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Nenhures

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(Canal da Assembleia da República, Sessão de 15 de Junho de 2022)

Em 9 de Maio, dia da Europa, deixei aqui um postal sobre a extrema confluência relativamente à guerra ucraniana - na efectiva defesa da "Razão russa" - entre a "direita profunda" (dos fascistas aos soberanistas anti-europeístas) e a "esquerda comunista" (do PCP ao actual aglomerado dos velhos grupelhos). E ilustrei essa realidade recomendando uma colecção de proclamações russófilas do comentador televisivo General Cunha, explicitando ter ele então saudado "a libertação de Mariupol".
 
Esse era apenas mais um dos episódios (alguns dos quais aqui fui ecoando) do seguidismo ao discurso russo. O qual progressivamente se tornou apenas avulso entre o espectro BE, no qual se foi recuando no apoio à propaganda do Kremlin - desde a inicial defesa ao "espaço vital" da Rússia pela deputada Mortágua até à imediata proclamação da "encenação" de Bucha por um autarca lisboeta, foi sendo notória a progressiva atrapalhação daquela intelectualidade pequeno-burguesa e eurodependente. Mas seguidismo esse que, ao invés, se vem tornando cada vez mais crispado no PCP - o patético humor do ex-vice-presidente da Assembleia António Filipe, as posições oficiais do partido, a atrapalhação do seu líder, os inúmeros dislates de académicos comunistas nas redes sociais e na imprensa, são disso exemplos. Bem como a sanha dos meros militantes e simpatizantes contra os refugiados ucranianos.
 
Enfim, nesse 9 de Maio e a propósito desse meu postal, uma querida amiga - veterana simpatizante do PCP -deixou no meu mural de FB uma crítica viperina, acusando-me de "má fé". Por ter vindo de quem vinha o pontapé magoou-me. Ou melhor, irritou-me. Porque é mesmo factual o apoio (explícito e implícito) dos comunistas (no sentido plural do termo) portugueses ao imperialismo nacionalista (e de retórica teocrática) da plutocracia russa. Não há qualquer "má fé" nessa constatação. Como não tive "má fé" ao partilhar aqui os imediatos abaixo-assinados que congregaram as comunidades profissionais de antropólogos e de arquitectos/urbanistas russos contra a guerra. Ou ao partilhar o texto de um vasto e diferenciado conjunto intercontinental de intelectuais (entre os quais comunistas) crítico da invasão russa. Como não tive "má fé" ao ler as ameaças russas de intervenção militar a meia dúzia de países europeus, e agora a proposta de reversão da independência a (pelo menos) quatro países. Ou a propaganda da guerra nuclear na televisão estatal russa, com simulação em horário nobre da destruição das cidades europeias. Ou mesmo a proclamação televisiva de um fascista "Viva la muerte!", agora em russo, por uma publicista renomada do regime. E também não tenho "má fé" quando constato o silêncio total dos locutores desse nosso espectro comunista sobre essas aleivosias. Perigosíssimas aleivosias.
 
Enfim, para que não haja quaisquer dúvidas sobre esse seguidismo do PCP em relação ao discurso do poder russo, essa tal ditatorial plutocracia imperialista, veja-se este filme da sessão da Assembleia da República de ontem. Avance-se até aos 43 minutos, exactos: o deputado João Dias clama "Nunca estaremos ao lado de regimes nazi-fascistas", a isso reduzindo o regime ucraniano - decerto que no peculiar sentido da exigência da "complexidade" avessa ao "pensamento único" que alguns intelectuais comunistas vêm reclamando. Justiça seja feita ao deputado Dias, não aludiu à acusação de "drogados" que Putin proferiu sobre o poder ucraniano. Deve ser essa a única autonomia intelectual vigente na liderança comunista. A única "boa fé" que lhes resta. E aos seus apoiantes...
 
Uma adenda sobre "boa fé": se em vez de se avançar até aos 43 minutos deste filme alguém tenha curiosidade em esmiuçar o sentido de "boa fé" vá até aos... 42 minutos. Pois nesse minuto anterior o deputado Dias critica o partido a que se dirige devido ao estado muito problemático a que chegou o nosso SNS. Pode ser que os crentes na "boa fé" (e quem me vem imputar do inverso) se lembrem que nos últimos 27 anos o PS esteve no poder 21. Que o PSD/CDS estiveram 6, 4 dos quais espartilhados por um programa de recuperação económica. E que nos últimos 6 anos o PCP apoiou o governo PS, do qual constava a actual ministra da Saúde. Mas para Dias a responsabilidade do estado do SNS (os "constrangimentos", como dizem os jornalistas avençados pelo Partido Socialista) é da "direita".
 
Esses dois minutos de Dias no parlamento são esclarecedores do que é a "boa fé" comunista: esconder a realidade nacional. E seguir, quais rafeiros sarnentos, os ditâmes do capitalismo russo.
 
Não haja dúvida, face a este lixo e aos seus defensores eu tenho mesmo "má fé"! Ou, melhor, nenhuma "fé".

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O sempre muito elogiado, pelo seu gentil trato e cordialidade democrática, António Filipe - que durante 4 (!) legislaturas foi vice-presidente da nossa Assembleia da República - não "vai à bola" com as razões ucranianas. Quando, na sequência da "operação militar especial" russa, o presidente daquele país discursou no parlamento, logo o agora assessor parlamentar aventou que se convidasse o neonazi Mário Machado. E agora, por razões que o camarada saberá, volta ao sarcasmo sobre o líder do devastado país, botando na sua conta no Twitter (na qual se desdobra em dislates, até surpreendentes):

"Havia o penalty à Panenka. Agora há o auto-golo à Zelenski".

Entretanto, no mesmo dia, o secretário de Estado das minas e outras coisas importantes, João Galamba, irritou-se com um "anónimo da internet", um tal de Applehead, que criticava o governo por apoiar a Ucrânia. E gritou-lhe o que nem João Soares, nos seus tempos de logo demitido ministro, bufou a Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente:

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Nenhuma simpatia tenho pelo actual (e decerto que futuro) secretário de Estado das minas e outras coisas importantes, memórias da era em que ele e alguns outros gabirús (académicos, jornalistas e activistas) constituiam um núcleo fervoroso - e remunerado, em salário, espécie e expectativas entretanto cumpridas - do aldrabismo socratista. Mas interrompo agora essa antipatia, pois vejo-o afinal algo humano. Partilho até a irritação face a tais dizeres críticos - ainda há poucos dias estive para telefonar a um amigo, dedicando-lhe estas palavras de Galamba, e algumas outras de cariz fóbico, ao vê-lo partilhar este lixo de outro camarada, José Goulão, mais uma prova da abjecta russofilia dos comunistas, brejnevistas e esquerdistas, portugueses. Mas contive-me. Não por estar no governo, que não estou! Mas porque não vale a pena... 

Enfim, dito isto, tenho uma proposta para o nosso relevante governante: não perca tempo com anónimos da internet, que assim tudo isto parece um "auto-golo à Galamba"! Se quer proclamar o "desprezo por toda esquerda pro Putin..." juntando-lhe o vernáculo mais peludo, ó homem, quando for à Assembleia grite essa caralhada toda ao António Filipe. Terá mais "panache"... 

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A organização "Repórteres Sem Fronteiras" organiza um anual Relatório de Liberdade de Imprensa Mundial. Este ano coloca Portugal no 7º lugar em termos de liberdade de imprensa, num universo de 180 países. É muito bom (e sobre isto será de ler um texto de António Barreto, num contentamento sem triunfalismos).
 
Não quero deixar de referir o quanto esta avaliação sublinha a hipocrisia e a desonestidade intelectual (ou seja, pessoal) da amálgama de intelectuais (académicos, quadros, jornalistas, colunistas) comunistas ("brejnevistas" e "esquerdistas") que vêm reclamando serem "perseguidos" e "criminalizados" devido à sua adesão ao imperialismo russo. Pois, como isto comprova - se tal fosse necessário - publicam as suas "teses" onde e quando querem. E seguem desprovidos de pingo de vergonha que seja...

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(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Por aqui, uns vasculhando outros mais à superfície, partilham os operáticos, por hoje lamentando a morte "da" (comme il faut) Berganza, os etno-ouvintes, agora mais dados à kora do que à cítara e quase nada à flamencada, os nacionaleiros, "que não há como o fado/a marrabenta/...", a malta do jazz - mas não muito "free" -, dos standards ou das lendas - ainda que Dexter siga esquecido -, e menos do actual, aqueles do canto de intervenção, Fausto ou Violeta Parra, muito mais Karajan do que James Last, os memorialistas, - esses do slow "com que roçaguei a Maria(na)/o Manel" -, os do rock, progressivo, indie, southern, n'roll, até heavy, and &, e os da "chanson", française, ou da sempre MPB, mas sem o grande Roberto Carlos noto, um ou outro escasso do blues, e nem discuto se R&B, e, claro, os dos crooners, alguns do Patxi Andión e vizinhos andaluzes, e há até quem se lembre de Savall, e ainda restarão uns já anciãos, balbuciando "inesquecíveis" pérolas do festival de San Remo.
 
Dito todo este quotidiano não deixo de sorrir ao vê-los, empertigados em pantomina, discutindo o Festival da "Canção" na Eurovisão de ontem. Os "faxos" e os "comunas" irritados, os "intelectuais", ditos melómanos, lamentando da justeza dos resultados, dos "interesses" envolvidos, das qualidades dos intervenientes, da subalternização da "música" à "política" e isso. 
 
Enfim, não vejo um festival desses desde o "sobe, sobe, balão sobe" ou das rutilantes "Doce". Mas se os devastados ucranianos vibraram com a sua vitória, um décimo que seja do que os tontos lusos há anos com aquela tralha do rapaz que dá traques em palco... então ainda bem.

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Nos últimos anos, nesta era de redes digitais quase-rizomáticas (sê-lo-ão menos do que parecem mas também não há uma "Manápula Invisível" a controlar tudo isto), uma das vias discursivas mais histriónicas foi a de uma amálgama, a "direita profunda" europeia - alguma dela "extrema", no sentido fascizante, outra mesmo "profunda", no sentido hiper-conservador. À (minha) vista desarmada não se lhe consegue fazer um enquadramento sistémico, talvez só possível para quem lhe estude os discursos, práticas e organizações. Assim leigo e míope apenas os digo "antidemocráticos", mas também - o que não é equivalente - "anti-europeístas" radicais, "soberanistas" furibundos, mesmo que muitos com roupagens de liberalismo económico. E em tantos deles um exultante anti-intelectualismo (por exemplo as aspas nas "ciências sociais" é-lhes um penduricalho típico, de que não conseguem abdicar, um verdadeiro dildo moral).
 
Enfim, a gente viu-os frenéticos trumpianos - crentes até no esquerdismo do já velho Tea Party -, fervorosos brexiteers - ululando com as vagas imigrantes (de Leste, de Leste...) que devastam a nada pérfida Albion -, atentos à maldade universal dos islâmicos - excepto, lá mais pelas franças, à dos palestinianos que combatem os execráveis judeus -, bolsonarizados - apesar das nenhumas expectativas quanto àquele país pardo -, firmes contra a ditadura do Eixo Bruxelas-Estrasburgo, essa inumana elite burocrática. Activos nas trincheiras contra essa invenção do "marxismo cultural", as fake "alterações climáticas". E, mais recentemente, combatendo essa tão lucrativa falácia dos capitalistas (judeus?) farmacêuticos, as nazis vacinas contra o Covid-19.
 
E outras causas terão defendido nas quais - por indolência - não terei atentado. Sempre com frenesim (até robótico) discursivo. E sempre com fundamentos de cariz científico (hélas!) ou empírico, um "saber de experiência feito" inacessível a todos-nós, os outros. Pois seguimos alienados por uma imprensa ao serviço desses interesses plutocratas, contra os quais corajosa e loquazmente combatem.
 
Foi muito (mas não só) a propósito desta imensa tralha, sucessivas patacoadas, entre inventonas, trocas de nuvens por Junos, atrapalhados paleios com embrulhos em "cientifiquês", tudo em refogados anunciando adstringentes conspirações contra os "bons povos", que se veio falando das célebres "fake news". Ou seja, de um aldrabismo constante - já não a ultrapassada propaganda falsária manufacturada pelo pobre bloguista socratista ou pelo Palma Cavalão das actuais televisões, mas esta vertiginosa capacidade de em ápices perorar insanidades automatizadas, logo absorvidas por moles ávidas de iluminação.
 
Ora o que é mesmo "engraçado" é ver, quase todos os dias, como neste 2022 os velhos comunistas brejnevistas e os novos comunistas (aka, "alterglobalistas" de ascendência enverhoxista/trotskista ou coisa que o valha, mesclada com o legalize it e os 30 kms à hora), andam a partilhar por estas redes sociais estas tralhas todas, agora dedicadas àquilo da Rússia na Ucrânia. Usam exactamente as mesmas fontes, seguem os mesmos argumentos, vivem a mesma sanha contra a mesma "Manápula Invisível". Agora já não falam de "Fake News". Mas sim de "Fontes Alternativas" ou, mais profundo, "Pensamento Diferente". É uma verdadeira revolução coperniciana, promovida pela Rússia do sábio Putin...
 
Este vazio intelectual esquerdista não me surpreende. Mas o prazer com que o afixam? Isso já espanta. Enfim, para não me dizerem anti-russo, vou apanhar Sol e reler o "Pnin".

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