A jornada da Liga dos Campeões


Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]



Invertendo um longuíssimo ciclo de decadência, o Sporting veio-se afirmando na última década. E principalmente no último quinquénio, sob a presidência da Frederico Varandas. Este soube-se rodear de uma equipa directiva competente - que tem vindo a recuperar a economia e as finanças do clube - e de um bom departamento de futebol, verdadeiro motor do clube. Nos últimos anos aconteceram boas campanhas europeias, títulos nacionais, excelentes transferências de jogadores para o estrangeiro. E o entusiasmo dos adeptos, do "Universo Sporting". Nesta época 2024/25 as expectativas são as melhores, com um excelente plantel a jogar um futebol de qualidade inédita no clube - quem se lembra de ver a equipa a jogar tão bem? Assim uma implacável carreira nacional e uma excepcional campanha europeia - com um pouco de "estrelinha", mas esta é sempre necessária no desporto...
No futebol os motores desta senda de sucesso serão sempre, evidentemente, os jogadores, pujantes de profissionalismo e talentos. Mas é claro que são os seus líderes os grandes responsáveis por este rumo, por aos jogadores terem congregado e mobilizado de tão eficaz forma. Mas na grande indústria de entretenimento internacional que é o futebol a avidez dos enormes conglomerados político-económicos, ditos clubes, é incessante. Ou seja, os "nossos" (do Sporting, mas também de outros clubes) são seduzidos por desafios profissionais e económicos dificilmente recusáveis. E com tão grande sucesso futebolístico do Sporting - quantitativo e qualitativo - os colossos "britânicos" acorreram a contratar os seus líderes.
A dimensão económica do Sporting (e do país) torna impossível resistir a essas investidas - sabe-o bem Frederico Varandas. Foi assim confrontado, antes do terço desta época, com as anunciadas saídas das duas figuras maiores do sector do futebol, grandes responsáveis por todo este êxito: o director Viana e treinador Amorim, direccionados para os dois rivais de Manchester.
Temeu-se o enfraquecimento do futebol do clube, devido a estas saídas, principalmente face à sua simultaneidade. O presidente Varandas foi habilíssimo. Não se opôs à saída do treinador Amorim, e nisso ressarcindo o clube nos termos financeiros contratualizados - e até um pouco mais, ao que consta. E logo de seguida, para a liderança da equipa adoptou, sem hesitação, uma proposta arriscada do director Viana.
É uma manobra táctica magnífica de Varandas, promovendo assim a evidente reversão da contratação de Viana pelo Manchester City, e segurando a sua estratégia presidencial, a de manter Hugo Viana como director do futebol do Sporting, algo bem relevante para a continuidade do sucesso do clube.
(Publicado no Delito de Opinião em ...11.12.24!!!!)
Tal como Nero diria, se fosse hoje, clamarei um dia "Que Comentador morre comigo!".
Rúben Amorim violou um excelente contrato que livremente decidira firmar. Logo depois o Sporting é violentado pelo Arsenal de Londres (1-5). Dias depois joga mal e perde em casa com o Arsenal dos Açores: a primeira derrota em Alvalade após 31 jogos, e o primeiro jogo sem marcar golos em 53 jogos.
Antes o presidente Varandas contratara dois treinadores (Keizer e Silas), que foram rotundos falhanços. E dois interinos (Fernandes e Pontes) que idem... Uma sucessão de erros!. E depois este ciclo. Que começou com uma serendipidade (ir buscar, caríssimo, um treinador jovem que... deu certo).
Uma situação presente e futura que eu anunciei/enunciei aqui, há dias, num programa em que não se discutia futebol. Mas sim a vida, tão mais importante. Ou seja, repito: "Que comentador morrerá comigo". Confirme/a ouvindo, sff:
(Portanto, siga-se para a próxima etapa)

Acorda Lisboa com o pérfido John Bull ocupando o estuário do Tejo, suas ferozes canhoneiras apontadas ao Estádio de Alvalade. Urge, como nunca, o sobressalto colectivo, o "às armas!", o "marchar contra os bretões". O "desacato" patriótico. Leonino.

De Moçambique me foi enviada esta fotografia, desvendando a congregação das forças que estão a sedimentar o Sporting como campeão.

Em futebol o Sporting tem algumas derrotas históricas, impressionantes. Nas meias-finais da Taça das Taças com o Magdeburgo, muito esquecida porque foi em 24 de Abril de 1974. O clube alemão não fez história, o Sporting era-lhe superior, a final europeia estava ao alcance e só 30 anos depois se conseguiu uma outra. A dolorosa derrota na última final da Taça UEFA em 2005, com o CSKA, no próprio José de Alvalade. E, claro, os célebres 3-6 contra o Benfica, abalroando uma extraordinária equipa do Sporting (talvez a melhor que já vi), que tudo tinha para encetar um percurso vencedor. Todas elas foram explicáveis, para além dos talentos alheios. A de 1974 terá tido razões, mas era demasiado novo para disso me lembrar. A de 2005 foi normal - uma final diante de uma boa equipa - mesclada com o azar constituinte do futebol: erros individuais, uma bola enviada ao poste alheio que sacudida para contra-ataque originou golo alheio. A frente ao Benfica é famosa, e sempre revivida, muito devida a erros tácticos na tentativa de virar o resultado.
Ontem diante do Porto, ainda que na modesta Supertaça, foi a quarta derrota histórica. Não só pelo inédito 3-4 depois de um 3-0. Mas por muito mais do que isso: uma equipa campeã, dita como reforçada, até impante nisso. Diante de uma equipa de um clube em polvorosa, depois de um convulso final de ciclo presidencial de 40 anos, sem dinheiro nem reforços, um plantel parecendo remendado, com um novo técnico que ascendeu em reboliço. E o Sporting desabou. Insuflando o Porto, equipa e clube. Devastando o moral próprio, anunciando péssimas consequências. E sem nada alheio que justificasse o acontecido. Surgindo como equipa sem ponta por onde se lhe pegue...
Uma derrota histórica. E uma enorme trapalhada. O odor do rotundo fracasso instalou-se.

Morreu o Manel Fernandes, o nosso eterno capitão. (Aqui no seu cromo da Futebol 77, já depois de ter vindo da CUF). O Manel era a "bola", o verdadeiro futebol. E o Sporting.
Aplausos. Em ovação.
*****

A colecção "Futebol 77" (os cromos da época 1976/1977) nas páginas centrais da caderneta tinha esta hipótese, o coleccionador arvorar-se em selecionador por um jogo. A minha equipa para o jogo contra a Polónia (a então poderosa de Lato), em 16.10.1976, era esta, claro que com o Manel Fernandes a titular:
Damas, Artur, Laranjeira, José Mendes, Pietra; Octávio, Alves, Fraguito; Manel Fernandes, Nené, Chalana.

É o "A Bola", claro, sempre consabido e fiel órgão oficioso de uma popular agremiação lisboeta, que recorda a efeméride: hoje, aos 14 de Maio de 24, cumprem-se exactamente 30 anos que jantei no "Adega do Isaías", então renomado restaurante em Estremoz.
Regressara há poucos dias a Portugal, depois de ter trabalhado durante 3 meses na África do Sul como observador eleitoral, aquando da ascensão de Nelson Mandela à presidência. Fora uma experiência extraordinária, exaltante, imensamente marcante, e não só por ter sido a minha primeira viagem em África. Tanto que a tentei descrever, e à influência que em mim teve, através de dois postais, distanciados no tempo: o "Now is the time: Nelson Mandela" e o "O Corredor" - e a ambos coloquei na minha selecção de uma centena de crónicas, o "Torna-Viagem" (o qual, repito a tentativa de o impingir, se pode encomendar através desta ligação aposta no título).
Naquela época (e não só então, e não só então...) eu estava muito enlevado - para não dizer de outra forma - pela minha namorada, condição que já não era recente. À chegada, saudoso, logo marcámos para o primeiro fim-de-semana uma incursão a Estremoz, uma bela opção havida por razões que já não recordo. E assim avançámos, ficando albergados numa linda casa em recanto bucólico, até idílico, poiso que decerto veio depois a ser considerado "de turismo rural".
Ao segundo dia da estada, no sábado, aconteceria o Sporting-Benfica, em plena fase final do campeonato, esse que estava destinado ao nosso Sporting, então possuindo uma magnífica equipa: treinada pelo professor Queirós, que à pátria dera recentemente dois tão entusiasmantes títulos mundiais, blindada por uma excelente parelha de centrais (Valckx e Vujacic), dificilmente repetível, e orlada por um meio-campo luxuoso, esse sim mesmo irrepetível, verdadeiros "Quatro Violinos" (Figo, Capucho, Paulo Sousa, Balakov). E para conclusão, lá na frente impunha-se o codicioso avançado Jorge Cadete, oriundo da antiga Porto Amélia, então já Pemba - terra para onde eu me aprestava a partir para um também entusiasmante semestre de "trabalho de campo".
O jogo teria transmissão televisiva. No nosso refúgio havia uma televisão, algo que à chegada eu havia considerado inútil, até intrusivo, em tal local. Durante a tarde a beldade, sempre completamente alheada das coisas do futebol, disse-me "vês o jogo e depois vamos jantar", ao tal restaurante que nos havia sido basto recomendado, dito como "o" verdadeiro sítio estremocense. Logo refutei a proposta, pois era o que faltava, abstrair-me dela apenas por causa de um mero jogo da bola... Pois o Amor impunha a sua Lei, em regime de "servidão voluntária", como havia dito o La Boétie (falando, é certo, de outras coisas). Assim abdiquei de ver a partida, imunizando-me às vãs paixões futebolísticas, e naquele fim de tarde fomos passear pelas redondezas. Nunca soube se ela percebeu a magnitude daquela minha atitude, o seu significado - mas é certo que depois casou comigo, tivemos uma filha, e aturou-me mais vinte anos, é capaz de ter compreendido...
Pela hora de jantar (jogo da bola completamente esquecido) entrámos em Estremoz e fomos até ao tal "Adega do Isaías". Uma casa aprazível, numa decoração típica, mais que acolhedora, até reconfortante, de cariz etnográfico, na mesa para nos receber foram instalados uns acepipes iniciais consuetudinários, lembro-me que de fino recorte técnico. Mas num dos topos da sala estava uma televisão - ainda nada de ecrãs engrandecidos que vieram depois a vigorar -, e diante dela estavam congregados alguns clientes locais. No recato da disciplina auto-imposta sentei-me de costas para ela, encarando a amada. Nesse entretanto, e através do empregado "...do Isaías". soube - teve de o ser - estar o jogo no intervalo, que o Benfica ganhava por uns (inusitados) 3-2. Acolhi o prometedor cardápio com um sorriso complacente, convicto que aconteceria a reviravolta ("remontada", espanhola-se agora) do nosso Sporting, e divergi a minha atenção. Ainda assim pelo canto do ouvido notei que na reentrada em campo o prof. Queirós havia tirado o lateral-esquerdo Paulo Torres...
E logo depois o ulular dos restantes clientes fez-me notar que o Isaías - não o do restaurante mas sim o jogador do Benfica - cavalgara à desfilada pela avenida onde já não estava o tal Paulo Torres e marcara o 4-2. Petisquei mais uma lasca de enchidos locais, entrecortados por azeitonas verídicas, ainda mergulhado na carta dos vinhos. Breves minutos passados, ainda rodando o primeiro copo de um bom tinto, que me acalentava sonhos de futuros comuns, o "Isaías" restaurante tremeu com a gritaria estremocense, pois o outro Isaías -. o de Carnide - tornara a cavalgar, com os sequazes, a tal avenida desprovida do Paulo Torres, fazendo o 5-2. Mantive-me impávido, soberbo, nem olhei para o ecrã. Naquela "Adega do Isaías" indiferente aos feitos do Isaías.
Nunca mais voltei a Estremoz. E ainda hoje estou crente de que a minha vida teria sido diferente se o Paulo Torres não tivesse sido substituído.
(Adenda: agradeço à equipa da SAPO o destaque dado a este postal - também colocado no Delito de Opinião - na simpática rubrica "Palavras de blog", devido à "consuetudinários" que aqui usei.)



A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.