Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Nenhures

Nenhures

Uma década

niassa.jpg

(Lago Niassa, fotografia feita no Nkwichi Lodge, 6.4.2010)

Meus queridos amigos,

Até cruel, de cego que é, este sistema FB. A lembrar-me que há exactamente dez anos estava com a família em magníficas férias no Lago Niassa, numa maravilhosa reserva natural (hoje em perigo de descontinuação) lá quase perto de Cobué.

Uma década!, como imaginaria tamanha mudança, este outro Algures e deste modo, enclausurado? O rumo não foi o esperado, pois um tipo sempre crente, optimista, até sonhador, por mais que encene o pessimismo antropológico. Mas não me posso queixar, pois a princesa aqui ao lado, a salvo, acoitados em nicho de amizade e carinho. Com ar livre. Cães e ar livre ... E por enquanto sigo isento (ou assintomático) de maleitas, desta inédita ou das outras recorrentes, tão ou mais devastadoras.

Uma década! De perdas dolorosas. O meu pai. O amado presépio. Alguns amigos muito queridos, desses que são arquivo e mesmo bússolas. Um punhado de conhecidos, verdadeira paisagem reconfortante porque fértil. Até, um pouco, o Sul (ou o norte, como os cosmógrafos disseram). Nada de espantar, isto é o envelhecer, nada mais do que isso.

Uma década! Onde envelheço? Do Brasil amigo pede-me um texto sobre o covid no meu Algures. Tento-o e desisto. Pois, onde é o meu Algures, Omar? Há já dias que Bitches Brew toca, auto-repetindo-se. É um sítio, sim. E não é aquele Lago, de há uma década, isso é óbvio. Mas, e só nas últimas horas, falo com queridos durienses, transtejianos, um bruxellois, maputenses e no Cabo Delgado. Sobre os mesmos assuntos. Então, e neste cruzar, onde é o meu Algures?

Um companheiro atira-me "como estás, velho resmungão?". Sê-lo-ei, "resmungão"?, pois velho é certo que já vou. Ontem li uma amiga, com vínculos afectivos ao poder daqui - isto do "pêésse" que tanto conforto a tantos dá - invectivar um qualquer crítico. Através do antigo anúncio do Johnnie Walker, ao outro apoucando como daqueles que vêem "o copo sempre meio vazio". Ora eu bebo (nunca antes do meio-dia, friso). E, como todos os bebedores, sei que o problema não é se o copo está meio cheio ou meio vazio. Pois bebê-lo-emos da mesma maneira. A angústia real é se há outra garrafa. Estás-me a seguir, Tó-Zé? Teremos outra garrafa? Serei "resmungão" por causa desta angústia? Sede, se a quiseres chamar assim?

Onde é o meu Algures, Omar? Não é, decerto, onde os mais graduados se atrevem a escrever que a economia portuguesa vai melhor do que nunca. Li isso por tua culpa e desembainhei a cimitarra do Salgari, a catana "lá da terra". Mas está romba, cansada, deixei cair, em desânimo. Mas o que é isto?, quem é esta gente, por mais "querida" que (te) surja? O que é que aqui, neste meu Portugal, putativo e desejável Algures, se exporta? Metalomecânica, pequeníssimas empresas, industriais e super-industriosas, logo diz o meu amigo Zé, que é da área. E o nosso Carmona, tão louvado nas suas práticas, que escolhe ele para a pantomina do dia, para a "auto-estima nacional"? Vai propagandear a cultura de tomate, produzir folclore cotovelando campónia. Onde é o meu Algures? À mesa destes louvaminheiros? Não.

Onde é o meu Algures? Neste que me é putativo os bem-pensantes clamam por um Plano Marshall. Eu tenho 55 anos, o meu país está sob um Plano Marshall desde os meus 21. Como o sei? Porque quando ele começou baixaram as taxas sobre o uísque, e as tascas e cafés passaram a estar decoradas com prateleiras de Logan, Cutty, JB, Grants e etc. E parámos de beber bagaço e similares - efeito da secular guerra europeia entre as aguardentes frutícolas e as cerealíferas, como Braudel ensinou. Eu lembro-me disso, desse Marshall que ainda aqui está. Mas se eu (e outros) disser isso serei "resmungão"? Não, pior ainda, dirão que sou ressentido, (extremo)direitista, populista, fascista ou afascistado. Ou, pior do que tudo, liberal, qual agente de Pinochet.

Onde é o meu Algures, Omar? É o meu pai. Este fim-de-semana fui visitá-lo, ainda que vigore isto do "fica em casa". Entre outras coisas sobre tudo isto d'agora contei-lhe uma, sobre este meu putativo Algures. Uma simpática colega perguntou - nisto das redes sociais - se os seus amigos (de facto rede de antropólogos) "de esquerda" (mas, frisou entre parêntesis, também algum "de direita" que ela possa ter, nunca se sabe ...) estão a pagar às empregadas domésticas. Dúzias deles, repito, dúzias deles apareceram, ufanos, tão "esquerda" eles são, a confirmar que pagam às empregadas, e até que "algumas delas são como família". Eu ri-me ao contar o detalhe, o meu pai fez aquele seu gesto característico, semicerrando os olhos, baixando ligeiramente a cabeça enquanto a meneia e suspirou pelo nariz. Praguejei e escorropichei o copo, nada mais há a dizer sobre esta gente e suas mentes. E, porque o meu pai morreu há já tanto tempo que pouco fala comigo, apenas breves conselhos, vim-me embora.

É este o meu Algures, Omar? Afinal é isto o envelhecer, ficar confinado com esta gente? Uma "maldita gente má"? Nem isso são ... Vão apenas numa abissal inconsciência. Até viciosa. Horrível.

Aqui em Nenhures é quase meio-dia. Está quase na hora, daqui a bocado vou beber um copo. Aparecei.

1 comentário

comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.