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Nenhures

Nenhures

Viva Quaresma!

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(postal encontrado no Facebook)

[Postal para o És a Nossa Fé]

Abaixo o Pedro Correia enviou um abraço ao Quaresma (e eu subscrevo-o, tal como o fazem vários dos comentadores desse muito atinado texto).  Outros comentadores resmungam, destilando desapreço pela "ciganada". E outros, num registo totalmente diferente, atirando-se a Quaresma porque se tornou "andrade". Então quero intervir, sobre os dois assuntos. Sobre a coisa clubística é pacífico aqui botar. Mas não me é sobre a política, pois ainda que me farte de blogar politiquices sempre julgo que aqui, num blog de Sporting, não é sítio para elaborar sobre esses assuntos, que nos poderão dividir neste ideal sportingal. Mas, de facto, trata-se de um assunto que, sem tirar nem pôr, é racismo. E um racista é pior do que um árbitro que nos rouba um penálti. Ou seja, o Ventura é pior do que o João Capela que, num jogo contra o Benfica, não marcou um penálti aos 3 minutos, outro aos 7 e um livre directo na meia-lua aos 12. E por isso boto, mesmo que afrontando uns sportinguistas venturescos que possam existir, pois pouca e má gente há-a em todo o lado, dado que, como na tropa se diz, "aqui há filhos de muitas mães":

O cidadão Quaresma esteve muito bem, à campeão. Quanto à temática que ele abordou, o malévolo disparate do comentador futeboleiro Ventura, esteve o primeiro-ministro Costa, do qual não sou apoiante, muito bem. Se há problemas legais, nisto da reserva provocada pelo Covid-19 ou com outras coisas, é com os cidadãos, não com grupos pré-determinados. Coisa que alguns, esses do tal Chega, ainda que poucos (65 mil votantes, 1,4% de eleitores, um estádio da Luz não cheio) não percebem. A lei é suficiente? Aplique-se. Não é? Mude-se. E aplique-se. Aos cidadãos, não a "grupos" pré-determinados ("comunidades", dizem os mal-falantes). E adianto que o que Costa disse dará para elaborar sobre outras coisas - o radicalismo comunista racista que andou nas bocas do país até ao Covid, acima de tudo - mas isso é assunto para outros blogs.

Mas - e falando de coisas mais nossas, estas do clubismo - há gente que abomina os profissionais que saem do clube e que ganham apreço a clubes onde prosseguiram a carreira, como se fossem apoucáveis por isso. Ora isso é como não gostar de Jordão, tão emotivamente celebrado há bem pouco, que veio do Benfica. Ou de Livramento, etc. Os atletas não são o mero adepto, como nós, que nunca mudamos de clube (muda-se de tudo, de igreja, partido, emprego, terra, mulher, e até - consta - de "orientação sexual", mas não de clube, é o dito de todos nós). São profissionais. E se vão para outro clube e lá são muito bem tratados, e por lá vivem com grande intensidade e sob grande carinho, é normal que se afeiçoem. As pessoas não conseguem perceber isso? Não conseguem perceber uma mudança dessas mas percebem mudanças ainda maiores, como as de nacionalidade, atletas do nosso clube ou de outros, que cresceram com outras nacionalidades e depois foram efusivamente representantes e até campeões por Portugal, usando as nossas cores? Isto é uma cegueira um bocado estranha. Amarão o clube, identificar-se-ão com o clube, mais do que com o próprio país?

Pois nunca ouvi Quaresma invectivar o Sporting. Foi formado no clube, seguiu a sua carreira, e foi muito bem tratado no Porto. Gosta daquele clube. A gente lamenta - quem me dera que ele tivesse jogado anos no Sporting, com grande sucesso. Mas foi o nosso clube que vendeu a sua licença desportiva ao Barcelona. E que não o recontratou quando ele saiu daquele clube. A gente lamenta, mas não há dolo aqui, nem culpas. Nem desrespeito.

Francamente, e ainda que possa estar em engano desmemoriado - e sim, nada gostei de ver Figo comemorar efusivamente um golo do seu Inter em Alvalade, mas compreendo-lhe o humano arreganho explodindo no momento -, de todos os futebolistas formados no clube e que saíram para outros clubes, o único que me desgosta francamente é Simão Sabrosa. Não por ter ido para o Barcelona, porque seria irrecusável. Não por ter ido para o Benfica, pois o Sporting não quis recuperá-lo, talvez porque não pudesse. Não por ter sido capitão do Benfica, porque isso foi corolário da sua carreira no clube. Mas porque, ele sim, teve declarações nada abonatórias, desrespeitosas, do clube que o formou. A mostrar uma muito pobre personalidade. E é essa a diferença que os mais empedernidos não conseguem ver.

 

O caso Marega

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Muitos falam sobre o "caso Marega". Quem melhor falou foi o seu treinador, Sérgio Conceição, ao exclamar "isto é uma vergonha, c....!". Quem também escreveu bem foi o meu amigo (e ex-bloguista no ma-schamba) Miguel Valle de Figueiredo no seu mural de Facebook: "Ena! Descobriu-se ontem que há selvagens nas claques de futebol!!!" - e disserta, infelizmente em publicação apenas acessível para as suas ligações, sobre a extensa rede de cumplicidades com este fenómeno de "claquismo", esse lumpen congregado e excitado pelos interesses mancomunados em torno do futebol. Interesses económicos, políticos e da corporação jornalística.

Como estou no blog sportinguista És a Nossa Fé tenho escrito sobre claques - por exemplo, alguns meses antes do "caso Alcochete" botei este "O governo está a dormir" (E continua a dormir), sobre a inactividade governamental face a este fenómeno induzido das claques futebolísticas, e sobre o que disto se pode esperar. E mesmo na última semana tornei a abordar a matéria, premente no Sporting Clube de Portugal. Quem não lê esse blog não compreende a intensidade do que digo: o ambiente dessa gente, e que chega à internet, é abrasivo, de uma violência verbal, intelectual, insuportável. Cada vez que escrevo sobre claques (ou algum dos co-bloguistas o faz) o fel alheio respinga, irracional, odioso, chega-nos em doses até dolorosas. É incomparável com outras áreas temáticas no país. Garanto, é quase inacreditável o conteúdo e o tom dos comentários que recebo quando abordo a necessidade de extirpar isto da organização dos espectáculos desportivos.

Entenda-se muito bem, esta escumalha, sita em várias terras e inúmeros clubes (esta de Guimarães tem fama de ser a mais aguerrida, mas em Braga pedem-lhe meças. A do Porto é horrível, a benfiquista cultua o assassinato de adeptos de outros clubes, a do Sporting é asquerosa e bem sabida a sua tendência para os atentados contra atletas, etc.) está aí, activada. E à mão de semear.

Alguns escrevem mal: o mariola Ventura desvalorizou o caso. E umas horas depois, ao ver os ventos levarem a bola para o outro campo, titubeou um pouco. Ventura é um problema que temos, todos. Ou quase todos, pois há um punhado que o apoia. A nossa vantagem é exactamente esta, ele titubeia, é fraca gente. Viu-se quando, como ele próprio disse, não soube o que fazer diante da saudação fascista do seu apoiante. Vê-se agora no recuo tuiterístico diante da indignação geral. E temos um problema colectivo, nas nossas diferenças, porque o que Ventura e estes amorais que o apoiam - alguns deles tão activos nas redes sociais, outros apenas no blaseísmo lisboeta de apoucarem os opositores desse tralha - querem é este claquismo disseminado na opinião pública, e instalado nos poderes. Talvez mesmo, num dia mais distante, tendo o poder.

E está também muito mal a igreja católica. Quando o padre José Antunes, presidente da AG do vitória de guimarães (em minúsculas, claro), diz que o jogador tem que ir para o psiquiatra, seria importante que a hierarquia da igreja dissesse algo, se demarcasse desse seu membro energúmeno. Mas as horas passam e, fiel à lentidão eclesiástica, o clero mantém-se mudo. Talvez, creio, daqui a umas décadas algum sucessor do cardeal Manuel Clemente, o ilustre Prémio Pessoa crente no exorcismo, se pronuncie. Mas, então, ainda que venha pio tarde piará.

Os decoloniais e os nomes

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O meu nome? José Flávio. "Flávio" por nome de avô paterno. Para meu desgosto juvenil. E fui "Flávio" até à universidade, só já doutor disso me libertei. Para os amigos? "Zezé". Não "Zezé" porque "bem", "queque" ou "beto" (na velha tipologia que o MEC celebrizou). Mas "Zezé" porque Zés muitos havia e fiquei, aos 10 anos, no Maracangalha dos Olivais, "Zezé Moreira", então célebre treinador brasileiro em breve comissão no Boavista ... E, muito raramente, ainda há quem, olivalense está claro, me chame "Zezé Moreira", assim logo a desfazer-me em serôdio carinho.

O meu nome? Taveira (amputado do seguinte Pereira, por motivos de espúria economia no registo), o lado matrilinear transmontano. Trisavô capitão-mor de Mogadouro, ao que consta, bisavô "centurião de África", morto em Angola pelas sezões na ocupação de um qualquer Uíge, avô oficial do 28 de Maio. E o devido, pois patrilinear, Pimentel Teixeira, também apelido compósito. Origem? Maçãs de Dona Maria, ali para o centro do país, concelho de Alvaiázere. Nome de séculos, parece que um qualquer rústico daquela colina comprou uma carta de armas em meados de XVIII - cacique local, está visto, acontece nas melhores famílias.

O meu nome? Tal como o meu avô o fora Pimentel foi o meu pai, "engenheiro Pimentel" nos serviços, "camarada Pimentel" em tanto do resto. Porque mais raro do que Teixeira, e porque não fez a tropa naqueles seus anos 40s. Mas eu? Teixeira, desde a primeira tarde no Calhau, o alferes de Mafra a vociferar um "Sô Teixeira" isto ou aquilo, pois até aí fora o tal "Flávio" para os que não me "Zezéavam". E desde aí o meu nome? Zé Teixeira, em quase todo o lado.

Mas depois, já em Maputo, tive um chefe, delicioso, que me chamou, quando colérico ou entusiasmado, "jpt". Assim bloguei anos, o Zé Teixeira em Maputo a blogar "jpt". Um dia apareceu-me o facebook, em 2008/9. Criei uma conta para divulgar o blog em nome de "José Pimentel Teixeira" (o FB não aceita iniciais). Pouco se lembrarão disso, mas houve então uma polémica lisboeta, uns ciosos (até bloguistas, e gauchistes, claro está ...) a vociferarem contra os nomes compósitos, "cagança" ululavam ... E eu deixei cair o Pimentel, pois de facto não o uso na vida, só no tal blogal "jpt". E nos seus sucedâneos, nas coisas de teclas. Porquê? Pela tal coisa blogal, um tipo habitua-se a assinar assim ... Mas, aqui entre nós, que ninguém me ouve, também um pouco por cagança, pois de facto o uso da maioria dos compósitos é mesmo isso. Não sempre, mas muitas vezes ...

 

Porquê este longo arrazoado, quase intimista? Li ontem este artigo, "O Padre António Vieira no país dos cordiais", publicado no "Público", vero manifesto da esquerda actual. Contra muita coisa e, nisso, contra a recente estátua lisboeta do Padre António Vieira, coisa do presidente Medina, ao que julgo entender. E concordo, aquela estátua -se fosse importante - não tem ponta por onde se lhe pegue, estetica e conceptualmente, bloguei-o aquando da festarola inaugural.

Mas o artigo tem muito mais coisas, as atoardas contra o nosso passado malvado, como se esse estivesse a acontecer e fosse necessário sustê-lo. Os apelos à destruição das tralhas a que chamamos monumentos, pois demoniacamente colonialistas, como se tudo fosse Palmira, a Idolátrica. E os tão necessários elogios a Katar Moreira e a Ba, como se estes arautos do vento que passa. Opiniões, a cada um as suas ...

Mas o que adorei foi o ditirambo contra uma gente que é o "comentariado tradicional, grisalho e conservador - predominantemente masculino, branco, lisboeta e de uma certa classe social". Depreendo que falem de gente que vai à TV e aos jornais e que não aprecia o dr. Ba e a dra. Katar Moreira. E que não pugna por derrubar estátuas, bustos, igrejas, menires e sucedâneos que por aí abundam, pais afora.

O douto artigo é escrito a oito mãos. Googlei-os, aos donos das mãos: 2 brancos de sexo masculino, 2 brancas de sexo feminino (quanto ao género só eles poderão responder, julgo que esse é o paradigma agora respeitável). Ainda não grisalhos, ao que surgem. Tratam-se de quatro pessoas daqui idas para universidades americanas, nas áreas de ciências sociais e humanas [vamos ser "neo-liberais" e crer naquele vil mito liberal da "meritocracia"?]. E os quatro assinando com ... nomes compósitos.

Mas muito indignados com .... "uma certa classe social".

Isto é patético.

Elísio Macamo sobre Portugal

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(À esquerda Joacine Katar Moreira, então deputada do partido Livre; ao centro de óculos e calças o seu assessor; à direita, com identificação ao peito, o GNR que a escoltou na Assembleia da República, a primeira vez que um deputado português requereu protecção policial nas instalações do parlamento)

O sociólogo moçambicano publicou um texto sobre Portugal, "Ser apenas negra, feminista radical e gaga", incidindo sobre a questão do racismo, seu legado e presente. Isto a propósito do "caso Livre". Infelizmente Macamo escolhe uma via mais fácil (bem diversa daquela que usa habitualmente para analisar com rara profundidade a situação moçambicana - será algo normal, pois a atenção sobre o nosso país ser-lhe-á um pouco secundária). A via fácil? Pega num texto de Sousa Tavares e zurze-o. E daí conclui sobre algumas características do presente português e, acima de tudo, sobre as potencialidades meritórias do movimento agora ex-Livre. Alguns dirão que MST é criticável pois exemplar, por representativo de um pulsar luso agora acometido por Katar Moreira ("Eu sou o incómodo", exclamou ela, biblicamente, há algum tempo). E nisso não deixarão de ter razão, o "Miguel" (MST é um dos "miguéis" que alguma classe média urbana portuguesa da minha geração reclamava como "seus" locutores naqueles 80/90s da CEE) fala e escreve há tantos anos que acaba por representar um médio denominador comum. Mesmo que sinuoso, aparentemente a la carte consoante a semana. Ou melhor, talvez por isso mesmo.

Mas o pontapear, ainda que com a sua usual elegância, do luso-articulista tem alguns custos, por mais abrangente que seja a finta com que Macamo antecede o remate. Assim de repente custa-lhe dois desperdícios, inabituais nas suas reflexões: em primeiro lugar, desconsidera dinâmicas da sociedade portuguesa. Ou, como diziam os antigos (desculpar-me-ão o eurocentrismo etnocêntrico desta in/evocação), arrisca-se a "tomar a nuvem por Juno". E, o que é muito pior, quer inibir o debate, ao reificar os agentes. Que mais pode significar uma tirada destas: "... aquele fosso pós-colonial entre ideias e a prática, um fosso que leva o articulista a esperar que uma deputada afro-descendente tenha que ser perfeita em tudo para ter legitimidade para se fazer ouvir."? Ou seja, porque Portugal foi um país colono, porque vivemos uma situação pós-colonial, estamos vedados a criticar uma política negra pelas suas propostas, seus diagnósticos ou metodologias? A negar a sua demagogia? A assobiar para o lado diante dos dislates? Porque é mulher, negra e gaga (características que ela própria invoca como capital político) as críticas que lhe são feitas derivam de uma exigência à perfeição da "afrodescendente" (parece que agora nós, "latinos", temos que falar e escrever à americana, por isso uso o termo)?

É certo que o texto de Macamo é basto saudado, por intelectuais lusos ou residentes. Pelos que se consideram lúcidos resistentes. É, para eles, um texto bem-vindo a este país, ditatorial. Pois, como dizem, reproduzem ou, pelo menos, anuem, Portugal vive num apartheid. Que nós, portugueses, brancos, pelos vistos cultivamos, reproduzimos, defendemos. Cônscia e/ou inconscientemente.

E se não concordamos com esta aberração demagógica? Com este agit-prop? Com este "fraccionismo", o identitarismo comunitarista, o "velho" "tribalismo" se falando em terminologia mais usual na discussão política moçambicana? O qual é, a um nível mais imediato, apenas uma visão estratégica estadocentrada, sequiosa e mesmo esfaimada de subsídios, a serem geridos in vitro, nas modalidades patrimoniais típicas destes núcleos sociológicos, tão pejados de veterania socratista. E, num nível mais profundo, essencial mesmo, um aggionarmento maoísta e guevarista, na ânsia de produção de raças(e quejandas)-para-si, como se estas motores de uma história à medida dos anseios destes intelectuais oníricos, presos a pulsões de heroicidade.

Macamo, de longe e elegantemente, alheio à sociedade portuguesa, dir-nos-á oriundos de um magma "póscolonial", disso frutos. E, quiçá, vítimas, pois seguindo numa bruma, algemados ao "inconsciente histórico" colonial. E não perceberá, por desinteresse, porque está feito o seu ombrear, o seu "número" entre "pares", quão diferente é o seu rumo analítico sobre o seu país, provocatório pois complexificador, problematizador, inquietador, e verdadeiramente inquieto, do que estas simplificações a la carte, interesseiras e espaventosas, a que agora decidiu associar-se.

E não notará, porventura, que entre estes demagogos histriónicos alguns são mulheres mas outros não, quase nenhum é negro, pelo menos com visibilidade pública (há apenas um, Ba, que defende a instauração de "policiamento comunitário") e não se conhece outro gago para além de JKM (a qual defende a instauração de "comissários políticos" nos serviços do Estado). Ou seja, Macamo desencontrar-se-á com o facto de que aqui não se está a exigir perfeição à preta (e gaga) para que ela possa falar, como ele atrevidamente reduz. Onde "mulher, negra e gaga" são argumentos próprios desta tropa, e não invectivas alheias. Que o que se passou e passa com esta mulher é uma vilania rasteira. Por iniciativa própria. E que estamos num debate político onde Katar Moreira é a cara de perspectivas peculiares, anti-democráticas, secundada por um conjunto de "intelectuais orgânicos" radicalmente demagogos. E estamos num debate poluído pois quem grita demagogias colhe demagogias. E é esse lixo demagógico adverso que procuram incentivar, crendo-o estrume da sua luta.

De quando em vez, um determinado autor francês, veterano investigador sobre Moçambique, publica algo  na imprensa moçambicana. E é usual  Elísio Macamo surgir a refutá-lo. Assim como se lhe criticando um "atrevimento", ou um "simplismo", sorrio eu. É mesmo recorrente que entre nós, alguns leitores, comentemos "haverá algo de pessoal naquilo?", mas é provável que não haja, será mesmo apenas o crivo crítico particularmente acerado. Percebo-o agora melhor, a Macamo. Naquela sua irritação. Que agora é a minha. Nesta exigência, irritada, patriótica (coisa que Macamo compreende e respeita, mas que estes agit-propeiros  portugueses tanto desprezam, idólatras que são de todas as "identidades" excepto da nacional, da qual são iconoclastas), de que quem escreva sobre o meu país seja tão profundo e analítico como quando escreve sobre o seu próprio. Ou então que fale de pataniscas de bacalhau e de vinho verde. E do nosso Sporting.

 

Pluto e o racismo

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Nas últimas eleições legislativas foram eleitas as duas primeiras deputadas negras em Portugal – o caso muito propalado de uma deputada negra “assimilada” nomeada durante o Estado Novo tardio, o do lusotropicalismo nas “províncias ultramarinas”, não tem nada a ver com isto, como qualquer pessoa com um pingo de intelecto pode entender.

Entretanto na última legislatura (e nesta também) foi escolhida uma mulher negra para o importantíssimo ministério da Justiça. Uso o superlativo pois a relevância do cargo foi potenciada – para a opinião pública – dado o caso “Sócrates”. Relevância que convocou a polémica, pois foi essa ministra (mulher negra, repito-o) a primeira locutora da substituição da Procuradora-Geral da República, por muitos vista (se bem ou se mal, é outra conversa) como um passo para o controlo das investigações judiciais sobre casos de corrupção no sistema político. E que, como tal, provocou acalorado debate no país. E, nesse, múltiplas invectivas à ministra.

Acontece que as críticas – o tal “escrutínio” –, seus conteúdos ou particulares intensidades, à ministra Francisca Van Dunem e os olhares sobre as recentes duas primeiras deputadas negras do país, Beatriz Gomes Dias e Romualda Fernandes, não têm convocado particulares indícios de racismo, nem a elas dirigidos nem aos partidos que as integraram.

Entretanto foi também eleita outra deputada negra, a terceira na história da Assembleia da República. A sua postura, pessoal e política, convocou atenções. Bem como a da sua “entourage”. Antes e em especial após as eleições. Por essa postura, pessoal e política, vem sendo bastante criticada.

Leio agora no Facebook duas pessoas, que normalmente botam com tino, reclamar com o racismo português, a este atribuindo o exarcebado “escrutínio” sofrido pela deputada Katar Moreira. Não reparam, pelos vistos. São imunes, talvez, ao comparativismo. Ou, se calhar, apenas ao que não lhes dá jeito aos pressupostos arreigados. São mesmo epígonas do deus Pluto, o cego e coxo bem-intencionado. Entenda-se, são manipuláveis.

Imigrantes

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Apesar da recente campanha - que uniu políticos, jornalistas, colunistas e escritores - apelando à expulsão dos imigrantes brasileiros, o fluxo transatlântico continua. Nunca houve tantos brasileiros em Portugal - e presumo que o número real de imigrados seja maior, se contabilizando os que têm a dupla nacionalidade.

Sede bem-vindos a esta terra de emigrantes. E singrai.

A censura populista ao blog "Do Portugal Profundo"

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Corre a notícia de que as ligações ao blog "Do Portugal Profundo" estão proibidas no Facebook, tal como é vedado citá-lo. Surpreso, ainda que não espantado, fui confirmar. Confere, a minha tentativa de partilhar uma ligação ao seu último postal (que denuncia a censura de que é alvo nesta rede social) foi negada, e fui informado de que o referido blog "viola os princípios da comunidade".

Estas coisas são simples, e sabe-se a metodologia (o processo geral já foi publicada em jornais portugueses, e decerto que é esse o que agora acontece): o blog é vetado no FB devido a denúncias várias às quais se segue uma série de tarefeiros que decide "na hora" se deve ou não vedar acesso ou apagar conteúdos. Há recurso, para "superiores hierárquicos" que mantêm ou não a decisão. Ou seja, e para além do falível funcionamento da empresa - a notícia que li há tempos falava de impreparação dos jovens funcionários temporários e da extrema rapidez exigida aos processos - surge aqui um perverso sistema de censura rizomática, uma espécie de "delação premiada": se um conjunto de pessoas denunciarem um conteúdo porque os "ofende" este é retirado..

Ou seja, se alguém escrever que o Benfica é beneficiado pela arbitragem (19 000 "gostos"-FB no postal de ontem no nosso És a Nossa Fé que isso afirma) um conjunto alargado de membros das claques internéticas benfiquistas pode denunciar o conteúdo: bastará apanhar um jovem tarefeiro inseguro (ou benfiquista) para que as ligações (e citações) sejam retiradas das partilhas no FB.

É óbvio o que aconteceu: António Balbino Caldeira escreveu um texto avesso à exploração política que o populismo racialista (LIVRE/BE) está a fazer do horrível assassinato (não é uma redundância) do estudante cabo-verdiano Giovani Rodrigues, acontecido em Bragança. Concorde-se ou não com a sua argumentação, os termos em que ela é apresentada são - em texto e em putativo sub-texto - eticamente (os tais "princípios da comunidade", por fluidos que sejam) inatacáveis. São até - mas essa é a minha opinião - muito certeiros, por desagradáveis que possam ser aos populistas (facilitadores) das aparentes "boas causas".

Não sou leitor habitual de Balbino Caldeira. Mas claro que o li, veterano e célebre bloguista que é. Convirá lembrar os candidatos e os efectivos delatores, que o bloguista batalhou contra José Sócrates dizendo muito do que agora qualquer cidadão pode saber. Que foi processado pelo famigerado então primeiro-ministro e foi inocentado. E que isso lhe dá mais crédito como cidadão - ainda que não o iniba de cometer erros e de convocar discordâncias - do que os "intelectuais orgânicos" deste movimento populista racialista, então apoiantes dessa cleptocracia socialista. Gente comentadora televisiva, colunista de "jornais de referência", até deputada, e ombreadores do bloguismo remunerado anónimo de contra-informação (fake news avant la lettre). A esses funcionários públicos, ou avençados do Estado, apoiantes dos desmandos na banca pública, do combate à liberdade de imprensa, de afronta à separação dos poderes, do nepotismo e vera criminalização do Estado, e até académicos adeptos da efectiva falsificação de títulos universitários, ninguém persegue através do recurso a estas manobras da tal censura rizomática. Por demagogos que surjam, abjectos falsificadores do real. E essa diferença permite bem perceber onde estão os democratas.

Já para Balbino Caldeira, porque é de uma "direita profunda", como tantos destes "intelectuais orgânicos" são de uma "esquerda profunda" (que nunca, para eles, "extrema"), se organiza (eles organizam, sem rebuço) a censura.

Enfim, ao ser confrontado com a impossibilidade de partilhar no Facebook uma ligação ao "Do Portugal Profundo" deixei esta mensagem ao sistema daquela empresa: "Nada há nos postais do veterano blog Do Portugal Profundo, o qual, como bloguista que sou, leio há cerca de 15 anos, que seja considerável como calúnia ou violentador do espírito de cidadania. As ideias que o autor do blog defende são absolutamente legítimas, concordemos ou não com elas. A proibição da sua divulgação no Facebook é um acto inaceitável. E muito duvido que seja legítimo."

Agora venham-me dizer que eu sou racista.

Postal ilustrado para a Vera (1): o corredor

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Passou já um quarto de século! Em 1994 trabalhei uns meses na preparação das eleições na África do Sul, aquelas nas quais Mandela e o ANC ascenderam ao poder. Foi o histórico e esfuziante fim do apartheid. E para nós, estrangeiros, também sublinhava a época, essa da crença num futuro ainda assim melhor, o da imperfeição democrática, derrubados que haviam sido os fascismos sul-americanos e os comunismos europeus, chegados os BRICS asiáticos mais desempoeirados e abanadas as ditaduras africanas, naquilo do "ajustamento estrutural", não tão santo assim, mas isso só o viríamos a perceber depois ...

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Integrei um pequeno grupo de observadores colocado no Cabo Oriental, num corredor a que então chamavam "Border", encastrado entre os bantustões Ciskei e Transkei, nominalmente independentes, um naco de terra fértil, coroado com a maravilhosa Hogsback, da qual se diz ter Tolkien retirado inspiração para criar o seu universo ficcional, e culminado com East London, rica cidade pois melhor porto índico do país. Entre o pequeno grupo de colegas logo a maioria se acomodou naquela plácida cidade, congregando-se numa até modorrenta sucessão de visitas às actividades pré-eleitorais decorridas nas suas imediatas ... imediações. E, sendo franco, pois tanto tempo já passado, na fruição das aprazíveis instalações de veraneio que East London tinha.

Nestas missões trabalha-se em pares. Tive a sorte de me ter calhado como parceiro um enérgico francês, vindo de uma missão de dois anos na guerra na Jugoslávia, na qual trabalhara para a Cruz Vermelha. D. e eu logo fizemos para nos baldarmos a esse remanso, tão desejado pelos tais colegas. Assim, e para contentamento de toda a equipa, ficámos encarregues de acompanhar o que se passava nas "townships" circundantes, e também no Ciskei e no sul do Transkei. As distâncias eram grandes, as jornadas decorriam em ritmo frenético. A experiência foi fabulosa.

Éramos jovens, bebíamos muito, dormíamos quase nada.  Deitávamo-nos tardíssimo, madrugávamos de noite, mata-bichávamos bifes tártaros, com o ovo cru, e partíamos no nosso pequeno VW Citi 1800, voando até, pois isentos de limites de velocidade por sermos observadores eleitorais. Lembro-me de dizer a D. ser ele o homem em quem mais confiava no mundo, pois adormecia no "lugar do morto" a mais de 180 kms/h naquele carrito. Pois se eu guiava depressa, ele fazia-o ainda mais. Assim, e sem exagero, "íamos a todas".

Assistíamos a reuniões políticas, era essa a nossa função, o de "mostrar a bandeira", a da U.E., nisso a todos confirmando estar a "comunidade internacional" presente, para assegurar uma eleição "livre e justa", sem incidentes nem violências. Foram centenas naqueles trepidantes três meses: vi Mandela no Ciskei, um dia maravilhoso, Mbeki e Ramaphosa, os dois anunciados vices, FW, Winnie - que mulher!, que carisma ... Holomisa, o homem do Transkei, e a queda de Gkozo, o homem do Ciskei (bloguei pequenas memórias disso aqui). E imensas outras, pequenas, de cariz local. A logística era sempre igual: na véspera sabíamos as reuniões (comícios ou afins - ninguém dizia "arruada" naquele tempo) previstas e seguíamos desde a madrugada. À chegada éramos aguardados por "comités locais de paz", gente de organizações não-governamentais que nos enquadravam, tanto para questões da nossa segurança como para nos servirem de intérpretes. Claro, nem sempre existiam esses "comités", mas sempre alguém nos acolhia.

Nessas manifestações as únicas verdadeiramente difíceis eram as do Pan-African Congress. Histórico movimento de resistência anti-colonos e anti-apartheid, o partido estava então submerso à enorme vaga Mandela/ANC, como os resultados eleitorais vieram a mostrar. Tratava-se de um partido m-l radicalizadíssimo, profundamente racista e, ainda que na época isso não fosse assunto de agenda, visceralmente homofóbico  - sob a tese muito espalhada de que a homossexualidade é excêntrica aos africanos, entenda-se pretos, e uma maleita dos brancos, a extirpar. Os seus comícios, nos quais nunca havia qualquer "comité" de acompanhamento, decorriam nas paupérrimas "townships" e nos tétricos "informal settlements", tinham sempre escassos participantes, estes nada amistosos, para não dizer mais, com os brancos estrangeiros que ali apareciam. O partido tinha dois motes muito peculiares: mantinha o cântico/slogan "one settler, one bullet", a convocatória ao assassinato de todos os brancos no território, o que nos fazia algo desconfortáveis, e defendia a mudança do nome do país para Azânia. Enfim, se visitar sozinhos essas paupérrimas áreas residenciais era já bastante enervante, tanto nos avisavam dos perigos que corríamos e nos desaconselhavam a fazê-lo, entrar naqueles comícios e enfrentar a rudeza dos aglomerados era algo custoso. Íamos, dávamos uma volta, mostrávamos que ali estávamos, calculávamos os participantes e outros itens requeridos para os relatórios, e logo partíamos, sempre bastante desconfortados. Para não dizer outra coisa.

Os meses passaram, as eleições correram, o PAC teve um resultado ínfimo. Mandela chegou ao poder. Após a contagem dos votos parti dali, fiz a Garden Route pela minha primeira vez e cheguei ao Cabo ainda a tempo de acompanhar o seu empossamento como Presidente da África do Sul. Glorioso momento.

Logo voltei a Portugal. Dois dias depois de chegar fui à universidade, pois estava então a fazer um mestrado e a preparar a minha partida para Moçambique para trabalho de campo, o qual adiara exactamente por causa desta missão. Logo no corredor de entrada encontrei um professor, homem conhecido e cidadão activista. De modo simpático, até enfático, dirigiu-se-me e disse "Flávio (que era o meu nome de escola), soube que estiveste na Azânia!". E lembro-me exactamente do que pensei: "Fogo, branco e homossexual eras o primeiro" (a ser abatido, entenda-se). Mas é óbvio que não lhe disse isso, para quê? Apenas lhe respondi "Não, estive na África do Sul ...". E segui à minha vida.

***

Vera, minha querida amiga, e até co-bloguista, partilho contigo esta mera historieta, e já tão antiga, que me veio agora à memória. Decerto que pelos dias que correm e algumas pessoas que discorrem. Não tu, que assim fosse nunca o faria deste modo público e até enviesado. Esta história não me serve de trampolim para tentar compreender a tão complexa África do Sul, nem fenómenos como Malema, as lutas de poder no país, o historial da propriedade fundiária ali ou nos países vizinhos, ou tantos outros assuntos, e muito menos para a decalcar para o resto do mundo. É mesmo só uma memória pessoal, talvez pouco significante. Mas partilho-a contigo, agora, um quarto de século passado, porque me ocorre algo bem diverso: é óbvio que se podem tirar as pessoas do corredor. Mas a algumas pessoas não se lhes tira o corredor. Pois este é muito confortável.

Beijos, bom campo ...

A demagogia

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Leio num jornal que provavelmente a actual ministra da justiça sairá do governo e irá para o Tribunal Constitucional, sendo previsível que passará a presidi-lo daqui a algum tempo.

Entretanto, nestes últimos dias, continuo a ler um enorme chorrilho de patacoadas sobre o extraordinário significado da ascensão ao parlamento de gentes oriundas do bloguismo mais demagógico do início dos 2000s. Uma verdadeira orgia de jargão, um frenesim orgástico. E, espertalhões que são, as pessoas dão-lhes atenção. 

O cretinismo

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Tinha eu 16/17 anos quando o jovem defesa central Pedro Venâncio se firmou no Sporting, do qual veio a ser capitão e até símbolo, apesar da carreira amputada por lesões. Na época terminava eu a minha não-tão ilustre carreira de futebolista de rua, desviado por ímpios rumos boémios. Nesse estertor, antes de pendurar os ténis (Sanjo), nas pelejas do Maracangalha acimentado recuei do sonhado papel de play-maker para o menos exaustivo de defesa-central. Nesse passo assumi, evidentemente, o cognome "Venâncio", com o qual pretendi cobrir-me da glória prévia aos já tremoços e imperiais de fim de tarde. Poucos jogos me durou o epíteto. Pois logo sofri a aviltante corruptela de Bonanza, dada a que a todos foi evidente a minha associação ao célebre Hoss: o irmão algo burro mas simpático daquela ínclita geração Cartwright. Ainda que eu, de facto, não seja assim tão fisicamente parecido com aquela personagem.

40 anos depois quando alguém me chama Bonanza pode logo ser identificada a intensidade e antiguidade da nossa amizade. E o carinho, solidário, que nos une. E se algum vier ao Facebook juntar as fotos deste jpt/Zé Teixeira e da personagem de Dan Blocker, só um imbecil pensará que ele está a pensar em preconceitos intelectuais ou sociais e muito menos em estereótipos racistas - isto mesmo que nenhum dos meus amigos moçambicanos pretos ("negros" como os burguesotes lisboetas fazem questão de dizer no "parece bem" que lhes comanda a mediocridade intelectual) possa ser comparado fisicamente ao algo burro, ainda que "maningue nice", Hoss.

Vem esta minha memória a propósito de um longo (uma página inteira) e absolutamente cretino texto no Público de hoje sobre Bernando Silva, o Conguito e Mendy. Considerando, numa pedagogia de pacotilha, a inadmissibilidade da associação entre um tipo e uma figura ficcional, devido ao "racismo" que isso comporta.

Mas para além de cretino o palavroso texto esquece ainda uma questão política, mais clamorosa do que a imbecilidade daquela verborreia: numa democracia não há o direito de não se sentir ofendido. E quem esquece não se restringe a escrever cretinices (já agora, cretinismo é uma doença, chamar "cretino" a alguém é um terrível preconceito). De facto quem esquece isso é anti-democrático. E, como sempre, o Público patrocina as atoardas da moda. Nada mais do que isso. Já enjoa, tanto correctismo imbecil.

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