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Nenhures

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18
Ago21

Viver em Hotéis

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Aos fins-de-semana no Delito de Opinião o Pedro Correia tem vindo a colocar uma série de curtas e despretenciosas entrevistas, as quais há já mais de uma década publicara no Diário de Notícias, realizadas a personalidades algo relevantes entre finais de XX e o início de XXI, tantas delas entretanto falecidas. São já 44 republicadas, uma verdadeira colecção que se torna uma aprazível visita àqueles recentes tempos, até porque as perguntas são sempre as mesmas o que sublinha o "ar de época" que delas exsuda. Uma dessas perguntas é se o entrevistado "gostaria de viver num hotel?". Lembrei-me disso agora ao reler "O Prazer da Leitura" de Proust, esse manifesto pela imaginação leitora tão avesso ao "respeito fetichista pelos livros", esse que considera típico do literato qual amanuense. E livro a que regressei, por necessidade, pois é também um receituário da leitura como remédio contra a acédia. Mas, e para o que a este postal importa, disse assim Proust, o que muito me apraz pois - e sem me armar em proustiano - neste trecho sobre hotéis tanto me reconheço:

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"só me sinto feliz ao pôr os pés (...) num desse hotéis de província com compridos corredores frios onde o vento lá de fora luta com êxito contra os esforços do calorífero, onde o mapa detalhado da região é ainda o único ornamento das paredes, onde cada um dos ruídos serve apenas para fazer surgir o silêncio ao deslocá-lo, onde os quartos guardam um odor a fechado que o ar livre vem lavar, mas não apaga, e que as narinas aspiram centenas de vezes a fim de o fazer à imaginação, que com ele se deleita, que o faz posar como um modelo para tentar recriá-lo dentro dela com tudo quanto ele contém de pensamentos e recordação; onde à noite, quando se abre a porta do quarto, se tem a sensação de violar toda a vida que nele permaneceu espalhada, de lhe pegar corajosamente na mão quando, fechada a porta, se entra ainda mais dentro dele, até junto da mesa ou até à janela; de se estar sentado numa espécie de livre promiscuidade com ela no canapé executado pelo estofador da capital do distrito ao que este julgava ser o gosto de Paris; de tocar toda a nudez dessa vida no intuito de nos perturbarmos a nós próprios com a própria familiaridade, pondo aqui e acolá as nossas coisas, fazendo de conta que se é proprietário daquele quarto a transbordar da alma dos outros e que guarda até na forma dos ferros da lareira e nos desenhos dos resposteiros a marca dos sonhos deles, ao andarmos descalços em cima do tapete desconhecido; então, essa vida secreta, temos a sensação de fechá-la connosco quando vamos, a tremer, correr o fecho da porta; de empurrá-la à nossa frente para a cama e de nos deitarmos finalmente com ela nos grandes lençóis brancos que nos tapam a cara, enquanto, ali ao pé, a igreja faz soar pela cidade inteira as horas de insónia dos moribundos e dos apaixonados.

Uso a edição de "O Prazer da Leitura" da Teorema/FNAC de 2003, algo descuidada. A citação é das páginas 19-20. Para quem leia francês o texto original está aqui, com acesso livre. 

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