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Nenhures

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22
Nov20

Vinte anos após o assassinato de Carlos Cardoso

jpt

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(Carlos Cardoso com o filho, fotografia de Ricardo Rangel)

Parece incrível, como o tempo se esfuma ... Hoje, 22.11.2020, passam vinte anos desde o assassinato do jornalista moçambicano Carlos Cardoso.  O qual foi um momento imensamente comovente e de significado crucial no processo nacional moçambicano. Há 13 anos, em 22.11.2007, deixei no ma-schamba um transcrição de excerto do elogio fúnebre que Mia Couto lhe fez, um texto de enorme grandeza e demonstrando então uma extraordinária coragem moral e física, em momento tão crispado e angustiante. (Esse discurso está publicado no seu livro "Pensatempos"). Palavras que se mantêm actuais. 

Há já oito anos surpreendi-me com a "naturalização" do seu assassinato. Foi quando descobri que neste Facebook havia milhares de "amigos" e de "seguidores" - entre os quais imensas das minhas ligações-FB e até conhecidos e amigos meus - de um dos seus consabidos vis assassinos, então numa prisão de Maputo, na qual tinha a liberdade de, através das redes sociais, perorar comentários políticos sobre o país e alardear a sua inocência, assim tornado um verdadeiro "influencer" (como então ainda não se dizia). Irei-me. E botei este postal, a minha memória de Cardoso.

Hoje releio-lhe o livro de poemas "Directo ao Assunto" de 1985 (Maputo, Cadernos Tempo). E recupero-lhe o o poema "Ruth First", escrito em Agosto de 1982, após o assassinato em Maputo da investigadora e política, que 20 antes do de Cardoso também tanto comoveu o país. Pois julgo-o bem significativo. Talvez utópico ... Mas decerto que aplicável a esta data: "Isto dos mortos não falarem / não sei. / É que de certos mortos / costumam nascer embondeiros / de raiva / no capim da hesitação".

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Esta releitura da sua poesia não me implica avaliar Cardoso como poeta, que para isso não tenho saberes. Mas o que retiro do livro - para além da memória de um homem que tão significante foi na sociedade moçambicana, pelo que viveu e dada a forma como morreu - é que neste pequeno livro, cujo prefácio de autor consiste na depois celebrizada frase "No ofício da verdade é proibido pôr algemas nas palavras", se encontra uma pequena história da I República do país. Desde os iniciais poemas (em inglês e bilingues, também) ainda de 1973, feitos em JHB, demonstrando revolta e anseios pela situação colonial de toda a região, até curtos poemas ainda dos anos 70s bem críticos do devir nacional, em registo de verdadeiros alertas - e isso anos antes do desassombrado e depois mítico "Tanjarinas de Inhambane" de Craveirinha. Em 2005 deixei no blog ma-schamba uma brevíssima selecção desses poemas, que mesmo tão pequena julguei demonstrar a irrequietude de Cardoso. Reproduzo-a aqui: 

Hoje / aromas chamanculos / politizam os fogões / da polana ("Primeiro aniversário", 1977)

Eh!, todos aí / vamos deslobolar este país ("Discurso Novo da Mulher", 1978)

Cumprem regulosamente / a espia sobre as nossas aspirações / e chamam analfabetos / aos nossos gostos e opiniões. / São redondamente regulosos / os régulos / do carimbo (1978)

Os semi-utópicos que trazemos no peito / aqui no lado esquerdo do trump-trump da vida / e dos vulcões. / Este arsenal de guerra parado / à espera / nos discursos da nossa vontade / apenas semidita / Mas olha / não dura muito o lobolo do compromisso / nas verdades intuídas pela paixão. / Eh! escravos do slogan, / respeito. / Há sangue nosso na estrada (1977)

Carlos Cardoso era um radical (e não uso a palavra de modo pejorativo). Foi-o enquanto jovem anticolonialista. Foi-o enquanto revolucionário, um nacionalista que poderei chamar "samorista" (de novo, um termo que não me implica qualquer desvalorização). E seguiu - e foi assim que o conheci e li - um soberanista (idem), no sentido de reclamar contra quaisquer relações de dependência do seu país face a terceiros. O seu radicalismo talvez fosse mais uma posição profissional, pública, e como pessoa fosse diferente - recordo que entre os vários textos que se sucederam ao seu assassinato, aquele que preferi foi um dorido e carinhoso texto intimista de um seu amigo próximo, o académico António Prista (que talvez tenha sido publicado no "Savana" mas não o posso afiançar), que nos mostrava um outro Cardoso, peculiar e dulcíssimo.

Nessa dimensão pública, de jornalista empenhado, Cardoso era também muito pouco atreito à retórica política "lusófona" ou a articulações privilegiadas com a antiga potência colonial. Li-o e ouvi-o nesse sentido. Por vezes concordando, outras discordando, considerando exageradas as visões que tinham subjacentes a ideia de um programa neocolonial português. Não era essa uma visão peculiar dele (nem a critico) entre os seus concidadãos, era até comum, mas recordo-lha. Não julgo que fosse dependente do facto de ele ser um lusodescendente. Mas também não julgo que fosse disso independente. Era uma posição política, um patriotismo revolucionário, soberanista, e crítico tanto da sociedade colonial como do olhar colonial, que algo veio a perdurar.

Mas hoje, ao relê-lo, encontro um poema que não retivera. E julgo-o tão significante ... E penso, sem arrogância, que vários dos seus companheiros de geração o poderiam reler. Por isso, para o caso de alguns deles por aqui passarem, transcrevo-o. Para que eles (e todos os outros) possam ver como pensava e sentia um jornalista revolucionário radical. E não essencialista. Passaram sobre o poema 40 anos. E julgo que ainda lhes fará bem ...

Chama-se "Editorial", é de Dezembro de 1981 (!). É dedicado a Ramalho Eanes, então presidente da República Portuguesa, que visitara Moçambique:

"Vieste sem caravelas nem cruzes / sem chibalos nem obuzes / e sem passares pelo Adamastor. / Vieste sem Gama mal-humorado / nem belzebus de espada em punho / que a morte morreu em Junho / e Moçambique aos tiros resgatado / limpou das tuas velas o sangue a dor."

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