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Nenhures

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28
Nov23

Ucrânia

jpt

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1. Em primeira análise - e talvez a fundamental - esta fotografia nada tem de excêntrico. É normal que os eleitos se congreguem nos momentos de ritualização da república, neste caso as celebrações de 25 de Abril (de 2018?) organizadas pela Câmara Municipal de Loures. E também é normal e até desejável que esses eleitos, para além das diferenças ideológicas e partidárias, às vezes emitidas de formas tonitruantes, tenham entre si relações pessoais curiais, que lhes permitam convívios benfazejos. Num segundo registo analítico, mais centrado na fotografia, também é normal e salutar que eleitos de diferentes forças políticas celebrem a data fundacional do regime democrático nacional. Ou seja, o que a este caracteriza é a admissão das diferentes ideologias no espectro democrático (multipartidário), e que nenhuma delas possa legitimamente reclamar uma primazia patrimonial sobre a "democracia". E assim pode(re)mos criticar a democraticidade dos anseios de alguns mas, a priori, não os deve(re)mos retirar do âmbito democrático: sejam esses eleitos comunistas adeptos do modelo "brejnevista", eleitos "sociais-democratas" que, de facto, se revêm numa direita profunda soberanista. Ou quaisquer outros...

Ainda assim, apesar desses princípios, esta fotografia foi sendo (e vai sendo) gozada, num sarcástico "afinal?!". O que, num terceiro registo de análise, mais "hermenêutico" se se quiser, deixa perceber o quão encenado é o teatro político-partidário português e as retóricas da sua dramaturgia.

Mas há um outro ponto, num substrato mais enterrado. É o de numa mera fotografia se encontrar, com um laivo de sarcasmo intérprete, a demonstração de alguma até então inesperada... similitude, por mais paradoxal que possa parecer.

2. A invasão russa da Ucrânia (Fevereiro de 2022) convocou uma atenção geral e uma comoção muito abrangente. Neste blog também, como o mostram os arquivos dos meses subsequentes, onde está patente uma enxurrada de postais nossos sobre o assunto. Será de recordar que a "operação militar russa" foi pensada como uma blitzkrieg que fosse promotora de uma verdadeira anchluss, esta dita como legítima associação entre unidades histórico-culturais (que no passado eram também ditas raciais) conjuntas. Para tal seriam necessários apenas meia dúzia de dias, para isso contando com a adesão dos "ucranianos" ao movimento russófilo, sublevando-se até contra os seus dirigentes "nazis", "corruptos", também "drogados" e até contando com "judeus", os quais haviam chegado ao poder através de um "golpe de Estado" "antidemocrático". Estes eram os itens predominantes nos discursos explicativos de Vladimir Putin e dos seus  mais próximos - os quais, note-se, não têm sido dissecados pelos críticos da malevolência e obscurantismo da "propaganda" "americana" e/ou "ocidental".

Como é sabido, a afinal denodada resistência ucraniana (desde logo fazendo cair as aspas ao termo) e o forte apoio militar, mas também económico e diplomático, recebido do (sempre pérfido) "ocidente", impediu a rápida rendição do país. Assim se tornou aquela guerra uma desgraçada rotina, E - aqui entre nós - como é normal foi diminuindo a nossa verve (amadora e gratuita), decerto que também a nossa atenção (dispersável, como lhe é natureza). Vem então correndo aquela guerra situada num dos países, portanto fundamentalmente apenas nesse devastadora. E que opõe dois contendores com recursos bastante assimétricos, desde logo os demográficos...

Não sendo eu do ofício militar deixei-me presumir o rumo daquele conflito: "1) rendição imediata, salvaguardando vidas humanas e, secundariamente, bens materiais; 2) uma breve resistência, durante a qual se procura organizar uma hipotética futura guerrilha; 3) resistência extremada, até sacrificial, assente na fanatização nacionalista e na demonização do invasor (...); 4) mobilização geral dos recursos humanos com exaltação do patriotismo, possibilitando uma resistência algo prolongada, solicitando apoios externos, políticos-diplomáticos e mesmo militares. Tudo para procurar uma negociação final em termos o menos assimétricos possíveis, salvaguardando o que for possível para os desígnios nacionais." (7.3.2022).

Ou seja, pode ser que, com o passar do tempo, alguns mais incautos tenham pensado que os efeitos da disparatada retórica propagandística de Moscovo e os da desconchavada "operação militar especial" em curso fizessem ruir aquele poder. Mas era muito pouco provável - decerto que corroeram alguns dos alicerces mas talvez até tenham reforçado outros. E esses efeitos serão decerto notórios daqui a alguns anos, na configuração pós-Putin - ou seja, sobre o vigente poder russo será mais de esperar um "efeito afegão" do que um "terramoto I Guerra Mundial", passe a analogia de bolso.

Mas mais absurdo ainda seria pensar que a Ucrânia viria a "ganhar a guerra", sob o ponto de vista militar - e note-se que o grande apoio militar recebido foi sob condição de que o país se restringisse a uma guerra defensiva, sita apenas no seu território. Sim, terá havido a esperança (e talvez ainda a haja) de que a Ucrânia pudesse (possa) ganhar a guerra, trancando a Rússia numa guerra de trincheiras, que fosse (seja) para Moscovo insuportável de manter sob o ponto de vista político-económico e até moral, conduzindo assim a negociações menos desequilibradas. Mas com toda a certeza que não um "ganhar a guerra" com Zelensky a desfilar na Praça Vermelha encabeçando colunas de tanques Leopard, entre os quais os nossos poucos que funcionam. Mas é evidente que o discurso político e propagandístico, o mobilizador ucraniano e o solidário internacional, e por razões da sua produtividade, não se podia nem pode restringir a isso. Dizer a um povo mártir "aguentai mais uns mesitos", "morrei em barda por mais uns kms para negociarmos um bocadinho melhor"? Enfim, os analistas críticos do "obscurantismo" "ocidental" e da "demagogia" ucraniana neste âmbito surgem verdadeiros toleirões.

3. Entre nós, em Portugal e no tal "ocidente", desde o início da "situação" ucraniana que foram grassando as vozes apoiantes das reclamações russas. Em Portugal com algum sucesso: lembro que a então deputada em part-time Mariana Mortágua defendeu a posição de Putin reclamando a justeza da ideologia nazi, clamando pelo direito ao "espaço vital" da Rússia (1.3.2022). E, apesar da tal subscrição do ethos imperialista sob postura nazi, Mortágua não só não foi afastada da direcção do Bloco de Esquerda mas, pelo contrário, foi eleita sua líder. Dirigentes do Partido Comunista desdobraram-se em ditirambos contra a Ucrânia, tanto institucionalmente como em registo pessoal - no qual pontificou António Filipe, presente na fotografia que encima o postal. Chegando ao ponto de louvar em comunicado oficial a política estalinista relativa às "minorias" nacionais e/ou étnicas (1.3.2022), sem que nenhum dos vozeadores das causas identitaristas que tanto grassam na nossa imprensa e em alguns nichos do parlamento esboçasse a menor crítica. No mesmo eixo ideológico, um conjunto de atrevidas figuras públicas, reclamando-se como "intelectuais" e "artistas", opuseram-se ao apoio à Ucrânia (nisso chorando-se como "perseguidos e criminalizados") enquanto defendiam o primado da "Acta Final da Conferência de Helsínquia" (11.4.2022) - exactamente essa que consagra o direito dos países se associarem em organizações internacionais multilaterais, também de índole militar. Enquanto esses mesmos, e tantos outros do mesmo eixo de entendimento, radicavam a agressão russa na inadmissível ameaça sentida na Rússia pela expansão da NATO ao leste europeu... E nenhum deles foi retoricamente pontapeado por tamanho dislate.

Entretanto Europa afora vêm-se sedimentando ou reforçando movimentos políticos, ditos de "direita profunda" ou mesmo de "extrema-direita", alguns estabelecidos nos governos nacionais - como foi anunciada, de forma talvez exagerada, a nova governação italiana, se manteve a húngara, se renovou a polaca e agora a holandesa. Para além das crescentes oposições desse teor em alguns países - o anterior e apatetado Brexit, bem como as actuais flutuações partidárias na França e na Alemanha disso são exemplos. Movimentos que surgem assentes em perspectivas soberanistas, avessas ao incremento da interacção europeia, sob a velha retórica da "Europa das Nações". Mas que, talvez surpreendentemente, neste caso surgem avessos à soberania, apenas à ucraniana entenda-se, e veementes defensores do "multiculculturalismo" "federativo" russo. Talvez isto seja parodoxal mas talvez seja apenas uma mal esclarecida nebulosa ideologia. Ou devido a meras razões tácticas. E nem será necessário alongar-me sobre o peculiar espectro do ressurgir de Donald Trump, e da russofilia neo-imperialista do presidente Lula da Silva, como exemplos dessa deriva anti-ucraniana no extremo "ocidente".

Ou seja, se a Ucrânia enfrenta a exaustão após quase dois anos de desigual guerra, nós outros, cá longe, te(re)mos de enfrentar a vil retórica e a festiva felicidade dos seus oponentes "ocidentais". É a perspectiva do loquaz crescimento da coalizão real entre os decadentes movimentos comunistas e os ascendentes movimentos fascistas (no tal termo abrangente do "ur"-fascismo, que Eco celebrizou), neste embate militar buscando adubo para as suas ideologias. São estes aqueles que querem tornar sua justificação histórica a força dos sentimentos nacionais, a estes atribuindo virtude e essencialidade. Ou seja, indiscutibilidade.

Mas desde que, atente-se nisso pois é o fundamental, essa configuração soberanista, "nacionalista", sirva para agredir a democracia liberal, a esta fazer retroceder. Daí o carácter simbólico da fotografia acima, com aquele ramalhete de personagens pitorescas. Tão típicas desses anseios, apesar das suas diferenças.

4. Em 1990, ainda fumegantes os escombros do mundo comunista europeu, Ralf Dahrendorf escreveu - para "um cavalheiro em Varsóvia" - as suas "Reflexões Sobre a Revolução na Europa". Mais ou menos começa assim: "... a casa europeia que o senhor e eu queremos transformar no nosso lar comum termina onde começa a União Soviética, ou o que quer que venha a suceder-lhe. Esta é uma declaração importante, cuja justificação se impõe."

Talvez seja importante regressar ao velho texto de Dahrendorf - e aos avisos que ali deixou sobre a volúpia de se reforçarem "modelos" sociais na Europa. Mas também para com aquele velho e sábio conservador liberal melhor se perceber que este aborto, este ser siamês fascista-comunista - por mais ademanes historiográficos e meneios culturais que patenteie -, apenas quer a destruição da democracia. Europeia. Nisso a redução do seu âmbito. E da sua intensidade. Pois apenas sabe querer isso. E nesse rumo é produtivo, é porreiro, que a Ucrânia se foda. É só isso.

(Postal para o Delito de Opinião)

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