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Nenhures

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O Presidente da República decidiu intervir, isentando a priori o cardeal de Lisboa (e o seu antecessor) de qualquer responsabilidade na ocultação de crimes de pedofilia e, por inerência, na preservação de pedófilo(s) em funções - e fê-lo numa conferência de imprensa decorrida a propósito da visita de um Chefe de Estado estrangeiro (!), assim sublinhando o desatino desta atitude de Rebelo de Sousa.

É consabida a incontinência verbal do presidente, o seu afã de sobre quase tudo pontificar - um desvio atitudinal que o leva a extremos tais que é possível vê-lo, até, a comentar jogos de futebol no cenário das entrevistas imediatas (flash) em pleno campo de jogos. Será legado psicológico das décadas de comentariado televisivo que o conduziram a Belém. Há quem aprecie, nisso veja uma salutar aproximação da instituição com o eleitorado, há quem veja nessa encenação de familiaridade uma depreciação da instituição. 

Mas, independentemente do que se possa pensar desta pose presidencial, não é aceitável que o PR intervenha numa gravíssima situação destas, deixando a sua presunção (pois nada mais é do que isso) desresponsabilizadora. A igreja católica enfrenta um problema gravíssimo, de âmbito mundial. Os seus efeitos institucionais chegaram agora a Portugal. Vive, e desde há séculos, sob uma cultura institucional que (pelo menos) induz a sexualidade pedófila, hetero e homossexual. Algo que, é evidente, deriva do seu molde organizativo - o qual nem sequer assenta em dogmas fundamentais mas em opções estratégicas de cariz económico (para quem tenha interesse deixo este célebre The Development of the Family and Marriage in Europe do antropólogo Jack Goody, que explicita o desenvolvimento histórico do celibato eclesiástico).

Diante do que se passa, da generalizada (auto)consciencialização dos contextos católicos - e da sua instituição religiosa matriz - da horrível chaga que vêm acoitando, não me parece que seja admirável recuperar um anticlericalismo "iluminista" setecentista nem o exaltado "mata-fradismo" tão vigente até à nossa I República. Poderemos, crentes e incréus, aceitar a religião que nos é estruturante (mas não mandante) e a sua instituição fundamental. E nisso exigir, mas com esta última ombreando, o seu expurgar das horríveis práticas que os seus oficiais vêm cometendo. Ou seja, deverá a sociedade portuguesa - tal como tantas outras - exigir a responsabilização e combater silêncios e os biombos que a pesada instituição clerical veio procurando manter nestas últimas décadas. Como têm sido noticiados em tantos outros países. Ora nenhuma destas posições, justas, "humanistas" (no sentido de humanitárias e também no de vivificadas pelo respeito aos saberes antigos), ecuménicas no respeito às religiões, se acolhem sob esta intempestiva intervenção do presidente. Apenas um apressado, destravado até, acto de conivência com as autoridades clericais - e é importante recordar que noutros países várias autoridades eclesiáticas, até cardinalícias, foram apontadas pelo acto de denegação sem que tivessem sido alvo de defesa apriorística por parte das autoridades políticas democráticas. Ou seja, Rebelo de Sousa, nas suas funções de presidente, opta por defender - aprioristicamente, repito - não só os cardeais. Pois nisso, também, procura socorrer a igreja católica, desvalorizando à partida a hipótese das suas responsabilidades, minimizando as teias de silêncio a que esta recorre(u).

Esta inaceitável atitude do presidente não advém do seu catolicismo. Mas da sua concepção política. Sobre esta insisto naquilo que já escrevi: Rebelo de Sousa tem o projecto mais conservador ("reaccionário", para utilizar o velho termo) que este regime já acolheu. Por um lado, e num verdadeiro mimetismo do Estado Novo tardio, encena uma pose política que intenta a efectiva despolitização da sociedade - um populismo "lite", que invoca já não um pater familias até autoritário mas sim um "magister familias", o Professor afável - num rumo que é, verdadeiramente, antidemocrático ainda que nada ditatorial.

E por outro lado - e sem que isso tenha convocado reacções na sociedade, seja no espectro partidário, atrapalhado com outras circunstâncias, nem na intelectualidade ou na vasta sub-intelectualidade estabelecida no comentariado nacional -, Rebelo de Sousa investiu contra a laicidade do Estado, que é característica do nosso regime. Fê-lo, sem qualquer rebuço, desde o início do seu mandato - recordo que no dia do seu primeiro empossamento se deslocou a um templo lisboeta para se reunir com uma série de autoridades clericais de várias congregações religiosas, assim assumindo-as explicitamente como interlocutoras políticas. O que é um traço do secularismo estatal mas não é, bem pelo contrário, uma característica dos regimes laicos. E nesse viés anunciado colheu total silêncio por parte das elites partidárias, dos intelectuais e dos sub-intelectuais radiotelevisivos.

Enfim, agora surge com estas declarações sob assunto tão gravoso. As quais não lhe eram requeridas, bem pelo contrário. Poderiam ser "inaceitáveis" se efectivamente o fossem, se não estivesse a sociedade obnubilada pelo "Marcelo", tudo lhe aceitando. E assim serão consideradas apenas como mais um episódio do afável e gentil "Marcelo", justificadas (apolitizadas, entenda-se) pelo seu "catolicismo" e pela "amizade" pessoal que vota aos cardeais. 

E não haverá muito mais a dizer, tudo isto segue politicamente impune. E até moralmente impune. Sobre o assunto - de facto é mesmo (também) sobre esta matéria - recordo um postal que escrevi em 27.09.2018, encimado pela mesma fotografia. Porque disse tudo o que tinha a dizer...

Marcelo Rebelo de Sousa diz que não saudou o presidente americano por respeito à posição portuguesa sobre o multilateralismo ( 25.9.2028  ). Ou seja, explicita que as suas formas de saudação denotam a posição do país, dado que ele é Presidente da República. Muito bem. E a posição portuguesa, do Estado e da sociedade, sobre a laicidade, essa conquista da democracia? Pode o Presidente da República, nessa condição, saudar o Papa neste gesto de "islão", de submissão expressa no beijo ao anel? Não. A "direita" portuguesa, mais ou menos católica, (pelo menos disto) gosta. A "esquerda" portuguesa, entre os descendentes da capela do Rato e a igreja PCP, encolhe os ombros. Está-lhe grata, pela protecção ao governo na cena dos fogos, pela protecção ao regime na cena da substituição da Procuradora-Geral da República - e é estruturalmente avessa à laicidade [Nem a compreendem, ignorantes seguem confundindo-a com um secularismo de tempero multicultural] (...) E os "tudólogos"? Falam do resto ... 

 

 

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A cada idólatra as suas idolatrias, terá de dizer qualquer idólatra da razão, se minimamente nesta mesmo crente e assim dela obrigatoriamente algo desiludido. E nisso fenece o espanto, substituído por um morno sorriso de tépida ironia, face a este envio da estátuta da virgem Maria para a Ucrânia, como se que a querer fazer do que lá se passa uma qualquer cruzada (mariana) ou mesmo um qualquer esclarecimento, empiricamente fundamentado, de um dos tais cele(b)rados segredos de Fátima. E face à (tão humana) pantomina nem me acorre, ateu que sigo, invocar alguma inadmissibilidade da guerra que tenha sido proferida em papado mais recente, pois argumento que decerto será apupado por exegetas mais belicosos e mais atreitos a exemplos da longa história dos santos padres...

Ou seja, nesta proto-vetusta idade já não sigo furibundo iconoclasta, encolho os ombros às patuscas leviandades alheias, ainda que sabendo-as nada despiciendas, de poluentes que são. Mas não será isso que funda uma neutralidade face às crendices. Pois que se envie, com tonitruante eco, este ídolo para afrontar o demo russo muito significa do pateta estado de alguma lusa pátria. Mas não do Estado pátrio.

Mas sobre este, e das idolatrias que promove, isso já será outro assunto e bem mais grave. Pois que o Estado suspenda o ónus sobre a idolatria nazi e a panóplia de crimes e abominações intelectuais que lhe são concomitantes, e nisso de facto envie à Ucrânia - qual simbólica escolta da estatueta - o líder dos nada patuscos nazis portugueses, demonstra um estado do Estado totalmente inadmissível. 

E sendo inadmissível é necessário a ele obstar. Ou seja, identificar o juiz que isto promoveu. E retirar-lhe responsabilidades. Sem qualquer hesitação. Pois é ele um idólatra abjecto.

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Sou ateu desde o berço - literalmente falando, pois o meu pai proibiu que me baptizassem. Disso não faço proselitismo (nem junto da minha filha o fiz, quanto mais com outros). Nem uma dessas estapafúrdias "identidades" com que os neo-commies querem animar as barricadas. Disso faço, e é muito, razão.

Dito isto, raras vezes me comovi tanto como quando, aos 24 anos, visitei o Tintoretto na Scuola Grande di San Rocco. Até às lágrimas, confesso envergonhado (homem que é homem não chora, muito menos diante de umas pinturas velhas). Certo, o ambiente soturno e, acima de tudo, a fome endémica de quem está em inter-rail terão ajudado a tal desvergonha. Ou seja, se dúvidas tivesse desvanecia-as ali: sou um cristão. Cultural.

Por isso percebo perfeitamente o que o desajeitado dr. Rui Rio quis dizer ontem, naquela disparatada declaração "sou católico, não praticante, não crente", ao querer remeter a sua posição para um conjunto de princípios "civilizacionais". Mas é um erro crasso, uma ignorância tétrica (ainda para mais num homem daquela idade). Para além de ser uma patética, de desesperada, piscadela de olho ao Portugal mariano. Pois os incréus (como eu, como ele) não são católicos. E há até quem defenda que os não praticantes não são católicos - mas essa será uma posição algo radical, que a igreja trata de modo algo abrangente.

Enfim, lembremo-nos de algumas gaffes de políticos: a (injusta) de Guterres com as contas da inflacção (ou do défice); a de Santana com os violinos de Chopin; a de Cavaco com Mann por Morus; a de Costa com vírus e bactérias. Etc. Podemos brincar com elas (com a de Guterres é imoral, dado o terrível momento que vivia). Mas não eram denotativas de algo particular, mas apenas uma distracção ou uma ignorância sectorial. Mas esta de Rio é bem diferente, denota uma irreflexão estrutural, sobre si mesmo e sobre a sua sociedade. E o seu Estado, ancorado numa laicidade.

Leio algumas pessoas (que não conheço) a defenderem as actuações de Rio nos debates, dizendo-o alvo de desinterpretações, de malévolas manipulações. Anunciando-o, até, como político superior a estes diálogos curtos. Estão enganados, e estas declarações mostram-no bem. É um trapalhão, cheio de si - condição que apela à irreflexão. O que nada augura de bom vendo-o como responsável político. Diz este ateu, cristão cultural, daquele ateu que se quer católico. (E não, isto não é uma mera questão de palavras).

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Muitos muito discutem estes modos de confinamento. Suas causas, seu processo, suas excepções. E muito haverá para discutir.
 
Mas um desses argumentos criticos tem um fundo estranho: contesta-se que sigam os ritos religiosos enquanto se encerram as actividades culturais (no sentido de consumo público de criações artísticas). É um argumento simpático, solidário com profissionais bastante macerados com esta longa crise.
 
Só que assenta num erro crasso: "cultura" não é religião. Nem vice-versa. Não são comparáveis. Nem os templos abrem para que os pastores recebam honorários. Nem os crentes lá vão quais clientes (ou "consumidores"). Uma coisa é sermos laicos, ateu até à morte no meu caso, avessos à imaginação do transcendente. Outra coisa é confundirmos as coisas ...

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(Bruxelas)

O que está acima, imagem e legenda, é um postal que deixei abandonado em rascunho na Páscoa de 2019, aquando dos terríveis atentados no Sri Lanka e a propósito das comunicações de Barak Obama e Hillary Clinton, então lamentando os atentados aos "adoradores da Páscoa". O dístico toponómico é de uma rua de Bruxelas que me chamara a atenção - e tem uma origem bem prosaica, sem pingo de "manifesto", pois apenas ecoando a história mais ou  menos mítica dos rituais religiosos locais, para além de ter uma versão francófona algo incorrecta. Mas recupero-o nesta quadra cristã, religiosa e cultural. Não tenho agora grande paciência para elaborações "globalizantes" sobre este folclore "interseccionalista" que está na moda, decerto que já candidato a "património intangível" da UNESCO, entre ranchos de "cante", "caretos" e agitadores de "chocalhos". Entre o qual tais "homens cristãos", cultuais ou meros culturais, são sempre pontapeados em detrimento de outros cultos, esses sim sacralizados. E, já agora, por ali ou acolá, erradicados quando não dizimados. Face ao silêncio propagandístico, académico e subsidiado. Ambiente de anuência que é, com toda a certeza, refracção do nosso complexo de culpa. Cristão. Ateu cristão.

 

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