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Há anos que no Facebook me vai acontecendo isto: recebo vários convites de "amizade" (ligação) enviados por mulheres muito jovens. Moçambicanas, mais habituais, e portuguesas, mais raros. Têm alguns pontos comuns, outros distintos. Provêm de perfis com poucas ligações ("amigos"), sempre só homens. Os perfis das moçambicanas são reais, percebe-se pelas fotografias e pelos dados apostos, usualmente ... até ingénuos. Os perfis das portuguesas parecem falsos, intui-se pelos dados apostos, usualmente repetitivos e querendo-se ... misteriosos.
Mas há outra diferença significativa. As miúdas moçambicanas surgem em cândidas poses provocatórias (mas nada porno...). São sempre bojudas, fotografam-se (selfiezam-se) nas ancas largas e mamas fartas. Reina o valor estético "gordura é formosura", qual apelo à gulodice alheia. As (hipotéticas) miúdas portuguesas surgem esguias, e fotografadas como contidas, nada demais mostrando, como se contendo o "charme discreto da burguesia", assim convocando as delongas do saborear.
Vou recusando os convites. Não por menosprezo. Apenas porque continuo esperançoso, aguardando pela Pandora. Sei que se recusou o Corto dificilmente olhará para mim, mero Rasputine. Mas, ainda assim, aguardo...

A propósito do meu último postal já me disseram ser o assunto mero "folclore", pois a única relevância política actual é o "orçamento". Eu vou ao invés, o orçamento é uma minudência, passa com o tempo curto (em princípio anual), enquanto os actos do tal "folclore" imprimem no povo (o "eleitorado") as concepções que tem sobre este eixo partidário e seus agentes, a percepção que tem do "regime".
Há dias o PM LM veio falar sobre comunicação social. Anunciou algo com o qual concordo, a retirada do serviço público televisivo do mercado publicitário. O fim de 30 anos de desfaçatez estatista: abrir a actividade televisiva à iniciativa privada e depois usar os recursos públicos (impostos directos e atribuições via erário público) para sustentar a concorrência com essas empresas. E o final dessa compita pelas receitas publicitárias implicará uma menor determinação dos conteúdos pelos ganhos de audiência - e sim, tal como disse um ministro, não tem qualquer justificação que um "serviço público" encha o "horário nobre" com concursos sobre os preços dos produtos (o euro já tem um quarto de século, já nos habituámos aos preços...). Nem que se preencha com "telenovelas", sucessivos concursos de cantorias (por agradável à vista que seja Catarina Furtado) ou programas de conversa-mole. E também tem alguma lógica que haja apoio estatal aos diferentes órgãos de comunicação social privados - desde que não seja daquela forma trôpega (ou torpe?) que aconteceu durante o Covid. Pois uma informação livre - e nacional - é importantíssima.
Mas essas boas medidas quase se apagam diante do evidente espalhanço - não só ideológico mas também político - de LM quando apontou as "redes sociais" (blogs incluídos) como difusoras da infecção falsária, contrapondo-as à virtude sanitária da comunicação social. Dou poucos exemplos entre tantos que poderão questionar a pertinência deste atrevimento primo-ministerial: o jornal "Expresso", dito instituição, publicou há pouco a notícia "Almirante [Gouveia e Melo] quer mais dois submarinos para ficar na Armada e desistir de Belém" - desta nem as tais falsárias "redes sociais" se lembraram. O outro jornal lisboeta de "referência", "Público", contratou recentemente como constante colunista o ex-ministro socialista Adão e Silva. Esse que era um dos alimentadores do frenético bloguismo (aliás, "redes sociais") anónimo ou subscrito que defendeu até ao limite o socratismo - virtuoso jornalismo? Entretanto, na SIC, a belíssima Clara de Sousa desde há anos que leva pela mão a proto-candidatura presidencial de Marques Mendes, sempre "como quem não quer a coisa" - virtude? Ou "virtuosismo"? E também se pode falar do próprio "serviço público", onde jornalistas menos "controláveis" são afastados, depois de anos de pressões da hierarquia (e até do feixe de "elegantes" administradores não-executivos externos à casa). Já agora, há dias o "Observador" - de "direita", afiançam alguns, exasperados ou esperançados - deu uma hora de entrevista a um antigo presidente de junta de freguesia (quantos haverá neste país, sem serem entrevistados?), aquele eleito por uma urna negra. E nem sequer abordo o gigantesco painel de boatos, economicamente determinados, apresentados na imprensa desportiva, vigentes sem qualquer resmungo deontológico oriundo da "classe".
Enfim, é enorme o rol de falsidades e manipulações políticas - e outras - patentes na comunicação social. Enorme e histórico. Está pois muito mal Luís Montenegro quando investe contra nós-povo e louvaminhando, por contraposição, quem segue assim... Pois nós, os das "redes sociais", com os nossos erros, limitações, até malevolências, pelo menos não ganhamos dinheiro com isso. Os videirinhos são os outros...




Como me é costume aquando nas cercanias do Sado acordo ainda no breu. Depois, já na alvorada, interrompo a inutilidade para um café - gemo, pois já se me acabaram os pacotes de "Gorongosa" e "Vumba" que mãos amigas me haviam ofertado. Estou assim condenado a frascos de "grande superfície", e como é diferente um bom café destas quase chicórias dos pobres... (ainda se fosse Ricoffy, bem batido...). Fumo dois finos "Amber Leaf" e percorro o meu FB, o que cada vez faço menos e por menos tempo, e nesse gradual desprendimento é notório que não vou sozinho. Estou bem-disposto e partilho a minha simpatia através de um punhado de "gostos", face às aprazíveis colocações de alguns amigos.
Noto também várias publicações de há alguns dias - os "laiques" alheios vão-nas mantendo à tona, visíveis neste rosário múltiplo -, resmungando contra o 25 de Novembro. Sorrio, percebo o contexto social e etário dos indignados contra este "fascismo" novembrista, que tem o atrevimento de se celebrar. Na maioria são os "cidadãos com ADSE", esse peculiar universo ideológico. É gente já com implantes dentários, artroses, varizes, alguns artilhados com próteses coronárias, lambuzando-se com pílulas crónicas. Enfim, velhadas como eu, que se rejuvenescem no "ai, no meu tempo é que (quase) era...". E por isso encaro com quase ternura os dislates, tão convictos. E imagino-lhes as "comunas" de Terceira Idade, os comités revolucionários de Seniores, os piquetes d'Idosos, as brigadas Octogenárias ombreando com as Nonagenárias, tudo culminando com o Termidor do binómio cremação-cendrário. Pois todos somos cinza e à cinza voltaremos, anunciou um antigo, e isso independentemente dos disparates que para aqui dizemos...
Estou eu neste registo bíblico e lembro-me do meu pai, o Camarada Pimentel, ateu convicto, que me ensinou vastas coisas. Uma das quais foi o tão rico e apropriado termo "esquerdalho" - esse mesmo que tanto fere alguns dos meus amigos, que nele detectam, sei lá porquê, alguma vilania "(neo)liberal". Nada gostava ele desses "esquerdalhos", os dos "grupelhos", essa malta maoísta/polpotista, a infecunda tralha enverhoxista, nem mesmo dos suspeitosos mas cá escassos titistas, para além dos patuscos trotskistas (que só depois se vieram a transformar em fridakahlistas). Isto para nem falar dos abjectos baadermeinofistas, grapistas e etarras, brigadistas (esses tão avessos ao "compromisso histórico"). E mesmo aquela gente do IRA não lhe caía no regaço. E num dia adolescente estava eu veemente a contestar-lhe o seu arreigado sovietismo e disparei-lhe, impante, "se vivesses na URSS tinhas sido fuzilado" ao que ele ripostou, de imediato, "com toda a certeza!". Como é óbvio o Camarada Pimentel nunca teve conta de Facebook...
Entretanto - e porque estou em registo de crónica do quotidiano - este fim-de-semana acompanhei um querido amigo numa incursão a uma Bertand. Eu nunca entro em livrarias, pois tenho estantes demasiado carregadas e bolsa demasiado vazia. Mas o homem fartou-se de comprar livros e eu, para não parecer mal, qual "intellectualité oblige", escolhi um, este. No final, já na caixa, o tipo foi generoso e ofereceu-mo.
E depois fiquei a ler, tal e qual como se estivesse diante dos "O Escudo de Arverne", "O Combate dos Chefes", "La Zizanie", tantos outros, tão antes do 25 de Novembro ou de Abril, ou mesmo de saber ler. Pois que se lixe o cendrário, que não tenho pressa.

Por cá há vinte anos muitos da minha geração mergulharam no bloguismo, tanto que até se falou do meio ecológico "blogosfera". O primeiro blog de alguém conhecido terá sido o Ponto Media de António Granado. Mas o que disseminou a mania foi o impacto num pequeno meio urbano do Coluna Infame, de um trio de desconhecidos que se vieram a tornar reconhecíveis. Tudo muito alargado quando apareceram o Aviz e o Abrupto, como se o prestígio dos seus autores legitimasse a volúpia palradora que se gerou. Nada disso chocava - nem articulava, parece-me - com as redes sociais de então, o HI5, o Orkut, os grupos de "conversa" (chat), seriam espaços diferentes, gentes e objectivos diferentes.
Passados poucos anos apareceram as redes sociais ainda vigentes. E os bloguistas logo acorreram, nisso dissolvendo a tal "blogosfera". Muitos deles, os mais politizados, avançaram para o Twitter, impávidos diante da evidente contradição: E no frenesim do "microbloguismo político" incompreenderam a contradição - a política não se analisa com frases curtas, as impostas pelos apertados limites daquela rede. Alguns, talvez muitos, ainda por lá continuam, assim guturais clamando contra a... superficialidade dos políticos actuais e a análise política da imprensa. Enfim, cada um como cada qual. Mas há alguns (e os tuiteristas com toda a certeza) que até metem dó.
Mas outras redes e modos se instituíram. Entre os da tal minha geração alguns, menos viraram-se para o Youtube, de início normalmente de modo mais passivo (mas benéfico) pois restrigindo-s a partilhar obras alheias e - depois - atrevendo-se a assomarem, tal como alguns outros vieram a fazê-lo neste modo radiotelevisivo de agora, dito "podcast". Mas a maioria transitou primeiro para o albergue espanhol temático do Facebook e/ou, anos depois, para o Instagram, esta rede catapultada pelo miríade de Cristianos Ronaldos, Kardashians e demais "influenciadores" ali vigentes.
É nestas duas macro-redes - ainda que me pareça que o Facebook está em declínio, envelhecida e cansada a mole residente - que tenho conta. E anteontem notei bem a diferença mental que comanda os seus utilizadores, isso através de algo que me aconteceu. Em dia soalheiro, neste Verão insistente que persiste, cruzei o Tejo num até simbólico cacilheiro, algo que não fazia há pelo menos um ano. No cais esperei um pouco pela partida, e depois fui-me até à Margem Sul naquele até lânguido trote do cavalo-de-rio. Fi-lo de telefone na mão, blogando na plataforma do Facebook - que é mais manuseável em telefone do que a do blog -, naquela meia-hora escrevendo um postal. O qual encimei com um fotografia "picada" numa qualquer página digital. Nisso não olhei nem a montante nem a jusante. Publiquei o texto, aportei, e calcorreei o pequeno trajecto até a casa amiga para almoçar umas deliciosas favas com entrecosto.
É isso o comportamento típico do bloguista, encapuçado de facebookista. Pois fosse eu um instagramista militante ter-me-ia agarrado ao mesmo telefone, captando imagens a norte e sul, a oeste e leste, e até lhes chamaria "fotografias", por pobre de pindéricas que fossem... E publicá-las-ia na minha conta. Tal como fiz ao meu textito, por pindérico que seja.
São mesmo dois modos diferentes de estar. E neste Tejo com o Bugio lá ao fundo impõe-se-me a pergunta: são estes modos, o do garimpo das imagens ou o das palavras, o rumo do faroleiro, iluminador, no Bugio. Ou são apenas os modos da macacada, sita nas ilhas do bugio? Parece-me, e cada vez mais, que são estes últimos. Enfim, a ver se na próxima travessia me deixo a apanhar a brisa. E a ver a paisagem. Pois Lisboa, apesar dela-própria e algumas das suas gentes, é lindíssima.


A popular apresentadora de televisão foi acolhida na Assembleia da República, na qual defendeu a regulação dos conteúdos das "redes sociais". Presumo que a verdadeira "namorada de Portugal" esteja ainda desiludida com a revogação dos preceitos mais "controleiros" da lei - dita "Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital" - que o (ex-)deputado socialista Magalhães havia tentado estipular - e que haviam desagradado aos malvados adoradores do Algoritmo, ao próprio Presidente da República, reconhecido instangrameiro, e, presumia-se, aos tuíteristas do Tribunal Constitucional. Ciosa defensora da pluralidade informativa e da ética republicana na comunicação social, Ferreira, ela própria com responsabilidades directivas televisivas, estará preocupada com os processos monopolistas decorrendo nesses meios, sempre em prol de uma efectiva liberdade de informação promovida por uma comunicação social livre de pressões políticas, ameaçada que tal liberdade está pelo verdadeiro vazio legislativo existente.
Entretanto, Ferreira, que em tempos idos deixara no ar a hipótese de se candidatar a Belém, vai já pavimentando esse caminho. Presumo que para esse desiderato contará com o apoio do ilustre Senador, antigo cabeça de lista nacional escolhido pelo então primeiro-ministro José Sócrates, cônjuge de membro dos governos por aquele capitaneados e actual colega europarlamentar de Silva Pereira - entre outros -, e que do alto da sua (senatorial) experiência política nos alerta para o processo em curso, que será alimentado pelas tais "redes sociais" e pela imprensa "monopolizada". Processo no qual "o Ministério Público, entretido que está na sua guerrilha diária contra o Governo e os políticos, por via do seu órgão oficioso, o Correio da Manhã," minam a democracia, tal como ela deve ser. Esperemos então pelo pacote legislativo que nos defenderá da perfídia ôntica da ralé das "redes" e dos ilegítimos anseios dos capitalistas da comunicação social.
(Postal para o Delito de Opinião)
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