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Nenhures

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(Fotografia de António Cotrim/Lusa; Festas de Santo António, Lisboa, 2022)

Não será descabido dizer que o registo de acção política de Marcelo Rebelo de Sousa é histriónico. Dele não se pode esperar qualquer trégua, nela intentando uma gravitas que tenha como objectivo densificar a sua intervenção, que valorize seus discursos e silêncios, atitudes e intervenções - e que não é, bem pelo contrário, sinónimo de uma postura hierática. Mas sim de ponderação.

O seu trajecto é, apenas, de um egocentrismo radical, um projecto exclusivamente pessoal de teor populista (patente no afastamento aos partidos, na encenação da "familiaridade" com o "povo"). Nisso mimetiza o registo muito digno do seu pai - um doloroso anacronismo, pois exercido numa época histórica radicalmente diferente e por um político de diferente conteúdo. Não surpreende nisso (escrevi sobre esse evidente mimetismo em Dezembro de 2016, para quem tiver curiosidade). E a isso se associa uma adesão total à superficialidade comunicativa, que provém dos seus tempos de "enfant terrible" na imprensa "de referência" lisboeta. Mas que tomou aspectos radicais na vertigem da exposição televisiva, pela qual pavimentou o seu rumo até Belém - e, de novo para quem tenha curiosidade, recordo um postal meu de Junho de 2008, época em que não imaginava até onde Rebelo de Sousa se alcandoraria. E nesse texto de 2008 dava eu conta da estupefacção da minha filha, então com apenas 6 anos, com a ridícula irrelevância de Rebelo de Sousa!

Agora, nestas festas populares de Lisboa, o Presidente da República possibilitou esta fotografia. Que logo se tornou "viral" (como se dizia antes da Covid-19), levantando inúmeras dúvidas sobre a sua veracidade, tamanho o despropósito patente. Mas a fotografia é real. Estou certo que muitos saudarão o momento, invocando a sua genuinidade, a simpatia ali extrovertida - características essas que são exactamente as opostas à personalidade de Rebelo de Sousa, como confirmarão em surdina todos os que o conhecem... E mais ainda porque a cena da fotografia é até polissémica (nas festas populares, uma senhora grávida do "povo", negra, porventura imigrante ou descendente de imigrantes, tendo o seu próximo rebento ungido pelo beijo presidencial...).

Mas, francamente, isto é demasiado. Passará porque Rebelo de Sousa tem uma "belíssima imprensa". Só isso justificará como passou incólume a ter sido o verdadeiro responsável pelo longuíssimo período em que o país esteve sob governo de gestão, em pleno pós-Covid-19, crise energética, alterações financeiras e eclosão da guerra na Europa. Algo que foi uma verdadeira catástrofe política no seu duplo mandato presidencial. E, mais do que tudo, demonstrativo da tal falta de ponderação política, bem mais grave do que aquela que já demonstra no seu frenesim quotidiano.

Mas a situação presidencial não se avaliará apenas pelo sopesar do efeito dos seus actos e das suas inacções. Pois há atitudes, momentos, breves que sejam, que vão sendo preocupantes. Há três meses houve uma votação na ONU sobre a invasão russa. Moçambique, tal como vários países africanos, absteve-se. Aqui disse ser isso normal, são as opções soberanas de posicionamento bilateral e multilateral - e, ainda para mais, o país estava no processo de candidatura ao Conselho de Segurança da ONU. Ainda assim, foi algo estranho que logo de imediato o nosso PR tivesse visitado aquele país. Mas também é compreensível, pois a diplomacia faz-se muito mais deste gestos do que de tonitruâncias espúrias. Rebelo de Sousa foi a Moçambique para inaugurar um hotel construído por um grupo português (Visabeira), razão talvez insuficiente mas porventura instrumental. Ora o que me sensibilizou nas reportagens foi o discurso que proferiu nessa cerimónia, demorando-se sobre aquele local apropriado para "conversas românticas com passarinhos"... Pareceu-me estranho, mas talvez tivesse sido apenas fruto de cansaço ou um mero improviso algo desconseguido. Dois meses depois foi a Timor, tendo cometido o clamoroso erro político e securitário de anunciar a visita do Primeiro-Ministro à Ucrânia. Mas, ainda mais significante para o seu momento actual, foi a excitadíssima atitude diante de Xanana Gusmão. Seguido de um discurso numa escola local, apelando a gritos e cânticos, um momento até pungente de incomunicação, e de incompreensão do contexto. Agora, em Lisboa, este beijo - quase pastoral -, até patético.

Honestamente, a sensação é que Rebelo de Sousa não está bem. Porventura macerado por efeito de insucessos políticos, ou por outras razões desconhecidas, a sua coreografia está descalibrada. E em assim sendo este tipo de atitudes continuarão, e aumentará o seu descabimento. Começa pois a ser óbvio que urge a intervenção da sua "entourage". Mas qual?, é a pergunta. Que núcleo político, real, está em torno do Presidente da República Portuguesa? Que o possa ajudar neste momento que começa a parecer crítico.

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A situação dos serviços públicos de Saúde é complicada. E tendendo para o deficitário face às expectativas sociais. Nos últimos dias, para além dos consabidos problemas estruturais e das reclamações dos sectores profissionais, aconteceram mortes em instalações públicas que convocaram a atenção. Há uma década alguns lamentáveis incidentes similares convocaram uma chuva de reclamações na imprensa - na redução de maternidades proposta sob Correia de Campos e, depois, durante o governo de Passos Coelho. Mas agora a reacção da imprensa (jornalistas e colunistas) é muito mais pacífica. O poder de Costa é-lhes mais atractivo, mais sexy.

Nos últimos 27 anos o PS esteve no poder, a solo, durante 21. É assim absolutamente inaceitável a continuidade do discurso que responsabiliza a "direita" e os seus "interesses privados" (os "barões da medicina", como alguns ainda adornam) pelo estado actual dos serviços de saúde públicos. É um aldrabismo, puro e simples.

A governação da ministra Temido exerce-se há sete anos, ela tem o posto há quatro e é o seu terceiro governo consecutivo. E sobre o seu desempenho é relevante percebermos a influência de uma imprensa - a institucional e a dita de "cidadania", a dos apparatchiki, avulsos nas redes sociais - que cria "boa imagem", ao governo e a alguns dos seus membros. E a esta ministra, muito em particular.

Recordo que durante o longo período sob a Covid-19, muito se falou, bem e mal, fundamentado e infundamentado. Mas nada vi tão baixo como este episódio: no início de 2021 Portugal tornou-se, por algum tempo, um dos piores países do mundo, talvez mesmo o pior, no controlo da pandemia. É evidente que o rumo desta era algo inesperado e que os seus efeitos seriam sempre duríssimos. Mas tal descontrolo nacional muito se deveu à atrapalhação governativa (executiva e comunicacional) durante o Outono-Inverno de 2020. Nesse nosso pico pandémico - com o sistema de saúde em sobreesforço - vingou o "negacionismo" informativo: passados alguns meses foi notícia constante a "catástrofe indiana", pois naquele país de infraestruturas sanitárias bem mais escassas do que as nossas, morriam diariamente cerca de 11 vezes mais pessoas do que naquele nosso Janeiro. Mas os indianos são 140 vezes mais do que nós!... E aqui o que se afirmara não fora a "catástrofe lusa" mas sim, ao invés, a excelência de Temido. Esse trabalho propagandístico foi eficiente, por mais baixo que o possamos considerar: lembro que no rescaldo de uma entrevista de Temido à RTP, onde ela se escapou às críticas respondendo de modo abrasivo, tornou-se "viral" (como se deixou de dizer...) um apoio partidário que a tratava como "Super Marta". Quando éramos, repito, um dos piores ou mesmo o pior país do mundo nos efeitos da Covid-19.

De facto, Temido era má ministra antes da Covid-19. Não foi uma boa ministra durante a Covid-19. E não é a ministra necessária para o pós-Covid-19. Tem uma "boa imagem", pois não é um decano façanhudo e porque teve a imprensa (a institucional e os tais avençados) a cuidar de si. Entretanto, o SNS está numa crise estrutural profunda. E anunciada. E ela nada tem para responder.

Mas nada ganharemos se apenas a tornarem numa "cabra expiatória", enviando-a para um qualquer posto internacional. Pois, de facto, o  problema ultrapassa-a. E o cerne é este, repito-me: nos últimos 27 anos o PS esteve no poder, a solo, durante 21. Com vários governos, primeiros-ministros e ministros da Saúde. E o SNS está como está. É esse o busílis. Necessário para reflectir antes da próxima e necessária demissão de Temido. Que não é "Super" nem nunca o foi. A não ser nas palavras avençadas. E nos aplausos inconscientes. Até suicidários.

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Uma prestigiada universidade lisboeta introduziu sanitários unissexo (aliás, unigénero) nas suas instalações. Ao que informa a imprensa as razões são totalmente curiais, dado que ali laboram pessoas (decerto que alunos, funcionários e professores) que "não se identificam com o género que lhes foi atribuído à nascença" - presumo que esta formulação algo excêntrica advirá de uma incompreensão do jornalista redactor, mas isso será pormenor que não apoucará a justa causa sanitária. Assim sendo, e dado o incómodo sentido por essas pessoas ao satisfazerem as suas necessidades fisiológicas, a progressista universidade encetou o processo de terminar com o apartheid fisiológico.

De facto, nada se poderá contestar face à justeza do princípio activado. Apenas um pudor culturalmente imposto nos conduz a apartar "homens" e "mulheres" (se é que estes termos ditatoriais ainda têm pertinência) nos seus momentos de micção e defecação - e é bem sabido que outras sociedades organizam de modo diferente essas práticas fisiológicas, tanto em termos de separação de "géneros" como de "gerações" (essa ditadura etária...) e mesmo de proclamação da "intimidade" requerida para os actos.

É certo que se poderá dizer que aqueles que querem recusar "o género que lhes foi (culturalmente) atribuído à nascença" (para usar a malévola construção do jornalista) também poderiam - e até mais facilmente -  apartar-se desse pudor culturalmente atribuído. Mas enfim, para quê violentar as suas sensibilidades em momentos, por vezes, tão aflitivos? Que justiça haverá em exigir-lhes ainda mais um expurgo cultural, exauridos que poderão estar dada a premente (e porventura pressionante) tarefa de se libertarem do peso cultural imposto pela genitália.

Em face do que exponho - e faço-o impregnado pelos saberes da antropologia, a qual estudei naquela mesma universidade, ainda nos tempos do apartheid sanitário - julgo assisada a decisão das autoridades académicas, e espero que num curto espaço de tempo os sanitários unigénero venham a ser norma, e não excepção, no ISCTE. E nas outras instituições nacionais de ensino superior.

Mas aduzo outra questão, correlacionada. A referente ao mobiliário sanitário que o Estado (trata-se de uma instituição de ensino público) impõe. Pois as atitudes corporais na micção e na defecação são culturalmente construídas (ou seja, ensinadas). E também nessas há o peso da construção do género, esse ferrete ditatorial imposto desde a mais tenra idade aos indivíduos. Daí a predominância do hábito dos "homens" urinarem em pé e das "mulheres" urinarem agachadas (ou sentadas) - algo que também não é universal, como saberá qualquer indivíduo mais lido. Nesse sentido, e neste passo de extirpar a ditadura do género sobre os actos fisiológicos, as novas instalações sanitárias unigénero deverão ser transformadas, conduzindo a uma homogeneidade pós-género no acto da micção. Assim deverão ser afastados os heteropatriarcais urinóis, cuja utilização demarcará uma identidade própria e denotará alguma ambição de poder, falocentrado.

Entretanto, é do conhecimento geral que os "homens" (no mero sentido de portadores de pénis mictórios) têm tendências a aspergir de urina de forma menos circunscrita as sanitas (as "retretes", como dizem os burgueses que estudam na universidade), nisso conspurcando os rebordos sanitários. Isso poderá causar desconfortos futuros às "mulheres" (no mero sentido de pessoas desprovidas de pénis mictórios), e mesmo doenças de foro infeccioso.

Assim sendo, será culturalmente libertador e sanitariamente precavido a harmonização do mobiliário destas instalações unigénero. Significa isso proceder à instalação de latrinas, refutando a referida ilegitimidade dos urinóis (pois algo descabidos às portadoras de vagina), e eliminando os perigos infecciosos das sanitas.

Um outro passo deverá ser encetado, nesta via de descondicionamento das práticas fisiológicas, refutando os valores culturalmente inculcados. Trata-se de ultrapassar o dogma da "intimidade" - o qual se afirmou na nossa sociedade mas que, também ele, inexiste noutras. Deste modo será de pensar, talvez num segundo passo ou talvez desde já, em abdicar da instalação dos cubículos destinados aos actos fisiológicos, em particular no que concerne à defecação. O "open space" é uma opção culturalmente libertadora e deve ser transmitida às novas gerações.

ADENDA: meros momentos após ter publicado este postal comecei a receber mensagens privadas apelando a uma alteração. É certo que poderão ser contributos eivados de heteropatriarcado, mas tratam-se de testemunhos de "homens" (ou seja, pessoas portadoras de pénis mictórios) que afirmam ter tido, por vários motivos, acesso a sanitários exclusivos a "mulheres" (indivíduas portadoras de vagina), os quais apresentavam vestígios de urina bem mais ala(r)gados do que o habitual nos redutos falocêntricos. Noto esse assunto pois, de facto, sublinha a minha proposta, a da colocação de latrinas unigénero, menos dadas à proliferação de dejectos líquidos. E ainda por cima evitará o que me parece óbvio dado o imediato efeito do meu modesto postal: o da eclosão de um conflito de géneros sobre os piores urinantes...

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Quando era novo (que o fui...) entrámos na CEE, ao país chegou imenso dinheiro, nisso imensa gente se tornou verdadeira consumidora - afã que, no meu caso, recordo com efectiva saudade. Nessa era houve também uma revolução tecnológica, a televisão emitia a cores, os jornais desportivos tornaram-se diários, inventara-se o CD e, imagine-se, nas melhores casas até havia telefones portáteis.
 
Nesse mundo de abundância grassaram os publicitários, de imensas remunerações, frenesim laboral e mesmo legitimação intelectual (O'Neill, lembremo-nos, e não só). Nisso tornaram-se até "criativos", tamanha reputação que chegavam a ser convidados para as mesas alheias, onde debitavam os "conceitos" que conduziam a sua inovadora profissão.
 
O tempo passou, a gente consumidora reforma-se, os que chegam a crescidos já só "clicam", é o primado do "scroll down". Decerto que ainda haverá publicitários mas não sei se ainda são convivas apetecidos... Até porque, entretanto, fomos percebendo que bem antes já havia quem tivesse "conceitos", "criativos" perspicazes que bem sabiam vender qualquer tralha...

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A organização "Repórteres Sem Fronteiras" organiza um anual Relatório de Liberdade de Imprensa Mundial. Este ano coloca Portugal no 7º lugar em termos de liberdade de imprensa, num universo de 180 países. É muito bom (e sobre isto será de ler um texto de António Barreto, num contentamento sem triunfalismos).
 
Não quero deixar de referir o quanto esta avaliação sublinha a hipocrisia e a desonestidade intelectual (ou seja, pessoal) da amálgama de intelectuais (académicos, quadros, jornalistas, colunistas) comunistas ("brejnevistas" e "esquerdistas") que vêm reclamando serem "perseguidos" e "criminalizados" devido à sua adesão ao imperialismo russo. Pois, como isto comprova - se tal fosse necessário - publicam as suas "teses" onde e quando querem. E seguem desprovidos de pingo de vergonha que seja...

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