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Nenhures

Nenhures

14
Mai24

A Adega do Isaías, 30 anos depois...

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É o "A Bola", claro, sempre consabido e fiel órgão oficioso de uma popular agremiação lisboeta, que recorda a efeméride: hoje, aos 14 de Maio de 24, cumprem-se exactamente 30 anos que jantei no "Adega do Isaías", então renomado restaurante em Estremoz.

Regressara há poucos dias a Portugal, depois de ter trabalhado durante 3 meses na África do Sul como observador eleitoral, aquando da ascensão de Nelson Mandela à presidência. Fora uma experiência extraordinária, exaltante, imensamente marcante, e não só por ter sido a minha primeira viagem em África. Tanto que a tentei descrever, e à influência que em mim teve, através de dois postais, distanciados no tempo: o "Now is the time: Nelson Mandela" e o "O Corredor" - e a ambos coloquei na minha selecção de uma centena de crónicas, o "Torna-Viagem" (o qual, repito a tentativa de o impingir, se pode encomendar através desta ligação aposta no título).

Naquela época (e não só então, e não só então...) eu estava muito enlevado - para não dizer de outra forma - pela minha namorada, condição que já não era recente. À chegada, saudoso, logo marcámos para o primeiro fim-de-semana uma incursão a Estremoz, uma bela opção havida por razões que já não recordo. E assim avançámos, ficando albergados numa linda casa em recanto bucólico, até idílico, poiso que decerto veio depois a ser considerado "de turismo rural". 

Ao segundo dia da estada, no sábado, aconteceria o Sporting-Benfica, em plena fase final do campeonato, esse que estava destinado ao nosso Sporting, então possuindo uma magnífica equipa: treinada pelo professor Queirós, que à pátria dera recentemente dois tão entusiasmantes títulos mundiais, blindada por uma excelente parelha de centrais (Valckx e Vujacic), dificilmente repetível, e orlada por um meio-campo luxuoso, esse sim mesmo irrepetível, verdadeiros "Quatro Violinos" (Figo, Capucho, Paulo Sousa, Balakov). E para conclusão, lá na frente impunha-se o codicioso avançado Jorge Cadete, oriundo da antiga Porto Amélia, então já Pemba - terra para onde eu me aprestava a partir para um também entusiasmante semestre de "trabalho de campo".

O jogo teria transmissão televisiva. No nosso refúgio havia uma televisão, algo que à chegada eu havia considerado inútil, até intrusivo, em tal local. Durante a tarde a beldade, sempre completamente alheada das coisas do futebol, disse-me "vês o jogo e depois vamos jantar", ao tal restaurante que nos havia sido basto recomendado, dito como "o" verdadeiro sítio estremocense. Logo refutei a proposta, pois era o que faltava, abstrair-me dela apenas por causa de um mero jogo da bola... Pois o Amor impunha a sua Lei, em regime de "servidão voluntária", como havia dito o La Boétie (falando, é certo, de outras coisas). Assim abdiquei de ver a partida, imunizando-me às vãs paixões futebolísticas, e naquele fim de tarde fomos passear pelas redondezas. Nunca soube se ela percebeu a magnitude daquela minha atitude, o seu significado - mas é certo que depois casou comigo, tivemos uma filha, e aturou-me mais vinte anos, é capaz de ter compreendido...

Pela hora de jantar (jogo da bola completamente esquecido) entrámos em Estremoz e fomos até ao tal "Adega do Isaías". Uma casa aprazível, numa decoração típica, mais que acolhedora, até reconfortante, de cariz etnográfico, na mesa para nos receber foram instalados uns acepipes iniciais consuetudinários, lembro-me que de fino recorte técnico. Mas num dos topos da sala estava uma televisão - ainda nada de ecrãs engrandecidos que vieram depois a vigorar -, e diante dela estavam congregados alguns clientes locais. No recato da disciplina auto-imposta sentei-me de costas para ela, encarando a amada. Nesse entretanto, e através do empregado "...do Isaías". soube - teve de o ser - estar o jogo no intervalo, que o Benfica ganhava por uns (inusitados) 3-2. Acolhi o prometedor cardápio com um sorriso complacente, convicto que aconteceria a reviravolta ("remontada", espanhola-se agora) do nosso Sporting, e divergi a minha atenção. Ainda assim pelo canto do ouvido notei que na reentrada em campo o prof. Queirós havia tirado o lateral-esquerdo Paulo Torres...

E logo depois o ulular dos restantes clientes fez-me notar que o Isaías - não o do restaurante mas sim o jogador do Benfica - cavalgara à desfilada pela avenida onde já não estava o tal Paulo Torres e marcara o 4-2. Petisquei mais uma lasca de enchidos locais, entrecortados por azeitonas verídicas, ainda mergulhado na carta dos vinhos. Breves minutos passados, ainda rodando o primeiro copo de um bom tinto, que me acalentava sonhos de futuros comuns, o "Isaías" restaurante tremeu com a gritaria estremocense, pois o outro Isaías -. o de Carnide - tornara a cavalgar, com os sequazes, a tal avenida desprovida do Paulo Torres, fazendo o 5-2. Mantive-me impávido, soberbo, nem olhei para o ecrã. Naquela "Adega do Isaías" indiferente aos feitos do Isaías.

Nunca mais voltei a Estremoz. E ainda hoje estou crente de que a minha vida teria sido diferente se o Paulo Torres não tivesse sido substituído.

(Adenda: agradeço à equipa da SAPO o destaque dado a este postal - também colocado no Delito de Opinião - na simpática rubrica "Palavras de blog", devido à "consuetudinários" que aqui usei.)

07
Abr24

Bayete Catamo

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Em finais de 2021 eu - como se comprova, sendo um muito competente "olheiro" (os patetas ignorantes agora falam de "scouting") - aqui saudava a chegada do jovem moçambicano Catamo ao plantel do Sporting, augurando-lhe grande futuro. E ao assunto voltei no início desta época, exigindo também a sua manutenção no plantel.
 
Assim sendo, creio que vos será possível imaginar o sorriso gigantesco com que ontem me deitei. Um cúmulo: tal como aqui anunciara, estivera desde o fim da tarde no recomendável Roda Viva, restaurante moçambicano em Alfama. Ali organizara o "lançamento" do meu livro "Torna-Viagem" - que é louvado mas não tanto comprado... Apareceu um largo punhado de amigos - alguns vindos de bem longe, outros vindos de eras muito recuadas... E até família - a minha irmã, comparecida para evitar que eu dissesse palavrões, e cunhados, a apoiá-la na nobre e pedagógica missão.
 
Encheram-se as duas salas e a viela, enquanto se comiam as prometidas (e devidas) badjias e chamuças. Depois do cerimonial livresco - no qual falou o Fernando Florêncio e perorei eu - e do animado convívio avulso, umas quatro dezenas de presentes decidiram jantar ali mesmo, tendo tecido loas ao repasto. Enquanto eu cirandava de mesa em mesa foram-me informando da evolução do resultado. Houve júbilo no final do jogo, ali em Alfama.
 
Pela 1 da madrugada recolhi a casa, tão contente que quase feliz. E vi a gravação do jogo. Só então percebi que fora a noite de glória do Catamo! Neste meu dia não podia ter sido melhor!!! Bayete Catamo!!!,* disse ali no seu segundo golo, mesmo no final - na sequência de um inenarrável roubo do árbitro, a querer levar o Benfica ao título, uma escandaleira.
 
Ao acordar leio uma mensagem, amigo moçambicano desde Maputo, dizendo-me que ao ver o jogo do Geny se tinha lembrado daquele meu antigo postal sobre o rapaz. Profético, profético... Enfim, apenas posso dizer, modesto: "sublinhem as minhas palavras!"
 
* Bayete - saudação destinada a um Chefe relevante no universo linguístico tsonga.

23
Out23

Catamo

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Há já dois anos fiz um postal "Hoyo-Hoyo Geny Catamo", augurando belo futuro ao jovem moçambicano que despontava no nosso Sporting. E há poucos meses insisti, torcendo para que o jogador ficasse no plantel principal do clube, quando se falava de mais um empréstimo, para "rodar". 
 
Ontem, para a Taça de Portugal, o Sporting foi jogar contra os tipos de Moscavide - que os "Olivais" que eles apregoam são do lado de cá, como é bem notório.
 
Parece que o jogo ia modorrento (não o vi), até se antevia o sempre temível "Aconteceu Taça" - isso que nos aconteceu na época passada, soçobrando diante dos secundários poveiros. Mas Amorim fez entrar Catamo e este virou a coisa, mostrando-se, num passo mais da sua afirmação.
 
Hoje os jornais desportivos portugueses têm estas capas, que aqui reproduzo para delas dar conhecimento aos amigos moçambicanos. Ainda será cedo para clamarmos Bayete Catamo! Mas... o rumo parece vir a ser esse.

03
Set23

Salif Keita

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Viver é ver morrer os nossos, os queridos e os ídolos, um contínuo desmate afectivo. Morreu agora Keita (o Keitá! dos locutores radiofónicos de então, Salif Keita Traoré), o enorme jogador maliano, uma estrela daquela época - e hoje seria uma macro-estrela global... - que o Eterno Presidente, Senhor João Rocha, teve artes de trazer para o Sporting.

Na época o divino Vítor Damas partira para a malvada Espanha, de onde nada de bom vinha, o herói Agostinho andava pelas Franças aos (gloriosos) terceiros lugares, e o nosso Hermes Carlos Lopes fora ultrapassado pelo finlandês Viren. E Yazalde transferira-se - pela fortuna de 12 500 contos (60 mil euros) - para Marselha, bem antes do malandrete Tapie lá mandar. O nosso panteão estava um bocado desertificado, enquanto os atrevidos lampiões controlavam o Portugal do PREC como o haviam feito no ocaso do Estado Novo, e a diabólica parelha Pedroto-Pinto da Costa começava as suas tétricas manigâncias, que ainda hoje perduram.

Mas no José de Alvalade ascendeu uma Trindade, em avatar de "tridente" (como então não se dizia), a preencher-nos o culto. Eram o sempre nosso "Manel" (Fernandes), o fabuloso Rui Manuel Trindade (lá está) Jordão - o que teria este avançado hoje em dia, um génio do futebol! E Keita! Chegado já trintão, veterano de inúmeras pelejas, fugido de Espanha - tal como Jordão - por razões de maus-tratos rácicos na imprensa (os tempos de então eram bem piores do que os de hoje). Classe pura, distribuindo júbilo pelas bancadas - ainda me lembro, ele, mesmo já o tal veterano, a meter a bola por um lado do defesa e a ir buscá-la pelo outro, que jogador é que faz isso hoje, todos amarrados às tácticas, à "posse de bola" e às "coberturas"?... Era o Maior!

12
Ago23

Este Ano É Que É!

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Há uns (largos) anos - ainda na era dos blogs, eu no ma-schamba em Moçambique - um amigo disse-me, até pesaroso, "tu expões-te demasiado". Expliquei-lhe que não era verdade e ele anuiu: pois ninguém sabia, nem sabe (via blog) o que me vai na "alma", o que se me passa no íntimo. Que era (então) antropólogo, que leccionava, pai de filha (eu fiz um bocado de babyblogging). Que adorava aquele país (sem de lá ser), que compreendia Sócrates, homem como eu, mas abominava (e abomino) os seus apoiantes (vermes imundos), que compreendia o azedume dos "retornados", vítimas da História, mas que não era o meu, nem pouco mais ou menos, que leio um bocado mas não sou "conhecedor" nem me alcandoro a tal. Do resto, de aflições, anseios e amores, ninguém o sabia (via blog). Não estava exposto. Agora passaram os anos, trambolhões nunca ditos (em blog). Neste último ano de pré-sexagenário ainda vou com anseios, nunca expostos - vá lá, em blog deixo entrever o sonho de deter alguma arte ao fogão, ascender a uma caixa de Queen Margot em vez de escorropichar este restinho que me sobra. Mas nada mais, o morcão irredutível sobrepõe-se ao escombro, pois "gajo que é gajo não dá o flanco".
 
Dito isto, venho-me desnudar, strip-tease moral total: saúde e felicidade da filha e da parentela (a consanguínea e a espiritual) à parte, resta isto que hoje (re)começa. Este Ano É Que É!! Pois todas as outras taças que se lixem. Que venha o título, que em Julho chegue eu aos 60 com o sorriso do "somos campeões!". O resto? Isso sim, a tal de vida, é que é o placebo!

31
Jul23

Geny Catamo

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Há dois anos que clamo "Hoyo-Hoyo, Geny Catamo", torcendo para o jogador se firme no plantel principal do meu Sporting. Nas últimas décadas têm escasseado os jogadores moçambicanos no nosso clube - nos já longínquos 80s vieram Calton, um grande jogador mas então no ocaso da carreira, e Aly Hassan, um médio elegante que não teve grande sucesso. Pouco depois foi Chiquinho Conde, apenas uma fugaz época de notoriedade. E há 20 anos veio Paíto, um bom lateral-esquerdo mas que não conquistou a titularidade.
 
Agora há Catamo, um jovem no Sporting desde 2019 e que tem vindo a ser emprestado, "para rodar" como se diz na gíria. O menino cresceu e já tem 21 anos. Antes da pré-temporada foi logo anunciado como excedentário. Mas nestes jogos de preparação tem entrado e marcado. E ontem, na apresentação já em Alvalade contra o Villareal (3-0), entrou a meia-hora do fim. Jogou e encantou, atrevido, sem medo a querer mostrar que o lugar dele é ali, dono de drible mágico, lesto a escapar-se aos adversários, rijo a opor-se-lhes, levantando ovação nas bancadas. E dando golo a marcar. 
 
Geny Catamo não engana, é daqueles jogadores "alegria do povo". Espero que não o remetam para mais uma época "emprestado", num qualquer clube secundário que não lhe dê espaço para arriscar, brilhar, crescer, como antes aconteceu. Em nome de uma qualquer solidez "táctica". E que assim fique no plantel. Para que nós agora no estádio possamos gritar "Ó Rúben, mete a opção!"...*E o resto, a titularidade, ver-se-á depois...
 
(* Alusão a uma velha expressão dos benfiquistas: nos 1970s - em jogos com mais dificuldade para abrir os "ferrolhos" defensivos adversários - gritavam ao então treinador, o luso-moçambicano Mário Wilson (dito "Buda"), "Ó Buda, mete a opção!", isto para que ele fizesse jogar Jorge Gomes, o ponta-de-lança brasileiro que foi o primeiro estrangeiro a jogar por aquele clube.)

 

17
Mar23

O Pote de Ouro

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Acima de tudo, muito mais do que paixão o futebol  - nisso entenda-se o quotidiano Sporting e, ocasional e secundariamente, a selecção nacional - é-me um placebo. Ou seja, aos desaires trato com um lesto e dialogante monólogo interior feito de viscosos palavrões e vigorosas invectivas às Entidades desavindas, ou mesmo através de resmungos partilhados com a escassa vizinhança, e logo me dedico a outras temáticas, decerto que não mais relevantes. E nos triunfos significativos - não tão habituais assim, dada a minha amada "condição" sportinguista - emerge-me um frenesim exultante que recobre, dissolve até, todas as agruras e desconchavos da (minha) vida, reacção alquímica que leva, felizmente, alguns dias a fenecer.

A vitória londrina de ontem, com o Sporting a arrumar o este ano fortíssimo Arsenal - meu clube inglês desde petiz -, e após um primeiro jogo em que  havia sido basto prejudicado por uma arbitragem reverente ao poder mediático, foi um desses momentos de felicidade (a qual nunca é espúria, seja lá qual for a sua causa) para mais tarde recordar - e a fazer-me lembrar uma outra vitória épica, quando há uma década se eliminou o Manchester City, jogo que vi em Maputo entre queridos amigos sportinguistas, alguns dos quais já cá não estão, numa noite terminada, alguns de nós numa euforia já algo inebriada, a pagar luxuosas rodadas generalizadas nos restaurantes da Julius Nyerere e a ofertar rosas a todas as mulheres - para gaúdio de um noctívago vendedor ambulante... Despesa que quase teria custeado a minha ida a Manchester....

 

 

01
Nov22

Crónica do Sporting - Unidos de Frankfurt (1-2)

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Durante anos escrevi sobre Sporting no blog colectivo És a Nossa Fé. Há uns meses deixei-me disso. E vou botando uns postais gastronómico-futebolísticos no meu Nenhures. Mas hoje a esperança não era muita - antevendo o resultado final -, e por isso jantei uma meras pataniscas congeladas (do Lidl, de boa qualidade e melhor preço) ombreando com um decente arroz de feijão, e uma mini (Super Bock, pois jamais Sagres - dado que a marca gozou com o Rui Patrício, nunca esquecer) antecipando água mineral.
 
Sabe-se que este Sporting é fraco e está atrapalhado. Hoje, ao contrário da insuportável ladainha dos patetas comentadores do canal Eleven, jogou bastante mal, constantemente perdendo a bola. Teve algum azar em duas lesões durante a primeira parte - mas estas fazem parte do jogo. E foi eliminado, como eu antevia. Aliás, já antes do campeonato começar eu botara que esta época seria para esquecer, a ver se acaba o mais depressa possível...
 
Alguns amigos riem-se e dizem que eu levo a bola muito a sério. Nem tanto. Acima de tudo o futebol (o Sporting, melhor dizendo) é um elixir da juventude. Rejuvenesce-me. Por exemplo, hoje deitar-me-ei quase uma década mais novo. Pois estou exactamente como estava em 2014 - quando num jogo decisivo da Liga dos Campeões o Sporting foi eliminado pelos alemães do Shalke 04, num jogo que foi uma roubalheira, culminando num penalti inventadíssimo. Tanto o foi que dois anos depois o director desportivo alemão veio dizer que aquilo tinha sido um escândalo...
 
Agora, 8 anos depois, outros alemães vêm jogar a Alvalade. E o veterano árbitro esloveno Slavko Vincic (um protegido do esloveno presidente da UEFA) rouba descaradamente este fraco, atrapalhado, nervoso, deficitário Sporting. Certo, não "damos" muitas para a caixa. Mas este sacaninha vinha mesmo com tarefa encomendada. E cumpriu. E assim me deito, como se com cinquenta aninhos acabados de fazer...

30
Out22

Crónica do Arouca-Sporting (1-0)

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Acerquei-me deste fim-de-semana prenhe de boas crenças para o jogo em Arouca - "positivismo", como agora sói dizer-se -, e mesmo antevi o sucesso do Sporting acoplado ao empertigar do açoriano Santa Clara face ao campeão Porto e à reprise da recente bem sucedida incursão flaviense à capital, neste caso anseio avivado pelo apreço por aqueles transmontanos, herança dos meus ancestrais matrilineares vindos dali entre Gimonde e Mogadouro, mas também devido às memórias daquela era, que para eles será até lendária, das suas andanças sob o coriáceo Raul Águas e o magnífico Radi Zdravkov. 

O estágio que antecedeu o embate foi culminado com este muitíssimo recomendável pato confitado pré-fabricado, apresentado sob a patente "Patos da Quinta da Marinha", que para o efeito fora adquirido, ao que constou, na "grande superfície" Pingo Doce. Notável produto, e não só pelo seu preço muito acessível, pois suculento e pródigo. O quarteto à mesa acompanhou-o com um arroz (carolino) frito, um bom esparregado de espinafres caseiro, cujo fautor conduziu sob apreciável conservadorismo culinário, promovendo-lhe uma recomendável consistência e apurado (e avinagrado) sabor. Tudo isto foi vagarosamente deglutido na companhia de uma diversificada conversa debruçada sobre as múltiplas coisas do mundo e por uma garrafa de um bebível San Felipe tinto, feito na Argentina no ano passado. Entretanto, abandonada na sala, a televisão muda transmitia o jogo do Sporting.

Já preparava eu a máquina da loiça, após a talhada de marmelada caseira amancebada ao naco de queijo de Marinhas,  quando da sala ouvi o provocatório e jocoso "golo do Arouca!", o qual me convocou ao habitual sofá das lamentações. Lá se ligou o som à tv e dediquei um pouco de atenção aos rumos da bola, tendo estranhado alguns dos nossos jogadores que ali a pontapeavam. Tanto assim que enquanto o guarda-redes safava o Sporting de ser atingido por mais um ou dois golos fui ao telefone ver o rol ali titular, para logo constatar que se apresentara uma equipa típica da Taça da Liga. A mente benfiquista que ali comigo ombreava, solidária de décadas de amizade, confortou-me num "ainda marcam dois, vais ver...", o que teve a gentileza de repetir, a espaços, por mais duas ou três vezes. Mas eu, veterano deste sofá (e de tantos outros), vendo ali o meu Sporting num amansado desatino tornei-me marxista, rematando "nada, o homem aburguesou-se, abandonou o "jogo a jogo", não há nada a fazer!". E aduzi-lhe, "nem hoje nem daqui para a frente!". E assim foi, com uma equipa sportinguista a fazer-nos regressar a tempos que julgara, utópico, já idos, aquilo mesmo do "não há nada a fazer".

Enfim, meia hora depois, com mais um ou outro pontapé para a frente, mais um ou outro cruzamento para trás, mais umas substituições ("tardias, bolas", contive-me eu, dada a senhora na sala e a minha filha também), regressei à marmelada, a uma breve fatia, orleia-a com uma noz de queijo de Castelo de Vide. Despedi-me, simpático, e paternalmente amoroso. E fui para a cama, ler uns pdfs.

27
Out22

Crónica do Tottenham-Sporting (1-1)

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Champions League: Tottenham/Sporting (1-1), resumo

 
 

Apesar de ter uma licenciatura em Antropologia Social (disciplina que, ao que me vêm dizendo, é especializada nestas matérias) tive de chegar aos 58 anos para perceber - ontem - o que é "cisgénero", termo que se vai disseminando e que, ao que vou lendo nos autores das wikipédias, significa ser portador da doença ("condição", diz-se) de se nascer homem - com pénis e respectivos adjacentes - e de se passar a vida a julgar-se homem.

Percebi-o durante o que foi gravado e está resumido neste filme. Lá para o fim do evento eu estava já longe da televisão que o transmitia em directo, escondido na cozinha - desarrumando pratos, deitando os restos dos acepipes no chão vizinho ao caixote do lixo, pondo copos lavados na máquina de lavar, resmungando o destino que é sempre o mesmo, feito de desilusões e amarguras, a vida que , diga-se o que se disser, não vale a pena ser vivida, toda esta filosofia condensada no mandamento "isto é sempre a mesma merda!" e seu consabido corolário "vamos levar um golo mesmo no fim!"... Quando da sala veio a exclamação, o evidente e tão previsto "golo do Tottenham!" (aos 3,10 minutos deste filme).

Para lá voei, plantando-me diante do ecrã, rugindo um infindável feixe de impropérios, peludos e espessos, prenhes de corrimentos e miasmas, que envergonhariam um coriáceo taxista, nisso sinalizando o meu desespero existencial.

Depois, algo depois, percebi então o que é aquilo do "cisgénero". É que um tipo, mesmo que durante estas epifânias abissais, só fala assim entre outros "cisgéneros" - naquele caso os da sub-espécie "benfiquista".

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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