um partido m-l radicalizadíssimo, profundamente racista e, ainda que na época isso não fosse assunto de agenda, visceralmente homofóbico  - sob a tese muito espalhada de que a homossexualidade é excêntrica aos africanos, entenda-se pretos, e uma maleita dos brancos, a extirpar. Os seus comícios, nos quais nunca havia qualquer "comité" de acompanhamento, decorriam nas paupérrimas "townships" e nos tétricos "informal settlements", tinham sempre escassos participantes, estes nada amistosos, para não dizer mais, com os brancos estrangeiros que ali apareciam. O partido tinha dois motes muito peculiares: mantinha o cântico/slogan "one settler, one bullet", a convocatória ao assassinato de todos os brancos no território, o que nos fazia algo desconfortáveis, e defendia a mudança do nome do país para Azânia. Enfim, se visitar sozinhos essas paupérrimas áreas residenciais era já bastante enervante, tanto nos avisavam dos perigos que corríamos e nos desaconselhavam a fazê-lo, entrar naqueles comícios e enfrentar a rudeza dos aglomerados era algo custoso. Íamos, dávamos uma volta, mostrávamos que ali estávamos, calculávamos os participantes e outros itens requeridos para os relatórios, e logo partíamos, sempre bastante desconfortados. Para não dizer outra coisa.

Os meses passaram, as eleições correram, o PAC teve um resultado ínfimo. Mandela chegou ao poder. Após a contagem dos votos parti dali, fiz a Garden Route pela minha primeira vez e cheguei ao Cabo ainda a tempo de acompanhar o seu empossamento como Presidente da África do Sul. Glorioso momento.

Logo voltei a Portugal. Dois dias depois de chegar fui à universidade, pois estava então a fazer um mestrado e a preparar a minha partida para Moçambique para trabalho de campo, o qual adiara exactamente por causa desta missão. Logo no corredor de entrada encontrei um professor, homem conhecido e cidadão activista. De modo simpático, até enfático, dirigiu-se-me e disse "Flávio (que era o meu nome de escola), soube que estiveste na Azânia!". E lembro-me exactamente do que pensei: "Fogo, branco e homossexual eras o primeiro" (a ser abatido, entenda-se). Mas é óbvio que não lhe disse isso, para quê? Apenas lhe respondi "Não, estive na África do Sul ...". E segui à minha vida.

***

Vera, minha querida amiga, e até co-bloguista, partilho contigo esta mera historieta, e já tão antiga, que me veio agora à memória. Decerto que pelos dias que correm e algumas pessoas que discorrem. Não tu, que assim fosse nunca o faria deste modo público e até enviesado. Esta história não me serve de trampolim para tentar compreender a tão complexa África do Sul, nem fenómenos como Malema, as lutas de poder no país, o historial da propriedade fundiária ali ou nos países vizinhos, ou tantos outros assuntos, e muito menos para a decalcar para o resto do mundo. É mesmo só uma memória pessoal, talvez pouco significante. Mas partilho-a contigo, agora, um quarto de século passado, porque me ocorre algo bem diverso: é óbvio que se podem tirar as pessoas do corredor. Mas a algumas pessoas não se lhes tira o corredor. Pois este é muito confortável.

Beijos, bom campo ...

A demagogia

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Leio num jornal que provavelmente a actual ministra da justiça sairá do governo e irá para o Tribunal Constitucional, sendo previsível que passará a presidi-lo daqui a algum tempo.

Entretanto, nestes últimos dias, continuo a ler um enorme chorrilho de patacoadas sobre o extraordinário significado da ascensão ao parlamento de gentes oriundas do bloguismo mais demagógico do início dos 2000s. Uma verdadeira orgia de jargão, um frenesim orgástico. E, espertalhões que são, as pessoas dão-lhes atenção. 

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