Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

Racismo cultural

livro.jpg

O racismo português muito assenta, como estudos recentes o demonstram, no "racismo cultural", esse preconceito que desvaloriza as culturas alheias, em particular as das raças outras, ideia que se disseminou devido ao colonialismo europeu. O lamentável é que os textos que transpiram essa perspectiva continuam a ser editados sem quaisquer ressalvas (estudos contextualizadores, prefácios ou posfácios elucidativos, meros rodapés que sejam).

Este é um exemplo desse racismo, um trecho de célebre ficcionista ocidental, desprovido de qualquer consciência "decolonial" ou "póscolonial", publicado em Portugal em 1999, sem quaisquer cuidados explicativos por parte da sua editora.

"Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher."

(edição de Livros do Brasil, pp. 95-96).

A carta dos escritores

mw-860.jpg

186 escritores e uma instituição privada assinaram uma carta aberta contra "racismo, populismo, xenofobia, homofobia, emoções induzidas", o "ataque à democracia, ao multiculturalismo, à justiça social, à tolerância, à inclusão, à igualdade entre géneros, à liberdade de expressão e ao debate aberto". Entre eles vieram em nosso socorro 4 moçambicanos, mais alguns angolanos (3?) e vários brasileiros. Uns quantos também são bloguistas. Há autores que já li, de outros nunca ouvira falar, de uns pouco nada gosto e a outros muito aprecio. A alguns conheço, e até há quem me seja muito próximo. O grupo é grande, muito heterogéneo, e assim é espúrio vasculhar nomes para contestar o documento (mas apetece ...) ou louvá-lo. Mas há alguns pontos do documento, dois pormenores e o fenómeno da sua recepção pública, que quero abordar. Como conversa com quem me é próximo e aquilo assinou.

1. Nesta campanha sobre "racismo" muito foi propagandeada a vigência do racismo sistémico português e do racismo de Estado (institucionalizado). Um dos documentos que mais é brandido para o afirmar é um estudo (cíclico) sobre as "representações raciais" no país - que nunca é esmiuçado pelos demagogos da "causa". E um dos factores dessas "representações racistas" (da "racialização" alheia, como agora sói dizer-se) é o "racismo cultural", curiosa expressão que firma como racista (e presumivelmente "populista, xenófobo, homofóbico, emotivo induzido" e quejandas falhas e malevolências) aqueles que julgam haver culturas melhores do que outras. Como tal vivemos num apartheid, segundo Miguel Vale de Almeida, o intelectual orgânico mais conhecido deste movimento. Só não reconhecido pelos "intelectualmente preguiçosos", como consagrou.

Com efeito, ao ler esta "carta aberta" reconheço-o, a esse "racismo cultural", vigente entre tão ilustre e empenhada comunidade. Pois quando se profere "Tais são as nossas grandes riquezas: a diversidade e a tolerância. Como o expressa a língua portuguesa, feita de aglutinação, inclusão e aceitação da diferença", é óbvio o implícito: ainda que não usando a estafada noção "lusofonia" o texto proclama uma qualquer superioridade da nossa língua, e assim da "cultura", dado que mais dada "à inclusão e aceitação da diferença" do que outras. Pois, se assim não fosse, se não houvesse essa graduação, para quê incluir este argumento? Ou seja, pode-se tirar o escritor do lusotropicalismo, mas não se tira o lusotropicalismo do escritor ... Por mais meneios retóricos a que o grupo recorra. E vão ufanos com o textito, e com a "atitude" de o terem assinado.

2. O segundo pormenor textual - e pormaior ideológico - é este melífluo naco "apelamos ... aos órgãos de justiça, que investiguem, processem e condenem os interesses económico-financeiros que se servem dos novos populismos para, a coberto da raiva e da intolerância, acentuarem as desigualdades de que sempre se sustentaram". Não fosse a desfaçatez de quem botou isto, e a "insensibilidade" (o atrevimento?) de quem o assinou, nem deveria ser necessário grande elaboração, bastaria citar para apupar. Ou seja, num país em que o Estado foi atravessado - colonizado - pelos interesses privados, em que as sucessivas crises demonstram a patrimonialização do Estado, a influência das redes nepotistas (também muito vigentes no pequeno funcionalismo, do qual tantos destes escritores são [semi-]dependentes), e em que os obstáculos ao escrutínio judicial destes processos são conduzidos pelas elites políticas, o que afirmam os escritores portugueses e os seus colegas estrangeiros? Que "os interesses económico-financeiros" se servem dos "novos populismos", assim deixando de fora a efectiva perversão do regime democrático levada a cabo por partidos e políticos do quais tantos deles (escritores) são apoiantes. É preciso lata ... [já te estou a imaginar, "não é isso que queremos dizer!". E eu respondo-te: mas é isso que dizes!].

3. Nas últimas eleições o partido Livre elegeu uma deputada em Lisboa, com votos nas freguesias da burguesia. O partido Chega elegeu um outro deputado, muito assente no facto do candidato ser painelista da bola, e do Benfica. Teve menos votos do que a lotação do estádio da Luz. E o Livre menos do que a de Alvalade, já agora. No último ano tem sido um festival de demagogia. E os dois núcleos demagogos, num vil frenesim, ocuparam a cena política. Alimentam-se mutuamente.
 
Há cerca de dois anos o Brasil teve o advento de Bolsonaro. Muitas causas existiram para tamanha mudança no cenário político - partidário e eleitoral - naquele país. Mas vários foram avisando, e depois constatando, que a diabolização do "capitão" e a pantominização "identitarista", no folclorismo demagógico que campeia, foram o estrume que alimentou aquela eleição.
 
É certo que um escritor não é, obrigatoriamente, alguém dotado de dotes para análises políticas. Muitos terão apreço por "posições", "atitudes". Mas são demiurgos (quando o conseguem ser) apenas nos seus textos, na refracção do mundo (quando a tal conseguem ascender, pois a maioria apenas o reflecte). Do resto pouco mais perceberão. E assim não entendem que nesta "carta aberta", tão a jeito do "estado da arte", só animam aquilo julgam enfrentar, lambuzando-se no frisson da "atitude colectiva". O "Público", a "SIC" e tantos outros recebem esta novidade e difundem-na com punhos negros cerrados (o símbolo do "poder negro", da potenciação [do empoderamento, como dizem os ignorantes, servis ao jargão sem o compreender] dos negros. Que neste país é lido como articulado com o comunismo. E que nas suas diferentes aparições agora agitará o "perigo negro". E assim reduzindo os debates políticos, sobre o sistema político, sobre a organização social e políticas, a este "branco" vs "preto" que tanto jeito dá aos mariolas, de agenda bem óbvia.
 
Os escritores, na sua insuficiência intelectual, seguem contentes (tu também, claro, e vales muito mais do que isto, porra). E os demagogos da "causa" rejubilam. Não pela carta, mas pelas reacções a estes "punhos negros".
 
Ou seja, vai à merda.

O futuro

cineafrica.jpg

Sexta-feira, são para aí 2 de manhã, subo a Guerra Popular vindo do Kampfumo, viro à direita, e sigo já na 25 de Setembro, e toca-me o telefone, surpreende-me a esta hora, até em quase susto, mas vejo que é um camarada, encosto para atender mas já (sub)entendi pois acabei de cruzar o África-Bar de esplanada apinhada e decerto que alguém ali me terá visto passar neste meu vetusto e rejubilante Ssangyong, o rino Musso. E assim é, ele, até parente, num "mais-velho, estamos aqui, e à tua espera ...". E logo salto do arção, avanço para esse tal ali, tanta gente que o gang da antropologia se refugiara no átrio do Cine-África, tudo de 2M na mão, eu vindo dos uísques lá dos CFM e assim um pouco desarmado mas algum mais-novo logo me traz companhia, durante as risadas do "onde andavas tu, mais-velho?" enquanto eu junto a boca ao gargalo recém-chegado, e a vida é assim, corre, afinal sou o único quarentão no círculo, onde abundam ex-alunos agora, e até desde há já muito, colegas.

Festiva a noite continua entre conversas flanantes, festa ombreada. E alguém chega, de todos eles conhecido, jovem trintão, um palmo maior do que eu, para cima e de ombros, que não de barriga, e ali colhe grande e geral agrado, rodada de abraços, daqueles das palmadas nas costas. Diante de mim aperta-me a mão olhando para o quem do lado, e eu, o tal mais-velho, na noctívaga variante bem-disposta, digo-lhe em sorriso jocoso "pá, olha para mim quando me apertas a mão!". O que fui eu dizer!, o tipo investe "que é que tu queres branco de merda!" e por aí em diante, sempre para pior ... Estanco, de tão surpreso, deste modo nunca vira isto nesta terra! Racismo aqui? Sentira-o, muitíssimo, nos tempos em que aportara, mas cuspido por moçambicanos brancos, invectivando-nos "tugas" como se peçonhentos, algo execrável mas contextualizável, daquela tribo sentida como desamada, mas assim nunca ... E tranco, enquanto ele é logo afastado, rodeado num "então, calma, é o Teixeira, o nosso mais-velho!". 

Tiram-no do átrio, esse que em tempos anteriores foi vivido como foyer, e planta-se ele no passeio ainda desabrido. A mim não só me amornou como azedou a 2M, e pergunto(-me) "que é isto? quem é este gajo?", e um dos meus mais-novos esclarece, "é nosso colega, de Economia, fez o mestrado em Portugal e diz que lá sofreu muita merda", e eu disparo, "e o que é eu tenho a ver com isso, caralho?!", filhodaputa, professor universitário ainda por cima …

Mas o tipo não se cala, sonoro nas invectivas, e forçam-no a recuar até ao separador das vias, apinhado de carros pois tantos os clientes que enchem a rua. Ali encontra pedras e paus, que brande em gritaria, ameaçando-me, que já estou na breve escadaria da entrada. E nisso, sem que eu o esperasse, algo se me quebra, perco a cabeça como nunca me acontecera, pois uma merda destas eu não aceito, não posso aceitar ... E avanço para ele, a passo cruzo o passeio e a rua, só depois imaginarei o que toda aquela multidão terá pensado do maluco daquele "branco" ou "tuga", nestas condições assim ali quase-único, ou mesmo "velho", que já estou encanecido, a avançar para um louco aos gritos com pedras na mão num "atira lá, meu cabrão!". A meu lado, logo, C., que é, sempre eu o disse, como se um príncipe, e o mais influente da sua geração, num "calma, Teixeira, calma, mais-velho", e o sacaninha, cobarde, nos gritos a atirar as pedras e paus, às minhas nove horas e às três horas, e depois às sete e às cinco, e eu avanço-me, no passo a passo descerebral, e é ele rodeado, enfiam-no num carro e lá segue à vida.

Semanas passam, surge o jantar final do ano lectivo, em casa de colega, um tipo porreiro. Connosco alguns dos finalistas, agora novos doutores também. E de súbito entra o tipo, com a mulher, afinal é ali família. Fico estupefacto, numa amálgama de sentimentos, é certo não poder desatinar pois sou convidado e a anfitriã está presente, e dever-me-ei retirar, ofendido?, mas não deixo de pensar, "oops, agora, sem aquela adrenalina toda, o sacaninha parte-me todo", e até penso que ele virá dizer-me, mentindo claro, "professor ou teixeira, desculpe lá, havia bebido demais". Mas nada disso, ele apenas me fita, com sarcasmo, em injúria altaneira, supremacista ... 

Janto, converso, rio, pois é festa e também minha. Entretanto o casalinho sairá. Nisto fui fumando na varanda, olhando a Drenagem. Sem deixar de pensar, entre outras coisas, que aqueles meus queridos amigos não sentem nem percebem o quão inadmissível é juntarem-me com aquilo. E, pior, o conviverem eles com aquilo. Porque isto não é apenas o passado. É o futuro, compõe-no.

Não tenho culpa. Nem aceito castigo. E, aqui, agora, para o negar podem chamar os demagogos, letrados, atrevidos. Esta pobreza da gente da "petty-corruption".  Que eu avançarei, na mesma. Passo a passo. Desde que, claro, perca a cabeça.

O manuseamento da História e o Racismo (2)

tumulo pedro.jpeg

Antes: O manuseamento da História e o Racismo (1)

4. Nesta matéria é interessante a superstição dos crentes. É como se as representações pictóricas do passado, monumentais ou não, tenham a capacidade mágica de transformar os passantes, aspergindo-os e assim impregnando-os com as malevolências em tempos desejadas (ou aceites) por aqueles que elas evocam. Cruzamos a estátua de um marinheiro de mentalidade medieval, de um cronista humanista, de um funcionário já renascentista? E logo nos tornaremos, de modo sonâmbulo que seja, epígonos das suas vontades e crueldades, mesmo daquelas que aquele nunca terá imaginado - mas nunca das suas qualidades, claro ... Isto nem é uma espécie de "totemismo d'hoje", é mesmo uma simplória redução do simbólico ao linear, a mero reflector de uma qualquer essência pré-determinada. 

Mas esse garimpo dos defeitos desses egrégios avós é selectivo pois o critério único, a pobre peneira, é mesmo uma desbragada orgia de um putativo "hoje em dia", nada mais do que uma redução das diversidades do passado e da actualidade aos trinados deste "festival da canção" contestatário. Desafinados coros trauteando a nossa maldade não só como excruciante como até ab ovo, como se genética e assim apenas minorável por quaisquer mesclas. De facto, torpes discursos racistas, de fedor "moçarabista", que saúdam o Bem sinalizando-o como de "cor" diferente, mais tisnada.

D. Henrique, o tal infante que o Estado Novo redescobriu e até retabulizou, é um verme escravista. Mas, por exemplo, Pedro, o 1º? A esse podemos visitar sem temores, a proximidade física não nos fará, subrepticiamente, adeptos daquela união que aquela disposição de mosteiro tanto alardeia, entre Estado e Igreja - ainda que não seja de bom tom aludirmos com menosprezo às vivências teocráticas de alguns dos nossos vizinhos, pois a única igreja verdadeiramente criticável é, como se sabe, a católica, dado que qualquer outra laicidade, iconoclasta ou não, é doutamente entendida como "racismo cultural". Nem a sua visão nos fará abjurar da república, desfraldando-nos Paivas Couceiros.  Olho o monumento a Pedro I, que por ciúmes mandou castrar o amante e por vingança matou com as próprias mãos o assassino da mulher - pobre agente que cumpria ordens régias - e lhe terá trincado o coração, dizia na colecção de cromos, porventura tendo-o degustado? Ficarei nessa visão qual Ventura a querer castrar, quimicamente que seja, os pedófilos e alongar indefinidamente as penas actuais, ou até mesmo - lá lhe chegará o dia, ao mariola -, a clamar pela cadeira eléctrica? Não, neste caso o monumento não é eficiente. Pois não me retira da república, nem me faz reclamar o vínculo homossexual como fidelizador, nem mesmo a pena de morte e o canibalismo. Mas folheio um livro de Pessoa, que terá alguns escritos menos actuais sobre negros? E logo em mim brotará uma volúpia agressiva, perseguirei com denodo os "afrodescendentes" que, assim vistos como malvados e impuros, me circundam.

Neste olhar sobre os monumentos é também interessante a união desta crença na eficácia mágica com a Física. Pois são condenáveis e injuriáveis aqueles itens que tenham proximidade física, quase palpáveis, estátuas de pequeno porte e curto pedestal, imagens impressas, livros ou mesmo filmes - pois ainda não chegámos às "intervenções" nos quadros expostos, reclamando o estatuto de sujeito político dos tais interventores, como dizem os desvairados Doutores desta gente, mas lá chegaremos, lá chegaremos ... Mas está o figurado algo apartado?, altaneiro ou ermo? Pois se assim, e devido a essa distância, as gentes não serão transfiguradas pelos  miasmas da peçonha maldosa, e ficam os monumentos, mesmo que gigantescos, resguardados deste afã purificador.

Ao de facto quase esquecido seiscentista levanta-se uma recôndita estátua à escala humana? Ergue-se a escritora - essa "democrata" que fotografa imigrantes acicatando as fúrias xenófobas da "esquerda" que apelam à expulsão dos brasileiros -, ululam académicos do eixo Forças Armadas/Berna, berram os da imprensa, chegam delegações de homens bons da província para apoiar a insurgência contra o malvado conivente com a escravização dos negros. (Infelizmente) Quase todos os anos juntam-se hordas do povo da Grande Lisboa, em delírios festivos, místicos até, no sopé do Protector Marquês? Esse que foi o grande planificador, o do grande fomento do comércio de escravaturas, e que serve ainda de argumento até ao patusco presidente Sousa para aldrabar a história do país? Nesse caso não há problema, pois a estátua é tão alta que não nos transforma em negreiros, nem os milhares de "afrodescendentes" guinchando enrouquecidos o estribilho "SLB" se reverão como os seus "afroantepassados", esses que incessantemente cruzaram o gigantesco continente raptando, pilhando, massacrando, transportando, vendendo no litoral a tipos de peles algo mais claras as suas "alteridades" (e tantas vezes as próprias "identidades") que gulosamente haviam transformado em objectos escravos. Ou seja, António Vieira não foi suficientemente original na luta contra a escravatura, condenam-no os Doutores de agora enquanto reclamam o bota-abaixo da estatueta que nos mantém quase negreiros e que tanto fere as sensibilidades dos "afrodescendentes" por cá residentes. Mas o malvado SLB é (mais uma vez) campeão? A malta toda, preta, branca, mulata, vai para o "Marquês" comemorar e ninguém dali sai transformado em negreiro pós-colonial ou em comovido, ferido, até choroso e acima de tudo explorado tetraneto de escravo.

E é a esta tralha de gente, e aos seus Doutores, que se dá atenção?

(cont.)

 

O manuseamento da História e o Racismo (1)

800px-Escavações_no_Claustro_da_Sé_de_Lisboa.jp

(Sé de Lisboa)

(para a CB, que com bonomia me diz avesso a consensos. Mas que está errada)

1. A Sé de Lisboa é um bom exemplo, o templo matriz, neste caso cristão, assente sobre o anterior templo, aqui islâmico. Sobreposições recorrentes por esse mundo afora. Mostrando como estamos assentes em memórias politicamente (re)construídas, mesclas históricas cuja depurações são (in)visíveis nos edifícios públicos, monumentos, na arte pública (no sentido de induzida por elites políticas), em marcos comemorativos, e na toponímia. Audíveis nas práticas advindas da ciclicidade imposta pelos calendários, nas expressões literárias e musicais privilegiadas, nas histórias de encantar (imaginar) que se contam aos mais-novos, ditas "educação". Mesmo a noção de "património" (cultural, histórico) preservável, até algo sacralizável, publicitável pois comemorativo e/ou armazenável, no âmbito da museologia, é ideia nova, oitocentista e muito discutida em XX e agora. Não apenas os itens mas mesmo os conjuntos. Parte da nossa Lisboa velha foi arrasada no terramoto. Mas a Paris que tanto se louva (e visita) foi arrasada em XIX para ser "alindada" e modernizada no molde que Bruxelas logo seguiu. Sob modalidades que arrepiariam as actuais sensibilidades "patrimoniais". Tal como a reforma da Alta coimbrã promovida pelo Estado Novo, já então assunto debatido. A "História", como matéria-prima de identidades próprias e por isso também das alteridades constitutivas, é sempre uma "amnésia organizada" e nisso um elencar do que deve ser preservado, celebrado, escondido ou arrasado. E o papel de uma historiografia autónoma e democrática, construída por historiadores e oriundos de outras humanidades, é o de complexificar essa "História", vasculhar e iluminar reminiscências, revivendo a miríade dos seus condimentos, assim temperando-a como forma de temperança nos seus usos, menos abrasivos, mais inclusivos. Ou seja, menos amnésias para mais justiças actuais e futuras.

Ou seja, se sabemos que a "História" é forjada isso não implica a miséria semântica de a pensar falsificada. Mesmo não reduzindo a historiografia a um instrumento político a "História" é-o, ainda que (desejavelmente) dotada daquela, em tempos célebre, "autonomia relativa". Dado que, como se diz, quem controla o passado controla o presente - que o futuro a todos escapa. Por isso quando surgem vozes convocando a revisão desses discursos sobre o passado convém não nos reduzirmos ao encanto com a redescoberta de hipotéticas novidades factuais, como se Schliemanns ou Champollions brotassem em cada mural de facebook. Pois trata-se de recalibrar ênfases, apurar cozinhados, assim religar grupos. Não estamos diante de um para sempre intangível passado mas sim do mais-que-tangível futuro. E assim o fundamental não são as boas causas propaladas, sempre infernais. Mas as lógicas discursivas, a sua coerência. E os objectivos dos locutores, única raiz no sentido de única razão de concordância. Enfim, o simples "quem fala?" e "para quê?".

axum.jpeg

 2. Neste actual debate sobre o património histórico e simbólico, sobre a "História", logo se levantou a questão da devolução dos bens culturais (tangíveis). Em termos que demonstram a mera simplificação dos processos históricos. E, acima de tudo, o afã na diabolização de alguns agentes históricos e da demonização da sociedade portuguesa. A função é simples, a hiperbolização dos problemas sociais, a sobrevalorização da agit-prop. Que os políticos radicais que subsistem exactamente por esse vozear tonitruante, o populismo, a isso recorram é da "espuma dos dias". Mas que académicos, e renomados, se associem a isto? Em nome de uma qualquer causa? Isto não é uma minudência, é uma evidente exemplo da superficialidade, que não é histérica pois é, isso sim, interesseira.

Blogo há tanto tempo que até me surpreendo. Pois já tem 16 anos (!) este meu postal sobre a devolução à Etiópia do obelisco de Axum. Trata-se de algo normal, necessário, a ponderar de modo sistémico e com avaliação pontual. Mas o que a esta gente interessa não é temperar a História, com as ambivalências, contradições e complexidades de cada processo. É mesmo o estupor histérico de uma "nova História". E nesta, "higienizada", ser deles a "visão dos vencedores", pobre, complexada. Revanchista no caso de alguns locutores. Sãosebastianista no caso dos núcleos académicos, numa paupérrima, pois deveras masoquista, erotização do pensamento.

3. A polémica levantada pela estátua lisboeta de António Vieira, de 2017, colocada pela câmara e pela igreja católica, é bem denotativa da superficialidade das abordagens (sobre isso já botei este texto e este outro). Da simplificação da História, das suas personagens e contributos, e do que dela se pode fazer. Mas acima de tudo mostra a pobreza de reflexão, uma mimetização do estrangeiro, um frenesim de "estar na moda", de seguir o queiroziano "o que se passa em Paris" (agora nos EUA).

Mas mostra também uma monumental distracção sobre o processos de reconstrução da História através da manipulação estatal do espaço público. Académicos, jornalistas, escritores, activistas políticos eriçam-se com a pobre e esconsa estátua que glorifica o vulto das letras nacionais, porque, dizem, ela elide o Mal de que Vieira foi paladino ou, pelo menos, não-opositor. Há 400 anos Vieira não foi activista anti-escravização dos africanos e, em assim sendo, essa estátua é um objecto obscurantista e reprodutor da actual exploração dos "afrodescendentes".

Ora em 2016 nesta mesma cidade o mesmo poder político mudou o nome do aeroporto, edificação pública com muitíssimo maior visibilidade do que a tal estatueta, numa das tais utilizações da toponímia para construir a "História". Resmunguei-a "homenagem folclórica", dada a tendência lisboeta de não abandonar os nomes antigos (a "Praça do Comércio" é um símbolo disso). E irritei-me contra essa abjecta celebração.  Pois trata-se de uma descarada reconstrução da história deste regime, do seu partido socialista, e da sua progressiva autonomização enquanto espectro republicano face ao partido comunista durante o Estado Novo até mesmo à sua formação. E com isso se glorifica um homem que em pleno 1941 escrevia sobre Hitler: “O ex-cabo, ex-pintor, o homem que não nasceu em leito de renda amolecedor, passará à História como uma revelação genial das possibilidades humanas no campo político, diplomático, social, civil e militar, quando à vontade de um ideal se junta a audácia, a valentia, a virilidade numa palavra.” (Revista AR, 44, p.2, Junho de 1941). E isto não se trata apenas de um homem nas suas circunstâncias. Mas sim de um já oficial superior no quadro de umas forças armadas cujos oficiais, mesmo os apoiantes do Estado Novo (a esmagadora maioria então), se dividiam fluida ou explicitamente - algo que veio a marcar as posteriores linhas de promoção, mais uma coisa indita - entre "germanófilos" e "anglófilos". E mesmo depois Delgado nunca foi um "democrata" mas sim um aspirante a caudillo. 

Mas para estes "intelectuais" e estes "activistas", que agora dissecam a ambivalência e insuficiência actual do pensamento do seiscentista Vieira esta invocação e evocação de Delgado é insignificante, ainda que se afadiguem a gritar "fascista" ao prof. Ventura, a mais as suas tropelias com os ciganos. Aqui há atrasado, no tempo dos meus pais, Hitler promoveu o holocausto cigano - tão defendidos por parte destes locutores, que até elidem as acusações de "racismo" se um cigano mata um negro, ao invés do que fazem se o assassino é ... até desconhecido -, massacrou homossexuais - causa querida de tantos destes militantes, que até chegam a fundamentar as suas opções político-filosóficas nas suas apetências sexuais -, exterminou os militantes marxistas, de que estes são herdeiros, invadiu mundo afora até o conseguirem parar, e Delgado aplaudia e glorificava? Não é importante. A estátua de Vieira, e mais o tipo dos escuteiros, e o infante D. Henrique, e quejandas? Essas sim, escondem a verdadeira história do sofrimento e da opressão, reproduzem mentalidades exploratórias, discriminações negativas ...

Isto seria pungente. Se não fosse nojento. E mostra, acima de tudo, duas coisas: a questão de que se fala não é a sociedade portuguesa, é apenas uma mimetização da discussão americana e, como tal, precisa de encontrar materiais análogos para debate, devido à ininteligência e superficialidade dos seus locutores  - sobre essa superficialidade histriónica, tão atrevida que até se permite convocar um "apartheid" no Portugal actual já botei aqui.

E a segunda coisa, mais profunda, é óbvia: que por mais que anunciem afrontar a "identidade nacional" fermentada numa História obscurantista, há algo que não enfrentam. É a mitografia do partido socialista, sufragada na apropriação do espaço público. E porquê? Porque, como tanto o vêm demonstrando há anos, são dependentes ... Entenda-se bem, são clientes. "It's the economy, stupid" como dizem os gringos.

 

 

 

 

 

 

Botar Abaixo o Hemingway?

hemingway.jpg

Há em várias cidades um punhado de estátuas de Hemingway. Deixo um excerto do autobiográfico "As Verdes Colinas de África", escrito em 1935. Talvez seja um exemplo apropriado para uma era em que as sensibilidades pretéritas andam a ser avaliadas. A preto e branco ...

"M'Cola foi, aos saltos, pela montanha abaixo e, através do riacho, mesmo no lado oposto ao nosso, surgiu um rinoceronte a correr, num trote ligeiro, pela parte de cima da margem. Quando o observávamos, apressou o passou e correu, em trote rápido, perpendicularmente à beira da estrada. Era de um vermelho sujo, o chifre muito visível, e não havia nada de pesado nos seus movimentos, rápidos e deliberados. Ao vê-lo, senti-me excitado. 

- Vai atravessar o regato - observou Pop - Está ao alcance do tiro.

M'Cola pôs-me a Springfield na mão. Abri-a para me certificar de que estava carregada. O rinoceronte estava fora da minha vista, mas distinguia-se o agitar do capim alto. 

- A que distância julga que pode estar?

- A uns quatrocentos metros.

- Hei-de apanhar esse malandro.

Conservei-me alerta, procurando deliberadamente acalmar-me, fazendo cessar a excitação como quem fecha uma válvula, entrando naquele estado impessoal que se atinge ao fazer pontaria. 

O animal surgiu no regato baixo e pedregoso. Naquele momento apenas pensava em que era perfeitamente possível alvejá-lo, mas que para isso era necessário alcançá-lo e ultrapassá-lo. Alcancei-o, ultrapassei-o e disparei. Ouvi o ruído da bala e, como animal seguia a trote, esta pareceu-me ter explodido mais à frente. Com um resfolegar sibilante, caiu prostrado, esparrinhando água e roncando. Disparei de novo, levantando uma coluna de água atrás dele. Como tentasse escapar-se para a relva, voltei a disparar. (...)

Droopy correu. Carreguei a espingarda e corri atrás dele. Metade dos homens do acampamento estavam espalhados pelas colinas (...). O rinoceronte tinha-se dirigido precisamente para debaixo do lugar onde eles se encontravam e subia o vale em direcção ao sítio onde se perdia na floresta. (...)

O rinoceronte estava no capim alto, atrás de uma qualquer moita. Enquanto avançávamos, ouvimos um roncar surdo, quase um gemido. O ruído voltou a ouvir-se, terminando desta vez com um suspiro sufocado pelo sangue. Droopy ria.  (...) Sabíamos onde estava o animal e, ao aproximarmo-nos, lentamente, abrindo passagem pelo mato alto, descobrimo-lo. Estava morto, caído sobre um dos flancos. (...)

Quando chegou o grupo todo, voltámos o rinoceronte de forma a ficar como que numa posição de ajoelhado e cortámos o capim em volta para tirarmos fotografias. (....) ali estava com a sua comprida carcaça, pesados flancos, de aspecto pré-histórico, a pele como borracha vulcanizada e vagamente transparente, com a cicatriz de uma ferida causada por uma cornada e depois picada pelos pássaros, a cauda grossa, redonda e aguçada, carraças de mil patas formigando-lhe no corpo, as orelhas franjadas de pêlos, olhinhos de porco, com musgo na base do chifre, que lhe saía da parte de frente do focinho. (...) Era um animal dos diabos! (...)

- Estou louco de satisfação - confessei."

(Ernest Hemingway, As Verdes Colinas de África, Livros do Brasil, 77-81. Tradução de Guilherme de Castilho. Edição original em inglês de 1935)

 

Voltaire & Lowry

voltaire.jpg

Leio que neste cerimonial contestatário também a estátua de Voltaire foi atacada, devido a que o filósofo investiu, in illo tempore, na Companhia das Índias francesa e até aceitou que baptizassem um navio com o seu nome. Encolhi os ombros mas, de facto, fiquei a remoer o assunto.  E noto-o pois no dia seguinte a ter sabido do acontecido de súbito lembrei-me que Lowry escreveu sobre um navio chamado Diderot. "Onde?", resmunguei ... Não me pareceu que fosse no Vulcão, e ainda por cima não o tenho comigo, pois levei-o para o confinamento para releitura - houve um tempo, não tão benfazejo assim, em que ele me foi Bíblia, felizmente amadureci e nisso tornou-se-me um Livro de São Cipriano - e por lá ficou neste meu interregno lisboeta.

Vasculhei as estantes e encontro-a, a tal navegação no Diderot "foi" naquele naco Através do Canal do Panamá (tradução da excelsa Ana Hatherly). E é extraordinário o início, logo na terceira página um monumento de profecia, tudo resumindo de tudo isto, tudo demonstrando sobre toda esta gente: 

" ... as fúrias em mercês. A sensação inenarrável inconcebivelmente desolada de não ter o direito de estar onde se está; as vagas da inesgotável angústia perseguidas pelo insaciável albatroz do eu. Há um albatroz, de facto."

Moles perseguidas pelo insaciável albatroz do ... nós. Do seu "nós", apenas isso, que julgam injustificado. Acima de tudo cada um incapaz de encarar o seu próprio albatroz, assim querendo exorcizá-lo nesta pantomina. Histriónica, que todos julgam poder sossegar-lhes esta desolação. Pobre crendice.

Mil Desculpas (sobre o racismo)

wcarposter.gif

Na primeira semana de Setembro de 2001 realizou-se em Durban a 3ª Conferência Mundial contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e a Intolerância Correlata, uma organização das Nações Unidas comissariada pela muitíssimo respeitável Mary Robinson, então Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. As duas conferências anteriores haviam acontecido em Genève, em 1978 e 1983. Tinham decorrido  - para além da conflitualidade internacional típica daquele final da Guerra Fria - num ambiente intelectual dinamizado pela Década Internacional contra o Racismo e a Discriminação Racial (1973-1982), avesso à continuidade da noção de "raça" como mecanismo classificatório e enquadrador de políticas públicas e indutor de práticas individuais e colectivas, no intuito de "isolar e expurgar as crenças erradas e míticas" em que ela assenta e, por sua vez, dinamiza.

A conferência de 2001 integrava-se no "espírito" de proclamações simbólicas e acções articuladas que a ONU perseguia então: 2000 como Ano da Cultura da Paz, e a Década pela Cultura de Paz e Não-violência para as Crianças do Mundo (2001 – 2010), entre outras. Podemos agora sorrir, com tristeza, sabendo o que foi a história do início de XXI mas nisso não desprezando os esforços institucionais para a promoção de melhores rumos.

Alojar a conferência em Durban, descentrá-la das sedes dos serviços da ONU, só por si era significante. Esta opção pela África do Sul, bem como quando no ano seguinte se alojou em Jhb a Cimeira Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, uma década passada desde o fim do vicioso apartheid que a tornara um país pária no contexto internacional - tal como Portugal o fora nos últimos tempos do Estado Novo -, era uma vénia ao esforço do ANC, do seu ícone Mandela mas também do então líder Mbeki, para suster a conflitualidade interna enquadrada por classificações raciais e também étnicas.   

A época continha grandes mudanças e também esperanças. Democratizações políticas haviam-se generalizado e o modelo económico liberal estrito era posto em causa, intentando-se o molde de "desenvolvimento sustentável". Nas últimas décadas o crescimento económico e o desenvolvimento correlato mundializara-se, com os "(novos) tigres asiáticos" (Filipinas, Indonésia, Malásia, Vietname, Tailândia) a juntarem-se aos "tigres" iniciais (Coreia do Sul, Taiwan e as cidades-Estado asiáticas), processo globalizador que depois viria ter efeito geoestratégicos sinalizáveis no epíteto "Brics" - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul assumindo-se como potências mundiais - e na afirmação das "relações Sul-Sul". Gigantescas mudanças que levantavam também conflitualidades (intra-estatais e internacionais) agregáveis na temática daquela conferência.

Mas mais explicitamente alguns cenários eram matéria óbvia: em vários continentes populações florestais, sempre desprovidas de meios militares suficientes, continuavam (e continuam) a ver os seus territórios devastados por entidades cleptocráticas; na Índia refulgia o fundamentalismo hindu; a explosão do capitalismo chinês incrementara a colonização han do Tibete (país que Robinson visitara 3 anos antes); no nosso "próximo e médio oriente" minorias religiosas e linguístico-culturais eram (e são) perseguidas e ocupadas. Na Europa vivia-se o rescaldo da guerra "étnica" dos Balcãs. E em África pouco tempo passara sobre o inenarrável genocídio ruandês, que tivera ondas de choque no então Zaire, promovendo a tétrica guerra congolesa que estava em curso, e assim continuou. Como estava a longa guerra sudanesa, que veio a provocar a cisão do país, processo insuficiente para a paz. E um gigantesco etc. de conflitos agitando as antinomias raciais, étnicas, nacionais ou como se lhe quiser chamar. Identitárias.

Em 2001 a internet era muito pequena e os motores de busca bem diversos. A comunicação não fluía como agora, e os mais novos nem imaginam isso. Em Maputo, via tv por satélite, segui o que me foi possível a conferência na vizinha Durban. É agora interessante recordar que organizações da "sociedade civil" americana levantaram a problemática da discriminação racializada na justiça dos EUA. Mas, de facto, duas problemáticas dominaram, em termos de eco público e de dinâmica interna à conferência. Uma foi a questão palestiana, uma pressão de países árabes que levou ao abandono de Israel e dos EUA - e, assim, a um real enfraquecimento dos resultados possíveis da reunião. 

A outra questão mais sonante foi a reclamação de várias delegações governamentais africanas - e é interessante recordar, sem ser economicista, que isto se passou na era em que o Clube de Paris promoveu um gigantesco perdão de dívida em África -, que exigiam o pagamento de indemnizações aos países "ocidentais" por causa da escravatura. 

Neste ambiente de conflitualidade, sufragando o afunilamento das questões, a higienização de inúmeros processos mundiais, a mistificação da história (num efectivo processo de "imaginação do continente" africano), a reunião teve os seus efeitos por muitos desejados. Ou seja, poucos ou mesmo nenhuns. Ainda por cima, 4 dias depois do seu final aconteceu o atentado em Nova Iorque e as atenções muito se desviaram. Mas mesmo naquele momento fui sensível àquela efectiva pantomina, no sentido de oportunidade propositadamente deitada fora.

Naquele tempo eu não conhecia o bloguismo, escrevia textos e enviava-os a alguns amigos por e-mail, alguns deles até caridosos o suficiente para me lerem. Assim, e logo em Setembro de 2001, escrevi este texto "Mil Desculpas". E um mês depois de começar a blogar coloquei-o no ma-schamba, em Janeiro de 2004. Agora torno a colocá-lo, apesar de ter 19 anos. É um texto sarcástico, e sei bem que o sarcasmo não funciona, não tem efeitos produtivos em quem o lê (ou ouve). Mas eu não escrevo (não blogo) para ter efeitos produtivos. Faço-o como catarse. Às vezes, como neste caso, como catarse do desprezo. Que me é tão necessário que também integrei este texto, mesmo que excêntrico, numa colecção a que chamei "Ao Balcão da Cantina", 50 crónicas da minha vivência de 18 anos em Moçambique (quem se interesse bastar-lhe-á "clicar" e gravar):

*****

Mil Desculpas

Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.

Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui há, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, enfim, que pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que até foi pior nem que seja por mais recente.

Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso que já se quer ir embora, também eu insisti muito e ela só veio para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, apenas ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.

É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, tenho que marcar reuniões para depois, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para nos ouvirem, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.

Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.

A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer documentos mas vim sem a carteira, só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Às pessoas com quem vou falando é que não poderei vir a dar, bem que lhes peço as moradas para ir depois lhes entregar pessoalmente o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam de mim. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os marcos que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim...

Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.

Eu agora vou até ali à Praça da Independência, aliás lá na Fortaleza tenho que pedir redobradas desculpas, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.

A rapaziada amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito...Ir até ao núcleo ver as novas obras?...é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas desculpem hoje prefiro ficar por aqui, na baixa, olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo fez, mandou fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande... Ó Ana, que é isso?, não aconteceu nada aqui ao Texeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, diz-me um poema.

Vejam, como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me...? ...chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver ...? nada, quem sou eu ... não resolvo nada... a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves... não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me...

********************

Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.

Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro... O qué? ... o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, eu cá sigo o meu Governo, o meu Estado, muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas por isso, é pá, essas ficam para daqui a umas décadas.

Qué?...afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não...também vocês, têm cada ideia!

Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.

[Setembro 2001, a propósito da Conferência Internacional sobre o Racismo, Durban]

O Padre Vieira e a Coordenadora Martins

pav.jpg

(Catarina Martins) diz que pichagem na estátua do padre António Vieira visou descredibilizar movimento anti-racista.

Podemos concordar ou discordar dos conteúdos intelectuais e políticos do movimento anti-racista, ou das suas expressões públicas. Mas isso não nos impedirá de concordarmos no desagrado com os políticos que mentem. 

Ora estas afirmações da coordenadora Martins são uma óbvia mentira, e ela sabe-o. A alusão a conspirações e a agentes infiltrados, "provocatórios", foi retórica constante no movimento comunista internacional. E se há proclamação que demonstra a continuidade da filiação daquela coligação no ideário comunista é esta falsária atoarda. Apesar de Martins andar por aí a apresentar-se como de "programa social-democrata".

O escárnio gráfico (facilmente reparável) em peças de escasso valor patrimonial não é grave, apenas irritante. E os jovens que meio-militam neste meio-movimento dentro de 10 anos serão doutores, muitos dos quais trabalhando em organismos públicos e nisso ciosos do "seu" património, estatutário no funcionalismo, e o material-simbólico que esteja sob a tutela dos seus chefes. E, pois se agora já algo politizados, logo se inscreverão no PS do momento. Alguns, mais abonados, ainda andarão pelos movimentos que são BE até poderem ambicionar o posto de chefe de secção, e então passarão definitivamente à casa-mãe. Tudo isto sem ondas. Pois não há nada de novo sob este Sol, está escrito num texto que é património.

Mas o agora relevante é a aldrabice da coordenadora comunista, a demonstrar-lhe o âmago. De facto, as pirraças gráficas são um mimetismo do que vem sendo feito noutros países. Mas são também uma tradição portuguesa. E no caso deste movimento dito anti-racista, e que recentemente foi muito propagandeado pela coligação entre secessionistas do BE e plumitivos socratistas, é uma actividade consagrada, e até recomendada, como meio de afirmação. Não é, e Martins sabe-o, obra de "agentes provocadores".

Exemplifico essa consagração deste meio de afirmação. Na imprensa nacional o jornal que mais tem acarinhado este movimento político é o "Público". Em 2 de Fevereiro publicou um longo texto de autoria de 4 académicos "O Padre Vieira no país dos cordiais", no qual, entre outras matérias, é zurzida a nova (e tão pobre) estátua. O artigo é interessante e levanta pontos de forma competente. Acima de tudo, para meu gosto, refere que as críticas ao "anacronismo" destes juízes da História estão também elas pejadas de anacronismos. E nisso têm razão os autores. Ainda que não consigam chegar à conclusão óbvia: as causas exacerbadas conduzem ao estupor argumentativo. Mas porventura nunca poderão aí chegar, devido a limites próprios.

Nesse artigo foi, implicita e intrinsecamente, louvada a acção de "recontextualização" das estátuas (a de Vieira e outras), "intervencionadas" pois "pichadas" com "mensagem (,,,) firme". E foi refutada a acusação de "vandalismo" a tais práticas pois tratam-se de "dissidência cívica": "Porém, trata-se daquilo a que Frédéric Gros chamou dissidência cívica (Désobéir, 2018). Aquilo que os pichadores fazem não é mais do que se reconhecerem a si mesmos como sujeitos políticos, no quadro da reinvenção de uma democracia que se quer crítica e interrogativa. A “merda” que os pichadores do Porto incordialmente demandam que seja retirada é uma estátua mas é também, e sobretudo, a materialidade dos consensos impostos no espaço público; o fim da hegemonia narrativa imposta pelos seus guardiães."

Não estou a dizer que os 4 autores do artigo são instigadores ou responsáveis, ou vândalos. O que digo é que estes urros gráficos são uma constante neste movimento (e noutros) e que são uma expressão consagrada e louvada pelos intelectuais integrantes, esses com estatuto académico e militância política suficientes para acederem ao "Público". E que, em assim sendo, é óbvio que as invectivas gráficas não são obras dos tais imaginários "agentes provocadores" que a coordenadora Martins vem brandir.

Uns rabiscos e uns palavrões numa estátuas a que poucos ligam não são relevantes - mostra-o o estado "grafitado" das cidades portuguesas. O relevante é termos dirigentes políticos que mentem com toda a desfaçatez. Isso é que é importante. E Martins está aqui a mentir com a boca toda, apesar da máscara que usa. E eu troco a patética estátua do Vieira, e mais algumas, por um dirigente, ou mesmo mais alguns, que não minta(m) com tamanha impudicícia. Este movimento, se não fosse apenas meio-movimento de jovens esparvoados e de académicos demagogos, poderia pensar nisso.

As minhas coisas preferidas

coisas.jpg

Sobre isto de rever "criticamente" as obras: 

Há algum tempo, num jantar já lisboeta, uma querida amiga, daquelas "dos tempos", perguntou-me, cruel indiscreta: "Zezé, já foste feliz?", teria eu já cumprido a nossa utopia? Decerto que terei chocalhado as pedras do final famous, engolido em seco, mas respondi franco, que sim, claro, que o fui naquela era ali à Avenida do Zimbabwe quando todos os dias diante da tv, e devido ao La Feria, mestre de um fantástica produção teatral, ouvia esta canção, e tantas outras, mas mais esta pois a minha preferida de sempre (sim, também Coltrane ...), nisso ombreando-me com a afinal única razão de nisto continuar, e ela ali sempre esfuziante
 
 (My favorite things, The Sound of Music)
 
Depois disso?, insistiu a então bruxa, malévola pois sabendo que pagaria a conta. Depois?, enfim, ficou o Amber Leaf e o Queen Margot para evitar a mitra, que mais haverá, disparei ?
 
Ou seja, deveremos nós dissecar o encanto a que acedemos? Com toda a certeza que não ...

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.