Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

Caricaturas e liberdade

13920878_mUk8u.jpeg

Na sequência do assassinato do professor francês Samuel Paty, devido a ter mostrado caricaturas aos seus alunos, a pastora da Igreja Protestante de Roubaix, Sandrine Maurot, convidou os crentes de todas as religiões a "publicarem uma caricatura na sua própria religião, defendendo a liberdade de expressão".

(O meu muito laico sportinguismo é o meu sentimento mais próximo, ainda que imensamente distante, da religiosidade. Ou seja, resta-me isto ...)

No Sporting-Porto

vietto.jpg

(Postal para o És a Nossa Fé)

Vi o Sporting-Porto, e não via um jogo nosso há já meses. Fi-lo em casa de grande amigo, como tantas vezes acontece, dos jogos fazendo pretexto para petiscaria fina. O melhor camarote que há, onde congregamos grupo de sportinguistas amigos desde a infância. Teoricamente seria eu o mais atento, dado que os meus "manos" estão mais mergulhados nas proezas do Miguel Oliveira. De facto, talvez nem tenha sido assim tanto, dado que após o lance de Godinho me encontrei distraído sentado à mesa, costas dadas ao ecrã, bebericando, tasquinhando e palrando com as senhoras presentes, as amigas de décadas casadas com os aficionados ali espojados nos sofás, elas sempre algo superiores, ainda que solidárias, à nossa futebolite.

Mas lá me reintegrei na "moldura humana". Tenho entre aquele plantel algum prestígio futebolístico pois, ainda que todos da mesma idade, sou o único que me lembro do Manaca, Alhinho, Bastos e Carlos Pereira e, presumo, até mesmo do Miguel Garcia. E, cume dos cumes, escrevo no És a Nossa Fé, dimensão autoral que dá crédito às minhas doutas opiniões sobre o jogo. E como tal - entre o bom vinho (Douro Post Scriptum 2018, muitíssimo bebível a preço nada proibitivo), a muito composta tábua de queijos, um apreciável cajú (Loja Cafélia, ao que fui informado), alguns produtos de fumeiro de origem bem referenciada, e ainda antes da aguardente de excelência, a qual só depois assomou, a lavar a alma do desgosto do empate - lá fui, com sageza de especialista, resmungando com as desatinadas opções tácticas do treinador Ruben Amorim. A compor uma equipa sem avançado centro, que é coisa que Jovane Cabral não é nem será, a moldar um esquema assente no Adan para Coates, Coates pontapé para a frente há espera que algum extremo em correria a consiga apanhar, o que tanto me lembra as desventuras de Anderson Polga durante as infindas décadas em que infernizou o meu sono adepto. 

(Sporting-Porto 2-2, campeonato nacional 2020/2021, segundo golo do Sporting, obtido por Vietto)

Depois vieram as substituições, a fazerem-me engasgar entre a devolução dos caroços de azeitona. E logo assinalei aos amadores espectadores que me ombreavam que "o gajo" (o Amorim) meteu uma série de jogadores avançados (Vietto, Tiago Tomás, Plata, João Mário e Sporar), típica solução desesperada aquando inexistem soluções tácticas. E assim partiu a equipa toda, o Sporting deixou de jogar para além dos repelões, a derrota - ainda para mais diante de um Porto algo sabido e ríspido - estava garantida. Enfim, a nossa tradicional incompetência, aliada à influência da manha arbitral. E todos anuíram a esta minha análise, mais avisada do que a deles.

Depois, lá para o fim do jogo, surgiu este golo, antecedido de uma bela Esporada à Sporar, já agora ... Riu-se o dono da casa e clamou(-me) "ouve lá, foram os tais avançados que fizeram o golo ..."! Escorropichei o copo, reenchi-o. "G'anda Rúben Amorim!", "que coragem", sublinhei, e viva ele pois "meteu a carne toda no assador", como agora se diz. Temos Homem! E plantel!

Os nomes dos campos de Alcochete

IMG_2294.jpg

(Postal no És a Nossa Fé!, no qual alguns bloguistas e leitores se opõem à proposta da direcção do Sporting em utilizar antigos jogadores do clube para nomear os campos de treinos de futebol)

Com a maldita abrilada não só se abandonaram as colónias àqueles pretos que por lá viviam, primitivos. Veio também este vício do divórcio, a avivar o imoral nas mulheres, delas visceral. E o do esbanjo, naquilo do salário mínimo, demasiada esmola aos preguiçosos, sempre avessos aos deveres e desde então ainda mais, armados de votos, como se isso percebessem, e mesmo no desaforo de sindicatos e partidos. E tantos outros defeitos, uns mesmo de cá, telúricos, do Minho ao Caldeirão, outros importados, desse malvado mundo de repente portas adentro já sem quem, sábio certeiro, cerceasse os desvarios noticiados, assim propagandeados. O pior dos quais, talvez ou mesmo decerto, esse do desprezo pela Santa Madre Igreja, o afastamento aos ditames do Livro - e que aluno saberá hoje soletrar, ou apenas invocar, Lucas 15: 11-32? nenhum decerto, embrenhados que estão nas cidadanias e desenvolvimentos, drogas, paneleirices, fufices e tabletes ... Nisso coisa menor terá sido aquilo no futebol, mas também importante pois sinal dos desatinados tempos, quando os comunistas de Moscovo acabaram com a lei da opção, desde então tornando qualquer jogador da bola, analfabeto quase sempre, gente mal medrada nos Barreiros, Rabos de Peixe ou Famalicões, importada das Lundas Bijagós Nampulas, moles de filhos de rupestres alcoólicos, brutos ratinhos, grotescos galegos, escória alfacinha, até ciganos só isso, putas de estrada, pastores bosquímanos, netos de canibais e quejanda gente silvestre,  povoléu ingrato por natureza, livre de decidir onde trabalhar, negociar contratos e até mudar de patrão, procurar quem melhor o trate e mais lhe pague, qual escarrando no equipamento, vero Sudário, Santo, que nós doutores ou apenas Senhores lhes vestíamos como se deles fosse ... E assim tornados rebanhos sem valores, sem valia, frutos de apetites mercenários e de outros mercadorias, desabridos desrespeitosos,

mas ainda assim nestes tempos, infaustos, continuámos a nossa obra, Obra mesmo, pois fiéis, certeiros e certos, e preservámos os símbolos e castos ideais, sabendo que esta era penosa decerto terminará no em breve que vingarmos, e para isso arroteámos e lavrámos, extirpámos o daninho do futuro, calafetámos os viveiros dos vindouros, entre os quais faremos vingar a bondade, no desapego por si-próprios, na dádiva à nossa fé, no amor ao nosso prazer, e, oleiros, aos benditos fornos dessas porcelanas baptizaremos segundo os Justos, os Exemplos, mas nunca pelos dos germinados nestes entretantos do até agora, esses apenas incapazes de suspenderem a sua vida dedicando-se à nossa sonhada glória, vagueando na incúria moral desses Figos e Futres, Cristianos Quaresmas, Dani Moutinhos, e tantos outros, infiéis desobedientes, tão ávidos no demandar o mundo que nos seus tempos viçosos nos abandonaram, indo calcorrear os ímpios rumos da glória e prazer alhures, 

e por tudo isto ao nomear estas nossas novas estufas do devir exaltaremos a Virtude, desta aspergindo os petizes nosso barro que nelas iremos moldar, convocando-os ao labor e à pertença, e assim serão sagrados os bons pastores, Mestres do rumo, Luzes nestas trevas que queremos findar, pois a cada campo será atribuído o nome de um dos bloguistas do És a Nossa Fé!, louvado seja o Sporting!

Crepúsculo da época

sporting-epoca-2019-2020.png

 

(Postal para o És a Nossa Fé)

1. Em termos futebolísticos a época 2019/2020 acabou por não correr assim tão mal. Tendo-se conseguido obter mais 6 pontos do que o surpreendente Famalicão (e 5 do que o já veterano Rio Ave), conseguiu-se um até inesperado quarto lugar. Este possibilita mesmo a hipótese de um apuramento para as competições europeias do próximo ano, o que, a concretizar-se, terá efeitos económicos positivos directos (subsídios, bilheteiras, publicidades) e indirectos (hipotéticas valorizações das licenças profissionais dos jogadores). E alegrará a massa adepta, bem como animará o plantel.

2. Em termos de preparação do próximo ano também me parece que as coisas acabaram por correr bem, qual serendipidade. Nos últimos cinco jogos deste tão estranho campeonato, com jogos sem público, o clube empatou dois - com o forte Moreirense e com o aflito mas tão simpático Vitória de Setúbal (meu segundo clube, que muito espero que se safe hoje da descida de divisão) -, e  perdeu os dois "clássicos". Esta inesperada constatação de que o treinador Ruben Amorim afinal não é divino é muito bem-vinda. Pois talvez permita acalmar as hostes sportinguistas, esfriando cabeças e amornando teclas. Assim impedindo que desbragadas expectativas envenenem a próxima época.

O Sporting foi o 4º classificado, com esforço, e para o ano será candidato às competições europeias. Partimos com vantagem para isso: o Rio Ave deixará de ser treinado pelo excelente Carlos Carvalhal, o Braga e o Vitória de Guimarães também mudarão de treinador. E as peculiares características do futebol do Famalicão, plataforma giratória ao serviço de uma empresa de comercialização de licenças desportivas, deixa presumir alguma irregularidade qualitativa na constituição dos seus plantéis futebolísticos. Ou seja, a priori, o Sporting parte com alguma vantagem sobre os mais directos concorrentes, pois mantém a sua equipa técnica. Se houver competência nos sempre necessários ajustes do plantel isso será ainda  mais real.

3. Por outras razões também saúdo esta classificação final. Mesmo que em última análise ela tenha resultado de uma derrota com o sempiterno rival Benfica, como soube nesta madrugada, algo sempre resmungável. É certo que me afiançam ter o clube sido muito esbulhado, pois, há atrasado, li que em Moreira dos Cónegos houve uma grande penalidade favorável que não foi marcada (outros observadores constataram até duas, li relatos de uma violentíssima agressão a Coates dentro da grande área mesmo no final do jogo, para além do infracção sofrida no início por Jovane). E leio também que ontem, no estádio da Luz, logo no início do jogo houve um canto mal assinalado, desfavorecendo o clube. Ainda assim, mesmo com essas inacreditáveis decisões que mostram a sórdida campanha avessa aos interesses do Sporting, decerto que instaurada pelo conluio entre Vieira, Pinto da Costa, Proença e Fernando Gomes, não deixo de saudar este nosso 4º lugar, atrás do Braga. Pois, como escrevi a 4 de Março, poucos dias antes de nos confinarmos: "não há pinga de ética (do tal "sportinguismo" de que tantos fala[va]m) quando a um terço do final do campeonato se vai contratar o técnico do clube rival, com o qual se ombreia na luta pelo terceiro lugar. Esta manobra de Varandas (da qual o arguto Salvador se rirá, de bolsa cheia e sabedor da estrutura que tem em casa, que decerto entende suficiente para alcançar os objectivos que delineou) é uma vergonha, e será uma mácula indelével no historial moral do Sporting Clube de Portugal. Aliás, este tipo de manobras deveria ser proibida pelos organismos que gerem o futebol, tal como o são as contratações a destempo de jogadores."

O Sporting é sempre prejudicado pela malvadez alheia ? Talvez. Mas colocar os túbaros de molho é capaz de ser mais útil. Para que se pense o 2020/2021. E para que nos deixemos - ou seja, que se deixe o clube - de artimanhas. 

O amor não é um labor

mordaz.png

Hoje publica-se o nº 4 da revista "Mordaz", dedicado ao tema "Trabalho". Aqui partilho o meu texto que lá vem incluído:

 

O Amor não é um Labor

São Martinho do Porto, verão frio como sempre, é sábado, eu no quarto, já não no tempo de Verne ou Salgari pois agora de “Vampiro”s, ouço o transístor vermelho minha companhia e, na tarde desportiva, Orlando Dias Agudo promete grande notícia para dali a uma hora, e logo caio no alvoroço, será o rumor verdade?..., e depois vem o júbilo!, sim, o Senhor João Rocha resgatava Rui Jordão, salvaguardando-o em Alvalade, e eu adoro-o, ao Rui Manuel Trindade Jordão, paixão ganha, traição minha, no 3-5 d’antes, no jogo em que Jázalde, Hector Casimiro Yazalde, dito Chirola, casado com Carmizé, marcou cabeceando junto à relva, mas ali Jordão, então feiticeiro do Benfica, enfeitiçara(-me), ainda que em magnífico ano de campeões, esses que sei de cor, Damas, Manaca, Alhinho, Bastos, Carlos Pereira, Vagner, Nelson, Baltazar, Marinho, o tal imenso Jázalde, Dinis, os quais bateram o Porto no 16 de Março, jogo transmitido em diferido ao fim da tarde, coisa tão rara, devido a não sei o que se passou nas Caldas, mas que não pude ver, maldição, pois a minha mana parira e obrigaram-me a visitá-la, como não vi ali o tal seguinte 3-5, esse de quando o estádio todo, sem clubismos, se levantou a saudar Marcelo, o “tio” deste, mas, logo depois, também ao Chirola e ao Jordão, e não os vi porque o meu pai nunca foi de bola, nem lá ia, nem os meus irmãos, queques da vela e do “rugby”, e sozinho me ganhei sportinguista na 1ª classe, ano de opções em ecrã preto-e-branco, no Barça 4-Valência 3 e assim até ao Futre, no Arsenal 3 (2 golos do Charlie George, cabelo à Beatles)-Leeds 2, lá nas taças deles e, na nossa, num 4-1 ao Benfica, com o King, como o conheci décadas depois, a marcar, e nós (sim, naquele exacto durante fiquei “nós”) com Damas na baliza. Vítor Damas, eu quero ser assim homem como ele, e ainda disso não desisti, no campo mas mais até cá fora, como se barbeia, com Palmolive, e aquela voz, cava, e com ele aprenderei, e não na tropa, a fazer o nó da gravata, naquele algo descaída,

e por tudo isso sigo Agostinho na França, meu pai dando-me dinheiro para comprar “A Bola” para lhe ler as aventuras, ele gigante batendo-se com Ocaña, Merckx, Thevenet, até trepando mais que Van Impe, Tourmalets acima, “Tinô!”, “Tinô!”, por lá o cantavam, ao nosso herói, poderia lá eu então perceber o quanto o era de facto, até, bem depois, se morrer numa coisa menor, e nós a esperá-lo, em esquife, na volta ao José de Alvalade, devastado como nunca vi, e seguindo para o túmulo em estrada recoberta pelo nosso povo, num silêncio pesado como nunca ouvi, ledes a minha ainda dor disto?,

por isso segunda-feira me baldei às aulas, subi ao aeroporto, junto ao Luís, azarado pois corcunda, nem corria nem nunca correria, merda de vida estará a ter se ainda a tem, a acolher os campeões Aniceto Simões, o barbudo, Carlos Cabral, Mamede e Lopes, o gigante, por quem Mariano Haro, o às espanhol, esperara quando ele caíra na lama, caval(h)eiro como já não havia, ao invés do bárbaro Lá-ce Viren, o maldito, o dopado que tanta dor causou até ao nosso Lopes daquela maratona olímpica, majestoso, correndo pujante, erecto, nada como os desengonçados que vieram a mandar, “vai Lopes!”, “vai, campeão!”, na angústia até às lágrimas mesmo, mas também venerando Mamede, intuindo-o Príamo d’agora, semi-divino nas suas dúvidas e fraquezas, assim vero herói, pois falho como todos, como eu, que nem sequer cheguei ao topo …,

esse topo de Livramento, o mago, eu miúdo no pavilhão, esfuziante com Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e … Livramento, e o triunfo contra os inimigos espanhóis, então únicos, e depois obrigado a crescer, e nesse fervor descer às casas de bilhar, tão saudosas, SG Filtro e bejecas adornando-me da linhagem do Theriaga, que é nosso, e nessa névoa amando Big Mal, o do maior exemplo, pois champanhe, mulheres, charutos, jogo e … vitórias, rock n’roll para os nossos ouvidos, e nisto a vida escorreu, lesta, eu desapercebido disso, e o milénio acabou, fez-me largo trintão e só lembro na tv lá em Maputo de um autocarro estrada afora noite adentro, na via do Salgueiros a Alvalade, e a minha mulher, até surpresa, “andaste dias com um sorriso parvo” …

e há pouco, já cá, em casa do mano Bill num jogo qualquer, Benfica, Europa, sei lá, e mesmo no fim o tal golo de sempre, a derrota, claro, e após o belo manjar que ali é sempre, indo para o carro, a minha filha já adolescente resmunga “é sempre a mesma coisa, perdemos no fim”, e respondo-lhe “não é importante”, e ela devolve-me “ mas é uma chatice”. Sorrio e insisto “não é importante” e avante … Não lho disse, digo-lhe agora, se ela me ler, que não é importante pois não tem causa, nem razão, nem ganhos. É (como o) amor. Mas sem divórcio. Um arquétipo. E não um labor.

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.