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Nenhures

Nenhures

16
Jan21

As missas no (in)confinamento

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missa.jpg

 

Muitos muito discutem estes modos de confinamento. Suas causas, seu processo, suas excepções. E muito haverá para discutir.
 
Mas um desses argumentos criticos tem um fundo estranho: contesta-se que sigam os ritos religiosos enquanto se encerram as actividades culturais (no sentido de consumo público de criações artísticas). É um argumento simpático, solidário com profissionais bastante macerados com esta longa crise.
 
Só que assenta num erro crasso: "cultura" não é religião. Nem vice-versa. Não são comparáveis. Nem os templos abrem para que os pastores recebam honorários. Nem os crentes lá vão quais clientes (ou "consumidores"). Uma coisa é sermos laicos, ateu até à morte no meu caso, avessos à imaginação do transcendente. Outra coisa é confundirmos as coisas ...

24
Dez20

A elisão dos cristãos

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cristãos.jpeg

(Bruxelas)

O que está acima, imagem e legenda, é um postal que deixei abandonado em rascunho na Páscoa de 2019, aquando dos terríveis atentados no Sri Lanka e a propósito das comunicações de Barak Obama e Hillary Clinton, então lamentando os atentados aos "adoradores da Páscoa". O dístico toponómico é de uma rua de Bruxelas que me chamara a atenção - e tem uma origem bem prosaica, sem pingo de "manifesto", pois apenas ecoando a história mais ou  menos mítica dos rituais religiosos locais, para além de ter uma versão francófona algo incorrecta. Mas recupero-o nesta quadra cristã, religiosa e cultural. Não tenho agora grande paciência para elaborações "globalizantes" sobre este folclore "interseccionalista" que está na moda, decerto que já candidato a "património intangível" da UNESCO, entre ranchos de "cante", "caretos" e agitadores de "chocalhos". Entre o qual tais "homens cristãos", cultuais ou meros culturais, são sempre pontapeados em detrimento de outros cultos, esses sim sacralizados. E, já agora, por ali ou acolá, erradicados quando não dizimados. Face ao silêncio propagandístico, académico e subsidiado. Ambiente de anuência que é, com toda a certeza, refracção do nosso complexo de culpa. Cristão. Ateu cristão.

 

28
Out20

"Se formos de Ferrari poderemos ir rezar pelos nossos mortos?"

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(Mensagem do prior de S. Nicolau, 25.10.2020)

Sou ateu. Não anticlerical - um antropólogo anticlerical seria uma espécie de oxímoro carnal. Mas se há algo em que sou fundamentalista é na defesa do ilimitado direito à blasfémia. Porque é a questão fundamental da liberdade intelectual, fruto de imensas guerras. E é aquele traço ao qual os imigrantes têm que se assimilar e no qual os naturais têm de ser socializados. Ou seja, na nossa (pérfida, dizem os dos ademanes) sociedade ninguém tem o direito de não ser ofendido. E quanto mais idolátricos são os crentes maior a necessidade e legitimidade da iconoclastia, mesmo que eles sejam "minorias" muito pobrezinhas e discriminadozinhas, coitadinhas ... Avanço isto, incompreensível para gentes como Ana Gomes e seus apoiantes, mais a ganga de comunitaristas espontâneos que para aqui andam tão ciosos deles mesmos e das suas militâncias, e que não percebem o que é a laicidade do Estado e da sociedade, para lembrar que tudo isto é siamês de outro princípio fundamental desta nossa laicidade conquistada: a liberdade de culto.

Ora o que este governo tem andado a fazer, no seu ziguezaguear covídico, é, de facto, uma refracção preguiçosa do anticlericalismo republicano. Serôdio, inútil. É um quadro mental patético, porventura até vivido de modo inconsciente. E sinaliza o disparatado em que decorre a administração da saúde, como o resmungam os profissionais.

A excelente prédica deste padre, insurgindo-se contra a proibição do culto aos antepassados, diz tudo o que é preciso ouvir. Que o Deus dele o tenha na sua santa guarda.

06
Fev20

O "caso Mila" e a blasfémia em França

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(Nicolle Belloubet, ministra francesa da Justiça, "L’insulte à la religion est une atteinte à la liberté de conscience", 29.1.2020)

No mural-FB de uma boa amiga francesa conheço o "caso Mila", a francesa (16 anos) que está ameaçada de morte por ter invectivado o Islão nas redes sociais. Googlo para saber da coisa. E vejo isto: a ministra da Justiça de França a por em causa o direito à blasfémia! O recuo civilizacional já chegou até aqui. Em França! Insultar a religião é um atentado à liberdade de consciência, diz esta mulher (que ainda para mais é jurista).

O direito ao desprezo pela religião, à blasfémia, é estruturante. É a base deste nosso isto! Custou séculos, guerras. Temos a liberdade de cultuar. Só porque temos a liberdade de desprezar toda a imbecilidade metafísica alheia, as patetices e crendices. Podemos ter o "bom senso", o charme discreto da burguesia, de conviver com a superstição alheia sem a invectivar. Mas não é uma obrigação, é mera educação. Ou, meu caso, falta de paciência para discutir com os patetas. Essa é a base de tudo o que há por aqui, nesta "pérfida (e colonialista) Europa".

E de súbito (ou quase) até em França se recua diante da barbárie culturalista. A propósito do Islão. Não por causa do Islão. Até em França. Isto vai mal.

02
Jan20

A sapatada do Papa Francisco

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Sou ateu. Não anti-clerical (e confesso a minha constante estupefacção com colegas antropólogos [e não só ...] que tanto altifalam contra a igreja católica enquanto se deliciam em mimos e enleios com sacerdotes zen new age, mualimos (auto)ditos subalternizados, curandeiros avessos à biomedicina ou outros interlocutores com seres intangíveis ...). Ou seja, vou ateu, torço o nariz às crendices, mas "vive e deixa viver".
 
De Papas pouco sei -.li um pouco de Bento XVI, deu para v(l)er que é um intectual poderoso. (E já agora que nele falo, julgo que antropólogos [e não só ...] que fazem vida "paperística" a elogiar e a defender alterações identitárias - a identidade como (re)construção social - mas que insistiam e insistem em chamar-lhe Ratzinger deviam ser pura e simplesmente despedidos, por indecência e má figura ..., forma chã de falar de hipocrisia deontológica).
 
Arrazoado botado, avante. A história das instituições (todas) é o da inculcação que procuram. Também o é a da igreja católica. E inculcar o respeito é o básico. Ao ver a sapatada que o Papa Francisco deu àquela crente impertinente aplaudo, de pé. Nesse pequeno gesto, decerto que enfastiado e um pouco irado, Francisco mostrou a sua infalibilidade papal, nesta magnífica lição de "tende juízo". E deixou claro que não há pingo de santidade em aceitar a impertinência imbecil. Aprendamos com o Papa o que é de aprender.
 
Que o Deus dele (e de tantos de vós) o proteja.

27
Dez19

A Porta dos Fundos

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Estou ciente de que para muitos dos facebuqueiros (e tuíteiros) portugueses sentados mais para a direita - e até para vários dos que há pouco apoia(ra)m o IL - Nick Clegg, o antigo presidente do Partido Liberal Democrata e vice-PM do governo de coligação com os Conservadores de Cameron, é um perigoso "marxista cultural" (acho que para estes celtiberos piolhosos hoje em dia até as gentes daquele "Tea Party" são "marxistas culturais").

No Brasil um programa humorístico gozou com Jesus (o Cristo, não o nosso Jorge). Escândalo por lá. E cá já andam textos a clamar contra a "libertinagem". No FB agitam-se muito incomodados os "católicos" - de facto os celtiberos pagãos, grunhindo entre os ardores do hemorroidal e os fervores da piolheira.

E eu lembro-me deste magnífico trecho de Nick Clegg (sim, o tal "marxista cultural" imaginável por esta escória). Respondendo na rádio a um proto-censor islâmico que justificava os assassinatos na Charlie Hebdo - tal como então por cá tantos, ex-PCP e/ou oriundos da Capela do Rato, o andaram a fazer, partilhando apoiando um miserável texto do padreco Boff. A contestar o direito à liberdade de expressão, a defender a (auto)censura da blasfémia.

Para esses crentes islâmicos, para esses (ex)PC's e sacristas do Rato d'então, para estes fascistóides do hemorroidal d'agora, a resposta é a mesma: na democracia não se tem o direito de não ser ofendido. Ou seja, a blasfémia é um direito fundamental.

Não se gosta do artista, da piada? Apupa-se, pateia-se. Só. Só mesmo.

Não percebe(s) isso? Vá(ai) por o creme, pá.

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