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Nenhures

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Devido ao meu recente contributo para a situação sanitária nacional, tendo então proposto a Açorda de Bacalhau para mitigar os perigos do veraneio, fui agora convocado para um Encontro de Culinária Política, ontem ocorrido.

Tratou-se de mais uma acção de resistência, vero prenúncio de agit-prop, contra as soluções únicas, majoradas pela proclamação da sua indiscutibilidade. As quais vão sendo defendidas pelos seguidores das expressões ditatoriais, que actualmente tanto ressurgem, esses crentes na fusão da Razão de Estado com a Razão da História, assim sempre lestos a anunciarem as suas opções como fundamentadas num desígnio Moral a que chamam Futuro. E também outras, quantas vezes daquelas distintas, apresentadas pelos adeptos de vias totalitárias, sentidas como virtuosas pois valorizando características e tendências ditas ônticas de alguns "grupos" sociais entendidos como telúricos - ainda que venham sendo entretanto delineados -, e assim sacralizadas quais Ética irredutível.

Neste seminário foi proposta a tese do Arroz de Bacalhau, através de um documento gizado por mãos viris - e nisso alheias ao empratamento pequeno-burguês de fachada gastronómica. De antemão fui informado que se tinham firmado robustas barricadas contra a Salmonela - essa arma da reacção que vem sendo manuseada contra o nosso Serviço Nacional da Saúde -, conformes à mobilização das brigadas sanitárias.

Sem qualquer rebuço, e ainda menores delongas, desde logo me foram apresentados os argumentos, e de modo bem estruturado. Tudo assenta na multicultural tradição pátria, o azeite, em ror generoso mas não espúrio, irmanado em refogado ao alho e à cebola. Quando essa Santíssima Trindade está já consagrada acolhe o convívio do pimento, o mais colorido possível, e do tomate. Num brando depois, e seguindo os ditâmes da perspectiva empiricista, é apresentado o arroz, neste caso o Carolino - por opção patriótica mas nunca xenófoba -, e estipula-se uma pausada mas ágil coreografia destes elementos, para obstar a quaisquer ensimesmamentos. Momento após o qual o já agregado é aspergido por uma farta dose, triplicando a de arroz, da água oriunda da prévia cozedura do fiel amigo.  Sobre tudo isto será deixado um punhado de sal - cuja medida dependerá não só das perspectivas dos comensais relativamente ao futuro próprio, como também do prévio estado do bacalhau, se de salga como é nosso timbre identitário pelo menos desde o herói Corte-Real e o pirata Cabot, se congelado, como vem sendo globalizado. E, finalmente, é este - entretanto grosseiramente desfiado - albergado em tudo isto que para o acolher foi preparado, seu último descanso, verdadeira nave na qual ascenderá ao além. Depois, já lume desligado, tudo é ornado com ramos de salsa viçosa e odorífera, sinal do júbilo celebratório.

Apresentada a tese, o trio presente no seminário encetou o debate - em formato qual podcast, assim muito actual - cerca das 13.30, esmiuçando os argumentos com um piripiri caseiro de excelente confecção, cuja honestidade ideológica se traduz no facto da sua assertividade não poluir o paladar. Em tudo isso se socorreu de uma honestíssima garrafa de vinho branco, apresentada à temperatura adequada, à qual se seguiu - numa descontinuidade quebrando os habituais trâmites mas devida a opção conjunta - de um outra de tinto, da mesma lavra qualitativa. Tripla dose de conduto consumida, devido à profundidade da temática em questão, houve um ligeiro "intervalo para café", após o qual se acolheram algumas aguardentes oriundas das resilientes zonas católicas das ilhas britânicas, tão do nosso agrado - as referidas ilhas e as aguardentes. 

Entretanto, já cerca das 17.30, e ainda em acalorado debate sobre bens e males do mundo, e por deveres da militância de cidadania automobilística, transitei para o consumo de um elixir que não bebia há muitas décadas, um tal de "Ginger Ale" de sabor desejavelmente esquecível, enquanto vários cafés iam agredindo o meu horizonte de hipertenso. Depois, e já noite bem feita nestes longos dias de Junho, terminou o colóquio. Norteei-me então, rumo a Sul, e o casal anfitrião, ainda que exausto, terá produzido as exigíveis Actas. Decerto que exarando um "bolas, o gajo nunca mais se ia embora!".

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(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Por aqui, uns vasculhando outros mais à superfície, partilham os operáticos, por hoje lamentando a morte "da" (comme il faut) Berganza, os etno-ouvintes, agora mais dados à kora do que à cítara e quase nada à flamencada, os nacionaleiros, "que não há como o fado/a marrabenta/...", a malta do jazz - mas não muito "free" -, dos standards ou das lendas - ainda que Dexter siga esquecido -, e menos do actual, aqueles do canto de intervenção, Fausto ou Violeta Parra, muito mais Karajan do que James Last, os memorialistas, - esses do slow "com que roçaguei a Maria(na)/o Manel" -, os do rock, progressivo, indie, southern, n'roll, até heavy, and &, e os da "chanson", française, ou da sempre MPB, mas sem o grande Roberto Carlos noto, um ou outro escasso do blues, e nem discuto se R&B, e, claro, os dos crooners, alguns do Patxi Andión e vizinhos andaluzes, e há até quem se lembre de Savall, e ainda restarão uns já anciãos, balbuciando "inesquecíveis" pérolas do festival de San Remo.
 
Dito todo este quotidiano não deixo de sorrir ao vê-los, empertigados em pantomina, discutindo o Festival da "Canção" na Eurovisão de ontem. Os "faxos" e os "comunas" irritados, os "intelectuais", ditos melómanos, lamentando da justeza dos resultados, dos "interesses" envolvidos, das qualidades dos intervenientes, da subalternização da "música" à "política" e isso. 
 
Enfim, não vejo um festival desses desde o "sobe, sobe, balão sobe" ou das rutilantes "Doce". Mas se os devastados ucranianos vibraram com a sua vitória, um décimo que seja do que os tontos lusos há anos com aquela tralha do rapaz que dá traques em palco... então ainda bem.

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Cresci aqui, desde a alcova, junto ao decadente paço do boiardo da região, mesmo no paralelo 38 local, a rambla qual muro de Berlim que aparta a colina Sul do morro Norte. Cruzo hoje a zona em caminhada matinal e cai chuva, resguardo-me em tasca eslava, vistorio a vizinha mercearia sikh e sorrio na memória de que quando daqui parti, há 48 anos, nem galegos havia ... Tão imigrante fui que gosto disto. E noto que, como bem a Sul de onde venho, o capim medrou até quase à minha altura. Sento-me na esplanada, café sem bagaço. E chegam os capinadores, simpáticos, "que estavámos poucos a trabalhar" - coisa do Covid, claro - "foi mais ontem que começámos a limpar", "isto numa semana está feito". É certo que fica tudo um bocado murcho, de queimado e calvo apesar da Primavera. Mas quererei eu viver num jardim? Não.
 
 
 
 
 

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Após 3 meses de retiro rural por causas pandémicas regressei ontem à urbe natal. Encontrei-a assim. Isto é a freguesia Olivais, na qual, apesar de sucessivas promessas eleitorais e de um obrigatório referendo nunca realizado, a Câmara muito recentemente nacionalizou a via pública para colher impostos através da empresa EMEL. A inacreditável e populista freguesa presidente acumula: é, claro, socialista e colunista do jornal ... "Público", como deverá ser óbvio. As ratazanas, literais e metafóricas, adoram todo este capim. Como peixes na água. ...

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